Escutando o Monstro
Mary O'Malley
— O que você está fazendo aqui? — pergunta você, indignado.
Ao não obter resposta, você se irrita e, mais uma vez, manda-o embora de casa. Ele não se mexe. Correndo até a cozinha, você pergunta aos outros membros da família por que o deixaram entrar. Eles lhe respondem que o monstro simplesmente apareceu. Retornando à sala, você anuncia que ligará para a polícia. O monstro não responde.
Ligando para o 190, você diz:
— Isso é uma emergência. Um monstro se mudou para minha casa. Exijo que vocês o tirem daqui.
Gentilmente, mas com firmeza, os policiais informam que isso não é trabalho deles. Você telefona para os serviços sociais, as companhias de mudanças e até mesmo para o jardim zoológico, na esperança de se ver livre do hóspede indesejado. Nada funciona. Em desespero, você pensa em contratar um pistoleiro, mas a ideia é muito repugnante.
Acreditando sempre que é o único responsável pelo que está acontecendo, você conclui que o monstro continua em sua sala porque você fez alguma coisa errada. Então sai em busca de aconselhamento psicológico. Você descreve o monstro que está em sua sala e o psicólogo o leva de volta a sua infância, descobrindo um trauma. Essa compreensão lhe traz alívio e você se liberta de boa parte de sua autocrítica. Você volta para casa com o coração leve e um sorriso nos lábios. Cheio de esperança, entra, torcendo para que o monstro tenha ido embora.
Mas não foi.
Em sua frustração, começa a ouvir o que o monstro parece estar dizendo. E se convence de que se sentirá melhor se seguir a compulsão. Sem pensar muito, você mergulha nela, acreditando em suas promessas de paz e bem-estar. O alívio que obtém é temporário, deixando em seu rastro o desconforto, a autocrítica e o desespero. Então você decide que nunca mais fará isso. E que, doravante, saberá dominar as ansiedades profundas. Você lê livros que lhe ensinam técnicas para se manter no controle. Com grande perseverança, você as aprende. Por algum tempo, parece que o monstro se foi - pois, quando você entra na sala, ele já não está lá.
Uma noite, enquanto assiste a um filme, a pilha de cobertores que está em um canto começa a se mexer. Para seu espanto, lá está o monstro. Você percebe então que, enquanto achava que tinha retomado o controle, ele estava apenas tirando um cochilo. A autocrítica e o desespero tomam conta de você, que submerge novamente em uma onda de compulsão.
Depois que a onda vai embora, você se apruma e diz a si mesmo, com grande determinação:
— Esse monstro não vai levar a melhor comigo!
Você fecha os olhos e começa a fazer afirmações poderosas, repetindo sem parar:
— Eu estou no controle de mim mesmo. Essa coisa irritante saiu de minha vida.
Você se sente mais forte ao repetir essas palavras e imagina que o monstro se evapora enquanto você fala. Corajosamente, abre os olhos. Ele ainda está lá!
Quanto mais você procura sua compulsão em busca de alívio, mais crescem o desespero e a autocrítica. Isso porque você acredita que é capaz de controlar esse monstro. Tem certeza de que todo mundo pode fazê-lo e de que só fracassou porque é fraco, teimoso e rebelde. Então começa a estudar, uma após outra, técnicas que prometem eliminar as compulsões.
A sensação de que o monstro irá embora se você fizer as coisas certas começa a devorá-lo. O desespero inunda seu ser, mas com grande força de vontade você afirma que se empenhará mais e mais e que a coisa vai funcionar. Um dia, sentimentos de mágoa e pesar começam a esmagá-lo.
Você pensa: "Todo mundo consegue se livrar dos monstros em suas salas". O que você não percebe é que a maioria não consegue, e, quando o faz, outro monstro se apossa do lugar. "Se não consigo me livrar do meu, deve haver alguma coisa errada comigo." Você então desaba no chão, inundado de lágrimas e de sentimentos de autocrítica e desesperança.
Em meio à tempestade, você escuta uma voz fraca e melodiosa:
— Pergunte por que estou aqui.
Chocado, você olha para o monstro. Nunca antes ele havia falado!
—O que você disse? — você pergunta, atónito.
— Pergunte por que estou aqui — repete o monstro.
— Não quero falar com você. Você é o inimigo. Eu não o convidei para entrar em minha casa. Você veio porque quis e não é bem-vindo — você responde. E lhe vira as costas.
— O que você tem a perder? — ele pergunta. — Nada mais funcionou. Eu não fui embora.
Em seu desespero, você compreende que isso é verdade. Recompondo-se, você se aproxima dele (coisa que nunca havia feito). Seu coração bate descontroladamente. "Esse é o inimigo, você pensa. "Que estou fazendo? Devo estar maluco. Vou ser esmagado se chegar perto." Mas seu desespero o leva a fazer isso.
Quando você se senta na cadeira em frente, a primeira coisa que nota é que o monstro tem um olhar gentil.
— Você tem lindos olhos — diz você. — E eles estão brilhando com riso e alegria. Como nunca notei isso?
— Porque você me transformou no inimigo — diz ele com sua voz melodiosa. — Eu não sou seu inimigo. Na verdade, vim das profundezas de seu ser para despertá-lo, não para perturbá-lo, embora sua mente pense isso. Não estou aqui para machucá-lo. Sou seu aliado. Ponho a nu as antigas crenças que você tem sobre si mesmo e que o mantêm distante de seus anseios. Se souber o que está transtornando sua vida, enxergará o caminho de volta a si mesmo.
Em algum canto de seu ser, você sabe que o que ele diz é verdade. Em vez de fugir, passa a escutar, e seu coração começa a se enternecer. A alegria percorre seu corpo e você sente curiosidade a respeito do monstro, em vez de reagir a ele.
— Você é mesmo meu amigo — diz você. Os olhos sorridentes do monstro respondem que sim. — E está esperando há muito tempo que eu preste atenção no que tem a dizer.
Com um suspiro, ele concorda.
E você se dá conta de que, cada vez que aparece, ele lhe faz revelações importantes para seu processo de cura. Mesmo assim, de vez em quando, o medo e a perplexidade ainda o dominam. No entanto, você percebe a bondade nos olhos do velho inimigo e, novamente, presta atenção a ele.
Ele diz uma coisa importante: a vida é sua! O que você é inclui a luz e a escuridão; a escuridão é o instrumento do despertar. Se entender isso, ficará evidente que sua vida — qualquer vida — é valiosa. E a segurança pela qual anseia estará presente quando olhar para si mesmo com curiosidade e benevolência.
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Trecho extraído do Livro: Um impulso Irresistivel, págs 84-88
UM IMPULSO IRRESISTIVEL: UMA NOVA ABORDAGEM PARA O TRATAMENTO DAS COMPULSOES
Mary O'Malley
TÍTULO: UM IMPULSO IRRESISTIVEL: UMA NOVA ABORDAGEM PARA O TRATAMENTO DAS COMPULSOES
TÍTULO ORIGINAL: GIFT OF OUR COMPULSIONS, THE
ISBN: 9788506051382
IDIOMA: Português.
ENCADERNAÇÃO: Brochura | Formato: 13,5 x 20,5 | 424 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2004
ANO EDIÇÃO: 2008
AUTOR: Mary O'Malley
TRADUTOR: Gustavo Mesquita | Ana Carolina Mesquita
Editora: MelhoramentosRESENHA
De certa maneira, somos todos compulsivos. Nossas lutas envolvem exageros com trabalho, comida, álcool ou drogas.
Quando percebemos que somos compulsivos, nossa principal reação, geralmente, é tentar controlar certos comportamentos, mas, quando tentamos controlar as compulsões, elas passam a nos controlar. Se conseguimos conter uma, outra sempre toma seu lugar.No decorrer das três últimas décadas, Mary O’Malley desenvolveu uma abordagem revolucionária para o tratamento de compulsões. Ela gentilmente nos convida a sermos curiosos em relação às compulsões, a nos engajarmos com elas e a fazermos a nós mesmos perguntas que podem ajudar a entender nosso comportamento. A autora mostra como a cura duradoura pode advir da curiosidade e do perdão, em lugar do controle e da vergonha. As compulsões se transformam então em professoras. Este é um livro repleto de novas perspectivas e técnicas simples, ao alcance de qualquer um.
