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Entrevista com o Prof. Jairo Brasil: Porque digo não à reciclagem
 
  
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Jairo Brasil é Licenciado e Pós-Graduado em Estudos Sociais pela UPIS de Brasília, Mestre em Educação pela UNISINOS e professor do Curso Técnico de Segurança do Trabalho da Escola Profissional Unipacs de Esteio
 

 

 

1. O Senhor continua “dizendo não à reciclagem”? Por quê?

 
Na minha opinião a Reciclagem é tão somente um paliativo em relação ao consumo exacerbado dos recursos naturais. Há que se ter em mente que a sociedade baseada no sistema capitalista, por nós criada pelo advento da Revolução Industrial, é responsável por todo um contexto cujas premissas fundamentais são o consumo e o desperdício. O incentivo para o consumo pode ser observado a todo momento, em todos os lugares. A mídia televisiva é uma grande incentivadora do consumo. Cenas de novela possuem inúmeras formas de propaganda subliminar que passa muitas vezes despercebida por nós. É o detergente, o sabonete, o perfume, o telefone móvel, etc. Tudo na mão da mídia torna-se material de consumo, vira moda. Aí, lá uma vez que outra surge uma inserção que ressalta a importância da redução, da reutilização ou da reciclagem. Mas em termos quantitativos isso representa uma milésima parte. 

 

2. Quais as sugestões que o Senhor pode apresentar para que os três “erres” sejam mais bem aplicados e convivam em uma “perfeita harmonia”?

 
Eu creio que o papel principal, como elemento de transformação da sociedade, está na Escola. É ali, neste ambiente propício para rediscutir comportamentos e posturas, que se pode esperar alguma mudança. Algumas pessoas me perguntam: “Mas professor, e a família? Será que ela também não é parte importante desse processo?” Eu respondo que: “Ainda não!” E explico o por quê de minha negação! A maioria das famílias não cultiva o consumo responsável como filosofia. Observemos alguns comportamentos no dia-a-dia. Circulando de automóvel pelo trânsito vê-se motoristas que fumam e jogam as baganas de cigarro pela janela sem qualquer pudor, como se o mundo fosse seu cesto do lixo particular. E não são pessoas simples e desinformadas. É gente de classe média, com algum conhecimento de valores. Mas que valores são esses? Conclui-se que, falta muito para que esse comportamento venha de casa. Então, quem sabe transformando esses alunos agora, tenhamos no futuro famílias mais sensíveis à questão ambiental.

 

3. Parece-nos que a devida aplicação dos 3 R`s é uma questão cultural que depende quase exclusivamente de um processo educacional. O Senhor concorda com esse posicionamento?

 

Eu partilho do pensamento de que a atual sociedade passa por um processo de degradação muito profundo, onde o egoísmo e o individualismo predominam. A História tem mostrado que há ciclos na humanidade. Eles se alternam em alguns períodos de liberdade e outros de repressão. E nesses períodos notam-se momentos de extrema permissividade naqueles e de radicalismo em demasia nestes. Vejam os Estados Unidos, por exemplo. Passado o período democrático permissivo de Bill Clinton, onde até “estagiária” esteve envolvida com a aura presidencial, o povo americano escolheu e reelegeu o “conservador” George Bush. Depois do radicalismo reativo ao onze de setembro, que detonou campanhas militares mundo afora e consumiu grande parte da riqueza yanke, o estadunidense volta-se à democracia moderada com Barak Obama. Desta mesma forma observo a situação atual. Estamos nos encaminhando para um momento delicado de nossa sociedade, quando o “caos” poderá inaugurar uma nova forma de convivência. E tenho a impressão de que esta nova forma deverá contemplar um uso mais racional dos recursos naturais.

 
4. O Senhor acha que os adultos ainda poderão vir a modificar os seus hábitos em prol da preservação ambiental ou que é melhor investir recursos apenas na educação dos consumidores mais jovens?
 
Acredito que esta pergunta já respondi anteriormente. Mas, reafirmo a minha crença de que a alternativa mais promissora está na educação básica. Sou bastante pessimista com relação aos adultos. A grande maioria possui maus costumes impregnados e resistem a mudanças. As mentes jovens são mais promissoras neste aspecto. Os maus exemplos proporcionados pelos adultos é que me fazem pensar assim. Observem as filas de banco para atendimento preferencial. Alguns “idosos” se postam nestas filas simplesmente porque possuem mais idade, e não por causa de problemas de saúde. Isso tem criado um certo desconforto para uma maioria que necessita do serviço bancário. Como poderemos modificar posturas e comportamentos de pessoas que somente observam seus direitos?

 

 

5. Em sua opinião, de um modo geral o brasileiro está dentro da média mundial no que se relaciona ao respeito ao meio ambiente?

 
Eu não coaduno com o pensamento de uma cultura superior européia ou coisa que o valha. Creio que o que falta de postura de respeito ao meio ambiente em nosso país, falta também, e talvez em maior grau de responsabilidade, aos cidadãos de países desenvolvidos. Quer um exemplo? Por quê empresas de celulose européias e americanas incentivam o plantio de eucaliptos em nossas terras? Porque não querem esses processos degradantes e agressivos ao meio ambiente em suas paragens. No processo de fabricação do papel, a transformação da madeira em celulose é o que mais agride o meio ambiente. É por isso que muitos produtores rurais médios e pequenos estão deixando de lado os antigos cultivos em prol do eucalipto. Então surge a pergunta: “Respeitamos menos o meio ambiente do que em outros países?” Eu creio que não! Afinal, com toda a trajetória histórica que possuem os outros povos, não podemos supor que não saibam a incumbência que estão nos impingindo.   

 

 

6. Os Especialistas dizem que reciclar é 15 vezes mais caro do que jogar o lixo em aterros. O Senhor acredita que esse pode ser um argumento para que se invista mais na criação de novos aterros?

 
A partir desse pensamento é que se pode retomar a incredulidade em adultos. Ora, isso só quer reafirmar a continuidade do consumo em prol da roda da economia. A classe empresarial possui sérias restrições quando se fala em Reduzir ou Reutilizar. É por isso, que campanhas deste naipe não ocorrem ou sequer são difundidas. Tolera-se ainda a Reciclagem, pois ela não interferirá de forma tão acentuada na economia. LAYARGUES (2002) em seu “O Cinismo da Reciclagem” ao analisar o discurso ambientalista governamental brasileiro destaca a existência de duas matrizes discursivas. Uma ecológica oficial e que representa a ideologia hegemônica e encarregada de manter os valores culturais instituídos na sociedade. Outra ecológica alternativa, corporificada pelo movimento social organizado, representante da ideologia contra-hegemônica e encarregada de disseminar valores subversivos à ordem social e econômica instituída. Portanto, cabe saber de que lado se posicionar.

 

7. Todos concordam que a reciclagem traz grandes benefícios sociais para as camadas mais pobres da população. Pensando sob esse ponto de vista, o Senhor crê que esse seja um forte motivo para que se incentive ainda mais a reciclagem?

 
A reciclagem tem sido exaustivamente proclamada como a “solução da lavoura” e “panacéia” para todos os males da pobreza. Eu poderia ainda dizer que é mais a solução para a miséria. Longe de me perfilar a um partido político, sou bastante otimista com os programas do atual governo federal. Para mim, a solução para as camadas mais pobres da população é a intervenção estatal na distribuição da riqueza nacional. E isso, muitas vezes só ocorre quando se tributa as classes média e rica em favor das mais desfavorecidas. Dificilmente classes movidas pela lucratividade se sensibilizarão pela distribuição equânime das riquezas. Sobre esta questão da reciclagem como benefício social, gostaria de deixar aqui um pouco de curiosidade para os leitores. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto, que leia o artigo publicado pelo professor Phillipe Layargues: “O Cinismo da Reciclagem: o significado ideológico da reciclagem da lata de alumínio e suas implicações para a educação ambiental”. É fácil de encontrar em literaturas e até mesmo na Internet.
 
 
 
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