O céu de Céu Marques
“Céu, o seu teste deu positivo!” Essa foi a resposta que Céu Marques recebeu após ter passado dois meses com broncopneumonia, doença que a fez chegar aos desumanos 27 quilos e despertou a necessidade dos exames de HIV.
O vírus da imunodeficiência humana (HIV - Human Immunodeficiency Virus) destrói os linfócitos – células que defendem o nosso organismo – tornando o corpo vulnerável a outras infecções e doenças oportunistas, que recebem essa designação por surgirem nos momentos em que o sistema imunológico está debilitado. Em outras palavras, esse vírus deixa a imunidade do corpo deficiente, fazendo com que doenças como a pneumonia e o sarcoma de kaposi se aproveitem da debilidade das defesas do organismo para causar danos que, em um indivíduo em estado normal, não conseguiriam.
Jornalista, labuta na Rádio Nacional de Angola, mãe de quatro filhas, detentora da guarda de dois órfãos de guerra e soropositiva. “Caiu-me o céu”, pensou Marques quando a médica lhe passava o triste diagnóstico. E o seu céu apenas começava a desabar.
Nimbostratos e cumulonimbos se formaram com uma intensidade elevada à enésima potência quando Céu levou suas filhas para fazerem o teste. A caçula, com nove anos de idade, estava infectada. “O mais doloroso para uma mãe é saber que tem uma filha soropositiva. Só Deus sabe o que está dentro de mim. Um sentimento de culpa por saber que foi transmitido no meu ventre, mas convicta que não foi intencional, porque não sabia da minha condição, nem a do meu companheiro”.
A AIDS não é congênita. É uma infecção, geralmente, causada por secreções genitais ou sangue. Há algum tempo, receber o diagnóstico dessa doença, conhecida como AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrom) ou SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), significava a indefectível assinatura do atestado de óbito.
Mesmo imaginando a força do choque, Céu chamou o seu ex-marido para conversar e propor que ele fizesse o teste. Mas o contragolpe veio através de uma esquiva egoísta, sórdida e desprezível. “Agora que você já sabe é só fazer o tratamento”, disse ele. O pai de sua filha caçula (as outras eram frutos de um relacionamento anterior) nunca tinha contado nada e já fazia tratamento contra a AIDS há alguns anos.
De uma união que durou 11 anos, a separação súbita, e até então incompreensível para Céu, aconteceu após a morte de um outro filho com diagnóstico indeterminado, fazendo-a pensar: “Seria SIDA?”.
Desesperada, Céu recorreu a amigos e recebeu apoio e coragem para erguer a cabeça e buscar - talvez no além - forças e fôlego para a - quase impossível – batalha ininterrupta de assoprar e afastar a tempestade que paira sob sua abóbada celeste.
Céu indaga: “Diga-me com sinceridade, o que merece um pai que contamina o seu filho e quase o deixa morrer? Esta pergunta tem me martelado muito a cabeça, sem, contudo, encontrar resposta”.
Céu Marques dá uma prova de que o céu é mesmo o “espaço ilimitado onde se movem os astros” e a “região, segundo a crença religiosa, habitada por Deus, os anjos e as almas dos justos”, pois ela não se acha no direito de odiar e condenar o seu ex-companheiro. “Quem sou eu para condená-lo? Mas é uma dor muito grande que carrego sempre que imagino o quanto ele foi cruel até com a própria filha”.
E afirma:
“O que me levou a assumir publicamente a minha condição é que, ao darmos a cara, ajudamos a todos que se encontram na nossa situação”.
“Sempre acreditei na SIDA, porque é uma doença que existe, e tive dois irmãos que morreram com ela, além de outras pessoas queridas”.
“O mais importante para mim é poder continuar a contar com as pessoas que me estenderam a mão na primeira hora, fazer tudo que estiver ao meu alcance para que nunca faltem medicamentos e alimentação, principalmente para a minha filha soropositiva, e que Deus continue a me dar força e coragem”.
Atualmente, graças aos avanços tecnológicos e às pesquisas, baixou o nível de periculosidade da SIDA, deixando de ser uma doença que sentencia a morte para ser considerada uma enfermidade crônica. Ou seja, uma pessoa soropositava – infectada pela doença – pode viver por um bom tempo sem apresentar nenhum sintoma.
A consciência e o coração justo de Céu Marques estão ajudando a clarear o seu nebuloso ambiente celeste e encontrar um caminho mais sereno para ela, seus filhos e as pessoas que a cercam. Mas não nos enganemos, o rumo ainda é difícil e provido de névoas. Porém, com a eminente certeza de que o céu pode esperar.
O escorpião e a vida (divagando)
Luís Pereira
Uma talagada no drink e alguns tragos no cigarro: a vida.
Sei que a vida toda fui um pouco avoado. Às vezes até demais. Mesmo consciente disso, sempre gostei de manter a cabeça aberta. Sinto-me bem desbravando horizontes, sonhando com situações impossíveis, fantasiando, deslumbrando.
A imaginação pode ser como a ficção científica, capaz de nos fazer viajar no tempo, ir para outros planetas e mundos, encontrar com seres extraterrestres, conversar com robôs e ressuscitar dinossauros.
Em um dos sonhos mais fascinantes, poderia ter me tornado um astronauta, viajado até a Lua, passado meses em uma estação espacial e ter sido o primeiro homem a pisar em Marte - e, ainda assim, não teria ido tão longe.
Mas em que ponto os pés devem estar no chão, pisando no mesmo chão onde pés suaram e pés sangraram? Em que ponto os pés devem estar pisando no mesmo chão onde pés foram explodidos e mutilados por minas colocadas por homens com os mesmos pés que os pés que ali pisaram?
No ponto em que a “realidade” da sociedade tenta nos domar, nos usar como tijolos na parede de uma construção sem pé nem cabeça, que ninguém sabe onde vai dar e nem como vai ficar – uma verdadeira obra faraônica a Deus dará.
Já criei teorias sobre o ser humano e cheguei a classificá-lo de egoísta, acreditando que a fonte inesgotável da sua existência fosse o próprio ego. Hoje, por vezes me pego a pensar que, com essa teoria, superestimei a raça, lhe atribuí mais inteligência e dei mais crédito a 10% de cérebro. Uma expressão comentada por uma amiga não sai da cabeça: “animal homem”.
Assusta-me a falta de capacidade de percepção dos homens, como notar que somos, de certa forma, todos iguais, filhos do mesmo planeta e que habitamos o mesmo espaço. Entretanto, compreender também que, em outro ponto de vista, somos diferentes – no que diz respeito ao interior, à peculiaridade, aos desejos, gostos e vontades.
No jogo da vida, esse paradoxo nos leva a uma sinuca de bico: somos irmãos, vivemos no mesmo planeta, mas temos diferentes facetas. E, dessa forma, através de contra-sensos criamos impasses, como Deus ou Alá? Socialista ou capitalista? Libertino ou puro? Agitado ou tranqüilo? Noturno ou diurno? Sonhador ou realista?
Na verdade, a nossa escolha pouco importa, porque estamos vivendo dentro de moldes e rótulos que a sociedade insiste em nos impor, mesmo tendo criado muitas de suas certezas a partir de crenças. Perdemos a essência de simplesmente viver, pois não temos a oportunidade de experimentar e saborear uma vida desprovida de regras e valores.
E não a temos por nossa própria incompetência como animais. Animais que, livres ou conduzidos por leis, são incapazes de respeitar e amar o próximo.
Terça-feira, 06 de Fevereiro de 2007
Velhas Focas batendo bocas e bolas para bater as botas do Jornalismo Esportivo
Excesso de publicidade, jabá, discussões exageradas, fanatismo, parcialidade, abuso do uso de ganchos para segurar telespectadores, barrigas e preconceitos. Onde vai parar o jornalismo esportivo?
Um dos programas de esporte de maior audiência da TV aberta é o Debate Bola, do apresentador Milton Neves. O programa é sensacionalista, cheio de discussões escalafobéticas e, se não me falha a memória, há algum tempo (e isso porque há muito me recuso a assistir a tal letargia jornalística) exibia propagandas de cerveja. Na minha concepção é absolutamente inaceitável um programa esportivo, que deveria estar associado a uma imagem saudável, fazer merchandising de bebida alcoólica.
Uma vez convidado para o programa de televisão Mesa Redonda Futebol Debate, Milton Neves, ao entrar em uma discussão com Roberto Avallone - então âncora do programa -, acusou um integrante da mesa de ser homossexual. O preconceito é inadmissível em qualquer condição em que se faz presente. Como representar o quão sórdido é perante uma política de ética jornalística?
O jornalismo esportivo, mais precisamente de futebol, está cheio de jornalistas partidários fanáticos e inescrupulosos. Assim como os já citados, temos Chico Lang, um corintiano doente que prefere dar barrigadas ao zelar pela qualidade de suas informações. Quantas vezes não o ouvimos falar de furos, que o Corinthians está contratando tal jogador, que vai fazer e acontecer e, no final das contas, nada. Outro que segue a mesma linha é o diretor de teatro Cacá Rosset, que caiu de pára-quedas no jornalismo esportivo e trouxe consigo suas bombas que não passam de traques sem pólvoras, ou seja, sem conteúdo.
A verdade é que esses programas estão ficando cada vez mais parecidos com shows de entretenimento de baixa qualidade, e algumas discussões mais parecidas com brigas de teste de fidelidade. Os protagonistas desse circo em que está se transformando o jornalismo esportivo devem se conscientizar de que os jornais não existem para adoçar a realidade, mas para mostrá-la à opinião pública de um ponto de vista crítico e sensato.
Entretanto, é importante lembrar que, no meio de tantos maus profissionais, ainda existem os bons, que juntos tentam salvar a profissão de jornalista esportivo, respeitando as três categorias em que, grosso modo, pode ser dividida a ética: aristotélica, “por valorizar a harmonia entre a moralidade e a natureza humana”; a de Kant, que traz o “conceito de dever, o ponto central da moralidade”; e, por fim, a do utilitarismo, em que “o objetivo da moral é o de proporcionar o máximo de felicidade ao maior número de pessoas”.
Sinto uma grande satisfação em ouvir a sátira aos merchandisings que faz o jornalista Juca Kfouri, quando pára o seu programa CBN Esporte Clube para anunciar a “Água da Bica” e o “Chá de Cadeira”.
Dessa forma, torço para que os focas do jornalismo esportivo consigam aposentar essa velha guarda que se esqueceu dos princípios da profissão, que enalteçam Armando Nogueira, Kfouri, José Trajano e tantos outros bons exemplos e que, aos poucos, consigam ressuscitar essa vertente do jornalismo que se encontra em estado de putrefação intelectual.
Luís Pereira
Sinal amarelo: acelere! Encontro dificuldades em compreender os impulsos humanos nos mais variados casos. Em determinadas situações, então, como no trânsito automotivo, essas dificuldades tomam proporções ainda maiores, como se a minha apreensão deparasse com uma estrada movimentada e o tempo chuvoso - nuvens carregadas e raios reluzentes -, cheia de caminhões assustadores e curvas cotoveladas.
No trânsito, somos expostos diariamente a uma complicada prova de consciência do valor humano, em que, ao invés do famoso tête-à-tête, olho no olho, carcaças de ferro substituem o contato visual e carnal, maculando a percepção da existência de vida por detrás das ferragens.
Cria-se, então, uma situação estrambótica, pois as pessoas não agem como normalmente fariam em um contato pessoal, procedendo, em instantes, como se lidassem apenas com máquinas.
Aliado a isso, diferentes vontades, necessidades e destrezas se encontram a cada esquina, dificultando o processo e causando choques – não necessariamente físicos, porém energéticos - em todas as desavenças.
No resultado final da chamada Operação Verão, realizada pela Polícia Rodoviária Federal entre os dias 15 de dezembro de 2006 e 4 de março de 2007, foram registradas mais de 1.400 mortes em 27 mil acidentes nas rodovias do país. Além das mortes, 17 mil pessoas ficaram feridas e foi calculado um prejuízo de R$ 1,5 bilhão com os acidentes.
É evidente que a situação do país é complicada, e esse fato torna-se mais caótico devido às condições pífias das estradas, dos carros deteriorados e das situações adversas de um modo geral.
Entretanto, esses números trágicos poderiam ser minimizados se os condutores fossem mais conscientes e agissem com menos leviandade.
Terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
O maior de todos os meus tempos
Luís Pereira
Um metro e 69 centímetros de habilidade, rapidez, arranque poderoso, impulsão vigorosa, visão de jogo, chute forte, classe, artilharia, audácia, autoconfiança, inteligência, irreverência e puro e refinado dom para o futebol.
Carinhosamente apelidado de baixinho, Romário - dentro de campo - nunca fez jus a esse apelido, demonstrando nas quatro linhas - mais precisamente da intermediária para frente - um gigantismo na arte do futebol.
Um verdadeiro mestre da grande área. Nunca um jogador soube utilizar tão bem o pequeno - e, dependendo do jogo, ainda mais reduzido - espaço que permeia a meia lua, a indefectível marca do pênalti, zagueiros sanguinários, a pequena área, um goleiro de cerca de dois metros e as três traves.
E a bola? Ah, a bola... a matéria mais desejada em campo, macia, redonda, fugaz. Como quem pratica esmerados movimentos teleguiados, ela parece estar sempre rolando caprichosamente à procura de seu mestre, que, por sua vez, quando nesse encontro de corpos, retribui com maestria, elegância e generosidade, atributos genuinamente dignos de lordes, concedidos por forças celestiais a esse craque, quando ainda acabava de sair do ventre de sua mãe.
Ele é, realmente, o cara, e eu desafio meliantes a provarem o contrário. A irreverência e a audácia poderiam ter transformado Romário num homem de língua carbonizada, mas, justamente pelo contrário, poucas foram as vezes que o baixinho se estrepou na própria alocução, vide reportagem realizada pela Rede Globo, em que, nos primórdios da carreira, profetiza os 1.000 gols, mas, também, erra ao afirmar que aposentaria aos 29 anos.
Autor de legítimas obras primas, Romário está há dois gols de alcançar a sublime marca do milésimo gol, antes atingida apenas pelo supremo - todo poderoso - rei do futebol, Pelé. Comparações guardadas às suas devidas proporções, Edson Arantes do Nascimento é, indubitavelmente, o maior de todos os tempos, afirmação inequívoca e unânime.
É certo que abaixo de Pelé - e somente abaixo - existem diversos craques que podem ser citados, como Garrincha, o gênio das pernas tortas; Johan Cruyff, holandês cerebral, de talento extraordinário; Franz Beckenbauer, jogador alemão inteligentíssimo; e tantos outros craques que cometerei a injustiça de não mencionar (até por isso prefiro parar por aqui).
Entretanto, o maior jogador que os ordinários globos oculares do autor que vos escreve pôde testemunhar é, com convicção e pequena dose apaixonada de persuasão brasileira futebolística, Romário de Souza Faria.
Sim, assisti boleiros circenses, como Maradona e Zico, porém no final de suas carreiras. Acompanhei exímios e distintos craques de diversos lugares do mundo, como o francês, eterno algoz da seleção brasileira, Zidane, o holandês Marco Van Basten, o argentino Gabriel Batistuta, o italiano Roberto Baggio (ótimas recordações) e os brasileiros Ronaldo fenômeno e Ronaldinho Gaúcho. Mas, dos jogadores excepcionais que tive a feliz oportunidade acompanhar, assistir e prestigiar jogadas e jogos memoráveis, até então nenhum ultrapassou o nível de qualidade de Romário.
Espero, todavia, que craques que ainda estão na ativa e os que ainda estão por vir possam sobrepujar as virtudes do baixinho, pois quem ganha é o esporte e os espectadores agradecem.
Ao Romário já deixo meus parabéns pelos mil gols - que, muito em breve, acontecerão - e por ter sido, até então, o maior jogador de todos os meus tempos.
A vocês, leitores do PontoJor, deixo um link para matar a saudade de inesquecíveis jogadas do baixinho. E esse outro para relembrar o histórico jogo de eliminatórias para a Copa do Mundo contra o Uruguai - uma apresentação iluminada de Romário.
Terça-feira, 20 de março de 2007
A harmônica compatibilidade entre a vitória e a derrota (até que o fanatismo prove o contrário)
Luís Pereira
São palavras que traduzem situações discrepantes, mas formam uma relação de fidelidade profunda, como irmãos inseparáveis, siameses que compartilham órgãos vitais, numa ligação de resolução indivisível.
A vitória e a derrota. Uma não existe sem a outra – óbvia, feliz e triste constatação. Afinidade sempre controversa, dúbia, incerta, imprecisa, entretanto fundamental.
Aquele calor da disputa que chega ao último minuto da decisão, até a fatídica cena: a apreensão derradeira, a angústia final, a fração de segundo muda, vazia e, de repente, o furor da vitória e o silêncio e a dor da derrota.
O grito de felicidade em profundo contraste com a lamúria da derrota, produzindo perfeita harmonia no cenário da disputa.
Ditosos aqueles que triunfaram e melancólicos aqueles que sucumbiram. No entanto, a convicção de que ambos, a partir de um esquema uniforme, geraram um episódio de beleza intrínseca e inesquecível, pois um não seria possível sem o outro.
Escrevo esse texto em homenagem aos campeões e vice-campeões dos campeonatos estaduais de futebol de 2007, principalmente para ratificar a importância da luta – mesmo que perecida – dos derrotados. Mas confesso que esse texto só se fez possível devido à ausência do Corinthians no litígio final, pois, nesse caso, optaria por parafrasear o versátil e fecundo compositor Lamartine Babo no hino do campeão carioca, Flamengo: “vencer, vencer, vencer”.
Terça-feira, Maio 08, 2007
O caos proporcionando democracia ou vice-versa
Luís Pereira
Sábias palavras foram proferidas nesse espaço sobre o caos aéreo, como quando o nosso estimado colega Jonny Motherfuckinman atribuiu o problema – principalmente - à diminuta elite, justificando que as filas que verdadeiramente o preocupam, assim como a maioria da população, estão nos metrôs, nos ônibus ou nos bancos. Ótima analogia, sempre com o tom sarcástico que aqui o caracteriza.
Levando em consideração outro ponto de vista, alguns números veiculados pela revista Veja dessa semana - na matéria que tenta levantar soluções para o caos aéreo – me intrigam, fazendo com que passe pela minha cabeça uma descompromissada reflexão sobre o mesmo anticosmos:
Segundo a revista - com fontes imputadas à Anac, Infraero, TAM, Gol e Varig - o preço da passagem vem caindo de ano em ano e os passageiros, da mesma forma, aumentando em quantidade. Assim, fica parecendo que o serviço aéreo está tão ruim, mas tão ruim, que as empresas se encontram na obrigação de diminuir os custos para atrair mais gente, evitando prejuízos e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para pessoas de menor poder aquisitivo.
Hoje em dia não é mais nenhum absurdo comparar preços de passagens de ônibus com preços de passagens de avião. E, se não me falha a memória, já vi casos em que essa diferença não ultrapassava 30 reais. Ou seja, o que não dá para comparar é o custo-benefício.
Portanto, não me espanta os aeroportos estarem cada vez mais com cara de rodoviária. Veja bem, cara de rodoviária (Há muito não viajo de ônibus, mas toda vez que viajei embarquei pontualmente). Quando me refiro na cada vez mais evidente semelhança de um aeroporto a uma rodoviária, faço uma alusão apenas à aparência mais humilde. Isso porque, quando eu era criança e viajava de avião com os meus pais, lembro-me que só o fato de ter que fazer uma viagem como esta já exigia certa etiqueta, como estar limpo e impecavelmente arrumado. E conviver nesse meio significava encontrar com gente chique e famosa.
Engraçado é que, com os atrasos nos aeroportos, as pessoas – ditas polidas e educadas - se esquecem por instantes da educação e protagonizam momentos dignos de uma feira em Acari. E os que ainda preferem se esticar em qualquer canto para evitar a fadiga, ficam parecendo os cosmopolitas sem endereço – estirpe comum nas rodoviárias. E a verdade é que viajar de avião não é mais exclusividade de pessoas ricas ou daquelas que viajam uma vez na vida e outra na morte.
Agora, o mais curioso é que nessa equação não se sabe ao certo a causa e o efeito e se a ordem dos fatores altera o resultado. Se é o caos que está proporcionando a democracia ou se é a democracia que está proporcionando o caos. Ou seja, um sistema tão ruim e bagunçado que proporciona o acesso, ou um acesso tão grande proporcionado por um sistema ruim que proporciona um sistema pior ainda?
Terça-feira, Julho 10, 2007
Anta após anta
Mais uma vez, nesse espaço, me vejo na obrigação de começar um texto com um ditado popular: errar é humano. Persistir no erro é burrice.
Não que eu acredite que provérbios constituem máximas incontestáveis. Claro que, na vida, é sempre bom carregar consigo certos axiomas. Mas, nesse caso, o próprio adágio possui diferentes versões na boca do povo, como: errar é humano. Persistir no erro é mais humano ainda. Ou, até mesmo, o famoso: errar é humano. Persistir no erro é americano.
Entretanto, a verdade é que, mesmo sabendo que opinião em massa é burra e que uma máxima breve popular pode não ser absoluta e concludente, é sempre bom parar e refletir sobre elas. Hoje mesmo, crio uma nova ramificação para o anexim do erro: errar é humano. Persistir no erro é inglês.
Justifico minha inspiração "luso-britânica" devido às infelizes declarações do novo premiê da Inglaterra, Gordon Brown. Acompanhado de jornalistas em seu avião rumo à sua primeira visita aos americanos do norte, Brown afirmou que o “mundo está em dívida com os EUA pela liderança na luta contra o terrorismo”.
E mais: declarou ser um grande admirador do espírito americano e, como primeiro-ministro, pretende estreitar ainda mais a relação da Inglaterra com os EUA.
Segundo nota publicada no jornal Folha de São Paulo, “Brown pode ter surpreendido muitos analistas, que esperavam do premiê uma postura diferente da de Tony Blair, que sempre concordava com George W. Bush”.
E num discurso tão burro quanto demagogo, Brown disparou: “neste século, caiu sobre os EUA o papel principal. Eles têm mostrado, por meio da valentia de seu povo desde o 11 de Setembro, que, enquanto prédios podem ser destruídos, valores são indestrutíveis”.
Para não ficar só na crítica, procuro lembrar que o terrorismo não é um problema isolado, como uma briga fictícia entre bonzinhos e vilões. É um problema complexo em que, de fato e como visto, a solução não é a intervenção abrupta de culturas e muito menos a dizimação de raças.
Só espero que erros como esse não persistam em ocorrer.
Mano negro clandestino
Luís Pereira
Fazia um bom tempo que eu não ía ao estádio ver o meu Corinthians jogar. Também pudera, além da fase medíocre, da última vez que havia comparecido tive a minha carteira furtada por um gatuno qualquer, que aproveitara da minha situação desfavorável – estava acompanhado da minha noiva, portanto, na hora da entrada, no meio muvuca, a preocupação era mais com ela do que com o bolso.
Bom, enfim, nesse jogo, que foi o último clássico contra o Palmeiras, fiquei sem a carteira, sem o ingresso – que estava dentro da carteira – e sem entrar no jogo, que dos males talvez tenha sido o menor, depois da fatídica derrota.
Naturalmente fiquei um tempo bodeado de estádio, mas, depois de uma pequena insistência de um grande bróder corinthiano, resolvi voltar contra o Santos. Feliz decisão: domingo de sol, Pacaembu tranquilo e um Corinthians surpreendentemente vencedor. Tão surpreendente que no momento do primeiro gol – aliás um golaço do Nilton – demorou uns dois segundos para cair a ficha da torcida e o grito ser ecoado.
Entretanto, o que mais me intrigou, mais uma vez, foi um fato que ocorreu antes do jogo. Como de praxe, chegando ao estádio é hora de tomar aquela cervejinha. No piscinão logo ouvi: “gelada, gelada”? Quando me virei, vi um negão, bem preto mesmo, alto e magro, com um sotaque diferente. Ele estava sentado com um isopor entre as pernas, cheio de cerveja e gelo. Perguntei: quanto é? “Dois reais”, respondeu ele. Perfeito, paguei, peguei minha breja e sentei ao lado dele. Curioso com aquela situação, lancei:
E aí mano, é de onde?
Sou de Gana.
Legal! Como você veio parar aqui?
De navio, clandestino.
Atitude mano! Tá conseguindo se virar bem?
Aqui pelo menos eu consigo fazer isso. Lá é mais difícil.
Tá aí há quanto tempo?
4 anos.
Mais uns cinco minutos de conversa fiada sobre futebol e resolvi sair andando:
Falou Gana, boa sorte aí.
Valeu!
Fomos, eu e meu bróder, almoçar o famoso mezzo calabra mezzo pernil antes do jogo. Paramos na barraquinha de um tiozinho que preparou dois no capricho de sempre. Tomamos mais umas duas geladas e resolvemos entrar no estádio. No caminho econtramos o Gana de novo, mas dessa vez desolado e sem o seu isopor.
Qual foi Gana, o que aconteceu?
Os caras da prefeitura me tomaram.
Foda hein mano!!!
E com um dos olhares mais vazios que já presenciei na minha vida, olhando para frente, Gana falou:
Já tinha pouco, agora não tenho nada.
Como um baque, naquele momento nada tive para falar. Assim como o seu olhar, também fiquei vazio, mudo e me senti um nada. Apenas permaneci ao seu lado por alguns minutos. O jogo estava para começar e, mais uma vez, parti desejando boa sorte para ele, ainda sem saber o que devia ter falado.
Quando, aparentemente, voltei do baque, imaginei aquela vida como se fosse um filme, daqueles que só passam dentro da mente, e passei a indagar:
- a pessoa nasce num lugar fudido e, sem opção, vai tentar a vida em outro lugar fudido. Ainda existe motivação?
- Apesar de formarmos um lugar de pobres e fudidos, não devíamos nos orgulhar de ser um país de todas as raças e receber mais um necessitado como nosso legítimo irmão?
- o que a prefeitura ganha com isso? Mais um ladrão?
Terça-feira, Setembro 04, 2007
Uma crônica quase perdida no tempo
Luís Pereira
Muito do meu gosto pela literatura vem do meu pai, que sempre foi um amante da arte de compor escritos, das prosas e dos versos. Poucos sabem, mas meu pai também é um grande escritor, embora acredito que nem ele ainda tenha, de fato, descoberto isso. O curso da vida - e o indispensável dinheiro - o fez desistir de sua formação (jornalista) para seguir uma trajetória empresarial. Todavia, eu acredito e tenho fé que, assim que ele conseguir a tão sonhada aposentadoria, sua carreira literária há de progredir.
Sei que meu pai já escreveu muita coisa boa que ele nunca publicou, mas não é um texto perdido dele que pretendo ressuscitar hoje aqui no PontoJor, e, sim, uma crônica do Rubem Braga que ele me apresentou.
Depois que montei o coletivo PontoJor com meus amigos, meu pai insistiu muito para eu ler Rubem Braga. Eu já sabia da existência desse notável cronista, mas confesso que ainda não conhecia sua obra. Papai tratou de me presentear com livros do autor e, quando falávamos sobre o assunto, assim ele dizia: “meu filho, leia Rubem Braga, veja a técnica dele de escrever crônicas, eu quero que você pegue a técnica”. (risos)
Eu gostava muito dessa influência e achava muito engraçado o jeito dele falar. Tratei de dissecar os livros que acabara de ganhar e, assim como meu velho, virei um grande fã do Rubem. Mas, entre a sua obra, havia uma crônica em especial que papai sempre comentava e que era impossível de achar em seus livros: Um homem feito de pau.
Meu pai falava que tinha essa crônica em um recorte de jornal guardada em algum lugar da casa. O problema é que ele sempre teve a mania de guardar um monte de coisa. Só para vocês terem uma idéia, ele tem os jornais dos dias em que eu e meus irmãos nascemos. Seria uma tarefa um tanto complicada encontrar esse pedacinho de jornal em meio a tanta parafernalha. Resolvemos apelar para o oráculo pós-moderno, mais conhecido como Google. Procuramos, procuramos e nada! Nem essa quase-divindade da consulta tinha o que procurávamos.
Bom, acabamos, por ora, desistindo. Passado um tempo, papai me chamou, tirou uma caixa velha do armário e, dentro dessa caixa, um recorte de jornal de mais ou menos 20X10 já amarelado, mas ainda em bom estado. Eu, instintivamente, já sabia do que se tratava. E era mesmo a crônica do Rubem Braga, que ele tinha achado num final de semana em que ficou em casa sem muito o que fazer.
E com uma entonação toda interpretativa, papai leu pela primeira vez Um homem feito de pau para mim. Fato que já se repetiu algumas vezes depois desse episódio. A crônica é fantástica! De uma sensibilidade incrível e comovente. É extraordinário como Rubem Braga consegue externar seus sentimentos com tanta criatividade, delicadeza e verossímil propriedade.
Agora tenho o grande prazer de compartilhar essa admirável crônica com vocês e, presunçosamente, ressuscitá-la por meio da esfera digital.
Um homem feito de pau
Rubem Braga
Deu um vento áspero, cheio de poeira e folhas secas; mas depois já de tardinha, a rosa dos ventos girou, e então veio do sul um ar frio e úmido, que fez bem ao nosso focinho; desceu uma chuva mansa.
Mas nesse dia aconteceu muita coisa; e para não pensar, e para não sentir, andei longamente pela rua sob a chuva fina. Eu me sentia como feito de pau; um homem mecânico andando, lentamente andando, andando como qualquer homem andando em qualquer rua. Um homem maciço, sem nenhum espaço dentro dele para coração, memória, nem desespero: todo de pau.
Um homem de pau, de cara de pau, boca de pau, olhos de pau. Podem rir dele, serrá-lo em tábuas, parti-lo em achas de lenha, pintá-lo, queimá-lo, fazer dele mesa, cabide, canoa. Podem fazer dele tudo, menos fazê-lo sofrer.
Ele anda nas ruas neutras, dobra a indiferente esquina, ele caminha sem pressa. Sabe que em alguma parte há um relógio batendo os segundos, inexorável.
Sabe que vai acontecer alguma coisa desesperadamente triste, que ele não pode evitar. Por isso, para não sofrer, ele se fez de pau. Sabe o que vai acontecer; sabe mas não pensa nisso, não sente.
Apenas vagamente, muito vagamente, como um pedaço de pau, com a seiva seca, mas que ainda tivesse uma distante consciência de árvore – muito vagamente sente que a chuva fina lhe faz bem, um inútil bem físico, a umidade. Água. Mas seus olhos estão secos e, por dentro, ele está seco, bruto, morto. Andando na rua, andando.