Tempestade

 
Canto VI, estâncias 74,76, 79


Os ventos eram tais, que não puderam
Mostrar mais força do ímpeto cruel,
Se para derribar então vieram
A fortíssima torre de Babel.
Nos altíssimos mares, que cresceram,
A pequena grandura dum batel
Mostra a possante nau, que move espanto,
Vendo que se sustém nas ondas tanto.

 

Agora sobre as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que desciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam
Arruinar a máquina do mundo:
A noite negra e feia se alumia
Com os raios, em que o Pólo todo ardia.

 

Quantos montes, então, que derribaram
As ondas que batiam denodadas!
Quantas árvores velhas arrancaram
Do vento bravo as fúrias indinadas!
As forçosas raízes não cuidaram
Que nunca para o céu fossem viradas,
Nem as fundas areias que pudessem
Tanto os mares que em cima as revolvessem.




 

 
Marinheiro

Com a loucura, cega, do gigante
Desafiado nos covis secretos,
A tempestade cresce e num instante
Mistura chuva, raios, preces, credos.

O mar, rugindo louco, em sintonia,
Agride, sem descanso, altos rochedos,
E ao largo, prolongando a agonia,
Brinca com homens, barcos, vidas, medos.

É hora da verdade! E se alguém teme
A força e o furor dos elementos,
É, creio, o arrojado marinheiro;

Mas firme, mãos crispadas sobre o leme,
Rezando, ou praguejando os seus tormentos,
Defende, corajoso, o seu veleiro.

Vítor Cintra