Para mim, o parto sempre foi importante, sempre quis que fosse um ritual onde as pessoas mais ativas fossem eu e meu bebê e não os médicos. Por isso fugi dos GO's do meu convênio na hora do meu parto. A Casa de Parto de Sapopemba tem uma equipe responsável e experiente em partos naturais. Quando minha bolsa rompeu mantive uma tranquilidade além do que imaginava ter. Liguei para a Casa de Parto e a Flora me disse que tomasse um banho, colocasse um dos absorventes geriátricos e fosse até lá bem calma. Assim fiz e propus ao Irineu que antes de decidirmos pelo táxi, deveríamos tentar pegar o ônibus que tinha utilizado para retornar das consultas na Casa de Parto (eu só retornava de lá com este ônibus até então, porque ele tem intervalos de uma hora e eu poderia me atrasar para as consultas na ida, se tentasse). Não é que em menos de 10 minutos o bendito do ônibus apareceu e 40 minutos depois , por volta das 21h estávamos na Casa de Parto! Minha barriga estava bem alta. Estive me preocupando com isso durante aquela semana ( a 40a. da gestação). Sentia cólicas leves e tinha 3 dedos de dilatação. O cardiotoco acusou contrações que eu não sentia. A parteira do plantão, Priscila, pareceu assustar-se com o tamanho atribuído ao bebê no último ultrassom (4,500 k) e com o fato de ele ainda estar alto. De cara falou na possibilidade de me mandar para o hospital. Senti ali que precisaria de muita serenidade no processo. Fomos para o quarto de parto por volta das 21h30. Serviram-me o jantar, arroz com frango, mas eu comi bem pouco. Enquanto comia, já recebi a ocitocina na veia e comecei a sentir muitas contrações. Quando pedi ao Irineu – que estava de saída para fazer uma refeição no mercado próximo à Casa de Parto - conversasse com o Caetano pedindo para ele descer que eu não queria ir para o hospital ele veio com a frase: 'vamos fazer o que for melhor'. Percebi que só a entrega não me levaria ao sonho de parir, precisava ser ativa para convencer a parteira + meu marido de que eu e Caetano conseguiríamos. Irineu voltou me trazendo um chocolate que eu recusei. Já estava no chuveiro, onde passei metade do trabalho de parto, o que equivale a mais ou menos 4 horas. Pedi para entrar na banheira, mas Priscila explicou que por conta da altura do bebê na barriga, seria melhor me manter na vertical, de pé o maior tempo possível. Então, no chuveiro, me alternava entre ficar de pé e relaxar debruçada na bola de parto. Priscila apenas aparecia de hora em hora para verificar os batimentos do coração de Caetano. Naquela noite parecia que ela fazia isso de dez em dez minutos porque eu achava aquilo muito desconfortável...rs O tempo todo ouvia da equipe que me assistia: "você está muito bem, muito tranquila" mas ainda assim percebi que elas não estavam tão confiantes em mim. Então, sinto que me equilibrei entre a entrega e a pró-atividade de convencer que tudo ia dar certo. Por volta de 1h, senti uma grande vontade de fazer força, mas esta tentativa de expulsivo não vingou. Empacou mesmo. As contrações aumentaram muito. Não saberia dizer a constância das contrações em momento nenhum do TP, pois com a ocitocina elas parecem um cavalo indomável...affe! A dilatação sim tinha evoluído para 6,5. Duas da manhã, começo a me inquietar entre chuveiro e quarto. Tento a banqueta de parto, mas tudo parece piorar. Irineu disse que pensava em sugerir que eu dormisse, mas ao imaginar a resposta, desistia. Isso porque em algum momento do TP ele me perguntou como usava o flash da câmera e eu respondi com a finesse peculiar de uma mulher na partolândia...hahaha Começo a ficar incosciente, inventar novas posições a cada minuto. Levei uma cadeira para debaixo do chuveiro e me sentei ali, mas por pouquíssimo tempo. Foi por volta de 2h30 que a vontade de fazer força voltou, mas desta vez muito mais intensa. Agora o expulsivo começava. Caetano desceu, mas bem pouco. Comecei a apresentar um cansaço físico descomunal, o que só atrapalhava o processo. Fui para a barra e a parteira indicou fazer movimentos dos quadris como num bambolê e que quando a contração viesse abaixasse sem fazer força em todas as contrações para não atrapalhar a respiração de Caetano. Fiz isso por uns quinze minutos e depois, bem inconsciente pedi para deitar. As contrações agora são fortes demais, são 3h30. Peço para voltar para a barra, mas desisto em um minuto. Volto para a cama. Eu já não me comunico com os presentes, apenas faço pedidos ou dou ordens monossilábicas...hahah...Êta Partolândia arretada! Priscila sai da sala pedindo para que eu deitasse de lado e não abrisse as pernas. Pensei: 'É louca esta menina!', mas fiz o que ela pediu, mesmo achando o pedido mais ridículo que eu podia imaginar para aquele momento. Ela volta, pede para eu deitar de barriga para cima e aplica o que mais tarde eu saberia que se chama 'manobra de kristeller', se posiciona à minha frente, avisa que fará uma pequena episiotomia e diz: só mais duas forcinhas, vai! Na verdade foram 3 forcinhas até que Caetano estivesse ao alcance dela. Ela avisou que ele não choraria e eu confiei, me emocionei. Caetano nasceu 5h15 do dia 22 de setembro de 2007, completamente desacordado. Exatamente no dia em que completava 41 semanas de gestação. Ficou sobre a minha barriga enquanto o cordão pulsava e as parteiras diziam: “respira por ele, respira por ele”. Lindo! Eu acariciava minha cria e sabia que eu tinha nascido outra vez, outra pessoa, outra! Após cortarem o cordão, levaram Caetano para a reanimação, mas eu podia vê-lo de onde estava. De repente, um choro imensamente forte e em mim o impulso de levantar e dar colo para meu filho. Neste momento senti que meu corpo começava tudo de novo, assustei e perguntei para a Priscila: o que é isso? Começou de novo? E ela: 'é a placenta, tem que parir a placenta' hahah...tinha esquecido desta parte! Mas foi rápido desta vez e enquanto a Priscila dava os pontinhos necessários(?), alguém grita “4270k” e eu “affe, agora entendi a dificuldade!” e a Priscila diz : “eu que quero dar o banho” e em seguida: “não precisa aspirar não, viu? Estávamos exaustos, eu e Caetano, mas felizes, muito felizes! A bossa na cabecinha deixa a dúvida, consta que ele nasceu com 56 cm, mas costumamos divulgar 53cm. Caetano teve apgar 8-10. Afora as intervenções desnecessárias (ocitocina, episio, kristeller) que ao meu ver serviram para deixar mais segura a parteira e evitar que ela me colocasse na ambulância que já estava preparada, me esperando para seguir rumo ao hospital, tudo deu certo. Eu pari. Caetano nasceu lindo entre momentos de pró-atividade e entrega total. Mamou na primeira hora e sem dificuldades fazendo de nós uma dupla mamífera apaixonada! Agradeço a possibilidade de conhecer um grupo de mulheres (MATERNA SP) que questiona o 'business' do nascimento e faz do parir uma escolha consciente partejando e amamentando possibilidades. Ao Irineu, que apesar de não confiar que eu poderia vivenciar um parto desses, esteve ao meu lado, do seu jeito, neste momento especial que foi o nascimento do nosso filho. Minha família, que apoiou minha decisão, mesmo que estivessem preocupados por demais com o que aconteceria. Amigas e amigos que dividiram comigo a expectativa deste momento. Elly Chagas |







