Canto I, estância 4 E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipocrene. | Os Antigos
Os antigos invocavam as Musas. Nós invocamo-nos a nós mesmos. Não sei se as Musas apareciam Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. Mas sei que nós não aparecemos. Quantas vezes me tenho debruçado Sobre o poço que me suponho E balido "Ah!" para ouvir um eco, E não tenho ouvido mais que o visto O vago alvor escuro com que a água resplandece Lá na inutilidade do fundo... Nenhum eco para mim... Só vagamente uma cara, Que deve ser a minha, por não poder ser de outro. E uma coisa quase invisível, Excepto como luminosamente vejo Lá no fundo... No silêncio e na luz falsa do fundo... Que Musa!... Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa |
