Carlos Correia: portfolio English version
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Carta aberta,
redigida por Carlos, o escriba,
endereçada ao dramaturgo Manuel,
com cópia facsimilada para mestre Pires e
mensagem electrónica dirigida ao multimediático professor doutor Correia
As ratoeiras das ideias feitas, amplificadas por milhares de bocas, pregam
partidas assim: quanto maior é capacidade do fingidor mais depressa se descobre
que "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente".
De tão
citado este verso já transpira bolores de bolo velho.
Será da promessa dos fungos - germinados no bolor do pastel - que advém esta
atracção pela poesia de Pessoa?
Fleming, o primeiro que falou da santa penicilina que responda, se souber.
Se digo que escrevo, procuro a memória dos livros e ela surge difusa,
desfocada, como se o escritor recusasse comparecer à imperiosa chamada da
consciência para falar da obra.
Maldito seja!
De há algum tempo a esta parte o senhor escritor pediu licença sabática e desde
então não escreve nadica de nada.
O desgraçado pirou-se sem um adeuzinho, sem um bye-bye, ou sequer um "au revoir".
Enfim, despedidas à francesa...
Soube, por um dos postais sabáticos que o escritor teve a decência de enviar, que terá avistado o senhor Manuel dramaturgo num bando "faz-tudo", companhia de saltimbancos, que já só se toleram lá no fundo mais fundo dos umbigos deste mundo.
Se digo que ensino, procuro a memória do senhor professor e também ela surge desfocada, como se recusasse comparecer à chamada.
Hipócrita!
Quantas notas negativas, quantos chumbos não tiveste tu a coragem de aplicar
durante quase quarenta anos de carreira? E agora escondes-te sob a capa
elitista de professor universitário para evitares referências às tuas
diatribes? Imaginas que o manto diáfano da fantasia da beca poderá cobrir
a nudez crua desses teus saberes indigestos?
Está decidido! Vou retaliar e não escrevo nada sobre Pires, o (in)docente!
Será uma vez mais a lucidez do fingidor a persistir na rima com a palavra dor?
E mais digo em homenagem absoluta ao Manifesto de Mestre Almada:
morra o Manuel, morra! Pim!!!!
morra o Pires, morra! Pam!!!!
morra o Correia, morra! Pum!!!!
Pois já que assim é, exijo ao Carlos que redija esta crónica, se possível num estilo burocrata cinzentão, a fim de se testemunhar quanto é cansativo coabitar com esta gentinha a desordenar um sótão tão sem cabelo mas com uma bigodaça explícita, exibida em jeito de compensação remissiva...