BRAD MEHLDAU / LARRY GRENADIER / JORGE ROSSY
The Art of the Trio Recordings: 1996-2001
Nonesuch


Brad Mehldau (piano)
Larry Grenadier (contrabaixo)
Jorge Rossy (bateria)
Para além de tornar claro (ou, para muitos, de vir “apenas” relembrar) que este foi um dos mais especiais trios da segunda metade da década de ’90, a edição e a audição desta série de discos vem em boa hora propiciar a afirmação da minha imensa admiração por um pianista em relação ao qual lamento apenas que, a partir de determinada altura, nem sempre tenha tomado as melhores decisões artísticas e, no fundo, orientado a sua carreira no melhor sentido que lhe seria possível. Aliás, se há algo que este conjunto de discos vem corroborar é exatamente a ideia de que, para Mehldau, tudo (ou quase tudo) seria (ou teria sido) possível. ![]() O jogo dialogante entre as duas mãos de Mehldau é, regra geral, o primeiro efeito que se lhe associa. Conta para tal o sério domínio da fuga e de vários outros aspetos técnicos permitido por um profundo conhecimento (e prática) da literatura clássica do instrumento, mas há muito mais do que isso; há algo de extremamente individual e original na forma como Mehldau tantas vezes percorre loucamente o teclado com a mão direita e elabora a melodia e muitas variações com a esquerda (ou não será, às vezes, ao contrário?). Não menos fascinante é a maneira como este jogo de mãos lhe permite construir novas frases – quando não mesmo destruir e reconstruir os temas sobre os quais se debruça – através da alternância (e alguma sobreposição) de fragmentos melódicos proferidos por cada uma das mãos. Mas as inovações de Mehldau não se ficam por aí. Outra delas, de difícil explicação sob o ponto de vista técnico e físico do próprio piano, é a forma como consegue bruscamente silenciar notas agudas intensamente percutidas enquanto faz reverberar acordes ou escalas no registo mais grave do instrumento. Estranho, mas possível... nas mão de Mehldau. Esta tornou-se, a partir de então, uma técnica tantas vezes tentada por muitos outros pianistas, mas nunca com a perfeição e o efeito dramático conseguidos pelo seu criador. ![]() | Acresce ainda que, por mais brilhantes que possam ser os posteriores registos de Mehldau com Grenadier e com Jeff Ballard no lugar de Rossy, foi com o seu trio original – este que aqui se pode ouvir – que atingiu o pico criativo que justifica por completo o título de “The Art of the Trio”. ![]() O repertório percorrido por este trio é também um aspecto que não poderia deixar de ser equacionado no seu sucesso. Neste domínio, as escolhas de Mehldau nos dois primeiros volumes da série “The Art of the Trio” não terão constituído grande surpresa para a atenta comunidade do jazz: uma vasta série de standards, um tema de Coltrane aqui (“Countdown”), outro de Monk ali (“Monk’s Dream”), outro dos Beatles (“Blackbird”) e outro ainda de Mancini (“Moon River”). Ainda assim, era o que o trio fazia com esta matéria-prima (sempre muito bem selecionada) que mais contava. Por outro lado, Mehldau nunca descurou a composição, não sendo difícil admitir que os seus próprios temas em muito terão contribuído para a frescura da música apresentada por este trio. Diria mesmo que o único motivo para que as suas composições sejam tão raramente tocadas por outros músicos se relacione com a dificuldade em fazer com que elas soassem melhor do que quando entregues a Mehldau, Grenadier e Rossy. Mas diria que, ainda no que ao repertório diz respeito, o aspeto mais marcante deste trio começou a ganhar expressão a partir do 3º volume (Songs), o momento em que Mehldau começou a dedicar atenção à música de compositores da esfera da pop, nomeadamente à do grupo Radiohead (“Exit Music”) e à do cantautor britânico dos anos de 1960 Nick Drake (“River Man”). É claro que, na precisa altura em que este trio começara a dar que falar, Herbie Hancock se concentrou na tentativa (consciente, mas falhada, ou, às tantas, conscientemente falhada) de elevar a música de Paul Simon, Don Henley, Sade, Prince, Stevie Wonder ou Nirvana à qualidade de “novos standards” aos quais os jazzmen da época poderiam dedicar a sua atenção em alternativa aos velhos standards do cancioneiro norte-americano. Gravados ao vivo ou em estúdio, esta coleção está cheia de momentos como aquele, e não pode, por isso, deixar de ser alvo de uma recomendação máxima para todos os que não tenham ainda em casa a maioria deste material. E há ainda cinco temas nunca antes editados, gravados em diferentes ocasiões, entre 1997 e 2001, no Village Vanguard, para deixar alguma água na boca mesmo dos mais ávidos colecionadores da música de Mehldau. Seja como for, a música deste trio, reunida neste integral ou distribuída pelos cinco volumes originais, tem lugar obrigatório em qualquer aglomerado de discos que pretenda assemelhar-se a uma coleção de jazz. Absolutamente essencial! Paulo Barbosa |

















