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ELISA RODRIGUES
Heart Mouth Dialogues
JACC Records

  

Elisa Rodrigues (voz)
Júlio Resende (piano)
Cícero Lee (contrabaixo)
Joel Silva (bateria)
+
Bruno Pedroso (bateria, 1 faixa)



Ora aqui está uma muito agradável surpresa, uma cantora que surge como que de repente, não se sabe bem de onde nem como, e que imediatamente se distingue de todas as outras. Ao mesmo tempo que se entrega de corpo e alma a cada canção que interpreta, Elisa Rodrigues
apodera-se de cada melodia como se esta sempre tivesse sido sua e brinca com as palavras como se tivesse crescido de mãos dadas com cada um dos poemas que declama através do seu canto. O mais frequente é ouvi-la cantar ao lado, por cima ou por baixo daquela que conhecemos como sendo a melodia original de cada tema, assim criando, quase invariavelmente, uma nova melodia, enquanto acaricia, trinca, respira ou transpira cada palavra que profere. O resultado é intensamente dramático, marcado por uma imensa teatralidade, mas sempre musicalmente muito válido e bem conseguido.

A versão de “Ain’t No Sunshine”, de Bill Withers  (ver 1º vídeo abaixo - versão em duo com Júlio Resende), que abre o disco, seria o bastante para justificar tudo o que acima disse na tentativa de descrever o tipo de prestação de Elisa Rodrigues, mas serve também para confirmar os méritos do grupo que a acompanha e o esmero colocado por Júlio Resende na escrita dos arranjos que dão vida a este projeto. 

Ao ouvir o rosnar das primeiras notas com que o contrabaixo de Cícero Lee introduz “You Don’t Know What Love Is” (ver 2º vídeo abaixo, igualmente em duo com o pianista), é fácil pressentir que algo ainda melhor aí vem. Trata-se, de facto, de uma versão fabulosa, cheia de groove e vitalidade, deste clássico de Gene de Paul e Don Raye, que constitui seguramente a minha faixa favorita do álbum. É também aqui que a cantora mais me impressiona pela sua imensa flexibilidade no domínio rítmico e pela forma como profere a maioria das palavras, criando uma nova forma de pronunciar algumas delas – atente-se à forma como pronuncia “reminiscing” como um bom exemplo daquilo a que me refiro. É ainda
aqui que, muito bem apoiado por Lee e, como sempre, pelo baterista Joel Silva, Júlio Resende oferece, pelo menos para estes ouvidos, o mais impressionante solo – uma improvisação perfeita e meticulosamente construída – de toda a sua carreira discográfica. 

Posto tudo isto, não seria justo que aqui deixasse de reconhecer que nem tudo aquilo que tanto elogio neste disco me terá deixado tão satisfeito quanto isso logo nas suas primeiras audições. Quero com isto dizer que este disco se tornou para mim, como por vezes se diz, um gosto adquirido. Comecei por questionar o tom nasalado que, aqui e ali, irrompia na voz de Elisa Rodrigues, para pouco depois reconhecer que, ao contrário do que se verifica com tantas outras cantoras, ela uso esse efeito, a maior parte das vezes, com propósitos bem claros, que se prendem quase sempre com a expressividade e o dramatismo que parecem ser as suas preocupações centrais.


O outro problema que cheguei a levantar prendia-se exatamente com a “deturpação” (afinal claramente intencional) da melodia da maioria dos temas que cantava. Se isso lhe assentava que nem uma luva nos dois temas acima descritos, foi principalmente em “Blame It On My Youth” que aquela preocupação me invadiu de forma mais determinante... Por que raio de motivo haveria esta menina de ter a pretensão de estragar (ou, pelo menos, de não respeitar) logo aquela que há muito é para mim uma das mais belas melodias de sempre? Mas o certo é que, meia dúzia de audições adiante, comecei a equacionar a questão de outra forma, mais
precisamente através daquela que acabou por ser a solução do problema: a de que se trata – e basta assumi-lo da mesma forma que se assume para outras faixas do disco – de uma nova maneira de interpretar a canção e de recriar a sua melodia, de conceber um novo (e, afinal de contas, interessantíssimo) “Blame It On My Youth”. 

“By Your Side” é, por seu turno, um verdadeiro milagre de recriação de um tema de Cocorosie; “God Only Knows” (Beach Boys) e “Run”, um blues da autoria da cantora, não lhe ficam atrás, enquanto “Sonhos”, uma leitura a capella do tema de Peninha, fez-me imaginar e desejar ouvir Elisa Rodrigues em dueto com Caetano Veloso. Finalmente, a versão de “Roxane” (dos The Police) que encerra o disco é, a todos os níveis, instrumental e vocal – que pronúncia fantástica! – uma pequena maravilha à qual se torna irresistível regressar vezes sem conta.

Ao fim e ao cabo, e muitas voltas dadas ao disco, os únicos dois temas nos quais nem tudo me parece resultar da melhor forma são “Cry Me A River” (onde nem o arranjo, bastante banal, nem o solo de piano de Resende me convenceram de todo) e “Dumb”, um tema com o qual não me parece que houvesse muito a fazer – mea culpa, talvez, pois não há maneira, por mais que
me esforce, de conseguir perceber aquilo que tantos encontram na música dos Nirvana -, embora me seja fácil reconhecer que a versão em duo entretanto gravada com Júlio Resende (ver 3º vídeo abaixo) tenha resultado bastante melhor. Balanço feito, apenas estes dois casos de menor sucesso vieram obstar à atribuição de uma classificação ainda mais elevada a este disco. 

Elisa Rodrigues é, sem sombra de dúvida, a melhor coisa que aconteceu ao jazz cantado em Portugal nos últimos anos e desde a emergência de Maria João. Iria ainda mais longe, para além do domínio nacional: perante o fraco estado das coisas na área do jazz vocal feminino nos últimos anos (porque entre os homens sempre temos os soberbos Kurt Elling e Theo Bleckmann), não hesito em apontar Elisa Rodrigues como uma louvável exceção a colocar ao lado de Patricia Barber, Gretchen Parlato e poucas outras... Uma cantora a acompanhar com toda a atenção.

Paulo Barbosa                                                                                                11/02/2012