JOÃO RASTEIRO (Coimbra - Portugal, 1965). Poeta e ensaísta. É sócio da Associação Portuguesa de Escritores, membro do Conselho de Redacção da Revista Oficina de Poesia e do Conselho Editorial da revista brasileira Confraria do Vento. Tem poemas publicados em várias Revistas e Antologias em Portugal, Brasil, Colômbia, Itália e Espanha e possui poemas traduzidos para o Espanhol, Italiano, Inglês, Francês e Finlandês. Publicou os livros de poesia, A Respiração das Vértebras (Sagesse, 2001), No Centro do Arco (Palimage, 2003), Os Cílios Maternos (Palimage, 2005) e O Búzio de Istambul (Palimage, 2008). Obteve vários prémios, nomeadamente a Segnalazione di Merito no Concurso Internacionale de Poesia: Publio Virgilio Marone(Itália-2003) e o 1º prémio no Concurso de Poesia e Conto: Cinco Povos Cinco Nações, 2004. Em 2005 integrou a antologia: “Cânticos da Fronteira/Cánticos de la Frontera (Trilce Ediciones – Salamanca). Em 2007 foi um dos poetas participantes nos VI Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra, F.L.U.C. - Universidade de Coimbra. Em 2007 integrou a antologia: “Transnatural” (projecto multidisciplinar que tem como tema o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra), Editora Artez. Em 2008 participou na exposição e antologia “O Reverso do Olhar” – exposição internacional do surrealismo actual. Em 2009 integrará a antologia: “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética”, organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva e que engloba poéticas de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique São Tomé e Príncipe, Timor-leste, Goa, Macau e Galiza. Em 2009 a revista “Arquitrave” da Colômbia editará um número especial dedicado à “Nova Poesia Portuguesa”, do qual será o responsável. Em 2001 englobou um conjunto de pessoas de várias áreas artísticas, nomeadamente a poesia, música, dança, pintura, teatro, etc., em BELGAIS (Centro para o estudo das artes, dirigido pela pianista Maria João Pires) trabalhando com crianças das aldeias limítrofes. Prepara-se para editar um novo livro, que se chamará: “Diacrítico”.Vive e trabalha em Coimbra. Mantém em irrupção o fulgor do blogue: NO CENTRO do ARCO
POEMAS:
Se a boca virar faca cortará os lábios
Há poucos anjos que chorem muitos poucos lobos que uivem cegos como a flecha. Acenderam-se as sombras. É o Inverno fervendo o poema ao desconcerto geográfico das pétalas do gelo. E enquanto a terra molda um cordeiro para alimentar as ervas a língua com suas cabeças prodigiosas, pulcras e cruéis desperta os fantasmas brancos dos inocentes animais da melancolia os que sucumbem iludidos pelo cheiro das sílabas incendiárias harmoniosas como as virgens flores da Primavera. - Húmidas, dobradas na nuca. * Eis um tempo absolutamente bárbaro porque os embriagados demónios ou deuses das palavras trabalham ferozmente treinando os prisioneiros como arquipélagos pois os figos maduros apodrecem nos gonzos que suportam a escrita dos labirintos. Saúdo-te detrás do sol e da lua onde apenas refulgem as horríveis cores das metástases linguísticas – as raízes carnívoras dos lugares que se espalham aos corpos nativos de luz – sob aquela frágil e descomunal oração de Pavese: virá a morte e terá os teus olhos. E virá a sílaba alucinada e serás aniquilado sob a aurora. As novas idades com o fogo dentro da boca dos lírios. - Adolescentes, perversas no beijo. * Onde guardar a benévola catacrese do espigão o coração surgido como um ímpeto agachado na poética do jogo acerbo e fundo na boca que vira faca e corta os lábios no silêncio nu ó insane quimioterapia de bem querer colocar todos os sonhos no intrínseco sexo de oiro – a vida e a morte em seu rizoma sagrado – num poema inapreensível e único. Deus por deus A Eduardo Lourenço
Mas o poeta, o alucinado e incandescente poeta, revestido de sílabas – poucas – aparentando o tempo, uma breve autoridade, poeta preso nas cidades vastas, mostrando as suas habilidades perante a ânsia dos céus dentro de muralhas que devaneiam o diacrítico do mar, o exacerbado poeta, ingenuamente concebe o sussurro das pétalas de rosa azul que nunca ninguém ousou criar porque os deuses julgam-se imutáveis na luz do espelho. Os antigos trovadores invocavam as musas sob as luas Shakespeare, o pequeno e terno irmão de Deus, aquele imortal que viu a obra duplicar fantasmagoricamente no oitavo dia da criação, rogava diariamente a seu irmão, ele, o poeta da cidade, o que amplia criação à realidade, à criação urbana, renovando o mundo em suas nuas leis do circo urbano, a arena onde nos digladiamos no desejo nós, os mais altivos e singulares leões de nós mesmos, invoca-se a si próprio, deus díspar da única criação, a obra da ironia da linguagem e da melancolia do verbo, mas como sei que não aparecerá nas rotações do poema, em raro ensejo de lucidez irrompe os espaços e conceitos deita fogo a todas as suas recentes e geniais criações de pétalas de rosas azuis e galáxias de cristalina garganta. Quando as muralhas se abrirem ao mar e aos raios do sol o poeta da cidade, não se invocará omnipotente em vão e descansando entre divinos anjos e animalescos humanos contemplará a absoluta redenção do caos por si criado e cantará a devastação das lágrimas da tristeza e da alegria onde floresce o dialecto assimétrico das novas gramáticas porque a purificação do caos é tão assombrosa e excitante como o paraíso primordial de onde nos julgámos expulsos devido à linguagem da única arca de Noé que sobreviveu. Hoje, o poeta da cidade emprega artifícios e não magia tentando tornar visível a efémera ostentação de si mesmo no manto doirado da poesia – esse trama em que o mundo se construiu – e repudiando Cavafis, quando este cantava os acúleos bárbaros em seus lamentos – aquela gente era uma solução – porque das guelras um anzol trepava ao céu.
A visita do amor que não virá
Acerca do lírico amor obscuro de mim o tempo acúleo cogitava a morte inclinada em contrição na geometria mais invisível ele o rosto oxidado na cegueira fincada a cítara dos acesos sexos lascados os clarões do crime nas máscaras bebendo a luz dos prodígios em bocas líquidas sementes do cordeiro de deus sangram os espinhos da ácida língua. * Não há lugares profusos nos alfabetos a paisagem dos acasos - nos corações transbordam vertiginosas superfícies as tecedeiras sobre o linho respirando inversas – o âmago do mistério da voz. * - Um dia alguém terá nos dentes lágrimas vivas.
O cântico das pragas
É das palavras * O homem está morto dentro do poema As cobras emergem do chão * o O extremo exercício da loucura
Escrevo como no princípio atrás do inóspito silêncio da faísca curvado para dentro boca fechada a que se confinam os cicios apocalíptica e múrmur em seus desvarios de garrote e mastiga-se o intrínseco silêncio que corrói esta triste e acirrada madrugada
o silêncio circunflexo apaga os nomes sorvendo a luz das glicínias até que o poeta é desmascarado pelo extremo e assombroso vocabulário – sagrado e profano como se as palavras florissem seiva e sangue e rubras filigranas na beleza física de Auschwitz. Escrevo como no princípio visceral da explosão vulcânica dos cílios e escrevo como se a única contrição superlativa fosse a sílaba muda da água porque o coração do fogo engole-nos vivos por infinitas extensões epifânicas – aí cega a boca na entrega híbrida do dialecto agora o primórdio surge elíptico no busto das cimitarras da alquimia e grafasse a morte como libérrima cascata o cristalino silêncio silvestre que engoliu Elias.
No princípio era o crime
No princípio era o crime, o crime limpo que do caos em suas bocas de virgens extraía todos os corpos da órbita coaxial e nos ímanes os corações das palavras que nos sustentam – ele fluiu, originando os limites nus do mundo, a vida e a morte nos primeiros caracteres de magia negra, o êxtase urdido na paixão do sofrimento e todas as pragas irromperam dos espigões, os ecos carbónicos da demência, as raízes que amavam as nascentes dos deuses vivos toda a terra fervilhando em matéria sublime. No princípio era o crime, o crime que da chuva fornecia a força das lágrimas, espaço de febre em sua arte de ser flor, o perfume das distinções da metamorfose do lírio, hoje, apenas, a poesia.
Biografia II E tudo ocorre na melancolia (Inédito)
XII .sei que dos olhos do animal fêmea antes do ritual do sacrifício o fogo desce aos olhos do homem e evapora-se no espaço fragmentado das córneas. pois ele gosta de vociferar nas madrugadas aonde se abrem à fortuna as orquídeas. a brecha da pupila. o agudíssimo timbale é um bálsamo pois ele é feliz como o eunuco que não cometeu crimes com suas mãos. deus apenas lhe pediu a prova do beijo na única palavra em que lhe reconhece a cinza do nome. é no casulo da pedra que deflagram as larvas desde a cruz materna ao sumo das uvas demasiadamente vermelhas. a devastação escolta a criação que reverbera a fala de dentro de todas as trovoadas de alicerce estéril. a fragmentação do coração. e a ternura dos labirintos são beijos de metáforas como uma trepadeira oferecidos por judas. mais uma vez em nome do criador dos ciclos. os mapas envoltos em sua túnica e asas de ébano límpido.
In, DIACRÍTICO (inédito)
Poema do desassossego A Fernando Pessoa
I .nasci - folha esdrúxula na crença em deus subproduto na respiração da ciência poética a carnívora gentileza perdida por que sente o desassossego volvido a crença nas montanhas que florescem hálitos de formas a humanidade na margem dos grandes espaços virgens que vão leste-oeste – e é eterna a sílaba que se embriaga em todos os jardins do paraíso a cólera minuciosa de todas as chamas e ele é de víboras esverdeadas submissas em torno do vulto uno túrgido e ferveroso não aceitei deus improvável ponto final uma mera ideia biológica a opressão que se entranha no fundo do coração
II na época dos bárbaros corpos de barro sagrado os lugares culpados da existência da divindade a faculdade de ainda sonhar o júbilo dos pulmões que refulgem desumanos que brotam o adorno da flor de se olhar a aurora é precisamente o interstício lúcido a alegria do sol escarlete a criança cantarolando por muitas crianças
III e existir é ser monstruosamente inconsciente de matéria em matéria em sua própria verdade as duas dimensões do espaço: apenas... (Inédito)
1.
João Rasteiro
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