As cidades desde sempre foram mais que a sua estrutura física. As cidades de hoje, em consequência de diversos factores, nomeadamente de grandes movimentos migratórios, são complexas teias, cerzidas de realidades imateriais, que se cristalizam em matéria a uma velocidade diferente que a transformação da sociedade acontece.
A chave dessa complexidade reside no indivíduo, que multiplicado nas suas vertentes sociais, culturais, económicas, entre outras, nos mostra os vários tons e respectivos matizes que a cidade pode apresentar.
Como arquitectos acreditamos que a arquitectura pode ser um dos instrumentos para a melhoraria da sociedade em que vivemos. No entanto tendemos a esquecer que a arquitectura por si só, pouco pode se não contemplar um sistema mais alargado de conhecimento, na busca pela equidade.
A arquitectura entendida como um bem essencial para o desenvolvimento equilibrado das cidades, acontece, quando consegue ler os sinais da sociedade, para que a sua acção resulte num direito real dos cidadãos.
A plataforma Mira e os Arquitectos Sem Fronteiras de Portugal pretendem através da iniciativa, cidades de abrigo, promover uma reflexão sobre a estrita necessidade de articular todas essas realidades no sentido de criar uma cidade que absorve e reconhece a diversidade.
Os locais escolhidos para esta actividade, sobre os quais os participantes foram convidados a “intervir”, servem portanto de ilustração a diversos mecanismos de exclusão, sobre os quais é necessário reflectir.
Tanto os objectivos desta iniciativa como o resultado das participações revelaram que vários factores culturais, económicos ou políticos, se revestem de grande importância para a determinação da sustentabilidade dos factores físicos.
Os resultados da iniciativa são também reveladores, na medida em que o interesse dos participantes recai maioritariamente sobre dois dos locais apresentados: o Bairro de S. Bento e o Terreno vago próximo á casa da Musica, embora as propostas de intervenção nestes dois espaços, se revistam de um carácter diferente.
As propostas em si, também se distinguem pelo tipo de abordagem, dividindo-se grosso modo em reflexões para uma intervenção inclusiva e propostas arquitectónicas específicas. É curioso constatar, que as primeiras se referem a espaços que apresentam uma maior diversidade, de factores culturais, nomeadamente étnicos e religiosos etc. e as segundas maioritariamente ao local próximo à Casa da Música, onde a presença da Casa da Música como objecto arquitectónico de referencia acabou talvez por ter maior impacto que o tema.
Congratulamo-nos pela grande adesão que a iniciativa teve e pela tomada de consciência que esta e outras actividades similares possam trazer na discussão da reconciliação entre os saberes que podem informar os intervenientes na evolução da qualidade de vida e coesão social das cidades, para que estas sejam cada vez mais, locais de abrigo.
Lígia Nunes