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Dentre as conclusões proporcionadas pela profunda reflexão que Pierre Lévy faz em relação à cibercultura, ele ainda aponta no último capítulo de seu livro (capítulo XVIII – Respostas a algumas perguntas freqüentes) os quatro questionamentos mais realizados sobre essa nova cultura virtual que tanto afeta nosso dia-a-dia e altera principalmente nossos relacionamentos pessoais. Contudo, ele mesmo afirma que não existem respostas previamente determinadas, uma vez que a cibercultura está em constante movimento, assim novas perguntas também futuramente surgirão devido a essa rapidez inerente ao fluxo de informações da internet.
Dessa maneira, estão em seguida as conclusões e críticas feitas a respeito das considerações de Pierre Lévy em relação à cibercultura de acordo com cada pergunta por ele elaborada:
1. A Cibercultura produz exclusões?
De acordo com o mapa da exclusão digital feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no ano de 2001 apenas 12,46% da população do Brasil, estimada em aproximadamente 190 milhões de habitantes, tinham computadores em casa, sendo que somente 8,31% possuem acesso à internet.
Primeiramente não podemos nos prender em números absolutos que afirmam a impossibilidade de acesso ao ciberespaço pela grande maioria da população mundial. O fato é que desde o surgimento da internet cada vez mais pessoas são incluídas na cibercultura, desse modo é a tendência constante do aumento da inclusão digital que nos diz a respeito dos resultados positivos desse movimento onde cada vez mais pessoas têm acesso aos serviços oferecidos pela Web; sem falar também no reconhecimento governamental referente à importância da inclusão digital, visto que a criação e o estímulo feitos aos programas sociais que visam um maior contato das pessoas com o computador vêm aumentando, como por exemplo, a implantação de computadores nas escolas fazendo com que o ciberespaço se constitua como mais um importante recurso educativo para a construção de conhecimento; etc.
Outro fato que relativiza a idéia de que a cibercultura está mais para um lugar a favor da exclusão do que a favor de uma maior inserção social, é a maior acessibilidade promovida pelo barateamento tanto dos aparelhos de hardware do computador como também do uso da internet banda larga, de maior qualidade; antigamente só quem poderia adquirir esses recursos eram pessoas que realmente possuíssem renda expressiva, hoje aqueles provenientes da classe média já podem usufruir em casa dos benefícios proporcionados pela internet e pelos softwares muitas vezes gratuitos nela disponíveis.
Contudo, também não podemos fingir que a exclusão digital não exista, mesmo com o barateamento do custo do computador e da internet, atualmente quem pode comprar os equipamentos técnicos necessários para a inclusão na cibercultura constituem-se como minoria, muitos países em desenvolvimento nem ao menos possuem a infra-estrutura básica para o uso da internet, eles não têm nem energia elétrica, quanto mais linhas telefônicas! O mapa do Brasil abaixo demonstra como as regiões distantes dos grandes centros urbanos sofrem com a inacessibilidade ao mundo virtual:
Portanto, a causa da exclusão digital possui fortes vínculos com a também exclusão social. Há séculos o Brasil sofre com a fome, a miséria, o desemprego... logo direcionar verbas para a inserção do país em uma realidade virtual seria um desperdício de recursos financeiros que deveriam tratar dos problemas sociais mais alarmantes da realidade nacional.
Porém, como tudo depende de um ponto de vista, encarar a inclusão digital como uma necessidade supérflua ou como um impasse para o desenvolvimento do Brasil constitui-se como um terrível engano. Pode-se muito bem extrair benefícios com o acesso irrestrito à cibercultura, como já foi mencionado, a escola possui o computador como mais um aliado para o desenvolvimento intelectual dos alunos, sem falar na criação de novos empregos relacionados às práticas virtuais como manutenção de sistemas, designer gráficos de sites, criação de comunidades... e uma infinidade de atividade que podem ser feitas a partir do acesso ao ciberespaço que dão lucro e que sem dúvida podem contribuir significativamente para o progresso do país.
Nesse sentido, o incentivo à inclusão digital é bastante louvável. Entretanto, embora a aquisição do suporte operacional seja imprescindível, de nada adianta possuir o hardware do computador e não saber lidar com os processos interativos da cibercultura, ela exige que o usuário tenha domínio sobre a sua linguagem, e é sobre isso que trataremos na pergunta seguinte.
1. A diversidade das línguas e das culturas encontra-se ameaçada pelo Ciberespaço?
Pintura: Cultura em Movimento, Fermer Fenêtre Considero que mesmo antes da invenção do ciberespaço a diver- sidade das línguas e das culturas já estava ameaçada pelas mídias de comunicação de massa, como TV, cinema, jornais, etc. Conceituadas como as grandes propulsoras da globalização, essas mídias visam diminuir a distância entre as pessoas no mundo através da transmissão das mesmas mensagens, impondo a todo o mundo a cultura e a língua da cultura dominante, a americana.
Com o cibercultura não é diferente, ela também é conceituada como instrumento globalizante, se não for o maior deles. A linguagem inglesa, considerada a língua mais usada pelo mundo, é também certamente a mais usada no ciberespaço, seja pelo fato de que os produtores da maioria dos softwares são americanos ou pelo inglês ser mais fácil de ser assimilado.
No entanto, ao mesmo tempo em que a cibercultura segue a tendência dos meios de comunicação de massa e auxilia a disseminação principalmente dos costumes americanos, ela também incentiva a comunicação interativa entre as pessoas de todas as regiões do mundo e facilita a publicação de conteúdos diversos, tudo depende da iniciativa do internauta para divulgar sua própria cultura, a chave para acabar com o monopólio cultural americano na cibercultura está nas mãos dos próprios usuários do ciberespaço, além de já terem sido feitas muitas traduções dos programas para a linguagem nativa de cada país.
Logo, cada vez mais a cibercultura está acessível para pessoas distintas localizadas em partes distintas do planeta, assim o ciberespaço revela-se como um lugar que vem assimilando as práticas democráticas, e isso enriquece muito seu conteúdo.
3. A Cibercultura não é sinônimo de caos e confusão?
É de se entender que muitos acreditem que a cibercultura seja mesmo como afirmou Pierre Lévi: um dilúvio informacional! Mas, como ele mesmo considerou, não é bem assim que o sistema funciona.
Mesmo com a liberdade e facilidade de exposição de idéias oferecida pela cibercultura e a expressiva quantidade de sites, blogs, comunidades... publicados na Web, existem mecanismos que fazem com que nos situemos melhor. Sites como o Google e o Cadê direcionam a pesquisa para o internauta de acordo com seu interesse, existe também o sistema de clipping onde as pessoas recebem notícias somente de seu gosto... o que não faltam no ciberespaço são dispositivos de procura e organização de conteúdos diversos.
Contudo, é mesmo verdade quando dizemos que a cibercultura não possui uma regulação fixa, fica realmente difícil confiar no conteúdo de um site uma vez que não existem comprovantes de validade virtual, portanto não há um órgão que centralize as funções do ciberespaço, a responsabilidade é toda dos usuários.
O único código que é aceito pela maioria dos internautas é a netiqueta, ou seja, a etiqueta da internet, nela estão estabelecidos alguns critérios para a boa convivência no plano cibercultural, como a menção da fonte em que se retirou alguma matéria, o uso correto do português para que a mensagem seja melhor compreendida, a utilização harmônica das cores nos textos para que ele seja lido mais facilmente, etc.
Por conseguinte, a netiqueta também não permite o uso do ciberespaço para práticas ilegais onde as pessoas publicam o que bem entendem sem visar as implicações judiciais que levam algumas ações, assim infringir a lei praticando atos como a divulgação pornográfica de menores ou o desrespeito racial pode acarretar sim coerção por parte do Estado.
Recentemente casos de racismo e demais desrespeitos referentes aos direitos humanos foram bastante divulgados pelos meios de comunicação em relação ao site de comunidades Orkut, certos participantes foram condenados pela Justiça por tal abuso, o que demonstra que as autoridades estão começando a perceber que o excesso de liberdade proporcionado pelo ciberespaço também pode ser mal interpretado, logo se faz necessária uma maior regulamentação governamental quanto a esses casos que denigrem os direitos humanos e que cada vez mais se multiplicam em todo mundo, manchando a reputação da cibercultura.
4. A Cibercultura encontra-se em ruptura com os valores fundadores da Modernidade Européia?
Pierre Lévy alega nesta última pergunta que a Cibercultura possui fortes vínculos com a ideologia iluminista, quando os filósofos do séc. XVIII primavam pelo fluxo de informações para o progresso da humanidade e quando foram difundidos aos quatro cantos do mundo os ideais desse movimento: Igualdade, Liberdade e Fraternidade.
Entretanto, considero essa comparação um tanto quanto infeliz, não foi o Iluminismo o fornecedor da ideologia essencial para a base do sistema excludente capitalista? Pois foram exatamente os filósofos iluministas que alienaram a população da época com seus falsos ideais afirmando que a nova ordem mundial, o capitalismo, libertaria o povo da escuridão ainda herdada pela Idade Média, e mais, segundo suas filosofias iluminadas e tão aclamadas, o emergente sistema capitalista trataria todos igualmente, já que somos todos irmãos! Porém, cada vez mais constatamos o aumento da exclusão social proporcionado pelo capitalismo. Logo, é incoerente vincular o estímulo a uma cibercultura democrática que prima pela inclusão digital com os valores fundadores da Modernidade Européia, uma vez que eles justificam até hoje a exclusão digital quando primeiramente justificaram a exclusão social séculos atrás!
Desse modo, mesmo reconhecendo que o advento do computador e da internet só seria viável a partir da lógica capitalista de lucro inerente do neoliberalismo e da globalização, é preciso que a inclusão digital se transforme em um instrumento para a mudança, e que o computador não seja simplesmente mais um aparelho eletrônico que visa a maior aceitação do estilo colonizador americano de vida.
Assim, não deve haver vínculos entre a cibercultura - tão cheia de esperanças de construção de conhecimentos que muito auxiliarão no progresso dos países, principalmente os que estão em desenvolvimento - em relação à ideologia enganadora da Iluminismo, por mais que as intenções dos filósofos da época tivessem as mais nobres intenções, como acredito que Lévy teve, o fato é que os ideais iluministas de igualdade,fraternidade e liberdade serviram para justificar a dominação e exclusão capitalista das quais somos vítimas até hoje. |
Ciberespaço?
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