Sexualidade – Paradigmas para uma reflexão
tema de Dr. Juan Francisco Ambrósio escrito para o Jornal da Família
1. Introdução (o tabu continua)
Inicio com estas linhas um percurso com o qual pretendo apresentar alguns contributos que possam ajudar a reflectir a sexualidade. Faço-o consciente de que se trata de um tema que exige prudência, bom senso e seriedade.
Confesso mesmo, que no momento em que dialogávamos acerca de qual poderia ser o meu contributo este ano, varias hipóteses surgiram, entre as quais apareceu logo na primeira linha esta. Contudo, hesitei muito, não porque não considere o tema importante e pertinente (quanto a isso não tenho a menor dúvida), mas porque para ser tratado não nos podemos ficar pelos habituais lugares comuns, que em vários sítios vamos ouvindo. E já tanta coisa ouvimos e tanta coisa foi dita.
Por outro lado, um tema desta natureza acaba sempre por nos levar em direcções que desembocam em assuntos ‘quentes’, que estão hoje na ordem do dia, de uma maneira muito explorada e que despertam as mais variadas reacções, tantas vezes epidérmicas e mal fundamentadas. Como abordar esses temas num espaço tão reduzido, sem correr o risco de não cair também na superficialidade, que a maior parte das vezes não ajuda, mas só complica? As coisas complexas podem certamente ser ditas de uma maneira simples, mas infelizmente muitas vezes confundimos isso com superficialidade e simplismo, o que acaba por deturpar a realidade.
Apesar destas dúvidas, das quais ainda não me libertei totalmente, acho que vale a pena apostar neste percurso e isso porque, apesar de se dizer que o tema da sexualidade é hoje um tema que pode ser tratado com toda a naturalidade e abertura, considero que continua a haver a existência de um ‘tabu’ à sua volta.
Explico-me: todos nós sabemos como há não muito tempo atrás as questões relacionadas com a sexualidade não eram abordadas de uma maneira pública e, porque não dizê-lo também porque é verdade, não eram abordadas muitas vezes nem sequer de uma maneira privada. Havia aqui certamente uma posição redutora, que olhava para a sexualidade só a partir de uma determinada maneira, muito marcada por um certo tipo de mentalidade e de educação. Tudo era então silenciado e calado, vivido às escondidas e, quantas vezes, acarretando situações de verdadeiro sofrimento. Claro que não podemos generalizar de maneira absoluta, mas certamente que concordamos que esta era a tónica dominante.
Hoje do meu ponto de vista o tabu mantém-se. Não porque não se fale - talvez até se fale demais, dizendo tanta coisa, que se acaba por nada dizer nada, ou por dizer muito pouco -, mas sobretudo porque se alimenta a posição de que neste nível as coisas dizem respeito a cada um, não podendo pois haver ingerências nem limites moralistas. A visão redutora permanece, de uma maneira diferente certamente, mas permanece. Agora, tirando algumas situações com as quais todos estamos de acordo e que nem sequer remetemos para o campo da sexualidade, pois já consideramos doentias (refiro-me por exemplo à pedofilia), agora, dizia eu, não podemos impor qualquer tipo de limite que não vá para alem da subjectividade e da vontade de cada um daqueles que está envolvido em qualquer tipo de relação. Ora se eu não posso falar abertamente, porque isso é logo considerado ingerência, ignorância ou uma atitude completamente passada, então é porque o tabu continua.
O tema merece, pois, ser tratado. Mas em vez de ficar na análise de situações concretas, que são sem dúvida importantes, vou antes escolher outro caminho, que passa pela apresentação de alguns paradigmas a partir dos quais se pode reflectir esta dimensão tão importante do nosso viver. Não tenho dúvidas de que muitas das dificuldades sentidas nos nossos dias, quer ao nível da vivência, quer ao nível da reflexão teórica, poderão ser mais facilmente enfrentadas se percebermos que, também neste âmbito, estamos a passar por mudanças paradigmáticas, que acabam sempre por implicar alguma crise e ruptura. Olhar para esses paradigmas, que trazem sempre consigo uma determinada maneira de pensar, marcam uma maneira de olhar e influenciam uma maneira de agir, é então o meu objectivo. Espero, deste modo, poder dar um pequeno contributo para uma reflexão que nunca pode deixar de ser feita.
2. Uma dinâmica de humanização
“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.” (Gen 1, 27)
Não cito estas palavras para lembrar nada a ninguém. Elas são por demais conhecidas, e eu já tive a oportunidade de a elas me referir quando reflectimos acerca da preparação para o matrimónio. Mas talvez estas palavras, na sua aparente simplicidade, possam de novo ajudar a iluminar a nossa reflexão.
O que se afirma é uma realidade evidente: Deus criou o ser humano. Para nós, crentes, nada de novo. A nossa fé não nos deixa margem para dúvidas. Sabemos que na nossa origem e matriz está o acto criador de Deus e por isso nos sentimos agradecidos. É que de toda a criação, a única criatura de quem é dito ter sido criada à imagem e semelhança do próprio Deus é o ser humano, ou seja, somos nós, cada um de nós.
Mas se olharmos com mais atenção podemos descobrir mais, muito mais. Não simplesmente se afirma que a humanidade foi criada por Deus (Deus criou o homem à sua imagem e semelhança), como imediatamente se acrescenta que esse homem, o mesmo é dizer essa humanidade, é formada por homens e mulheres. A humanidade concretiza-se, pois, de duas maneiras distintas: a masculina e a feminina.
Daqui penso que podemos tirar já uma conclusão, que nem sempre tem sido tida em atenção e que muitas vezes tem mesmo sido ignorada. Refiro-me não só ao facto da humanidade ser composta por homens e mulheres, o que é uma evidência mesmo até para os mais distraídos, mas ao facto de só assim ela ser plenamente humana e de só assim ela corresponder ao desígnio de Deus.
A este nível as coisas podem já não ser tão evidentes. No fundo o que aqui se está afirmar é que uma humanidade plena só se pode realizar desta dupla maneira. Um mundo que porventura fosse constituído só por homens não seria um mundo plenamente humano, do mesmo modo que um mundo constituído só por mulheres também não o seria. E ao falar nisto não estou simplesmente a referir-me à necessidade evidente da procriação para a preservação da espécie, estou a querer ir mais longe, ao ponto de poder afirmar que eu enquanto homem não possuo em mim a plenitude da humanidade, tal como as mulheres não a possuem. Eu, homem, preciso das mulheres, pois só nessa relação de complementaridade - e refiro-me a uma complementaridade total e não simplesmente ao seu aspecto físico - posso aceder à plenitude da humanidade.
Esta diferença é, pois, uma profunda riqueza e causa de humanização.
E se dúvidas ainda houvesse, o texto com que iniciámos estas linhas continua e mais à frente afirma: “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gen 1, 31a). Ora bem, esta afirmação de que tudo era muito bom só é dita depois de Deus ter criado a humanidade, ou seja, homens e mulheres e, portanto também deve ser referida a esta realidade.
A diferenciação sexual, com tudo o que ela implica e que vai muito para além da mera diferença do sexo, não é pois razão de diminuição ou pobreza da humanidade, mas, pelo contrário, motivo e possibilidade de plena humanização.
Esta realidade não pode, por isso, de modo nenhum ser ignorada em toda a reflexão acerca da sexualidade que se queira séria e verdadeiramente humana. A sexualidade como dinâmica de humanização é, pois, um dos paradigmas que deve estar presente em toda a reflexão que fizermos a este nível. A partir deste paradigma podemos olhar para as situações concretas tentando discernir se face a elas estamos, ou não, perante realidades que humanizam. Se o que vemos, ouvimos e, porventura, praticamos não contribui para a promoção da condição humana (a nossa e a do outro) então teremos de ter a coragem de concluir que não se trata de sexualidade humana, mas de outra coisa para a qual temos de arranjar outro nome.
3. Sexualidade e cultura
Na nossa tentativa de apresentar alguns paradigmas que nos possam ser úteis para reflectir a realidade da sexualidade, não podemos de modo nenhum ignorar os paradigmas culturais. Na verdade, como muito bem diz João Duque, (num artigo publicado no número 4 da revista Pastoral Catequética) “temos que admitir que a vivência da sexualidade – no seu mistério ou até na pretensa anulação desse mistério – está sempre relacionada com a cultura envolvente, exercendo por seu turno, forte influência nessa mesma cultura.” Esta simples constatação ajuda-nos a entender como qualquer reflexão acerca da sexualidade que queira ser séria não se pode reduzir às dimensões relacionadas com a biologia, a saúde, ou mesmo os comportamentos, tendo de ter em conta outras dimensões fundamentais.
Com frequência ouvimos dizer que a cultura judaico-cristã influenciou muito a vivência e a reflexão acerca da sexualidade, contribuindo para uma visão de desconfiança e de certa negatividade, por exemplo, no que diz respeito ao desejo sexual e à sua satisfação. Sabemos que há muito de verdade nesta ideia, o que precisamos de assumir com coragem. De facto, uma constante e, muitas vezes, incorrecta separação entre a esfera do sagrado e do profano, do divino e do humano, do espiritual e do material, foi fazendo que a distinção real que existe entre estas dimensões se tornasse separação e mesmo antagonismo. Assim, o que pertence a um dos lados não pode pertencer ao outro, estando totalmente separado e sendo-lhe oposto. Um caminho destes, que levou muito tempo a percorrer, e que em rigor não pode ser explicado de uma maneira tão simples como aqui o faço, foi possibilitando e facilitando certo tipo de leituras para as quais a sexualidade por pertencer ao campo do profano, do material e do humano não poderia ser algo de bom para quem aspira ao sagrado, ao espiritual, ao divino. Deste modo, a sexualidade como que passou apenas a ser tolerada e admitida quase sempre ligada à realidade da procriação. Todas as outras dimensões, como são por exemplo o desejo, o prazer, a afectividade e o próprio amor, foram sendo secundarizadas e subalternizadas.
Hoje, e dando um grande salto no tempo, a redução e subalternização é de sinal oposto, mas continua a fundamentar-se, no meu entender, numa incorrecta separação entre as várias dimensões a que atrás me referi. Numa sociedade e cultura como a nossa, onde prevalece o valor do indivíduo e onde o prazer, o desejo e o amor são também pensados e reflectidos a partir de uma perspectiva eminentemente individual, não é de estranhar que se sobrevalorize essas dimensões ignorando outras. O compromisso e corresponsabilidade na edificação da família e na educação dos filhos, a perspectiva da relação inter-pessoal e da relação com Deus, a perspectiva espiritual que, sem negar o prazer e o desejo, aponta no entanto para além deles, são dimensões que parecem pesar cada vez menos nas reflexões e práticas relacionadas com a sexualidade. Quando ao pensarmos a pessoa predomina o critério do indivíduo e a sua realização e felicidade é também vista a partir deste critério, então, tudo corre o perigo de ser reduzido à esta medida. Não é, pois, de estranhar que muitos achem que o critério de legitimidade para todas as práticas sexuais se reduza à dimensão da satisfação das necessidades e desejos individuais.
Tenho consciência que estas linhas pecam por ser demasiado simplistas, pois as questões a que se referem são muito complexas. Com elas, contudo, não tenho a pretensão de resolver os problemas, mas apenas de dar um pequeno contributo para a construção de um paradigma que nos permita entender e viver melhor a sexualidade em todas as suas dimensões. Nessa linha, a cultura não pode ser ignorada, pois ela traz consigo a marca de como o ser humano se entende e vive a si mesmo. O contributo da reflexão cristã é, para mim, a este nível, de uma grande relevância. A sua proposta deve ajudar a entender que o humano e o divino, o material e espiritual, o sagrado e o profano, se bem que não sejam a mesma coisa, não se opõem, nem são contraditórios. Pelo contrário, a nossa fé diz-nos que ao entrar na história Deus assumiu a condição humana para a levar à sua plenitude, sem contudo a negar. Como cristãos, temos que contribuir para a edificação de uma cultura que seja capaz de traduzir e dizer a realidade humana em todas as sua dimensões constitutivas. A nossa reflexão acerca da sexualidade não pode ignorar nem diabolizar a afectividade, o desejo e mesmo o prazer, mas não pode deixar de referir-se a outras dimensões para além destas. Este contributo torna-se hoje essencial para que a vivência da sexualidade possa ser expressão e caminho de verdadeira humanização e, porque não dizê-lo também sem medo, caminho no qual a experiência de Deus pode e deve também estar presente.
4. Um olhar a partir das ‘ciências antropológicas’
Já se afirmou neste espaço que a sexualidade humana encerra em si uma dinâmica de humanização. Também já se sublinhou a influência que a cultura tem nesta reflexão (porque tudo o que é humano tem a ver com a cultura) e o contributo que o pensamento cristão deve dar para a ‘construção’ de uma cultura que seja capaz de dizer o humano na sua totalidade também a este nível (porque a fé tem sempre de ser traduzida e expressada de um modo cultural).
De facto, a reflexão cristã acerca da sexualidade, pode ser sem dúvida uma mais valia em todo este percurso - para nós crentes é-o de uma maneira clara e inequívoca -, mas ela não pode de modo nenhum dispensar e ignorar os importantes contributos que as chamadas ciências antropológicas têm dado para a elaboração de um paradigma personalista da sexualidade. Por isso, e antes de avançarmos propriamente para o contributo explícito da fé neste campo, convém lançar um olhar sobre algumas das suas reflexões, que a modo de exemplo enumero de seguida, com a consciência clara de que cada uma delas mereceria um comentário que exigiria muitas mais linhas do que aquelas que aqui estão disponíveis (para esta enumeração inspiro-me em Augusto Cabral, Sentido e critérios éticos da sexualidade, in Educar é amar, Pastoral Catequética 4, SNEC, Lisboa 2006, 45-46):
- Afirma-se a complexidade do fenómeno da realidade sexual;
- Toda essa complexidade se resolve, definitivamente, numa unidade: a pessoa humana;
- A reflexão sobre a sexualidade humana ajuda a descobrir o mistério da pessoa, tal como a reflexão sobre a pessoa ajuda-nos a entender melhor a sexualidade humana;
- A estrutura sexual é um dos lugares privilegiados em que a pessoa pode experimentar a passagem do âmbito do vital (biológico e físico) para o âmbito do humano;
- A sexualidade é uma das grandes possibilidades que a pessoa tem.
- A sexualidade é uma grande força que empurra a pessoa a sair de si própria. A saída biológica do seio materno e a abertura psicológica na adolescência são dois momentos que exemplificam bem esta abertura em que o indivíduo se lança à aventura de conhecer um ‘novo mundo’ que não se reduz ao seu;
- A sexualidade humana é uma estrutura antropológica onde e mediante a qual a pessoa pode também viver e realizar a abertura na dimensão da entrega, da oferta e do dom de si mesmo;
- A sexualidade humana é uma forma de intencionalidade e de expressão da existência, uma mediação da intersubjectividade, uma a-tmosfera e uma linguagem;
- A sexualidade humana é um comportamento e não uma função e, enquanto comportamento, é expressão ou linguagem de uma existência pessoal;
- A sexualidade humana tem um carácter dialogal que concretiza, através do corpo, a intersu-bjectividade e intencionalidade do indivíduo;
- A sexualidade humana é uma linguagem de comunicação e diálogo entre as pessoas, entre o “eu-tu” que cria a necessidade e a aceitação do “nós”, que, por sua vez, se abre ao “vós” para formar a grande família humana.
Basta esta pequena enumeração para percebermos a riqueza do caminho percorrido e o quanto a reflexão cristã pode de facto ganhar com este contributo. Claro que estamos conscientes de que, para além destas, muitas outras afirmações têm sido produzidas noutros sentidos e noutras direcções, mas também elas não podem ser ignoradas pela reflexão cristã. É que o amor de Deus pela humanidade tem a ver com o homem concreto de cada tempo, com aquilo que ele já foi capaz de percorrer no caminho da sua humanização (potenciando, facilitando, ‘empurrando-o nesse caminho’), e com aquilo que ainda lhe falta percorrer, ou que porventura sejam mesmos passos atrás (denunciado, interpelando convidando a novos itinerários).
Apesar das muitas fragilidades e mesmo dos erros que possamos encontrar no contributo das ‘ciências antropológicas’, é forçoso reconhecer que ele é mesmo indispensável e importantíssimo nesta procura de paradigmas que nos ajudem a reflectir a sexualidade humana. O olhar da fé, que queremos lançar sobre esta realidade, tem que levar a sério este contributo, para se deixar enriquecer por ele e para o poder enriquecer.
5. A afectividade, fonte de conhecimento de si e do mundo.
Antes de abordar o contributo explícito da inteligência da fé para a reflexão acerca da sexualidade (contributo que em certo sentido já tem vindo a ser desenhado nos vários pontos até agora abordados) seja-me permitido fazer uma breve alusão à questão da afectividade como fonte de conhecimento de si e do mundo.
Como todos sabemos, falar em sexualidade não é sem mais igual a falar em afectividade, embora a este nível a utilização dos termos revele que muitas vezes são usados como equivalentes. Mas neste âmbito, o erro maior nem sequer é este, mas aquele que, de certo modo, se encontra no extremo oposto, ou seja, reflectir a sexualidade ignorando a importância dos afectos.
Não é aqui o lugar para fazer uma distinção entre afectos amor e sexualidade, contudo, e para que as coisas não fiquem demasiado vagas, digamos que os afectos têm uma dimensão emotiva, ligada à sensibilidade geral, englobando reacções, com frequência difusas, de bem-estar, ou mesmo de mal-estar. No fundo, o que quero dizer é que a afectividade é uma realidade que ‘afecta’ a pessoa na sua totalidade. Ela marca e ajuda a construir a própria identidade pessoal, constituindo por isso uma das dimensões mais profundas da sexualidade humana. Entre afectividade e sexualidade há, então, uma relação estrita que não pode de modo nenhum ser ignorada. Isto é de tal maneira importante que podemos afirmar que o vazio afectivo desfigura a sexualidade, conduzindo-a a uma inflação da genitalidade que acaba por desvalorizar a própria sexualidade.
É verdade que na nossa cultura os afectos são hoje muito falados e até se lhes dá uma importância renovada, mas isto, porém, não traduz toda a realidade. Se observarmos com cuidado, poderemos ver como os afectos continuam a ser empurrados, por muitos, para a margem exclusiva da sensibilidade e dos sentidos, não se lhes reconhecendo ainda, pelos menos de uma maneira generalizada e consistente, o papel fundamental que realmente desempenham no âmbito do conhecimento que cada um é chamado a ter de si e do mundo que o rodeia. Na nossa sociedade, a razão continua a aparecer como a grande, e quase que exclusiva, via de acesso ao real.
Recorrendo às palavras de Maria Luísa Ribeiro Ferreira, penso que ficará mais claro aquilo que pretendo dizer (tomo estas palavras de uma citação feita por Jerónimo Trigo num artigo que me serve de inspiração para estas linhas: Expressões afectivas: que avaliação ética? In Pastoral Catequética 4 (2006) 29-42.
“Quando falamos de afectos falamos também de um saber e, consequentemente, há uma relação deles com a verdade das coisas. É nos afectos que se revelam as nossas convicções mais fundas. As noções que formamos do eu, do outro, do bem e do mal, da crença ou da descrença em Deus, são-nos dadas primeiramente pelos afectos e, passando embora pelo crivo da conceptualização e argumentação, nunca deixam de acusar esse toque. Há uma experiência primeira, indizível como todas as coisas que realmente nos tocam, difícil precisamente devido ao seu carácter experiencial e inefável. A afectividade é abertura ao mundo, um mundo diferente do mundo científico e tecnológico que conhecemos, mas tão verdadeiro e real quanto este. Há um saber de nós mesmos que só a consciência afectiva nos dá. Há uma suprema evidência nas experiências que temos de prazer e dor, de alegria e tristeza, de nós próprios e dos outros. Daí podermos dizer que as certezas ontológicas são dadas pela consciência afectiva”.
Sinceramente parece-me que estas palavras, ainda que possam parecer difíceis, são o suficientemente claras para nos interpelar na reflexão que temos vindo a desenvolver.
Como é possível abordar a questão da sexualidade ignorando esta realidade? Como é possível querer aprofundar a sexualidade humana, como uma das expressões do todo da pessoa, se não soubermos lidar com os afectos?
Têm razão aqueles que dizem que um dos dramas do nosso tempo consiste naquilo que podemos apelidar de ‘analfabetismo afectivo’. Estou convencido de que é também a este nível que podemos encontrar uma das razões mais profundas para muitas das situações que nos são dadas a observar ao nível da vivência e da reflexão da sexualidade.
A educação dos afectos parece-me, pois, cada vez mais importante e fundamental em todo o processo de crescimento e maturação humana e, ao nível da reflexão acerca da sexualidade, uma das dimensões a ter sempre presente.
6. Sexualidade e Ética. Um Desafio aos Educadores II
A sexualidade humana não pode ser entendida como uma dinâmica que se pode impor de uma maneira incontrolável. Ela deve ser vivida e integrada na totalidade de todos os dinamismos existentes na pessoa. Não se pode mesmo crescer humanamente sem uma educação correcta da maturidade afectiva e sexual. A preocupação demonstrada aos mais variados níveis a este respeito mostra como esta necessidade é já algo consensual entre os diferentes sectores e forças da sociedade. Quanto aos critérios a utilizar nesse processo educativo, aí as diferenças são significativas.
Sem ter a pretensão de ultrapassar essas diferenças - coisa que requereria um trabalho muito mais apurado e longo para o qual não só não me sinto preparado como julgo mesmo muito difícil de alcançar – deixo aqui alguns indicativos (e sublinho que são apenas alguns) a ter presentes na educação da afectividade e da sexualidade (para isso continuo a inspirar-me no artigo já citado de Jerónimo Trigo):
Valorizar a comunicação e o diálogo sublinhando a importância fundamental do encontro pessoal, da abertura ao outro, da vida em comunhão. É fundamental nesta linha superar o individualismo que, levado aos extremos, acaba por condenar as pessoas a uma terrível solidão, mesmo que porventura se encontrem no meio de uma multidão. Também a este nível é fundamental perceber que a sexualidade - como nota da identidade pessoal - se constrói e vive mais plenamente na relação com os outros;
Também por causa disso, mas não só, é fundamental valorizar e sublinhar a relação entre o sexo, os afectos e o amor. Viver ou educar a sexualidade sem fortalecer esse vínculo é certamente correr o grave perigo de a reduzir a um conjunto de técnicas de modo a alcançar o melhor desempenho possível. Sabemos bem que amor e sexualidade não são a mesma coisa. O amor pode traduzir-se e exprimir-se em diversas linguagens, sendo a linguagem da sexualidade, por exemplo, uma daquelas (não a única) mais capazes de expressar a plenitude e a totalidade da entrega e do diálogo dos esposos. A sexualidade não pode, contudo, ser reduzida à condição de ser uma linguagem do amor. Ela tem um estatuto e uma existência próprios, que marcam profundamente a pessoa de cada um de nós. Porém, quando vivida e integrada na dimensão do amor e dos afectos, ela pode desenvolver-se em harmonia, contribuindo para um equilibrado crescimento pessoal.
Valorizar a dimensão corpórea da pessoa é, igualmente, a este nível, um aspecto muito importante a ter em conta. Para isso é preciso superar os dualismos antropológicos que, em muitas situações, continuam a marcar presença. O ser humano não é uma soma de duas partes (corpo mais espírito). Pensar assim é, por um lado, não estar atento à profunda realidade da nossa existência e, por outro, correr o perigo de sublinhar uma das dimensões sempre em detrimento da outra. O corpo é expressão daquilo que também somos espiritualmente. O amor humano, que tem uma dimensão espiritual inequívoca, expressa-se obrigatoriamente através do corpo que cada um de nós é. Há pois que ultrapassar o dualismo que põe sempre num lugar secundário o corpo, tal como se deve ultrapassar o dualismo que põe sempre em segundo lugar o espírito. Hoje é também fundamental afirmar que a valorização do corpo humano não passa simplesmente pela importância do físico e do biológico. A beleza humana tem padrões que vão muito para além disso, de tal modo que a valorização da dimensão corpórea exige que tenhamos presentes a unidade que verdadeiramente somos. Na educação da sexualidade isto revela-se, a meu ver, de uma fundamental importância.
Sublinhar o valor do feminino e do masculino como diferenças e identidades simultaneamente simétricas e assimétricas, é outro dos aspectos importantes a ter presente em todo o processo educativo. É mais do que evidente que ser homem e ser mulher são duas coisas distintas, mas já não é tão evidente que é na complementaridade e ordenação mútua da dimensão do feminino e do masculino que cada uma destas identidades se afirma e adquire a sua especificidade própria. A vivência da sexualidade para ser plenamente humana exige o reconhecimento da igual dignidade entre homens e mulheres, o que por seu lado também implica o reconhecimento das especificidades de cada um.
Finalmente penso ser de vital importância valorizar, sublinhar e aprofundar a dimensão simbólica da sexualidade, sem a qual ela ficaria reduzida a um facto pouco significante e a uma expressão sem grande mensagem. Para além dos gestos e processos em que se expressa e concretiza a sexualidade quer e pode simbolizar muito mais, possibilitando ao seu humano dizer e dizer-se de uma maneira profunda. Esta dimensão simbólica é de tal maneira forte que facilitou o seu uso, pela própria experiência crente, para expressar a relação entre o ser humano e Deus. O cântico dos Cânticos é disso um testemunho inequívoco. Ter estes e outros indicativos presentes, é tarefa de todo o educador que queira ajudar a entender e viver a sexualidade como um acontecimento que vai muito mais para além de uma simples prestação física.