Foi
um passeio que demorou a fazer a transição dos emails até aos trilhos.
Sofreu adiamentos sobre adiamentos, fruto do infeliz posicionamento do
anti-ciclone dos Açores que tanta chuva nos tem trazido. Não é que não
gostemos de pedalar sob ela, mas se tivermos escolha... escolhemos dela
fugir.
O plano era algo na casa dos quarenta e tais quilómetros. Ritmo pausado, sem grandes complicações. O acumulado não seria terrível. Decidi então levar a minha bicicleta mais bruta, a velha BH com mudanças de cubo Alfine. Prezada pela fiabilidade e um meio caminho entre a polivalente FS multispeed e a espartana SS ultra-leve pareceu-me uma opção lógica. O inicio do percurso foi bastante pontual. Pouco depois da nove da manhã já atravessávamos o centro de Vila Pouca de Aguira, rumando à ciclovia. No entanto não chegamos lá sem eu antes perder as mudanças todas. Quando comuniquei aos meu companheiros tal facto fui castigado com inúmeros impropérios sobre o uso de aparelhos "experimentais" em voltas de exploração sem apoio. Nas cabeças deles já imaginavam molas e parafusos espalhados pelo trilho, óleo escorrendo pelo solo como sangue derramado. O caso não era esse. Uma análise rápida indicou-me que tinha apertado insuficientemente o anel que mantém o mecanismo de actuação das mudanças. Foi graças ao reaperto deste anel que arranjamos companhia local. Enquanto eu manuseava porcas e chaves inglesas, três intrigados locais rapidamente reconheceram o indivíduo com o bigode mais carismático do mundo do BTT português .Após curta conversa aperceberam-se que tinham encontrado um lobo e um índio no quintal sua própria casa. Aproveitaram esta oportunidade para nos acompanhar um pouco. Finda a apressada reparação, começou a primeira subida. Dura e lamacenta, torcendo-se ao longo das encostas que abraçam Vila Pouca de Aguiar. A chuva miúda foi companheira constante, recobrindo homens e máquinas com uma fina camada de gotas de água. Essa humidade fazia o Indy preocupar-se com a sua recentemente comprada máquina fotográfica digital. Seria sensato andar com ela apenas na bolsa? Talvez colocar na mochila? Hesitou entre entre as várias hipóteses até chegar a um prático compromisso: -Enrolar a bolsa com um saco plástico de supermercado. Simples e eficaz. A propósito da engenhosa solução, discutiu-se a natureza dos sacos plásticos como heróis escondidos das grandes travessias e aventuras épicas em duas rodas. Não há expedição que não os use como complemento aos caros sacos de fibras sintéticas e acabamentos repelentes à agua de alta tecnologia. ![]() Não chegamos ao topo da subida sem a minha transmissão voltar a ficar sem mudanças. Isto de reparações à pressa e com muita gente a olhar não é facil. Compreendo agora a necessidade de isolamento meditativo do Indy, patente quando é assolado por azares mecânicos inesperados. Novamente não rodei o anel de fixação até à sua posição final e como um pássaro que encontra a porta da gaiola aberta, ele resolveu voltar à liberdade. Mais uma curta reparação, desta vez com a atenção devida à posição final do anel. Garanti ao resto da trupe que não haveriam mais problemas, mas percebi que eles anda me auguravam um futuro de inevitável catástrofe mecânica, talvez castigo divino dos deuses do BTT pela ousadia de abandonar o sagrado paralelogramo desviante. ![]() No alto do planalto, seguimos de forma célere e rolante. Ora subindo ligeiramente, ora descendo um pouco mais depressa, deslizávamos por um percurso de bom piso, ladeados por belas paisagens florestais, dominadas por pinhais e ladeadas com viçosa erva. A erva era de um verde brilhante, certamente alimentado pelas incessantes chuvas deste mês. ![]() Estava fascinado com a constante faixa verde que nos rodeava. Fora dos sagrados parques naturais não é muito comum fazer dezenas de quilómetros em trilho sem aparecer nenhuma mancha visual que quebre a perfeição da natureza rural. Nenhuma urbanização ou rotunda. Nenhum condomínio fechado nem campo de golfe. Apenas verde, campos e aldeamentos presos no tempo. ![]() ![]() Os bons caminhos de terra batida foram interrompidos por um pequeno singletrack técnico. Pontuado por raízes e lascas de xisto cobertas de musgo e humidade proporcionou um pouco de adrenalina, contrastando com a paz mental que nos era induzida pela paisagem. ![]() Seguiu-se uma subida inclinada feita à mão que nos depositou num denso e belo pinhal. Todos o atravessamos apreciando as intrincadas paredes formadas pela malha de troncos de coníferas. Sujeitas ao peso das suas copas molhadas, as árvores curvavam-se suavemente formando uma abóbada, a peça final desta espécie de catedral natural, onde o vento fornecia a coro musical. ![]() ![]() Dirigiamo-nos agora ao complexo histórico de Tresminas para contemplar a marca indelével e milenar da exploração do mais desejado dos metais. O acesso fez-se por uma bucólica estrada, rodeada por uma infinidade de prados. Nesses prados cresciam fortes e numerosos os cogumelos que são uma especialidade local. Explicaram-me que dão um belo alimento, depois de devidamente preparados e bem assados. ![]() O complexo de minas impressiona pela dimensão. Profundas crateras, ladeadas de rasgadas encostas, forçam automaticamente a mente a questionar-se sobre o trabalho manual que foi requerido para tamanha modificação da crosta terrestre. As imagens falam por si, mas uma visita ao local é altamente aconselhada para correctamente absorver o impacto da paisagem. Se dantes a preciosidade era o ouro, hoje é a paisagem, única e histórica. Um valor escondido do turismo histórico português. ![]() ![]() ![]() Finda a visita às minas separámos-nos dos nosso anfitriões de ocasião. Tentaram-nos oferecer o seu telefone para serem úteis num eventual resgate caso a nossa volta restante esbarrasse em alguma dificuldade imprevista. O Indy recusou de forma pronta, mas simpática, confiante na solidez do seu percurso original. ![]() Abandonamos as minas, descendo a alta velocidade por uma sequência de caminhos florestais bem conservados. Novamente envolvidos na beleza da paisagem, foi com aparente rapidez que chegamos ao local da pausa para almoço. ![]() Foi aqui que se decidiu, por sugestão do Major, acrescentar ao percurso um número desconhecido de quilómetros, por caminhos com qualidade de piso e altimetria desconhecidos. O Indy certamente que insultaria qualquer outro que fizesse tal sugestão, mas por reverência à personalidade e com alguma inusitada descontracção, acedeu ao pedido do matreiro Lobo. Sim, suspeitei da natureza da alteração, mas alinhei de bom grado. Previsivelmente, o que se seguiu foi a secção mais verticalmente intensa do percurso. Uma descida prodigiosamente enrolada sobre si mesma deixou-nos numa pequena estação hidro-eléctrica, sem vista de saída possível. ![]() Mas o track era rei. Havia que cruzar o rio de razoável dimensão que rasgava o vale. Encarei a ideia com elevado cepticismo, a água estaria glaciarmente gelada, mas a alternativa de subir pelo mesmo sítio por onde descemos era igualmente nefasta. Lá me convenci a meter os sapatos à volta do pescoço e acompanhar os gurus descalços na travessia do rio purificador. E não foi assim tão mau. Como diz o Indy, estava tanto frio fora de água como dentro. Uma questão de diferenciais reduzidos tornou a coisa minimamente suportável. ![]() Fazendo uns curtos metros na outra margem, fomos confrontados com a necessidade de ter que atravessar o mesmo rio outra vez para seguir o track, desta feita numa parte ainda mais funda e com mais forte corrente. Enfim, acho que nenhum de nós ficou verdadeiramente surpreendido com o desenrolar dos acontecimentos. Já andamos nisto tempo suficiente para saber que a lei de Murphy também se aplica no BTT. Se estás no fundo, agarra-te bem porque isto ainda vai piorar. ![]() Segunda travessia feita, seguiu-se uma extensa e inclinada subida, pontuada por algumas secções de piso mole. Confesso que invejei a rotativa pedalada 22-32 dos meus colegas enquanto esmagava o duro 32-38 que o Alfine apenas me podia dar. Nada de impossível, mas era certo que estava a consumir as minhas preciosas reservas anaeróbicas apenas para os acompanhar. Um ligeiro erro de navegação atrasou o início de descida e regresso ao percurso original. Tínhamos falhado uma viragem para um carreiro de espartano piso, revestido a calhaus húmidos. Uma pequena anomalia, contrastando com o típico piso de boa qualidade desta zona. Descemos então até ao agrupamento de aldeias de Jales, onde nos esperavam algumas subidas lamacentas que me retiraram gradualmente a energia. Novamente, a minha opção de mudanças pesadas estava-me a tornar difícil acompanhar o resto do grupo. Os limites do cubo impunham-me um curto binário de saída que me deixava facilmente preso em qualquer poça de lama. Desde aqui tive-me que me manter sempre na cauda do grupo, gerindo cuidadosamente o esforço e alimentando-me correctamente para fugir à terrível marreta. Atravessada a última aldeia de Jales, encontramos o inexplicável parque infantil descrito em detalhe no relato do Indy. As máquinas fotográficas saíram todas das suas bolsas para registar a improvável localização daquela peça de mobiliário urbano. ![]() Agora, uma passagem de montanha aguardava-nos lá à frente. A subida era relativamente suave e estávamos todos convencidos que curtos minutos nos separavam da prometida descida final que nos depositaria no coração de Vila Pouca de Aguiar. Era só subir mais um bocadinho. Mas o bocadinho transformou-se num bocadão. A subida enrolava-se, descia um pouco por uma trialeira e voltava a subir. A progressão era lenta, prejudicada pelo gradual aumento da densidade de giestas que como gigantes faixas de velcro insistiam em prender a nossas bicicletas. O aumento da densidade vegetal foi de tal forma incessante que finalmente o caminho desapareceu por completo, completamente afundado em mato. De repente a situação tornou-se crítica. Haviam poucos minutos de luz, uns quarenta, se tanto. Valia a pena insistir em avançar por aquela barreira verde? Ponderaram-se as alternativas por entre conselhos dados por um caçador que ao longe vagueava o mato com os seus cães. O tempo ficava cada vez mais escuro e frio. Lembrei-me da oferta do número de telefone de resgate que os nossos companheiros de ocasião nos queriam dar. Um pouco de ironia para me entreter os pensamentos. O processo decisivo não foi muito longo e a experiência ditou em jogar pelo seguro. Voltar para trás e seguir de forma paralela à crista da montanha até atingir a estrada que nos levaria ao local de aparcamento dos carros. Foi psicologicamente duro voltar para trás entre tanto frio e alguma chuva, mas compensou. Em razoável tempo estávamos na estrada nacional que com as suas curvas descendentes nos embalou até à conclusão do percurso. Chegamos no momento exacto em que a escuridão caía. Sorte ou perícia na gestão de tempo? Diria que houve um pouco dos dois, até porque não quero pensar nas consequências caso tivéssemos optado por atravessar a ritmo lento a barreira de giestas que nos prendeu na subida final. Admito, na altura não apreciei muitos dos momentos da volta. Houve frio, chuva, adversidade diversas, decisões complicadas. Mas agora, em retrospectiva, não posso deixar de considerar esta volta como uma daquelas que vão para a vitrina de honra. Foi um teste de carácter que nos desafiou a resolver problemas e a puxar das nossas melhores capacidades para a o ultrapassar. Uma volta para lutadores, feita com a excelente companhia de dois veteranos da pancadaria à moda antiga. |



















