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JOHN ESCREET
EXCEÇÃO À REGRA
 
texto: Paulo Barbosa
 
John Escreet é talvez o músico que, de há cerca de dois anos a esta parte, mais seriamente me tem estimulado e – não poucas vezes – espantado os ouvidos. O jovem pianista britânico, aluno de Kenny Barron e Jason Moran, em boa hora surgiu na mira desse imparável caçador de talentos que é David Binney, que tudo fez para lhe proporcionar a sua primeira gravação (Consequences, trazido a público em 2009 pela editora Posi-Tone) e que entretanto o incluiu em algumas das suas mais recentes formações – Escreet partilha a responsabilidade pelo piano com Jacob Sacks em Aliso (Criss Cross, 2010). Pelo meio, John Escreet gravou, ainda em 2009, o fascinante álbum The Story com o grupo do mesmo nome (ver vídeo abaixo), presente na edição de 2010 do Guimarães Jazz, e aquela que me parece ser uma das mais excitantes obras do jazz do novo milénio: Don’t Fight the Inevitable, editado na Mythology, o selo discográfico de Binney, já em 2010. 
 
Escreet parece absolutamente decidido a não pousar armas. Só nos últimos meses, deu-nos a conhecer os dois álbuns em seu nome de que aqui se fala, integrou a formação com a qual o baterista Tyshawn Sorey gravou mais um disco impressionante e uniu esforços com Seamus Blake para o registo com que o guitarrista catalão Dave Juarez se estreou no mundo dos discos, duas gravações às quais também aqui dedicaremos a nossa atenção. Escreet tem feito algumas aparições a solo, nomeadamente na última edição do London Jazz Festival, e tem-se ainda dedicado, com Tyshawn Sorey e com o contrabaixista John Hébert, a um projeto de música livremente improvisada, do qual deverá, muito em breve, resultar o seu primeiro álbum em trio.




JOHN ESCREET
Exception to the Rule
Criss Cross



David Binney (sax alto, eletrónica, voz)
John Escreet (piano, teclados)
Eivind Opsvik (contrabaixo)
Nasheet Waits (bateria)

 
Exception to the Rule é, sem sombra de dúvida, o álbum mais “outside” de todo o catálogo da editora Criss Cross. Embora apresentando algumas - poucas - fragilidades pelo meio, trata-se de um registo absolutamente imperdível e merecedor, sem grandes reservas, de uma classificação máxima. Os seus aspetos menos positivos, fruto de um uso de eletrónica menos bem conseguido por parte de David Binney (em “Redeye”) e dos estranhos sons extraídos de um teclado pelo próprio John Escreet em “Electrotherapy” (um tema que parece isso mesmo...), são mais do que compensados por alguns dos mais fascinantes momentos musicais que ouvi ao longo deste ano e que ocupam a maior parte do resto do disco, a começar pela faixa-título, que o abre.

Depois de um minuto de aquecimento dos tímpanos pela bateria de Nasheet Waits – cada vez mais reconhecível como um dos grandes nomes da bateria do nosso tempo –, “Exception to the Rule” impõe-se através de um rápido ostinato pela mão esquerda do pianista, sobre o qual Binney dispara uma curta mas vertiginosa melodia cuja leitura e execução causaria forte embaraço à maioria dos mais capazes e respeitados saxofonistas. O que se segue é um momento do melhor free jazz, durante o qual Nasheet subtilmente evolui de uma situação de tempo, já de si flexível e pouco óbvio, para a ausência deste, enquanto Binney arrebata por completo com uma das mais vorazes e selvagens improvisações de toda a sua carreira, atrás (ou ao lado) do qual Escreet dá provas de uma rara facilidade no traquejo de algumas das mais importantes inovações que há muito Cecil Taylor trouxe para o piano no jazz, mas que raramente foram devidamente compreendidas ou assimiladas pela maioria dos pianistas que, de uma forma ou de outra, pretenderam pô-las em prática. Escreet é, aliás, capaz de transitar, com a maior das tranquilidades e de forma quase impercetível, entre contextos estética e tecnicamente típicos de alguns dos mais interessantes e influentes pianistas das últimas décadas, como Cecil Taylor, Jaki Byard, Andrew Hill, Herbie Hancock ou Jason Moran, daí resultando uma amálgama que, para além de declaradamente inconformista, se tornou extremamente pessoal e imediatamente reconhecível, como se verifica na breve improvisação com que se segue a David Binney ainda nesta primeira faixa do álbum.

Em termos de voracidade, liberdade e diversidade de ação, temas como “Escape Hatch”, “The Water is Tasting Worse” e “Wayne’s World, composição repescada do primeiro disco do pianista para um versão bastante mais intensa, em nada ficam a dever à faixa de abertura, mas falta ainda viver o ambiente misterioso, por vezes mesmo assombroso, de “They Can See”, “Wide Open Spaces” ou “Restlessness” e o espírito (mais do que o tempo) nada xaroposo de balada que se pode ouvir em “Collapse”. Tudo neste álbum é, de facto, e como indica o seu título, uma exceção à regra ou às regras pelas quais o jazz tão frequentemente (e, muitas vezes, lamentavelmente) se tem vindo a reger.







JOHN ESCREET
The Age We Live In
Mythology



David Binney (sax alto, eletrónica, arranjos de metais e cordas)
Wayne Krantz (guitarra)
John Escreet (piano, Fender Rhodes, teclados)
Marcus Gilmore (bateria, percussão)
+
Tim Lefebvre (baixo elétrico)
Brad Mason (trompete)
Max Seigel (trombone)
Christian Howes (cordas)


The Age We Live In é o resultado de um conceito completamente diferente, em cuja produção, extremamente cuidada, é bem percetível a ajuda de Dave Binney. Independentemente de toda a elaborada plástica que envolve este registo e de alguma filiação numa sonoridade que de alguma forma se aproxima do jazz-rock-funk, a música que nele se ouve apresenta, uma vez mais, características únicas e um elevado grau de originalidade. Estruturalmente, a maior parte destes temas são de uma complexidade que chega a ser estonteante. Por isso mesmo, The Age We Live In constitui uma audição bem mais exigente do que à partida se poderia pensar, longe do “easy-listening” que o recurso à eletricidade e a batidas funk ou próximas de outros ritmos de dança poderia sugerir.

“The Domino Effect” (faixa que nos surge logo após uma breve “Intro” – há ainda um “Interlude” e uma “Outro” que mais não são do que interessantes variações rítmicas em torno do mesmo tema, e daí a coautoria do baterista) parece determinar o clima de elevada energia que marca a maior parte deste álbum. Marcus Gilmore (neto do grande Roy Haynes) entra a matar com uma batida que nos excita por dentro e por fora, para na secção seguinte a rápida série de frases descendentes vindas da guitarra de Wayne Krantz nos sacudir como um inesperado vendaval. Na primeira improvisação, em piano acústico, John Escreet demonstra mais uma vez a sua vontade em transitar entre lógicas discursivas tão distintas quanto as de Herbie Hancock e Cecil Taylor. Após uma breve passagem pela melodia do tema, Krantz faz questão de nos lembrar que nenhum outro guitarrista soube importar para o jazz (e arredores) a sonoridade e a energia do rock com tanta criatividade e tão elevado nível de musicalidade. A verdade é que, não obstante o seu som frequentemente distorcido à maneira de um Steve Vai, de um Joe Satriani ou de um Eddie Van Halen, e digam os puristas os que disserem, Krantz é dotado de uma fluência melódica e de uma capacidade de estruturar um solo que o colocam ao nível dos melhores improvisadores que hoje se conhece. Depois de uma passagem por parte do tema, agora pela secção que corresponde ao referido vendaval, desta feita desenvolvida com um rigor rítmico muito “zappiano”, cabe ao desenfreado sax de Binney conduzir o grupo até ao clímax após o qual se pode voltar a respirar...

A outra grande maratona do álbum (e, aliás, com quase 11 minutos de duração, a sua faixa mais longa) é o tema que lhe dá nome. É aqui que mais se faz sentir a presença do baixo de Tim Lefebvre e da instrumentação adicional e a qualidade da escrita que Escreet para ela fez; é aqui também que a chama da guitarra de Krantz volta a brilhar a toda a força. (ver vídeo abaixo)

Bem menos interessante é a espécie de canção para não adormecer que dá pelo nome de “As the Moon Disappears” (Escreet, Binney), um momento não muito mais feliz do que a “Electrotherapy” presente no álbum anterior. O mesmo não se poderá dizer de “Another Life”, um original de Escreet muito próximo do universo de David Binney e de toda uma tribo que o grande saxofonista tem vindo a nutrir em seu torno. Da sua autoria é apenas um tema recentemente apresentado no álbum “Aliso”, “A Day in Music”, um título que, vindo de um músico tão obsessivamente perfecionista, para quem a música parece confundir-se com a própria vida, não deixar de ser algo irónico.

“Half Baked” (composição de Wayne Krantz), “Kickback” e “Stand Clear” (ambas de Escreet) são temas que parecem requerer uma séria revisão do conceito de jam band, nem tanto por a música ser superior à dos principais grupos inseridos naquela esfera musical, mas principalmente porque os músicos aqui presentes são de um nível difícil de igualar em qualquer área da música. The Age We Live In é, aliás, um disco que dificilmente se enquadrará em qualquer área musical específica. E ainda bem que assim é. Ainda bem que continuamos a ter músicos que insistem em produzir uma arte à qual é impossível aplicar um rótulo. Os mais atentos agradecem e a evolução da própria música também.



TYSHAWN SOREY
Oblique – I
Pi Recordings



Loren Stillman (sax alto)
Todd Neufeld (guitarras)
John Escreet (piano, Fender Rhodes, Wurlitzer)
Chris Tordini (contrabaixo)
Tyshawn Sorey (bateria)


Outro músico dificilmente classificável é exatamente Tyshawn Sorey. Para além de enfant terrible da bateria – uma faceta que nos tem dado a conhecer e que tem vindo a desenvolver ao lado de músicos tão distintos quanto Steve Coleman, Dave Douglas, Vijay Iyer, Steve Lehman, Aaron Stewart, John Zorn, Anthony Braxton, Wadada Leo Smith – Sorey nutre igualmente um justificado interesse no domínio da composição, área na qual, em virtude do impulso motivador de Anthony Braxton, tem vindo a dedicar-se em qualquer dos seus dois anteriores álbuns, ambos gravados para a 482 Music. É, porém, neste seu primeiro registo para a Pi Recordings que Sorey evidencia ter atingido uma plena maturidade na qualidade de compositor. A gratidão ao incentivo de Braxton parece refletir-se na atribuição de números (e não de títulos verbais) a cada uma das composições aqui presentes, mas o que este Oblique – I vem tornar mais claro do que nunca é que Sorey é dono de uma mente musical extremamente original, quase visionária e que, portanto, pouco ou nada deve a quem quer que seja.

Este é igualmente o álbum em que o seu parceiro habitual Todd Neufeld – estupendo na guitarra acústica em “Seventeen” – nos oferece aquela que é, para estes ouvidos, a sua melhor e mais consistente prestação de sempre. Mas quem surpreende em absoluto é o saxofonista Loren Stillman, tal como o líder, um prodígio que ainda mal havia abandonado as fraldas e já se apresentava ao lado de vários dos melhores músicos de Nova Iorque. E digo que surpreende acima de tudo pela aparente facilidade com que se adapta às estranhas exigências da música de Sorey, de tal forma que poderia ser Braxton o saxofonista que ouvimos em “Eight” ou, num solo absoluto, em “Eighteen”.

John Escreet sente-se aqui como peixe na água e é talvez aqui que, em disco pelo menos, a profunda afinidade musical que o une a Sorey se torna mais clara, tanto na qualidade de solista como na forma como contribui para levar a bom porto toda a complexidade harmónica inerente à música do baterista. Chris Tordini dá mais uma prova – talvez a mais árdua de todo o seu trajeto musical – de que é um contrabaixista completo, maduro e capaz de todo e qualquer desafio que o mais exigente dos líderes lhe possa colocar.

Por tudo o que acima digo, fácil será perceber que Oblique – I requer uma atenção muito especial e exclusivamente dedicada ao acompanhamento de toda a ação que se vai desenrolando ao longo dos seus 76 minutos de duração, mas, no final, qualquer ouvinte de espírito aberto e em busca de novas aventuras musicais sairá agradecido pelas sensações que apenas um original como Tyshawn Sorey, em plena comunhão com músicos do mais elevado gabarito, é capaz de proporcionar.









DAVE JUAREZ
Round Red Light
Posi-Tone



Seamus Blake (sax tenor)
Dave Juarez (guitarra)
John Escreet (piano)
Lauren Falls (contrabaixo)
Bastian Weinhold (bateria)


A estreia discográfica de Dave Juarez, um jovem guitarrista natural de Barcelona, atualmente residente em Nova Iorque, é um álbum que facilmente se enquadra no modelo estético do jazz hoje mais frequentemente praticado na Big Apple, a que nos podemos – embora não saiba se devemos – referir como uma forma moderna de mainstream. É, por isso, um álbum que joga numa divisão diferente, menos marcada pela originalidade, daquela em que podem ser incluídos os três superlativos registos de que acima vos falo. Round Red Light constitui, no entanto, um belo arranque para uma carreira da qual muito se poderá esperar nos tempos que aí vêm. 

Como seria de esperar, Seamus Blake e John Escreet, que, embora com uma postura bastante mais convencional do que em qualquer dos álbuns anteriores, se vai fazendo notar cada vez mais no decurso do disco, são os dois instrumentistas que mais intensamente brilham nesta gravação, sem que com isso cheguem a ofuscar por completo a elevada qualidade das prestações dos seus mais jovens companheiros. 

Juarez é um guitarrista que facilmente cativará os entusiastas do tipo de abordagem típica de Kurt Rosenwinkel. “Belleza Anonima” é uma beleza que flui ao longo dos 5 minutos da sua duração – e o título da faixa, perfeitamente ajustado ao tema, é algo em que reparei apenas após me ter ocorrido aquele comentário a seu propósito. É uma composição com características de hino, que por momentos me fez lembrar a faixa-título de In the Begining, o interessante álbum de estreia do saxofonista Eli Degibri que, curiosamente, conta com a participação de Rosenwinkel. 

É talvez na faixa seguinte, bem como na faixa que encerra o disco, que Juarez melhor nos mostra a sua proficiência e a sua pertinência no recurso a uma sonoridade mais legato e distorcida (e, portanto, mais “rockeira”), deixando-se conduzir por uma interessantíssima imaginação melódica através de improvisações que, não obstante o notável domínio harmónico constantemente evidenciado pelo guitarrista, vão muito para além de uma mera negociação de rápidas mudanças de acordes. 

Os solos de Escreet nas duas últimas faixas, as mais longas do disco, fazem valer a pena deitar o ouvido a este álbum. Todo o trabalho da dupla rítmica, particularmente nos temas mais rápidos, mostra que deveremos nos próximos tempos estar bem atentos não apenas ao líder desta sessão, mas também aos nomes do contrabaixista Lauren Falls e do baterista Bastian Weinhold. Um trio de jovens músicos que muito promete e que nos lembra que o jazz continua vivo.