Bem vindo ao meu cantinho de informação. Este espaço serve de repositório público de algum do material que fui gerando, adquirindo e encontrando ao longo do meu percurso a andar de, e lidar com, bicicletas.

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Pão com Chouriço

O plano era simples. Sair da sede do CEVA em Delães, serpentear um monte ou dois e finalmente chegar à aldeia de Cabeça Santa, lar do famoso pão com chouriço, recompensa praticamente mítica para os que chegaram ao destino.

O frio da manhã marcou os primeiros quilómetros. Após uma descida rápida de asfalto, tinha os dedos quase congelados e foi com dificuldade que tirei a máquina para registar a imagem do grupo subindo a primeira adversidade do dia.



Logo imediatamente a esta subida, um single recoberto de mato deu-me trabalho extra. Vários ramos tinham-se enrolado na minha roda de trás e tive que perder uns minutos a desfiar o irritante novelo. 

Continuamos a descida, saltando por hortas, campos e urbanizações, finalmente chegando à ponte pedestre sobre o Rio Vizela. O guia Óscar divertia-se claramente nesta nova posição de responsabilidade, mesmo por entre as inúmeras bocas provocadoras dos mais experientes elementos do grupo.



Passado o Ave, iniciaram-se as primeiras reais dificuldades. A subida até Roriz massacrou pelo seu piso enlameado e mole, exigindo esforço extra para ultrapassar o seu declive. Ainda assim o grupo seguia relativamente compacto.



Ultrapassado o topo, o grupo tomou direcção ao famoso Mosteiro de Singeverga. No entanto, antes de lá chegar um obstáculo tinha que ser ultrapassado. É que o melhor caminho para o mosteiro passa pelo pátio interior de uma pequena habitação rural. O plano era entrarmos rapidamente, abrir o portão sem fazer muito barulho, tornar a fechar e continuar a rolar. Acontece que fizemos um pouco de ruído de mais e a senhora da casa veio cá fora ver o que se passava. Felizmente o ET, diplomata nato, explicou a situação cuidadosa e detalhadamente. 

Explicações aceites, lá seguimos rumo ao mosteiro. navegando antigos caminhos obstruídos por vegetação húmida. Por entre hortelã, fetos e até plantas de bambu, lá seguiu o grupo. Todos tentavam evitar cair nos frios regatos, que ferozmente cumpriam a sua missão de devolver as águas pluviais aos rios.





No ínicio da subida para a Lustosa, já com o Indy embrenhado nas suas fúrias mecânicamente derivadas, eu o Tico aceleramos o ritmo para atempadamente montar um pequena armadilha de fotografia numa zona interessante tecnicamente.

Escondido atrás de uma pedra, apanhava as caras de satisfação dos companheiros, descendo rápidamente por entre as verdes encostas de Negrelos.







Era agora tempo de fazer a subida até a Lustosa, que além do seu declive acentuado, apresentava-se também completamente escavada pela água e como tal obrigava a concentração total para a escolha do melhor caminho.



No centro de Lustosa fomos obrigados a uma pequena diversão. Esta paragem foi originada pelo manípulo do Lockout da suspensão do ET,  que decidiu saltitar para fora da suspensão e obrigou o grupo a fazer uns metros para trás. Felizmente o Floopi depressa encontrou a saltitante pecinha preta e assim pudemos voltar ao percurso.

De Lustosa até Penafiel o percurso foi marcado por algumas indecisões do guia. Várias frases ficaram na memória, como:

   -Nesta parte aqui estamos a inventar

Memorável também a resposta pronta que foi dada relativamente á passagem num certo monte: 

   -Honestamente senhor, não sei"

Nada de preocupante. Todos os intervenientes apreciam a sua dose de navegação criativa do terreno!

A navegação criativa tem no entanto os seus custos. Após uma descida atrapalhada desde a Capela da Sª do Amparo em Messias, o Indy e o Tico furaram quase simultâneamente. E assim se teve de parar que algum ar da atmosfera fosse coagido a acompanhar os dois ciclistas até ao fim do percurso. 



Após uma curta paragem para reabastecer forças num café, os quilómetros de estrada até Penafiel foram atacados a diferentes velocidades pelo grupo. À frente, seguia-se a bom ritmo. Lá trás o passo era mais vagaroso. Esta cisão acabou por levar o grupo de frente (Eu, Indy, ET e Tico) a tomar a difícil decisão de não atalhar e cumprir o passeio na íntegra. 

Rapidamente fomos confrontados com as consequencias desta decisão. O percurso era íngreme e serpenteava em direcções aleatórias. Pelo caminho ainda fomos "perseguidos" por um grupo de jovens ciclistas, que cheios de energia nos tentaram acompanhar durante uma subida. A energia dos nosso acompanhantes durou pouco, pois da ultima vez que os vi estavam claramente a pensar "Estes gajos são malucos!". 

Os quilómetros finais iam passado, mas as mazelas iam começando a surgir. O ET ia novamente lutando com os músculos pouco cooperantes das suas pernas, enquanto o resto do grupo lutava para manter a moral em cima, especialmente agora que tínhamos recebido um telefonema informando que o resto do grupo já tinha atingido o seu destino após uns km de estrada.



Para reunir força e motivação paramos na beira de um estradão de montanha , contemplando os picos nevados do Marão e Alvão, comendo uns gomos de tangerina. Surgiu uma curta conversa filosófica sobre a natureza da decisão de seguir o percurso original . Acho que ninguém tinha a resposta...



Entretido a fazer contas de altimetria com o GPS, descobri que embora a distancia para o final fosse curta, faltava uma subida substancial antes de atingir o destino. E claro que ela apareceu.Inclinada, longa, de piso irregular e pedregoso. Degraus gigantescos de rocha partida. "Rais-parta a tecnologia!", pensava eu enquanto lutava com a forma ideal de levar ao ombro o obtuso quadro da minha FS. 

Devido à falha de pilhas no GPS no Indy, a descida final foi um pouco stressante, mas graças aos habitantes locais lá conseguimos saber o sítio exacto do nosso destino.

Umas centenas de metros em asfalto deixaram-nos na casa da D. Rosa Faneca, onde o merecido pão com chouriço nos aguardava. Substancial, delicioso e acabado de fazer. Soube pela vida. 

Comido o pão, trocamos de roupa e montamos as bicicletas na Toyota Hiace que nos devolveu a Delães.



Obrigado a todos pela companhia, especialmente para o guia Óscar, que mais ou menos presente lá conseguiu fazer desta voltinha uma daquelas para mais tarde recordar.  

Dados:

Duração: 8 horas e 50 minutos
Distância: 78.57 km
Acumulado: 2053 m