JOHN ESCREET
EXCEÇÃO À REGRA
texto: Paulo Barbosa
Escreet parece absolutamente decidido a não pousar armas. Só nos últimos meses, deu-nos a conhecer os dois álbuns em seu nome de que aqui se fala, integrou a formação com a qual o baterista Tyshawn Sorey gravou mais um disco impressionante e uniu esforços com Seamus Blake para o registo com que o guitarrista catalão Dave Juarez se estreou no mundo dos discos, duas gravações às quais também aqui dedicaremos a nossa atenção. Escreet tem feito algumas aparições a solo, nomeadamente na última edição do London Jazz Festival, e tem-se ainda dedicado, com Tyshawn Sorey e com o contrabaixista John Hébert, a um projeto de música livremente improvisada, do qual deverá, muito em breve, resultar o seu primeiro álbum em trio.
JOHN ESCREET Exception to the Rule Criss Cross ![]() ![]() David Binney (sax alto, eletrónica, voz) John Escreet (piano, teclados) Eivind Opsvik (contrabaixo) Nasheet Waits (bateria) Exception to the Rule é, sem sombra de dúvida, o álbum mais “outside” de todo o catálogo da editora Criss Cross. Embora apresentando algumas - poucas - fragilidades pelo meio, trata-se de um registo absolutamente imperdível e merecedor, sem grandes reservas, de uma classificação máxima. Os seus aspetos menos positivos, fruto de um uso de eletrónica menos bem conseguido por parte de David Binney (em “Redeye”) e dos estranhos sons extraídos de um teclado pelo próprio John Escreet em “Electrotherapy” (um tema que parece isso mesmo...), são mais do que compensados por alguns dos mais fascinantes momentos musicais que ouvi ao longo deste ano e que ocupam a maior parte do resto do disco, a começar pela faixa-título, que o abre. ![]() Em termos de voracidade, liberdade e diversidade de ação, temas como “Escape Hatch”, “The Water is Tasting Worse” e “Wayne’s World, composição repescada do primeiro disco do pianista para um versão bastante mais intensa, em nada ficam a dever à faixa de abertura, mas falta ainda viver o ambiente misterioso, por vezes mesmo assombroso, de “They Can See”, “Wide Open Spaces” ou “Restlessness” e o espírito (mais do que o tempo) nada xaroposo de balada que se pode ouvir em “Collapse”. Tudo neste álbum é, de facto, e como indica o seu título, uma exceção à regra ou às regras pelas quais o jazz tão frequentemente (e, muitas vezes, lamentavelmente) se tem vindo a reger. JOHN ESCREET The Age We Live In Mythology ![]() ![]() David Binney (sax alto, eletrónica, arranjos de metais e cordas) Wayne Krantz (guitarra) John Escreet (piano, Fender Rhodes, teclados) Marcus Gilmore (bateria, percussão) + Tim Lefebvre (baixo elétrico) Brad Mason (trompete) Max Seigel (trombone) Christian Howes (cordas) The Age We Live In é o resultado de um conceito completamente diferente, em cuja produção, extremamente cuidada, é bem percetível a ajuda de Dave Binney. Independentemente de toda a elaborada plástica que envolve este registo e de alguma filiação numa sonoridade que de alguma forma se aproxima do jazz-rock-funk, a música que nele se ouve apresenta, uma vez mais, características únicas e um elevado grau de originalidade. Estruturalmente, a maior parte destes temas são de uma complexidade que chega a ser estonteante. Por isso mesmo, The Age We Live In constitui uma audição bem mais exigente do que à partida se poderia pensar, longe do “easy-listening” que o recurso à eletricidade e a batidas funk ou próximas de outros ritmos de dança poderia sugerir. ![]() A outra grande maratona do álbum (e, aliás, com quase 11 minutos de duração, a sua faixa mais longa) é o tema que lhe dá nome. É aqui que mais se faz sentir a presença do baixo de Tim Lefebvre e da instrumentação adicional e a qualidade da escrita que Escreet para ela fez; é aqui também que a chama da guitarra de Krantz volta a brilhar a toda a força. (ver vídeo abaixo) Bem menos interessante é a espécie de canção para não adormecer que dá pelo nome de “As the Moon Disappears” (Escreet, Binney), um momento não muito mais feliz do que a “Electrotherapy” presente no álbum anterior. O mesmo não se poderá dizer de “Another Life”, um original de Escreet muito próximo do universo de David Binney e de toda uma tribo que o grande saxofonista tem vindo a nutrir em seu torno. Da sua autoria é apenas um tema recentemente apresentado no álbum “Aliso”, “A Day in Music”, um título que, vindo de um músico tão obsessivamente perfecionista, para quem a música parece confundir-se com a própria vida, não deixar de ser algo irónico. “Half Baked” (composição de Wayne Krantz), “Kickback” e “Stand Clear” (ambas de Escreet) são temas que parecem requerer uma séria revisão do conceito de jam band, nem tanto por a música ser superior à dos principais grupos inseridos naquela esfera musical, mas principalmente porque os músicos aqui presentes são de um nível difícil de igualar em qualquer área da música. The Age We Live In é, aliás, um disco que dificilmente se enquadrará em qualquer área musical específica. E ainda bem que assim é. Ainda bem que continuamos a ter músicos que insistem em produzir uma arte à qual é impossível aplicar um rótulo. Os mais atentos agradecem e a evolução da própria música também. | TYSHAWN SOREY Oblique – I Pi Recordings ![]() Loren Stillman (sax alto) Todd Neufeld (guitarras) John Escreet (piano, Fender Rhodes, Wurlitzer) Chris Tordini (contrabaixo) Tyshawn Sorey (bateria) Outro músico dificilmente classificável é exatamente Tyshawn Sorey. Para além de enfant terrible da bateria – uma faceta que nos tem dado a conhecer e que tem vindo a desenvolver ao lado de músicos tão distintos quanto Steve Coleman, Dave Douglas, Vijay Iyer, Steve Lehman, Aaron Stewart, John Zorn, Anthony Braxton, Wadada Leo Smith – Sorey nutre igualmente um justificado interesse no domínio da composição, área na qual, em virtude do impulso motivador de Anthony Braxton, tem vindo a dedicar-se em qualquer dos seus dois anteriores álbuns, ambos gravados para a 482 Music. É, porém, neste seu primeiro registo para a Pi Recordings que Sorey evidencia ter atingido uma plena maturidade na qualidade de compositor. A gratidão ao incentivo de Braxton parece refletir-se na atribuição de números (e não de títulos verbais) a cada uma das composições aqui presentes, mas o que este Oblique – I vem tornar mais claro do que nunca é que Sorey é dono de uma mente musical extremamente original, quase visionária e que, portanto, pouco ou nada deve a quem quer que seja. ![]() John Escreet sente-se aqui como peixe na água e é talvez aqui que, em disco pelo menos, a profunda afinidade musical que o une a Sorey se torna mais clara, tanto na qualidade de solista como na forma como contribui para levar a bom porto toda a complexidade harmónica inerente à música do baterista. Chris Tordini dá mais uma prova – talvez a mais árdua de todo o seu trajeto musical – de que é um contrabaixista completo, maduro e capaz de todo e qualquer desafio que o mais exigente dos líderes lhe possa colocar. Por tudo o que acima digo, fácil será perceber que Oblique – I requer uma atenção muito especial e exclusivamente dedicada ao acompanhamento de toda a ação que se vai desenrolando ao longo dos seus 76 minutos de duração, mas, no final, qualquer ouvinte de espírito aberto e em busca de novas aventuras musicais sairá agradecido pelas sensações que apenas um original como Tyshawn Sorey, em plena comunhão com músicos do mais elevado gabarito, é capaz de proporcionar. DAVE JUAREZ Round Red Light Posi-Tone ![]() ![]() Seamus Blake (sax tenor) Dave Juarez (guitarra) John Escreet (piano) Lauren Falls (contrabaixo) Bastian Weinhold (bateria) ![]() Juarez é um guitarrista que facilmente cativará os entusiastas do tipo de abordagem típica de Kurt Rosenwinkel. “Belleza Anonima” é uma beleza que flui ao longo dos 5 minutos da sua duração – e o título da faixa, perfeitamente ajustado ao tema, é algo em que reparei apenas após me ter ocorrido aquele comentário a seu propósito. É uma composição com características de hino, que por momentos me fez lembrar a faixa-título de In the Begining, o interessante álbum de estreia do saxofonista Eli Degibri que, curiosamente, conta com a participação de Rosenwinkel. É talvez na faixa seguinte, bem como na faixa que encerra o disco, que Juarez melhor nos mostra a sua proficiência e a sua pertinência no recurso a uma sonoridade mais legato e distorcida (e, portanto, mais “rockeira”), deixando-se conduzir por uma interessantíssima imaginação melódica através de improvisações que, não obstante o notável domínio harmónico constantemente evidenciado pelo guitarrista, vão muito para além de uma mera negociação de rápidas mudanças de acordes. Os solos de Escreet nas duas últimas faixas, as mais longas do disco, fazem valer a pena deitar o ouvido a este álbum. Todo o trabalho da dupla rítmica, particularmente nos temas mais rápidos, mostra que deveremos nos próximos tempos estar bem atentos não apenas ao líder desta sessão, mas também aos nomes do contrabaixista Lauren Falls e do baterista Bastian Weinhold. Um trio de jovens músicos que muito promete e que nos lembra que o jazz continua vivo.
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