Dicas para declamar bem!
1. DICÇÃO: clareza nas letras, sílabas e palavras.
2. MÍMICA: são gestos, movimentando partes do corpo, a fim de mostrar ou expressar idéias.
3. POSTURA: posição do corpo, atitude ou imponência - impor com a presença.
4. FIDELIDADE AO TEXTO: ser fiel ao texto escrito pelo autor (o verdadeiro).
5. TEMA: Concurso - deve ser de acordo com a categoria, com aquele momento. Sem concurso - pode ser do gosto do (a) declamador (a).
6. TERMOS DESCONHECIDOS: deve-se sempre saber o significado dos termos das poesias, para usar a mímica e para transmitir o sentimento.
7. ENTONAÇÃO DE VOZ: definir bem vírgulas, pontos finais, reticências, pontos de interrogação, pontos de exclamação, dois pontos. Para assim transmitir melhor a poesia. A poesia , na verdade é o diálogo do dia-a-dia.
8. USO DA INDUMENTÁRIA: fazer uso das pilchas corretas.
9. INTERPRETAÇÃO: é explicar o sentido da determinada coisa. Buscar e manifestar o interior do que foi escrito pelo autor.
10. ESTILO: expressar pensamento. Fazer brotar e extravasar seu íntimo, deixando transparecer os sentimentos: ódio, amor, tristeza, alegria, carinho, rancor, saudade, fraternidade, entre outros.
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Mulher Gaúcha |
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(Antonio Augusto Fagundes)
Os velhos clarins de guerra desempoeirando as gargantas quero-querearam no pago. E o patrão coronelado, reuniu em torno parentes, posteiros, peões e agregados. Chegara um próprio do povo trazendo urgente recado que se ia pelear de novo e o coronel, satisfeito, dizia, fazendo graça: "vamos ver, moçada guapa, quem honra a estirpe farrapa e atropela numa carga por um trago de cachaça...Os velhos clarins de guerra desempoeirando as gargantas
Um filho saiu tenente, o mais velho - capitão, um tio ficou de major. (o pobre que passa o pior, a oficial não chega, não: o capataz foi sargento, um sota ficou de cabo e a peonada, e os posteiros, ficaram soldados rasos pra pelear de pé no chão...)
Carneou-se um munício farto - vindo de estâncias vizinhas - houve rações de farinha, queijo, salame e bolacha, se santinguando em cachaça a sede dos borrachões.
E a não ser saudade e mágoa nada ficou pra trás a garganta dos peçuelos misturava pesadelos sanguessugando, voraz, cartuchos e caramelos, o talabarte e o pala, bolacha e pente de bala, fumo e chumbo - guerra e paz... No humilde rancho de um posto, um moço encilhou cavalo beijou a prenda e se foi. Na madrugada campeira luzia a estrela boieira sinuelando o arrebol e as barras de um dia novo glorificavam o horizonte lavando a noite defronte com tintas de sangue e sol.
E durante largo tempo ficou a moça na porta olhando a estrada, a chorar, sem saber porque o marido tem que partir e lutar, não entendia de guerra! Pobre só votam em quem mandam e desconhece outra coisa que não seja trabalhar.
Então a moça franzina tomou uma decisão! Esqueceu delicadezas, ternuras de quase -noiva e atou os cabelos negros debaixo de um chapelão e se atirou no trabalho, cuidando da casa e campo, do gado e da plantação.
Emagreceu e tostou-se e enrijeceu como o aço! Temperando-se na luta madurou-se como a fruta que é torcida no baraço.
Montou e recorreu campo, botou vaca, tirou leite e arrastou água da sanga. Fez do tempo a sua canga no lento girar do dia e quando as vezes parava comovida, acariciava o ventre, que pouco a pouco se arredondava e crescia.
Só a noite, quando cansada fechava o rancho e dormia seu homem lhe aparecia: ora voltava da guerra, ora peleava - e morria!... Que triste o rancho vazio nas longas noites de frio ou nas tardes de garoa! Que medo de ir a estância! (e ao mesmo tempo, que ânsia de saber notícia boa!) Vizinha perdera o filho. pra outra, fora o marido. E um dos que tinham, morrido, um moço, que era tropeiro, quando feito prisioneiro tinha sido degolado sem nenhuma compaixão. E até um filho do patrão se ensartara numa lança em meio a uma contradança de berro, tiro e facão.
E o fulano? Que fulano? Aquele, que era posteiro! Moço guapo! No entrevero é como um raio a cavalo.
Trezontonte levou um pealo mas é sujeito de potra: já está pronto pra outra, sempre disposto e faceiro.
E a moça voltava ao rancho, tão moça ainda, e tão só! E quando fitava a estrada, só via o vazio do nada, o nada o silêncio e o pó.
Não sabe quem vem primeiro, se vem o pai, ou o filho. E os seus olhos, novo brilho roubaram de dois luzeiros.
Cada noite, cada aurora, vai encontrá-la a pensar: quando o marido voltar, de novo estará bonita - novo vestido de chita e novo brilho no olhar. E quando o filho chegar, quantas cargas de carinho carretearão os seus dedos! Quantos e quantos segredos sussurrarão, bem baixinho! E para ele, os passarinho cantarão nos arvoredos...
Qual deles chega primeiro?
E se um deles não chegar...?
Mas a guerra segue além, o filho ainda não vem e ela a esperar e a esperar!...
Bendita mulher gaúcha que sabe amar e querer! Esposa e mãe, noiva e amante que espera o guasca distante e acaba por compreender que a vida é um poço de mágoa onde cada pingo d'água só faz sofrer e sofrer.
Canto aos Avós
(Apparicio Silva Rillo)
Os avós eram de carne e osso. Tomavam mate, comiam carne com farinha, campereavam. Sopravam a chama dos lampiões, dormiam cedo.
Os avós tinham braços e pernas e cabeça (olhai os seus retratos nas molduras). Laçavam de todo o laço, amanuseavam potros, fumavam grossos palheiros de bom fumo e amavam seus cavalos que rompiam ventos e bandeavam arroios como um barco ágil.
Usavam lenços sob a barba espessa e o barbicacho lhes prendia ao queixo sombreiros negros para a chuva e sóis. Palas de seda para as soalheiras, ponchos de lá quando a invernia vinha.
Tinham impérios de flechilha e trevo e famílias de bois no seu império. E eram marcas de fogo os seus brasões.
Charlavam de potreadas e mulheres, de episódios de adaga contra adaga, do tempo, das doenças, das mercâncias de gado gordo para os saladeiros.
Tinham homens a seu mando, os avós. No quartel rude dos galpões campeiros - enseivados de mate e carne gorda - os empíricos soldados madrugavam na luz das labaredas de espinilho que era sempre o primeiro sol de cada dia.
Honravam os avós a cor dos lenços: - a seda branca dos republicanos, o colorado dos federalistas. E morriam por eles, se preciso, - coronéis de milícias bombachudas acordando tambores nos varzedos no bate casco das cavalarias.
Nas largas camas de cambraias alvas vestindo o corpo da mulher mocita, juntavam carnes no silêncio escuro pautado por suspiros que morriam no contraponto musical dos grilos...
Os avós eram de carne e osso. Tinham braços e pernas e cabeça, artérias, nervos, coração e alma.
Humanos como nós, os velhos tauras, mas de bronze e de ferro nos parecem esses campeiros que fizeram história. Estátuas vivas de perenidade nos pedestais do tempo e da memória.
Chimarrão
(Glaucus Saraiva)
Amargo doce que eu sorvo Num beijo em lábios de prata. Tens o perfume da mata Molhada pelo sereno. E a cuia, seio moreno, Que passa de mão em mão Traduz, no meu chimarrão, Em sua simplicidade, A velha hospitalidade Da gente do meu rincão.
Trazes à minha lembrança, Neste teu sabor selvagem, A mística beberagem, Do feiticeiro charrua, E o perfil da lança nua, Encravada na coxilha, Apontando firme a trilha, Por onde rolou a história, Empoeirada de glórias, De tradição farroupilha.
Em teus últimos arrancos, Ao ronco do teu findar, Ouço um potro a corcovear, Na imensidão deste pampa, E em minha mente se estampa, Reboando nos confins , A voz febril dos clarins, Repinicando: "Avançar"! E então eu fico a pensar, Apertando o lábio, assim, Que o amargo está no fim, E a seiva forte que eu sinto, É o sangue de trinta e cinco, Que volta verde pra mim.
Amargo
(Jayme Caetano Braun)
Velha infusão gauchesca De topete levantado O porongo requeimado Que te serve de vazilha Tem o feitio da coxilha Por onde o guasca domina, E esse gosto de resina Que não é amargo nem doce É o beijo que desgarrou-se Dos lábios de alguma china!
A velha bomba prateada Que atrás do cerro desponta Como uma lança de ponta Encravada no repecho Assim jogada ao desleixo Até parece que espera O retorno de algum cuera Esparramado do bando Que decerto anda peleando Nalgum rincão de tapera!
Velho mate-chimarrão As vezes quando te chupo Eu sinto que me engarupo Bem sobre a anca da história, E repassando a memória Vejo tropilhas de um pêlo Selvagens em atropelo Entreverados na orgia Dos passes de bruxaria Quando o feiticeiro inculto Rezava o primeiro culto Da pampeana liturgia!
Nessa lagoa parada Cheia de paus e de espuma Vão cruzando uma, por uma, Antepassadas visões Fandangos e marcações Entreveros e bochinchos Clarinadas e relinchos Por descampados e grotas, E quando tu te alvorotas No teu ronco anunciador Escuto ao longe o rumor De uma cordeona floreando E o vento norte assobiando Nos flecos do tirador!
Sangue verde do meu pago Quando o teu gosto me invade Eu sinto necessidade De ver céu e campo aberto É algum mistério por certo Que arrebentando maneias Te faz corcovear nas veias Como se o sangue encarnado Verde tivesse voltado Do curador das peleias!
Gaudéria essência charrua Do Rio Grande primitivo Chupo mais um, pra o estrivo E campo a fora me largo, Levando o teu gosto amargo Gravado em todo o meu ser, E um dia quando morrer, Deus me conceda esta graça De expirar entre a fumaça Do meu chimarrão querido Porque então irei ungido Com água benta da raça!!!
Paisagens Perdidas
(Jayme Caetano Braun)
A tarde recolhe o manto, carqueja e caraguatá; na corticeira um sabiá floreia o último canto! Alargando o gargarejo, da sanga que se desmancha, há um eco pedindo cancha no primitivo falquejo!
A lua nasce num beijo, prateando o lombo do cerro e um grilo acorda um cincerro, do meu retiro de andejo!
Paisagens de campo e alma perdidas no vem e vai, soluços do Uruguai que bebe lua e se acalma: a noite passa à mão salva, com ela vem a saudade, olfateando a claridade das brasas da Estrela D‘Alva!
Nascem rugas no semblante, paisagens da natureza que a força da correnteza não pode levar por diante; então exige que eu cante quando me encontro desperto, mas sempre que chego perto meu sonho está mais distante!
Paisagens de sombra e luz, como é que pude perdê-las? Ficaram as 5 estrelas fazendo o “ sinal da cruz “ !
Prenda Mirim
(João Freitas)
Nasci de um ventre sagrado
Da mãe que me deu a luz
Com licença de Jesus
O mesmo me deu noção
E também a permissão
De eu fazer o que quiser
Em defesa da mulher
Com a pura educação
Sou o resto de uma raça
Por isso sou sorridente
Sou passado, sou presente
Que se espalha no além
E sou gaúcha também
E serei a vida inteira
Sou as cores da bandeira
Que a minha pátria tem
Sou o símbolo de glória
Do meu pago varonil
Sou os estados do Brasil
Sou os guerreiros de coragem
Dos territórios sou a imagem
Eu sou a alma do progresso
Eu sou a rima do verso
Eu sou a índia selvagem
Sou a história dos farrapos
Distinguindo uma batalha
Sou a honra da medalha
Em defesa desta terra
Sou o ser humano que erra
Sou o pobre desprezado
Que dá conta do recado
Na hora triste da guerra
Eu sou tudo minha gente
Que tem na face do chão
Sou o amargo do chimarrão
Que amarga até o fim
Eu sou a flor do jardim
Da pampa meridional
Da minha terra natal
Eu sou a prenda mirim.
Galpão
(José Hilário Retamozo)
Emponchados acorrem aos galpões e o calor que se transmitem explode em lavaredas no fogão.
Há timidez de gestos escondidos no amargo chimarrão que vai e vem e abraços nunca dados, recolhidos, no medo sem razão de querer bem... Corre o mate — verde amargo, essência da solidão e o verde do campo fora funde aos campos do interior.
A távola redonda que conhecem é o raso dos fins de tarde ao redor das chamas claras do fogo a brotar do chão.
As palavras — poucas e contidas, chamas acrescidas ao fogo a crepitar, engarupam-se nos gestos quentes da expressão rudimentar.
Vale mais a confiança adquirida no diário labutar contra os perigos do que palavras, para se entenderem.
Arquipélagos de humanas solidões!
A bomba, agulha de prata, costura seus destinos invisíveis com o fio invisível do amargo e mesmo fim.
Saudade
(Lauro Rodrigues)
Quando o sol golpeia no horizonte e se vai reclinar por de trás do monte como um boi colorado repontado pelo mango de noite que tropeia eu sofro a mágoa de tristeza, a quietude sem fim da natureza na saudade cruel que me maneia.
Xomíco!
Por que será que Nosso Senhor nos dá sem pena, nem julgamento, a pua do pensamento prá esporiar o coração? Há nisso tanta maldade que eu até nem acredito que fosse o "tal" Jesus Cristo o inventor da saudade...
Saudade!!!
Ela vem chegando, tropereando...tropereando tudo de bom que vivi.
Depois que a saudade apeia amarra o pingo e sesteia, nunca mais a gente ri.
Isto é: sempre há sorriso mas para isso é preciso enganar como perdiz que piando numa moita noutra se esconde afoita fingindo que náo piou. A gente não é feliz!
So ri dos dentes pra fora, um gargalhar disfarçado, uma risada amarela, como potro atropelado como boiada que estoura na saída da cancela.
Saudade cheira a alecrim mas é ruim que nem cupim que dá em várzea de campo; fere a gente de tal jeito que o coração cá no peito se banha nágua do pranto.
Saudade é grama cidreira, é guecha passarinheira que a gente nunca domina; é dor aguda e danada, dói mais do que uma chifrada de vaca mansa brasina.
Saudade, coisa esquisita, que Deus te faça bendita como a hóstia no altar!...
Pois, de tudo que já tive, somente a saudade vive, vive a me acompanhar!!!
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Oração do Gaúcho |
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(D. Luiz Felipe de Nadal, Bispo de Uruguaiana)
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Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença do Patrão Celestial.
Vou chegando, enquanto cevo o amargo de minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso camperear por outras invernadas e repontar do Céu, a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.
Eu bem sei que qualquer guasca, bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida, se não se estriba na proteção do Céu.
Ouve, Patrão Celeste, a oração que te faço ao romper da madrugada e ao descambar do sol:
"Tomara que todo o mundo seja como irmão!. Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim".
Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase se querer, em me solto porteira a fora... Êta potrilho chucro, renegado e caborteiro...mas eu te garanto, meu Senhor, quero ser bom e direito!
Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do Céu. Socorre-me, São Pedro, Capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de conversa, vou te dizer meu Deus, mas somente pra ti, que tua vontade leve a minha de cabresto pra todo o sempre e até a querência do Céu. Amém.
Pilchas
(Luiz Coronel)
Não pensem que são pirilampos essas estrelas lá fora. É a lua clara dos campos refletida nas esporas.
Se uso vincha na testa é pra ver o mundo mais claro. Não vendo o mundo por frestas lhe posso fazer reparos.
Sem cinturão nem guaiaca me sinto quase em pelo. Quando meu laço desata sou carretel de novelo.
Da bodega levo um trago para matar aminha sede. Meu chapéu de aba quebrada beija-santo-de-parede.
Atirei as boleadeiras contra a noite que surgia. Noite a dentro entre as estrelas se tornaram três-marias.
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Desejos |
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(Moacir D'Avila Severo)
| Teu calor, como espinilho, Braseando um fogo de chão, Vem secar-me das angústias De uma chuva solidão.
Teus olhos, duas estrelas Candentes pra meus desejos. Verdes brilhos que se apagam Sob a nuvem dos meus beijos.
Tua boca é uma cacimba De saliva cristalina, Mata minha sede de amor E a vertente não termina.
Teus cabelos cor de trigo, Ondulados nos lançantes, Onde meus dedos galopam Na ansiedade dos instantes.
Tuas mãos, casal de garças, Em meu corpo vêm pousar Para buscar emoções Na leveza do andejar. Se na estrada do carinho Nos tornamos dois andejos, Quero léguas de caminhos Pra saciar os meus desejos. |
Um Canto Para Matear Solito
(Moises Silveira de Menezes)
Quando o sol vai despacito me quedo mateando quieto no velho ritual campeiro que faz ausentes de afeto buscar refúgio no amargo, vida verde, vida em pó rico ancestral lenitivo parceiro dos que andam só.
A lua vem debruçar-se no portal da solidão em tênues raios de prata clareando o velho galpão, fresteando as paredes velhas chegam as vozes da noite que a meus ouvidos cansados trazem sibilos de açoite.
A cuia passeia inquieta como se ave noturna que risca olhos punhais na ampla noite soturna, só o chispar das labaredas aos grilos em contracanto compõe mais uma milonga pra um mundo de desencantos.
O mate desce queimando na gargante ressequida parece que nessa noite nem Caá-Yari dá guarida a quem cansou do caminho e de partir sem chegar fez da vida uma tapera na velha sina de andar.
Uma saudade importuna amarga mais esse mate descompassa tanto o peito que o coração pouco bate, aquerenciou-se essa louca sem ter convite pra vir que até nem sei se é bom ter saudade ou não pra sentir.
Uma inquietude interior que faz a noite silente, o sonho muito distante como se estrela cadente, me gusta um mate solito nesse esperar não sei que; saber de andar o sentido talvez, da vida o porquê.
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Ave Maria do Peão |
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(Odilon Ramos)
Ao reponte do sol que descamba no dia se aprochega para o arremate pelos campos e nos matos da querência no revoar da bicharada voltando ao ninho é hora de recolhimento
No rancho que há no interior de mim mesmo eu, gaúcho de fé me arrincono e medito
Despindo o poncho da vaidade e do orgulho tiro o chapéu, apago o pito e me achego pra uma prosa com o patrão maior
Na sua presença meu sangue quente de farrapo se faz manso caudal entrego-lhe minha alma afoita de alcançar lonjuras e abrir cancha em busca do destino renuncio à minha xucra rebeldia me faço doce de volta e macio de tranco para dizer-lhe
Gracias patrão por tudo que me deste por esta querência Senhor que meus ancestrais regaram com seu sangue e que aprendi a amar desde piá
Pelos meus parceiros nessa ronda da vida sempre de prontidão para me amadrinharem na campereada mais custosa ou para matearem comigo na hora do sossego
Reparte com eles, patrão esta fé que me deste e este orgulho pela minha querência
Ajuda patrão a manter acessa esta chama concede sempre ao gaúcho a força no braço e o tino pra saber o que é correto
Dá-nos consciência para preservar a nossa cultura livre da invasão dos modismos conserva a essência e a beleza da nossa tradição
E agora, com licença patrão que vou aproveitar a olada para um dedo de prosa com Nossa Senhora
Ave Maria primeira prenda do céu contigho está o Senhor, na estância maior tu és bendita entre todas as prendas e bendito é o piá que trouxeste ao mundo, Jesus
Maria, mãe de Deus E mãe de todos nós roga pela querência e pelos gaudérios que aqui moram nesta hora e no instante da última cavalgada
Amém!
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Gaita |
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Oscar Daudt Filho (1929)
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Gaita minha... Cancha larga do pensamento Onde adelgaço o tordilho do meu sonho, Gaita minha...
Porteira da minh’alma Por onde a grande tropa de meus ais vae disparando Sem nunca se aquietar.
Gaita que vae, gaita que vem, Dolorida e boa como a carreteada lenta da saudade. Gaita que vem, gaita que vae...
Vida... Gaita da gente, que só Deus sabe tocar, Vida da gente... Gaita de Deus, que Deus fecha quando quer.
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Horizontes do Pago |
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(Roberto Osório Júnior)
| I
Quando o sol da manha sobre as colinas, Lá nos rincões bonitos do meu pago, Põe a cabeça loira e olhas as campinhas, Goza a paisagem sensação de afago...
Ó milagre das luzes matutinas! Ó prodígio de Fébo - artista mago! Na terra, as varzeas são esmeraldinas... Em cima, o céu azul é imenso lago...
Doce encanto dos largos horizontes, Onde os cêrros, nos longes azulados, Parecem graves, cismadoras frontes...
O campo amplia-se e talvez os céus... E alma e sentidos de emoção tocados, Nessa paisagem nós achamos Deus!...
II
Olhar ao longe um horizonte aberto, Onde ao azul o verde se mistura, Onde da terra o céu está tão perto Que Deus abraça a sua criatura...
Agora os coxilhões, logo a planura, Que se sucedem sem limite certo... Ver a amplidão, enfim, que configura O cenário do Pampa descoberto...
Tal o anseio, a aspiração, o anelo Do guasca filho do Rio Grande altivo Que tem na gleba o seu ideal mais belo!
Livre, montar o lombo da coxilha E carregar no peito, redivivo, O ideal de amor à Terra Farroupilha! |
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Gaúcho |
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(Ruben Sofildo da Silva)
Gaúcho é filho do pago Que ama e zela esta terra Fronteira, missões e serra, Campanha e litoral, Recantos do mesmo ideal, Onde se vê o céu azul, Os rios, a mata, a flechinha, Mas tudo é chão farroupilha Tudo é Rio Grande do Sul.
Gaúcho não é ser grosso Ter botas, esporas e mango Usar lenço chimango, Atado frouxo ao pescoço, E andar fazendo alvoroço, Comprando qualquer parada, Gaúcho é ser idealista, Peleiar só por conquista Em defesa da terra amada.
Gaúcho é nome e herança, Que os bravos heróis nos legaram, Que muito mal empregaram Não compreendendo por certo Gaúcho é altivo, esperto, Espontƒneo, inteligente, Respeitador bom amigo, Mas quando encontra o perigo, Costuma chegar de frente.
Quem foi Bento Gonçalves? Quem foi David Canabarro? Não foram estátuas de barro, Nem pobres leigos sem eira Quem foi Pinto Bandeira? Eu nesses versos lhe digo, Com altivez e estoicismo, Foram a nata do gauchismo, Do nosso Rio Grande amigo.
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Meu Pala |
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(Ruben Sofildo da Silva)
Meu velho pala gaúcho Nobre traste farroupilha, Que andaste pela encilha Junto do guasca farrapo. E onde, tu, velho trapo, Foste testemunha de horror, Quando junto em batalha. Servindo até de mortalha, Prá o gaúcho peleador...
Por isso pala franjado Triste fico quando vejo teus flecos, Quantas vezes nos botecos De um corredor de campanha, Já meio manchado de Canha, Por um xirú beberrão, Que gritando; "Oh bolicheiro! Me encha o copo ligeiro Ou eu te viro o balcão"...
Quanta humildade meu pala Te dão nos dias de agora, Os lindo tempos de outrora Já se foram a trote largo. E hoje, só dias amargos Nos restam prá tradição , Mas, nós embora solitos, Vamos andando ao tranquito Vivendo de uma ilusão...
Meu velho pano lendário Que junto andaste no pampa, Tu guardas na tua estampa Tantos sinais de nobreza. Hoje, encaro com tristeza Quando te vejo em meu rancho, Anunciando uma desgraça. Todo furado das traças Dependurado num gancho...
Por isso, meu pala velho, Este é um pedido meu, Já que o destino te deu A sina de andar comigo. Eu peço prá todo o amigo, Que se eu morrer velho ou moço, E ao me encontrar estirado, Que me deixem sossegado contigo atado no pescoço...
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Essências |
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(Wilson Araújo)
Um galpão, um fogo de chão, um manojo de jujos pendurado à parede. Uma tira de couro que ganhou de um amigo, para os dias de chuva, nos finais de semana, tirar alguns tentos e ensaiar uma trança que aprendeu com o pai quando era guri.
Em riba de um cepo um pelego sovado. No canto da mesa, uma massa de carreta suportando uma cuia. Uma chaleira de ferro, uma panela três pernas que descansa em silêncio na trempe cilhona dos fogões campeiros.
O Chiar da cambona, encostada nas brasas, ressona com calma o seu musical. E traz na lembrança as coisas marcantes, quando deixou a Querência: por motivos que a vida impôs no caminho.
O Verde dos campos, com marcas salientes dos capões de mato. As sangas correndo em direção ao rio - refletem retratos - que seus olhos viram num tempo saudoso que ficou pra trás.
O Rubro do fogo, que seus olhos vêem é a barra do dia, surgindo bonita de trás do horizonte!
O Canto dos pássaros! O Berro do boi! E o relincho dos potros, ficam nítidos e puros, nos poemas campeiros que os poetas escrevem musicando a vida.
Que as ondas sonoras de um rádio de pilhas lhe trás para o rancho.
O Sentimento terrunho que trazes no peito, abastece a alma! Com as coisas mais lindas que o pago lhe deu: a infância, o respeito, o amor pela terra e o valor profundo; Que ficou na resteva da vida, de seus ancestrais!
Mas, quando a alma campeira vazia de campos retouça no peito a saudade maior, as lembranças tranqueiam retesando o garrão, vencendo o repecho da vida de um homem que mateia pensando, sentindo o conforto de uma vida urbana que tem ao redor!
Por isso um galpão, retrato de ontem reproduz a Querência! Porque mudar uma planta para outra terra, ficam marcas no chão... Rebrotam outros galhos mas, mas não muda a essência!
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O Cavalo Crioulo e o Soneto |
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Vasco Mello Leiria Pseud.: Capitão Caraguatá
Lombo liso, o pescoço bem plantado o peito largo, a garupa forte e rica, bons aprumos e bem proporcionado o meu pingo crioulo pontifica,
desde a lenda, com arte, emoldurado... O soneto é seu par, e notifica, entre os quatorze versos, enquadrado, o fundo, a forma, com que justifica,
a sua "unidade e harmonia"... Pingos buenos, que, em rima, vão troteando, com impulsão da raça, e... de estesia,
e, baralhando o freio, tempo a fora, soberbos como china... se amansando, com muito jeito, com estro e com espora.
REFERÊNCIA: > http://www.paginadogaucho.com.br/poes/lista.htm
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