Bem vindo ao meu cantinho de informação. Este espaço serve de repositório público de algum do material que fui gerando, adquirindo e encontrando ao longo do meu percurso a andar de, e lidar com, bicicletas.

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Peneda 2009

Festas de aniversário há muitas. Umas fazem-se no conforto da própria casa com a companhia da família, outras fazem-se em restaurantes de faca e garfo na mão. Há também quem prefira a animação de um qualquer popular bar ou discoteca para comemorar a adição de mais um capítulo anual à sua cronologia de vida.

Mas que festa organizar para um especialista nos empenos de montanha e longa distânica? A resposta chegou por parte do Lobo, com  "Super Empeno da Peneda" como working title .

Super empeno? Estranhei o nome. Afinal, com este navegador ao leme todas as voltas são um empeno garantido. Fui então olhar atentamente para o menu. 105 km, mais de 3000 metros de acumulado, duas voltas distintas na Peneda, unidas por um troço de alta montanha. Já em 2007 tinha feito a porção inicial e final deste percurso e na altura fui confrontando com a violência do terreno e do piso. Relembrando essas dificuldades de anos idos, às quais se juntaria ainda um novo loop de 60 quilómetros mais, fiquei desde logo convencido que me veria confrontado com o, até então, mais difícil desafio da época de 2009.
Foi com alguma apreensão que preparei o equipamento. Esta ia custar, ó se ia.

O dia começou com a subida até perto do topo da Peneda. Fez-se com bom ritmo. As principais dificuldades em termos de inclinação estão concentradas nas curvas e contracurvas iniciais da estrada asfaltada.



Brincava com o resto do grupo, dizendo constantemente que ia lançar um ataque à Armstrong, só para ver se alguém queria seguir num pequeno picanço para quebrar a rotina. Mas ninguém estava interessado. Como disse o Indy " Eu e o Major somos pessoas focadas em objectivos. Atitudes dessas iam prejudicar o objectivo". "E não são os únicos", pensei cá para mim, sonhando com o temporalmente distante momento de regresso aos carros.



O terreno acalma um pouco à medida que se ascende, embora o piso quebrado possa por vezes causar problemas de tracção ou na escolha da trajectória óptima. E lá passamos no alto, a meras centenas de metros do cume da Peneda.



Era agora altura de trocar de track. A segunda parte do percurso era atingida seguindo um percurso fundamentalmente descendente, planando velozmente sobre os rochas quebradas durante quilómetros a fio.



A travessia de um bosque fechado encaminhou-nos para a aldeia de Branda de Aveleira, onde ajudamos um turista perdido a reencontrar a sua manada. 



À saída da aldeia tive a desagradável surpresa de verificar que tinha um pneu furado. Abandonado à minha sorte por uma comitiva empenhada em despachar a subida seguinte, lá fiz a reparação a solo. Reparação essa que por pouco não dava em "tragédia". Acontece que das duas câmaras que levava comigo, uma era 29x1.5. Felizmente que a outra era uma 26x2.0 e me salvou o momento. Enfim, bicicletas a mais.

Foi nesta altura que o Óscar nos abandonou, sábiamente evitando o confronto com os monstros graníticos que se avizinhavam. Desejos de boa viagem foram mutuamente expressos e fizemo-nos de novo ao trilho. Era altura de descer mais um pouco. O Rui lamentava-se pela destruição do singletrack que anteriormente ocupava a encosta mas felizmente apenas poucos metros foram convertidos em estradão. Quase todo o trilho estava no seu estado original. As giestas e urzes em flor deram uma beleza especial ao troço.



Chegado ao fim deste single sou presentado com mais um pneu furado. Com apenas 40 km percorridos, era cedo demais para começar a entrar em problemas técnico-logísticos. Mas aqui houve trabalho de equipa . Graças a uma câmara emprestada pelo Rui e uma inspecção visual de picos por parte do Indy a coisa lá se compôs. 4000 km sem furos e aparecem logo dois na volta mais difícil do ano. A lei de Murphy ataca novamente. 

A descida continuou por mais uns quilómetros. Já quase a chegar a Parada do Monte, eu e o Rui envolvemos-nos num curioso incidente com uma giesta empenhada em arrancar cabeças. Felizmente uma travagem rápida evitou decepamentos. Sem cabeça é difícil cumprir objectivos.

Estavamos agora prestes a abordar o terrível maciço do Cabeço do Pito. Erguendo-se no território mais a Norte de Portugal continental, obrigou-nos a uma subida em 3 actos. 

No primeiro acto, abordamos as rampas de asfalto que unem Cortegada a Cubalhão. Quatro penosos troços de asfalto com inclinação sempre acima dos 15%, separados por apertados ganchos onde a inclinação sobe ainda mais, para valores próximos dos 20%. Segui eu o Indy na frente. Sentia-me bem. Ia a pedalar em pé e em força. Comecei a ganhar confiança para a o que ainda faltava subir. Lá atrás o Rui ia claramente em modo de poupança de energia. Atitude bem inteligente, face ao que ainda restava subir.



Ao atravessar a aldeia de Cubalhão vimos o nosso caminho interrompido por um agitado rebanho de ovelhas e os seus pastores. Uma pastora perguntou-nos qual o nosso destino. "Lamas de Mouro", respondemos.
A resposta foi clara: "Então vão para o lado errado. A estrada é para outro lado". E assim ganhamos a reprovação na escolha de caminho por parte dos habitantes locais, a marca essencial de um percurso bem escolhido!



Segundo acto de subida. Atacamos a porção mais técnica da ascensão. De Orjás até o curral de Cavaleiro Alvo. Piso duro e irregular. De inclinação razoavelmente suave, era no entanto pontuada por rampas curtas, areia solta a dificultar a tracção. Aqui segui poucos metros atrás do Rui, que navegava a encosta por trilhos difíceis de discernir. 



Uns metros atrás seguia o Indy. A chegada ao curral foi marcada por um desafio em rampas de terra ou pedra. Qualquer que fosse o caminho escolhido era obrigatório desmontar. O Indy optou pelo caminho mais curto e passou a liderar o esforço de subida.



Chegamos então ao terceiro acto. Um encadeado de ganchos, ligados por secções inteiras de pedra e areia solta que apenas marginalmente se aparentavam com um caminho. Associados à dificuldade da pendente surgiam ocasionais obstáculos técnicos para transpor. Valas, regos rochosos, sequências de granito para trepar sem desequilibrar. De longe a longe surgia um ou outro caminho de cabra paralelo ao estradão para fugir das pedras, mas mesmo essa opção obrigava a uma atenção extra para não cair encosta abaixo. Com os recursos físicos e mentais a diminuir constantemente lá fomos avançando penosamente. Um gel energético revelou-se providencial para me ajudar a transpor os últimos degraus até ao estradão no topo do Cabeço do Pito.



Contornamos o Cabeço pelo longo estradão de acesso ao parque eólico. O rio Minho e Espanha espalhavam-se no horizonte, a Norte. Concluída a viragem de 180º, a velocidade aumentou à medida que perdíamos altitude, rumando rapidamente até Lamas de Mouro.



A entrada em Lamas de Mouro foi um pouco atabalhoada. Por momentos até nos separamos, quando um erro de navegação deixou os três a tomar caminhos ligeiramente diferentes. No entanto o reencontro foi rápido e pouco depois já estávamos reagrupados de bicicleta em mão, caminhando desajeitadamente pela obstruída e íngreme calçada que precede a aldeia.

Atravessamos fugazmente o centro da aldeia raiana e dirigimo-nos para o Restaurante Vidoeiro onde fizemos um primeiro reabastecimento tardio. Ainda só tínhamos despachado 60 km, faltavam tantas horas. Água fresca no camelbak, uma sandes no estômago e toca a rolar, que ainda haveria muito para subir.

E não foi preciso esperar muito. Logo à nossa frente surge o vale do Alto do Fojo. Imponente e rodeado por rochedos verticais, teríamos que subir um pouco da sua estrada de asfalto e contornar o monte por um estradão para tomar a direcção correcta.



Foi aqui o que o vírus do Empeno A começou a atacar o Rui. Atrasou-se bastante na ascensão por asfalto. Por pouco tomava a decisão de continuar a atalhar por estrada, mas devido à falta de rede telefónica para nos comunicar tal decisão optou por nos seguir à distância pelo caminho. Admiro a coragem de abordar as dificuldades que se seguiram com tão pouco combustível extra no depósito. Porque a dureza ainda continuou por muitos quilómetros, daqueles mais longos. Ainda assim, comparado com outras subidas do dia, o contorno do Alto do Fojo não foi especialmente duro, o piso até era bom.  





Em contraste, a subida final até as encostas sobranceiras do pico da Pedrada foi complicada. Transpusemos dezenas e dezenas de jardins de pedra, em luta constante para manter as bicicletas a rolar a um ritmo aceitável sobre o constante massacre das pedras. Pontes destruídas obrigavam a travessias de rio pouco ortodoxas. E o dia ia cada vez ficando mais curto. 



Mesmo com o empeno a rondar, seguíamos a bom ritmo e coesos quando finalmente chegamos ao início da descida. Parece que desta vez a marreta não acertou em cheio em ninguém. O objectivo esperava-nos no fim daquela cobra de pedra. 



Fazer esta descida requer concentração e força de braços para aguentar com os incessantes impactos. São calhaus sobre calhaus a atravessar durante cerca de 10 km. Um agitado e ondulante mar de rocha para navegar. Para ajudar à festa, numa das primeiras secções consegui logo fazer um "quase-OTB". Amparei-me com a mão numa pedra afiada e fiz um pequeno corte num dedo que começou a sangrar. Sem tempo para assistências médicas segui, espalhando sangue por todo lado. Manípulos, punhos, quadro. Tudo pintado de vermelho. 

Alheei-me rapidamente de considerações negativas e lá reentrei no ritmo, rolando entre os outros dois artistas pela encosta abaixo. O amortecedor traseiro da minha bicicleta foi um dádiva divina. Lembro-me de fazer esta descida em 2007 com a minha HT e sofrer bem mais. Pelo menos o Indy, bom descedor, parecia muito abalado com a violenta descida na sua HT de alumínio.



Eventualmente o asfalto chegou, tapete suave e acolhedor para os nossos braços e pernas cansados. Embalados pelas curvas da estrada, fomos depositados na aldeia de Cabreiro onde os nossos carros nos aguardavam. 105.86 km, 3155 metros de acumulado. Objectivo cumprido, que bela festa!