"Insentimental"
.
...não se envolve com ninguém para não se desiludir... também nunca foi muito ligado aos sentimentos, é simpático mas não sente muito...
--Eu percebo-o... no fundo de que vale tentar? Criamos algum tipo de sentimento e deixamos cair uma qualquer barreira para alargar essa sensação, podemos criar outro tipo de barreiras com isso, mas se um dia essas caem então temos o quê? De que vale tentar para depois voltar ao mesmo sítio mas ter sido uma montanha russa de acontecimentos e acabarmos talvez magoados, feridos ou até por vezes pisados... para quê tentar?
Sendo assim não há miséria porque não há sentimento algum, não se sente falta do que nunca se teve, ou melhor não se sente falta se não se sabe sequer o que é a saudade...
"Mais vale sofrer quando se tem que sofrer e aprender com isso que viver passivamente"
--E se aprendermos as coisas erradas? E se a conclusão que tiramos é que "sofrer quando se tem que sofrer" é sofrer demais? E se se preferir não sofrer de todo? Passar a vida na passividade é não convidar outros sentimentos incontrolados, sentimentos indesejados, o custo disso parece pequeno quando não se provam os lados positivos desse "sentimento sacrificado"...
"Isso é simplesmente uma defesa... e uma burrice... mais tarde arrepende-se de não ter vivido tudo ao máximo... acaba sempre por se retrair por não experimentar as coisas... não tem lógica e ponto final"
--Dizer que certos sentimentos são sobrevalorizados e optar por uma vida livre desses é uma opção em mil, optar não se expor e sofrer as consequências...
"Isso é medo..."
--Ser frio, não insensível, mas sem muita aptidão a sentir, é uma forma de sentir por si só: a ausência de cor é uma cor por si só... e ter a necessidade de não sentir uma coisa que pode ser boa, para não sentir várias más, que podem ou não ser piores, é uma escolha e não uma defesa e mesmo sendo uma defesa não é medo, é a maneira de reagir às mudanças e diferenças na nossa vida...
"Porque está a pensar sempre que vão haver consequências más... e se forem boas? Nunca vai saber... não arrisca... é cobardia"
--É cobardia ter a coragem para tomar essa decisão? É preciso ter coragem para deixar de sentir...
"Não"
--É preciso coragem para ter essa ideia, desligar algumas ligações emocionais para o bem mental...
"Coragem é arriscar, é não ter a certeza das consequências mas mesmo assim tentar... não rejeitar por medo do que poderá acontecer... cobardia é não tomar nenhuma decisão"
--Coragem é arriscar, isso mesmo, mas em qualquer decisão seja ela "pró" ou "contra-amor" ou outra situação qualquer...
"Nisto ou se arrisca ou não... não existe não tomar decisão"
--Mas arriscar não ter sentimentos para "ver o que isto dá" não é arriscar? Arriscar ficar só não é arriscar? Arriscar tentar ser feliz com menos sentimentos não é arriscar?
"Para mim não... porque já sabes os resultados.. é seguro...completamente desligado de uma relação é impossível ser feliz...
--Ser feliz é sentir-se bem consigo e completo... eu posso optar por amar e ser infeliz porque não tenho ninguém para amar e optar por não amar e ser feliz porque doutra maneira me completo.
"Nunca seria feliz se nunca mais tivesse alguém... nem que fosse temporariamente..."
--Se o amor te morde na mão sempre que o alimentas vais continuar a ir lá? Sempre? Até ao fim? Ou tomas a opção de deixar de o ver?
--Não estás com ninguém de momento pois não?
"Não"
--E como te sentes? Sozinha?
"Eu estou bem... mas não me vou desligar."
--E se este sentimento de bem-estar permanecesse para sempre; ias fazer alguma coisa para alterar isso?
"As coisas acontecem eu nunca faço por alterar nada..."
--Neste momento sentes-te bem, e por isso permaneces assim... se este sentimento se mantivesse constante para sempre ias optar por mudar? Não... mesmo porque é constante, isso não vai acontecer, mas se isso acontecesse era assim que agirias...
"Se acontecer acontece... se não na boa... também estou bem comigo mesma..."
--Acabaste de dar razão...
"Precisamos sempre de alguém, não somos eremitas"
--Mas para isso é que serve o distanciamento, o distanciamento permite essa permanência... daqui a uns tempos pode tudo mudar mas se o distanciamento permite a permanência deste sentimento de bem-estar, mesmo sem ninguém, então é uma opção legítima...
Concordando ou não com o "insentimental" a verdade é que as decisões pesam cada vez mais e a passividade toma cada vez mais conta de nós, porque os sentimentos atraiçoam ou porque já não vale a pena continuar a lutar, de qualquer forma há sempre o outro lado da moeda:
E se decidirmos amar há que ter em conta o seguinte:
Primeiro é preciso amar-nos a nós próprios só mesmo para SABER o que isso é.
Depois deixar que nos amem para SENTIR o que isso é.
Para depois, se for possível, poder amar, e fazê-lo sentindo que o sabemos fazer… e que é bom sentir isso...