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PATRICIA BARBER
Monday Night: Live at the Green Mill, Vol. 2
Fast Atmosphere

 


Patricia Barber (piano, voz)
Neal Alger (guitarras)
Larry Kohut (contrabaixo)
Erik Montzka (bateria)




Sinto-me na obrigação de, antes de mais, agradecer ao meu irmão por, num convívio de família, me ter pedido que pusesse a tocar o novo disco disco de Patricia Barber de que aqui vos venho falar. Entre tantas edições a ouvir e por ouvir, esta vinha sendo, mas apenas até então, uma das muitas que corriam o perigo de passar mais ou menos despercebidas. A família despediu-se e o som de Patricia Barber continuava a fazer-se ouvir na sala. O disco chegou ao fim e o facto é que não resisti a voltar a ouvi-lo novamente desde o início. E ainda bem que assim foi, até porque não parou de rodar cá em casa durante todos os dias da última semana, de tal forma que se tornou impossível deixar de escrever sobre ele. O nível de entendimento atingido entre as diversas partes do grupo, unidas por um forte sentido de comunhão musical, resulta com muita frequência em situações extremamente cativantes sob o ponto de vista harmónico, algumas delas verdadeiramente fascinantes, e na criação de requintados ambientes texturais e de uma enorme diversidade de dinâmicas que tornam ainda mais envolvente o seu som global. 

A melhor ilustração disso mesmo reside na versão, quase irreconhecível (e seguramente a mais original que até hoje ouvi) de “Blue Bossa”. Nos 13 minutos ao longo dos quais o tema de Kenny Dorham vai sendo dissecado até à sua mais profunda essência, passamos por uma série de interessantíssimos episódios que se vão sucedendo como se cada um deles representasse a inevitável (mas sempre inesperada) consequência do anterior: em tom de introdução, o canto de uma sereia, afinadíssima, impressionantemente expressiva e fielmente captada – atente-se, em determinadas ocasiões, aos estalidos da língua da cantora ou ao próprio ar em circulação sob o palato; uma belíssima passagem a solo por Neal Alger, numa guitarra acústica marcada pela sensibilidade da música flamenca; a continuação desta excecional improvisação do guitarrista, então contando já com o apoio do piano, do contrabaixo e de um kit deliciosamente percutido pelos dedos do baterista Erik Montzka; o regresso da sereia, agora ainda mais sedutora e num estado de graça a que é absolutamente impossível ficar indiferente.Até ao último segundo desta “pequena” obra-prima, à frente ou atrás de todo este cenário luxuriante, os pormenores evidentes na comunicação entre os membros do quarteto, em particular entre o contrabaixista e o baterista, são demasiados para que deles aqui tenha lugar a descrição exaustiva de que seriam merecedores. Bastará que vos confesse que, não obstante a qualidade elevada da maior parte das faixas do álbum, esta versão de “Blue Bossa” terá constituído o argumento maior para a inclusão de última hora deste disco nos meus favoritos de 2011. 


Para além daquele clássico de Kenny Dorham, o repertório escolhido para este concerto, que visa ilustrar o lado mais doce e lírico da cantora-pianista, inclui três standards do cancioneiro norte-americano, “I Fall in Love Too Easliy”, “Smile” e “Summertime”, e, logo a abrir o disco, uma versão relativamente inspirada de “Triste”, em cuja interpretação da letra original em português Patricia se sai bastante melhor do que aquilo que costuma acontecer sempre que os temas de Jobim são interpretados por cantores anglo-saxónicos, Kurt Elling incluído, e ao longo da qual o contrabaixista Larry Kohut, a solar ou a acompanhar, nos fornece as primeiras evidências de se tratar do baixista ideal para o conceito musical de Barber. Ainda assim, “Triste” e o original de Barber que se segue, por muito bem que soem, estão longe de constituir os momentos mais felizes do disco.

É na faixa seguinte – uma versão de “I Fall in Love Too Easily” bastante mais pessoal do que aquela que aquela que encerrara Nightclub, o seu álbum de standards – que começamos a sentir-nos na presença de um quarteto verdadeiramente especial e de uma gravação que não deveria, de modo algum, passar despercebida. Segue-se-lhe a referida versão de “Blue Bossa” e, depois dela, uma inesperada adaptação de “On the Road Again”, dos Canned Heat, e um outro blues da autoria da cantora - "Post Modern Blues", originalmente apresentado em Modern Cool -, com um poema que mais parece uma recapitulação das personagens e dos acontecimentos mais relevantes na sociedade e na cultura e do século XX. “Smile” não conseguirá manter o nível de excelência da meia hora de música que o antecede, mas a recuperação acontece logo depois com uma versão de “The Beat Goes On”, de Sonny & Cher”, tema que havia já recebido uma interessante cobertura em Companion, o primeiro álbum ao vivo de Patricia Barber. O disco fecha em alta com “Summertime”, outro tema já anteriormente gravado pela cantora no seu segundo álbum (A Distortion of Love). A versão aqui presente só pode ser vista como um aperfeiçoamento da experiência modal realizada há vinte anos e agora levada até às últimas consequências, todas elas muito boas.

Facilmente ultrapassando os méritos do primeiro volume desta série, este é um disco absolutamente imperdível, porventura o melhor de toda a carreira de Patricia Barber, ou, pelo menos, a colocar ao lado de Café Blue, de Modern Cool e de Live: A Fortnight in France.

Paulo Barbosa