Burgos A cidade de Burgos nasceu no ano 854 às margens do rio Arlanzón, como um pequeno povoado que cresceu ao lado de um antigo castelo. A vila desenvolveu-se sob a iniciativa do conde Diego Rodríguez Porcelos para defender a região da invasão moura, e já no ano 920, adquire o título de cidade. Um século depois, em 1035, Fernando I, rei de Castela, a torna capital de seu reino. Burgos foi historicamente a cidade mais importante do Caminho, e chegou a contar com trinta Hospitais de peregrinos. Entre eles destacava-se o Hospital del Rey, o considerado o melhor Hospital da Espanha, situado ao lado do mosteiro de las Huelgas e de um antigo cemitério para peregrinos. A catedral, uma das mais antigas construções góticas da Espanha (sua construção iniciou-se em 1221) abriga o sepulcro do herói nacional don Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido como El Cid, e sua esposa, doña Jimena. El Cid peregrinou a Compostela no ano 1064. Esta igreja é considerada pela UNESCO como "Patrimônio Cultural da Humanidade". Um monge clunicense francês, chamado Lesmes (ou Adelmo) fez a peregrinação a Compostela no século XI. No trajeto de volta, passando por Burgos, a rainha Constanza de Bragança, esposa do rei Alfonso VI de Castela, convenceu-o a permanecer na cidade para estabelecer ali a nova liturgia romana. São Lesmes foi a partir de então um grande protetor dos peregrinos, construindo mosteiros e Hospitais para acolher os caminhantes. Morreu em 1097, está sepultado na igreja de São Lesmes, em Burgos, e é o patrono da cidade. Em 1968, seu sepulcro foi aberto durante as obras de restauração da Igreja, e descobriram-se os restos do santo, intactos após quase novecentos anos.
Castrojeriz foi fundada na época visigótica, nas encostas de uma colina isolada no meio da imensa planície, em cujo cimo ainda se vêem os restos do antigo castelo. O nome da cidade deriva de Castrum Sigerici, isto é, castelo de Sigerico, nobre que ali viveu no ano 760, época em que a região começou a ser repovoada pelos cristãos. Diz a lenda que no século XI, o filho de um senhor importante foi acometido por uma grave doença, conhecida na época como "fogo de Santo Antônio" ou "fogo sagrado". Esta era uma moléstia que se espalhou pela Europa no século X, e manifestava-se com gangrena progressiva, bastante dolorosa, sendo muitas vezes incurável. Tendo invocado o auxílio de Santo Antônio, a doença logo desapareceu e seu filho curou-se rapidamente. A partir de então a ordem dos Monges de Santo Antônio, fundada no ano 1093, difundiu-se pela Europa e tornou-se muito conhecida. A ordem fundou em 1146 seu mosteiro espanhol nas proximidades de Castrojeriz, onde não só ajudavam os peregrinos, como curavam os enfermos portadores de "fogo de Santo Antônio". Um antigo peregrino francês nos deixou um relato informando que estes monges amputavam os braços e as pernas dos seus pacientes, e os penduravam nas portas do Hospital. Com a ampliação das dependências do mosteiro no século XIV, a estrutura de colunas e arcos que se apoiava em suas paredes, foi construída passando por cima da antiga estrada dos peregrinos. Entretanto o trajeto da estrada não foi alterado, e até hoje passa sob os gigantescos arcos em ruínas do que foi um dia o átrio ocidental da igreja já destruída. Desde que Carlos III, rei da Espanha, aboliu esta ordem em fins do século XVIII, o mosteiro foi abandonado. Hoje em dia nada mais resta que suas ruínas fantasmagóricas. O peregrino que cruza seus silentes arcos de pedra ao fim da tarde, sente um calafrio inexplicável. Apenas o assustador latir dos cães quebra o pesado silêncio. Pois se há algum lugar no Caminho em que o misticismo emana de cada arbusto e de cada pedra, este local é sem dúvida San Antón.
O curioso nome desta cidade, que era chamada Camata pelos latinos, deriva San Facundo ou Sant Facund ou San Fagún, mártir cristão dos antigos tempos do Império Romano. Conta-se que aqui o imperador Carlos Magno combateu os muçulmanos comandados pelo rei Aigolando. Diz a lenda que os guerreiros francos, vitoriosos, fincaram as lanças dos soldados cristãos mortos ao lado de seus corpos caídos, "para glória do Senhor". No dia seguinte, neste local, às margens do rio Cea, as hastes de suas lanças haviam se tornado verdes e florescido. O Monasterio de los Santos Facundo y Primitivo foi fundado no ano 872 pelos monges de Cluny, por incentivo do rei Alfonso III Magno, de Castela. Este mosteiro sempre foi um dos mais importantes do Caminho e chegou a ser a principal abadia beneditina na Espanha. Aí está sepultado o rei Alfonso VI de Castela, um dos grandes protetores dos peregrinos. Com jurisdição religiosa sobre toda a região, seu poder gerou também animosidades. O mosteiro acabou em ruínas e a cidade lentamente perdeu sua antiga grandeza. Sua entrada principal, entretanto, não foi demolida, nem mesmo quando construiu-se a moderna estrada asfaltada. As ruínas da antiga abadia ainda imponentes sobre a entrada da cidade, formando um enorme arco de pedra sobre a estrada, são consideradas "Monumento Nacional da Espanha".
Há mais de dois mil anos, em 79 a.C., aqui, na confluência dos rios Bernesga e Torio, situava-se o acampamento militar dos legionários romanos pertencentes à Legio VIIa Gemina Pia Felix. Ao redor do acampamento a o centro urbano foi crescendo ao longo dos séculos, e de legionis, nasceu seu nome León. A região tornou-se subitamente despovoada com as invasões muçulmanas. Porém, com a Reconquista, o rei Ordoño I, repovoou a região, e no ano 914, o rei Ordoño II elevou a cidade a capital do reino de León. Apesar da rivalidade com o reino vizinho de Castela, pois "León teve vinte e quatro reis, antes que Castela tivesse leis", os dois reinos se uniram definitivamente em 1230. Sobre os restos de um templo romano dedicado ao deus Mercúrio, ergueu-se a antiga igreja de Santo Antônio, que depois converteu-se no Panteón Real, Esta construção está unida à milenar abadia conhecida como Real Basílica de San Isidoro. Neste local estão sepultados trinta e cinco reis, rainhas e infantes, e pará lá foram levados também, há mil anos, os restos de São Isidoro, trazidos de Sevilha em 1063, por iniciativa do rei Fernando I. Em 1161 foi fundada em León a Ordem dos Cavaleiros de Santiago de la Espada. O mosteiro de São Marcos, cuja construção iniciou-se em 1513, foi sede da Ordem, cujos cavaleiros tinham a missão de cuidar do Caminho de Santiago e defender os viajantes. Em sua fachada, sobre a porta principal, há uma imponente escultura de Santiago Matamoros. Posteriormente o mosteiro transformou-se em um Hospital de peregrinos, e hoje é um luxuoso hotel cinco estrelas. Hospital de Órbigoa 269 km de Santiago A ponte de Órbigo, construída no século XIII, na entrada da vila denominada Hospital de Órbigo tornou-se famosa pelo episódio tradicionalmente conhecido como "Passo Honroso". Em 1434, ano santo compostelano, o legendário cavaleiro leonês Don Suero de Quiñones peregrinou a Compostela com mais nove heróicos companheiros. Com a autorização do rei Don Juan II, de Castela, os dez cavaleiros postaram-se sobre a ponte para desafiar aqueles que por ela desejassem passar. Don Suero, apaixonado por uma dama e querendo mostrar seu valor e a força de seu amor, colocou um colar de ferro ao redor de seu pescoço, e afirmou ao rei antes de partir: "É justo e razoável que prisioneiros e pessoas privadas de seu livre poder desejem a liberdade. E, como sou seu vassalo e estou na prisão de uma senhora há longo tempo, em sinal da qual trago em meu pescoço este ferro, estabeleci como meu resgate trezentas lanças rompidas por mim e por estes cavaleiros." A partir do dia 10 de Julho daquele ano, cada um deles enfrentou uma justa (combate a cavalo) por dia. Combateram às vezes contra cavaleiros peregrinos que aceitaram seu desafio, porém mais freqüentemente contra valorosos cavaleiros espanhóis, portugueses, franceses, alemães e italianos, que vieram de longe especialmente para tentar vencê-los. Lutaram durante trinta dias e derrotaram trezentos cavaleiros, obrigando a cada um deles a reconhecer a superioridade de sua amada. Cumprindo a façanha, libertou-se enfim dos grilhões de ferro, e cavalgaram todos a Compostela. Chegando a Santiago, ofereceram ao apóstolo um cinturão de ouro, que lá se encontra até hoje. O episódio tornou-se tão famoso que é citado com admiração até por Don Quixote, na obra de Miguel de Cervantes. Astorgaa 254 km de Santiago A antiga povoação pré-romana foi denominada Asturica pelos latinos, e cognominada Augusta pelo primeiro imperador romano, Augusto, no século I. Centro de comunicações da região norte da península Ibérica, de Asturica Augusta partiam nove estradas romanas. Nesta época a cidade era cercada por uma grande muralha, parte da qual ainda é hoje visível. Desde os primórdios do Cristianismo, aproximadamente no século III, Astorga tornou-se sede episcopal. Atualmente o fantástico palácio episcopal, construído há cem anos pelo arquiteto catalão Gaudí, foi transformado em Museo de los Caminos e é um monumento que vale a pena ser visto. A catedral, em estilo gótico, foi construída no século XV ao lado da catedral mais antiga, do século XI, que estava quase desabando. Em seu interior vale a pena observar a imagem de São Tiago vestido como peregrino. Em seu exterior chamam a atenção as cegonhas desafiando os fortes ventos em seus ninhos construídos sobre as pontiagudas torres góticas da catedral. Em Astorga unia-se ao tradicional Caminho Francês, a antiga rota de peregrinação conhecida como Via de la Plata. Na época áurea das peregrinações, a cidade chegou a contar com vinte e dois Hospitais para acolher os peregrinos. A proximidade de três monumentos gigantescos, a muralha, a catedral e o palácio, lado a lado, em estilos arquitetônicos tão diversos, representando três épocas tão diferentes da história do Caminho, faz cair sobre o peregrino, de uma só vez, dois mil anos de História. Foncebadóna 228 km de Santiago Cinco quilômetros antes de Foncebadón o peregrino passa por Rabanal del Camino, antigamente denominada Raphanellus. Esta cidade tornou-se famosa por Ter sido o local do casamento da filha de um rei mouro com o cavaleiro andante Anseis de Cartago, da corte de Carlos Magno. O fato foi imortalizado ao ser contado e cantado no poema épico medieval "Crônica de Anseis". Do antigo povoado de Foncebadón, que já foi importante e famoso durante a Idade Média, nada mais resta que uma cidade-fantasma, montes de ruínas abandonadas, e o antigo cruzeiro de ferro. Aqui começa a região conhecida como El Bierzo, transição entre as províncias de León e Galícia.. Desde o século VI, em El Bierzo floresceu o maior foco de eremitismo e monasticismo da Espanha, sob a inspiração de São Fructuoso, natural desta região. Em fins do século XI, um monge eremita chamado Guacelmo fundou aqui uma igreja, um hospital e um refúgio para os peregrinos que atravessavam esta deserta e inóspita região. Em reconhecimento por sua dedicação e seu esforço, o rei Alfonso VI, de Castela e León, concedeu ao monge o "senhorio" do lugar. No alto do monte Irago, a dois quilômetros de Foncebadón, sobressai no fundo azul do céu o alto cruzeiro de ferro plantado por Guacelmo para orientar os peregrinos que se perdiam nas montanhas durante as nevadas. A cruz de ferro, já oxidada, ergue-se sobre um poste de madeira com cinco metros de altura. Cada peregrino que se dirige a Santiago, e cada caminhante galego que por ali passa, atira uma pedra ao pé da cruz. Ao longo dos séculos, os milhões de pedras ali aremessadas formaram uma colina artificial com alguns metros de altura, que continua crescendo até hoje. Ponferradaa 202 km de Santiago Pouco antes de Ponferrada, o peregrino passa por El Acebo, uma das poucas aldeias que ainda não se tornou fantasma nesta abandonada região. Esta pequena aldeia foi privilegiada durante muito tempo por ajudar os caminhantes. Pois seus habitantes eram isentos do pagamento de impostos desde que mantivessem cravadas durante o inverno quinhentas estacas ao longo do Caminho, para assinalar ao andarilho o trajeto através das montanhas cobertas de neve. Há sinais arqueológicos de que a região de Ponferrada era habitada desde a época pré-romana. O local havia sido um centro de mineração de ferro. Porém os primitivos aldeamentos haviam sido abandonados há muito tempo quando em 1185, Fernando II, rei de León, repovoou a vila e a entregou à Ordem dos Templários. Naquele tempo o local era ocupado apenas por uma secular floresta de carvalhos Nesta mesma época, em fins do século XII, o bispo Osmundo, de Astorga, construiu sobre o rio Sil a pons ferrata ou puente ferrada, isto é, a "ponte de ferro", que deu nome à cidade e substituiu a antiga ponte de madeira. Na região de Ponferrada as cruzes que indicam a rota do peregrino são todas de ferro. Os cavaleiros Templários e sua ordem militar foram banidos em 1312, porém a gigantesca fortaleza por eles construída permanece inalterada até hoje. É um monumento imponente e impressionante, que domina a parte alta da cidade. Suas muralhas com ameias, suas torres, a ponte levadiça, tudo recorda ao peregrino as antigas histórias dos cavaleiros andantes da Idade Média. Na verdade o castelo é própria imagem viva do modelo que imaginamos como corte do rei Arthur com sua távola redonda. Em 1498 os reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, fundaram o famoso Hospital de la Reina para acolher os peregrinos que chegavam a esta cidade. O Cebreiroa 152 km de Santiago O Cebreiro, no alto das montanhas que separam as províncias de León e Galícia, foi um dos primeiros refúgios a acolher os peregrinos que se dirigiam a Compostela. Seu templo é do século IX, e pode ser considerado "moderno", se comparado às palhoças de pedra e sapé, que são muito anteriores à Era Cristã. Este local é povoado desde 1500 a.C. No ano 1072, o rei Alfonso VI, de León e Castela, entregou seu Hospital do Cebreiro aos cuidados dos monges da abadia de Saint Geraud d’Aurillac. O local esteve sob o controle dos beneditinos por oito séculos, até que estes o abandonaram em 1854. A história do Santo Milagre do Cebreiro é uma das mais famosas do Caminho. No início do século XIV, um modesto camponês da aldeia de Baixamaior subiu as montanhas para assistir a missa no Cebreiro. A missa foi celebrada por um monge de pouca fé, que, apesar de ter sido um dia de fortes ventos e chuvas, despreza o sacrifício do camponês. O sacerdote, ao vê-lo chegar, murmurou "Que burrice! Fazer esta caminhada com este clima, só por causa de um pouco de pão e de vinho." Porém, sob o olhar admirado de todos os presentes, no momento da consagração, a hóstia transforma-se em carne, e o vinho em sangue. Não em sentido simbólico, mas de maneira real e concreta. Os peregrinos que assistiram o milagre com presteza incumbiram-se de divulgá-lo. O fato, séculos mais tarde, inspirou um dos trechos da ópera Parsifal de Wagner. O cálice em que ocorreu o milagre é uma peça de arte românica do século XII, e encontra-se exposto na igreja do Cebreiro até hoje. Ao seu lado o peregrino pode ver o relicário que foi doado pelos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, quando fizeram sua peregrinação a Compostela em 1488. Todo dia 9 de Setembro, por ocasião da festa do Santo Milagre, milhares de fiéis de toda a região reúnem-se no Cebreiro para as festividades religiosas. Triacastelaa 130 km de Santiago Seu nome, de origem latina, significa "três castelos". A cidade cresceu ao redor de um mosteiro fortificado, dedicado a São Pedro e São Paulo, construído no século IX, nas encostas do monte Seiro, pelo conde Gatón, de El Bierzo. Triacastela ainda conserva intacto o antigo cárcere de peregrinos em cujas paredes podem ser vistas inscrições e desenhos de galos feitos pelos prisioneiros de origem francesa. Durante a Idade Média os peregrinos que passavam por Triacastela levavam uma grande pedra calcária, mineral abundante nesta região, porém raro no resto da Galícia. Esta pedra era carregada até Castañeda, a cerca de quarenta quilômetros de Santiago, onde estavam situados os fornos de cal que forneciam material para a construção da Catedral de Compostela. Eram os chamados peregrinos petríferos. Pouco além de Triacastela encontra-se a milenar Basílica de Samos, uma das mais famosas do Caminho. Foi fundada no século VI, quando a região era dominada pelos suevos, e seus monges seguiam as regras de São Fructuoso. No século IX aqui passou sua infância e adolescência o rei de Astúrias, Alfonso II, o Casto, e na época o mosteiro acolheu os monges fugidos da Andaluzia invadida pelos árabes. No ano 934 a importância da abadia foi renovada sob os monges beneditinos trazidos pelo rei Ordoño II, de León. Logo tornou-se um dos maiores centros culturais da Europa medieval, e estendia seu poder a centenas de vilas e aldeias. O mosteiro incendiou-se em 1558, e novamente em 1951, e em ambas as ocasiões perderam-se manuscritos e documentos antigos de valor inestimável. Após passar por Samos, chegando a Sarria, ali morreu o rei Alfonso IX, de León, quando ia fazendo sua peregrinação a Compostela em 1230. Portomarína 89 km de Santiago Nos tempos do Império Romano o local era denominado Pons Minei (Ponte do Minho) ou Portus Minei (Porto do Minho). Nas crônicas dos séculos IX e X, já assume o nome de Locum Portomarini. A antiga ponte que cruzava o rio Minho foi destruída por Doña Urraca, de León e Castela, em suas lutas contra o ex-marido Alfonso I, o Batalhador, rei de Aragão e Navarra. Pouco tempo depois, em 1120, a ponte foi reconstruída por Pedro, o Peregrino, sobre o qual nada se sabe. Os principais marcos históricos de Portomarín são a igreja de San Pedro, consagrada em 1182, e a igreja de San Juan, também do século XII, construída no velho estilo românico conhecido como igreja-fortaleza. Nos arredores da cidade está o mosteiro de Vilar de Donas, onde eram sepultados os Cavaleiros de Santiago. Na margem esquerda do rio erguia-se o antigo mosteiro de Santa Cruz de Loyo, dos cavaleiros templários, de cujos vinhedos se obtém o tradicional aguardente de Portomarín. No domingo de Páscoa era celebrado o "dia do aguardente", ocasião em que a bebida era destilada na praça central, até o anoitecer. Em 1962 a cidade histórica foi inundada pelas águas represadas do rio Minho. Porém, antes que isto acontecesse, as igrejas de San Juan e de San Pedro, os palácios do Conde de la Maza (do século XVI) e dos Pimenteles (do século XVII), e a capela da Virgen de las Nieves, foram demolidos cuidadosamente, suas pedras numeradas uma a uma, e a seguir reconstruídos, em um trabalho de paciência infinita, pedra por pedra, onde hoje está situada a cidade nova, em um ponto mais alto da margem do rio. Quando as águas baixam ainda se vêem as casas da antiga cidade, os tocos das antigas vinhas e os restos da velha ponte secular. Saindo de Portomarín, o peregrino chegará a Palas de Rei ou Palas del Rey, denominada Pallatium Regis pelos romanos, isto é, "palácio do Rei". Provavelmente seu nome é referência ao rei visigodo Witiza (701 - 709), que ali viveu há 1300 anos. Santiago de Compostela
A chegada à catedral de Santiago se dá pela Avenida de los Concheiros, onde antigamente os concheiros, ou seja, os artesãos que fabricavam conchas de prata ou de latão, vendiam suas mercadorias aos peregrinos. O trajeto continua até a Puerta del Camino ou Porta Francigena, que tem este nome por causa dos peregrinos franceses, e chega ao Crucero de Bonaval, local em que um peregrino medieval, que iria ser enforcado por seus delitos, invocou Nossa Senhora suplicando que sua morte fosse rápida e sem sofrimentos. Imediatamente o peregrino caiu morto, escapando assim do enforcamento. Chega-se finalmente à Puerta Santa, no fundo da Catedral, datada de 1611, e que só é aberta no Ano Santo. Esta é uma das sete portas menores da catedral, e era chamada antigamente de Puerta de San Paio, depois Puerta de los Perdones, e atualmente Puerta Santa. É a única que mantém sua originária função. Abre-se no dia 31 de Dezembro que antecede, e permanece aberta até o dia 31 de Dezembro que encerra o Ano Santo. Embora não seja necessário passar por ela para se obter a indulgência, este é um antigo costume que se mantém até hoje. No altar maior da catedral o peregrino encontra, lado a lado, três imagens de São Tiago que ilustram as três facetas do culto ao apóstolo: Tiago, o Mestre, Tiago, o Peregrino e Tiago, o Cavaleiro. Caso a Puerta Santa esteja fechada, entra-se pela frente, pelo Pórtico de la Gloria, verdadeira obra-prima da arte românica, esculpida pelo Maestro Matteo (1168 - 1188). Segundo uma tradição cujas origens perdem-se no tempo, o peregrino que chega a Santiago deve colocar a mão direita no pilar central do Pórtico da Glória para agradecer o sucesso da longa viagem. Este pilar representa esculpida a árvore genealógica de Cristo e é o símbolo da origem humana de Jesus. Sobre seu capitel há uma imagem de São Tiago e, em sua base, uma face esculpida, que acredita-se ser um "auto-retrato" do próprio Maestro Matteo. Tradicionalmente o peregrino deve aí encostar sua cabeça, para assim iluminar seus pensamentos. Neste pilar, no local em que milhões de mãos peregrinas tocaram a coluna expressando sua fé, ao longo dos séculos formou-se a impressão de uma mão, em que se encaixam perfeitamente os dedos do peregrino. Estes infinitos andarilhos que com seus pés esculpiram o Caminho e com seu suor esculpiram a História de todo o norte da Espanha, com seus dedos e com a força de seu espírito até hoje continuam escavando a forma de uma mão na rocha deste pilar. A Tradução da CompostellaO peregrino que chega a Santiago, ao completar sua caminhada, recebe seu certificado na Oficina de Peregrinos da Catedral. Este "diploma", conhecido como Compostella, é escrito tradicionalmente em latim. Por este motivo muitos peregrinos guardam com carinho seu certificado, e apesar disto, ficam sem saber o que nele está escrito. É esta sua tradução:
E no selo do documento está escrito:
409 - Os suevos e vândalos invadiram a península Ibérica. Os suevos fundaram o reino da Galícia e os vândalos o da Vandaluzia, atual Andaluzia. Extraído do site: www.geocities.com/Athens/Cyprus/3024/historia.htm |
