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BRAD MEHLDAU / LARRY GRENADIER / JORGE ROSSY
The Art of the Trio Recordings: 1996-2001
Nonesuch

 

Brad Mehldau (piano)
Larry Grenadier (contrabaixo)
Jorge Rossy (bateria)



Para além de tornar claro (ou, para muitos, de vir “apenas” relembrar) que este foi um dos mais especiais trios da segunda metade da década de ’90, a edição e a audição desta série de discos vem em boa hora propiciar a afirmação da minha imensa admiração por um pianista em relação ao qual lamento apenas que, a partir de determinada altura, nem sempre tenha tomado as melhores decisões artísticas e, no fundo, orientado a sua carreira no melhor sentido que lhe seria possível. Aliás, se há algo que este conjunto de discos vem corroborar é exatamente a ideia de que, para Mehldau, tudo (ou quase tudo) seria (ou teria sido) possível.

A prova maior das capacidades de Brad Mehldau acabou, afinal de contas, por se refletir na importância que este génio do piano moderno adquiriu para a esmagadora maioria dos pianistas que se lhe seguiram. E outra coisa não seria de esperar, pois estamos perante o mais inovador dos pianistas desde o final da década de 1950 / primeira metade da de 1960, período em que emergiram – nada mais, nada menos – do que Bill Evans, Paul Bley, Cecil Taylor, McCoy Tyner, Herbie Hancock, Keith Jarrett ou Chick Corea. Depois da série de significativos abanões criativos, uns mais drásticos do que outros, sofridos pelo piano nas mãos dos referidos músicos, a evolução da linguagem do instrumento parece ter sido alvo de alguma estagnação durante os trinta anos seguintes, até que surgiu esse pequeno prodígio que dá pelo nome de Brad Mehldau e que veio contribuir, de forma mais determinante do que muitas vezes se lhe reconhece, para um importante (e muito esperado) passo evolutivo na linguagem do seu instrumento e, pelo sublime trabalho desenvolvido com este trio, para um renovada forma de tocar a três, fresca e revigorante como um copo de água no deserto. 


O jogo dialogante entre as duas mãos de Mehldau é, regra geral, o primeiro efeito que se lhe associa. Conta para tal o sério domínio da fuga e de vários outros aspetos técnicos permitido por um profundo conhecimento (e prática) da literatura clássica do instrumento, mas há muito mais do que isso; há algo de extremamente individual e original na forma como Mehldau tantas vezes percorre loucamente o teclado com a mão direita e elabora a melodia e muitas variações com a esquerda (ou não será, às vezes, ao contrário?). Não menos fascinante é a maneira como este jogo de mãos lhe permite construir novas frases – quando não mesmo destruir e reconstruir os temas sobre os quais se debruça – através da alternância (e alguma sobreposição) de fragmentos melódicos proferidos por cada uma das mãos.

Mas as inovações de Mehldau não se ficam por aí. Outra delas, de difícil explicação sob o ponto de vista técnico e físico do próprio piano, é a forma como consegue bruscamente silenciar notas agudas intensamente percutidas enquanto faz reverberar acordes ou escalas no registo mais grave do instrumento. Estranho, mas possível... nas mão de Mehldau. Esta tornou-se, a partir de então, uma técnica tantas vezes tentada por muitos outros pianistas, mas nunca com a perfeição e o efeito dramático conseguidos pelo seu criador.

Quase arriscaria dizer algo de muito semelhante em relação à importância de Jorge Rossy... Ou melhor, vou mesmo arriscar, começando por gritar bem alto o quão inadmissível me parece que Rossy seja, tão simplesmente, considerado como um proficiente e tecnicamente avançado “mainstreamer” só porque toca tempos (e que tempos toca ele!) ou porque é um exímio “swinger” com as vassouras. Nada disso, ou, mais precisamente, não apenas isso... Rossy é um sobredotado do ritmo e, pelo menos ao longo do período a que se reporta esta coleção, um verdadeiro obcecado pela sua própria evolução, sendo disso prova o facto de que gravava e ouvia toda e qualquer atuação deste trio – chegou, por esse motivo, a ser alvo de alguma troça pelos seus parceiros, que iam relaxar e beber um copo após o concerto, enquanto Rossy se trancava no quarto do hotel a punir-se pelos defeitos que – muito improvavelmente – pudesse encontrar no concerto dessa noite. O resultado de tal dedicação sempre esteve bem patente ao ouvido de quem o quisesse ouvir, mas é também algo que, mais uma vez, se torna reforçado pela edição conjunta de todo o material gravado por este trio. Rossy é, aliás, o músico que evidenciou um crescimento mais constante e pronunciado ao longo de todo o trajeto realizado por este trio; se é notório, nos vários aspetos acima referidos, o crescimento do próprio Mehldau entre o primeiro e o terceiro volumes desta série, o de Rossy foi verdadeiramente imparável até à altura em que abandonou o grupo para regressar a Barcelona e se dedicar ao piano. Tenho várias vezes questionado se o motivo de tal partida não estará de alguma forma relacionado com a perceção do próprio Rossy de que se aproximava de um ponto a partir do qual dificilmente poderia manter o tipo de progressão que até então havia sido capaz de efetuar. 

Acresce ainda que, por mais brilhantes que possam ser os posteriores registos de Mehldau com Grenadier e com Jeff Ballard no lugar de Rossy, foi com o seu trio original – este que aqui se pode ouvir – que atingiu o pico criativo que justifica por completo o título de “The Art of the Trio”.

Larry Grenadier
, o terceiro fantástico aqui presente, constitui, da primeira à última nota destes sete discos, o pilar mais seguro que Mehldau e Rossy poderiam encontrar entre si. Não será por acaso que, nas situações em que tenho tido oportunidade de trocar pareceres com diversos contrabaixistas sobre os mais importantes praticantes do seu instrumento na atualidade, o nome de Grenadier surge, quase invariavelmente, entre os três primeiros a serem mencionados, o que não é de admirar face ao que dele aqui se pode ouvir. É, aliás, muito interessante que, naquelas trocas de impressões, o nome de Grenadier seja normalmente referido concretamente no contexto deste grupo. É aqui que, tal como para os outros dois membros, a arte de Grenadier atinge o seu ponto mais alto.

O repertório percorrido por este trio é também um aspecto que não poderia deixar de ser equacionado no seu sucesso. Neste domínio, as escolhas de Mehldau nos dois primeiros volumes da série “The Art of the Trio” não terão constituído grande surpresa para a atenta comunidade do jazz: uma vasta série de standards, um tema de Coltrane aqui (“Countdown”), outro de Monk ali (“Monk’s Dream”), outro dos Beatles (“Blackbird”) e outro ainda de Mancini (“Moon River”). Ainda assim, era o que o trio fazia com esta matéria-prima (sempre muito bem selecionada) que mais contava. Por outro lado, Mehldau nunca descurou a composição, não sendo difícil admitir que os seus próprios temas em muito terão contribuído para a frescura da música apresentada por este trio. Diria mesmo que o único motivo para que as suas composições sejam tão raramente tocadas por outros músicos se relacione com a dificuldade em fazer com que elas soassem melhor do que quando entregues a Mehldau, Grenadier e Rossy.

Mas diria que, ainda no que ao repertório diz respeito, o aspeto mais marcante deste trio começou a ganhar expressão a partir do 3º volume (Songs), o momento em que Mehldau começou a dedicar atenção à música de compositores da esfera da pop, nomeadamente à do grupo Radiohead (“Exit Music”) e à do cantautor britânico dos anos de 1960 Nick Drake (“River Man”). É claro que, na precisa altura em que este trio começara a dar que falar, Herbie Hancock se concentrou na tentativa (consciente, mas falhada, ou, às tantas, conscientemente falhada) de elevar a música de Paul Simon, Don Henley, Sade, Prince, Stevie Wonder ou Nirvana à qualidade de “novos standards” aos quais os jazzmen da época poderiam dedicar a sua atenção em alternativa aos velhos standards do cancioneiro norte-americano.

Se aquela tentativa poderia, como se tornou tão frequente em Hancock, trazer na manga algumas implicações de ordem comercial, não deverá restar qualquer dúvida de que Mehldau se terá virado para a música de Nick Drake e dos Radiohead por algum motivo que não o facto de que acreditava nela e, mais importante, acreditava que, com Rossy e Grenadier, tais versões poderiam trazer algo de significativo às suas performances, tão significativo que me recordo perfeitamente de, na edição de 1998 do Seixal Jazz, ter ficado literalmente colado à cadeira no momento em que pela primeira vez ouvi este trio tocar “Exit Music” (ver vídeos abaixo)Songs, o álbum em que este tema foi pela primeira vez apresentado, foi editado (ou eu consegui pôr-lhe as mãos em cima) poucos dias depois desse concerto. Senti a emoção e o choque de subir ao céu, de por lá viajar, bem vivo e alerta, mas perfeitamente incrédulo na sublime experiência musical que vivia naquele momento.

Gravados ao vivo ou em estúdio, esta coleção está cheia de momentos como aquele, e não pode, por isso, deixar de ser alvo de uma recomendação máxima para todos os que não tenham ainda em casa a maioria deste material. E há ainda cinco temas nunca antes editados, gravados em diferentes ocasiões, entre 1997 e 2001, no Village Vanguard, para deixar alguma água na boca mesmo dos mais ávidos colecionadores da música de Mehldau.

Seja como for, a música deste trio, reunida neste integral ou distribuída pelos cinco volumes originais, tem lugar obrigatório em qualquer aglomerado de discos que pretenda assemelhar-se a uma coleção de jazz. Absolutamente essencial!

Paulo Barbosa