Despedidas em Belém

 
Canto IV, estâncias 88, 89, 92, 93
 

Em tão longo caminho e duvidoso

Por perdidos as gentes nos julgavam,

As mulheres c'um choro piedoso,

Os homens com suspiros que arrancavam.

Mães, esposas, irmãs, que o temeroso

Amor mais desconfia, acrescentavam

A desesperação e frio medo

De já não nos tornar a ver tão cedo.

 

Nestas e outras palavras que diziam,

De amor e de piedosa humanidade,

Os velhos e os meninos que os seguiam,

Em quem menos esforço põe a idade.

Os montes de mais perto respondiam,

Quase movidos de alta piedade;

A branca areia as lágrimas banhavam,

Que em multidão com elas se igualavam.

 

Nós outros, sem a vista alevantarmos

Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado,

Para nos não magoarmos, ou mudarmos,

De propósito firme começado,

Determinei de assim nos embarcarmos,

Sem o despedimento costumado,

Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

 
 

Ó mar salgado, quanto de teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

Fernando Pessoa