Bem vindo ao meu cantinho de informação. Este espaço serve de repositório público de algum do material que fui gerando, adquirindo e encontrando ao longo do meu percurso a andar de, e lidar com, bicicletas.

Links de tecnologia, história e novidades em duas rodas


Grande Rota do Ave e Vizela

Parte Um - Introdução

O plano chegou a meio da semana. 

    -Estás disponível sábado? Para o dia todo?

Respondi que sim e ele foi descrevendo o percurso. As montanhas a subir, as cidades a unir e finalmente, a quilometragem total. 

    -Cento e trinta quilómetros. 

Fiquei logo com um nó na garganta. Cento e trinta quilómetros, nesta altura do ano e em terreno tão adverso são um desafio. Os dias são curtos, as manhãs são frias. Lama nos trilhos, pedras húmidas e outros obstáculos são obviamente de esperar. Mas concordei. Não se recusam convites desta gente pois a pena para tal é ficar em casa a pensar no que se poderia ter conseguido fazer e nos sítios únicos onde se poderia ter passado. 

Combinou-se sair ás 8 da manhã de Delães. As 8 horas são o limite máximo para o guia, que diz ver o seu rendimento muito prejudicado se for obrigado a sair da cama a horas indecentes. Face ao acumulado e à distância em jogo, umas contas rápidas de cabeça mostravam que esta volta ia-se arrastar para a escuridão da noite. Consequentemente, os Camelbaks foram recheados não só de sandes e barras energéticas mas também de pilhas alcalinas e baterias de níquel cádmio. Exigências específicas desta altura do ano.

Parte Dois - Braga por um canudo

E ás 8 da manhã estávamos na Sede. Três elementos do grupo (Eu, Indy e Tico) tomavam cafés e compravam água para encher até ao topo os Camelbaks, enquanto se esperava pela chegada do quarto elemento, um pouco atrasado. O guia esperava que este atraso do ET o tornasse suficientemente nervoso para empenar logo nas primeiras subidas. Uns 10 minutos depois da hora lá chegou o homem em falta. Seguiram-se umas últimas verificações ao material e fizemos-nos à estrada, pedalando em ritmo rápido em direcção a Norte.

Umas curtas rampas de asfalto em Santa Maria de Oliveira serviram de aquecimento. Infelizmente, não serviu de muito, pois uns quilómetros à frente surge o primeiro contratempo. Numa descida rápida até Mogege, o ET acertou em cheio com o pneu de trás num prego de 5 cm. Furo instantâneo e obrigatória paragem para substituição da câmara de ar. 





Com todas as máquinas novamente operacionais era altura de atacar a primeira dificuldade do dia, o cume de Airão. Esta subida é feita quase toda em asfalto, terminando num singletrack cerrado. Embora o grupo se tenha partido em dois logo no início da subida, esta foi ultrapassada sem dificuldades de maior. 



A descida em estradão que se segue é rápida e sinuosa. Chegado o fim da descida o ET conta-nos do seu encontro quase imediato com a queda. Uma das mãos saltara-lhe do guiador e só com muita sorte conseguiu evitar o tombo. Sobressaltado por esta história de horror velocipédico fiz a descida em estrada que se seguia com muita calma, distanciando-me um pouco do resto do grupo. O asfalto molhado fez-me relembrar os fantasmas e as cenas do meu acidente no início deste ano. Como Hollywood tem vindo continuamente a demonstrar, o remake de filmes antigos é definitivamente algo a evitar.

O ataque ao Sameiro foi feito por Santa Marta das Cortiças. A subida começou dura e brutal com a chamada "Rampa do Jorge", cuja toponímia é devida ao facto do nosso companheiro Jorge GT ter sido capaz de a subir montado. Nós nem isso tentamos fazer, conservação de energias era a palavra de ordem. Esse mote também fez com que a meio da subida descêssemos para Oeste um pouco, isto para ir apanhar uma rota mais simpática para o topo.



Uma sucessão de trialeiras deixou-nos na Falperra. Seguimos a estrada mas rapidamente a abandonamos para tomar um caminho mais interessante para o topo do Sameiro. De estradão em estradão, pontuado por um ou outro singletrack, chegamos lá cima. Braga estendia-se lá em baixo enquanto descíamos em direcção ao Parque de Santo António, local onde fizemos o primeiro reforço alimentar.



Parte Três - A parte rolante do percurso

O objectivo desta parte do percurso era simples: - unir por trilhos o Sameiro à barragem do Ermal passando pela Póvoa do Lanhoso. 

Começamos por abordar a Serra dos Picos, que com os seus planaltos abertos e subidas suaves deixou-se conquistar facilmente. Pelo caminho passamos pela nascente do rio Este, marcada por uma piscina de pedra onde são colectadas as águas pluviais. Obras de saneamento no trilho imediatamente a seguir à nascente forçaram-nos a desviar por dentro de uma garagem, onde navegamos o nosso caminho entre um Mercedes e alfaias agrícolas. Espero que ninguém tenha arranhado o carro com os SPD's.



Tomamos agora a via romana que unia Bracara Augusta a Aquae Flaviae. A vista deste percurso é extraordinária, estando plantada às portas do Gerês. A via foi descida a elevada velocidade, com as bicicletas a saltar e a escorregar nas húmidas pedras milenares que dão a forma ao caminho. Em poucos minutos estávamos na Povoa do Lanhoso, dominada pelo seu castelo.  Curiosamente o castelo deu azo a uma pequena conversa sobre as motivações e tendências do nosso primeiro monarca, D. Afonso Henriques, para prender progenitoras e para a "porrada".



Os trilhos que seguiram tinham tanto de duros como de belos. Para chegar ao Ermal cruzamos inúmeras aldeias, rios e riachos pelo meio de uma perfeita paisagem de Outono. O som dos pneus a calcar as folhas e a lama foi a nossa companhia durante esta secção onde pouco conversamos. Isto porque o constante sobe desce destes trilhos começou a deixar marcas em todos. O ET, que tinha vindo a ficar um pouco para trás, pediu uma pequena pausa. Todos acederam de bom grado e fez-se novo reforço das reservas energéticas. 

Restava agora descer até Brunhais, onde íamos atravessar o rio e concluir esta parte do percurso. Um estradão rasgado pelas águas da chuva revelou-se um adversário ao nível da técnica descendente do Tico e apanhou-lhe o pneu de frente. Resultou daí uma queda sem danos graves e uma foto para a posteridade.



 Quase finda a descida, o Indy disse irónicamente: 

    - E esta era suposta ser a parte rolante do percurso...



Parte Quatro - Subida aos Infernos e descida ao Paraíso

Com mais de 60 km no corpo era agora altura de enfrentar a maior dificuldade do dia, a subida aos 900 metros do topo da serra do Maroiço. Eu na altura não sabia o nome da serra, mas sabia o que me estava a custar a subir, logo baptizei aquilo de monte F.D.P. 

A subida ao monte foi feita em várias partes distintas. Primeiro uma estrada de asfalto, longa e de inclinação suave. Deu-me bastante que fazer porque tive que parar logo no início para retirar um pico das luvas e assim vi-me relegado para o fim do grupo. Graças à ajuda do Tico lá vim a uma velocidade um pouco mais elevada para não fazer o resto do grupo perder tempo. Finda esta zona parámos num café para beber uma cola e comer uns salgados. Da janela do bar víamos o caminho que ainda restava até ao topo... e não era nada bonito. 

A segunda parte da subida consistiu numa série de estradões apertados que saiam da aldeia de Vila Boa. A inclinação era tão forte que dificilmente conseguíamos fazer mais de 10 metros montados na bicicleta. 

Finalmente chegamos à ultima e mais longa parte da subida, um estradão largo e sinuoso com inclinações absurdamente elevadas. Tenho que confessar que eu, um adepto das singlespeeds, me vi frustrado ao carregar na patilha de redução de mudanças e constatar que não havia mais nenhuma disponível. Estava frio e ventoso nesse monte mas o suor escorria-me abundantemente pela cara. Eu e o Tico seguíamos em ritmo certo à frente. Mais atrás o Indy e ET seguiam a pé, vítimas da brutalidade da subida. A meio da subida os músculos das pernas do ET deixaram de cooperar e só com uns minutos curtos de repouso lá voltaram a ser utilizáveis. 





Mas o topo chegou e com ele a imagem de simbiose tecno-natural das eólicas e montanhas. A sensação de alívio era patente na cara de todos, a dificuldade maior do dia estava para trás.





O que se seguiu foi para mim a parte mais divertida do percurso, um troço reaproveitado da primeira edição da Maratona de Fafe e que nos levou por dezenas de descidas técnicas até ao centro da cidade famosa pela sua Justiça pouco convencional. 

As 4 bicicletas e respectivos ciclistas saltitavam pelo terreno pedregoso a ritmo considerável, que apenas foi interrompido por mais dois furos seguidos do ET.  Warning!: As câmaras de ar mais baratas da Decathlon são feitas com restos de pneus de autocarros indianos reciclados e duram menos tempo que um vaso da Dinastia Ming numa série da desenhos animados.  



A zona que mais me agradou foi a descida imediatamente antes da barragem da Queimadela. A adrenalina sobe à medida que se negoceia as curvas encadeadas da descida e os componentes da bicicleta cooperam com o terreno para maximizar a velocidade. Uma delícia bem merecida quando o conta quilómetros indicava 8 horas de viagem.

O resto do percurso até Fafe foi feito por um belo singletrack que serpenteia as montanhas. Curiosamente, à entrada dessa zona fomos avisados por uma aldeã da perigosidade do mesmo, uma vez que na semana anterior um colega do pedal teria ficado muito maltratado após uma queda nessa zona. Ficam aqui expressadas as melhoras para esse colega.



Neste trilho é de registar uma zona que se tinha transformado por completo num rio cheio de areia e lama. Todos os nosso pneus foram convertidos na medida de 2.5  com um belo composto duplo de Borracha-Lama. 

Apesar destas dificuldades chegamos a Fafe em boa forma e rapidamente nos dirigimos para a ciclovia Fafe-Guimarães. Era tempo de voltar para casa.

Parte Cinco - Midnight Express

Quem viu o clássico filme "Midnight Express" sabe que esta é uma expressão, em gíria prisional, para uma fuga. E foi exactamente isso que fizemos, fugimos da noite, do frio e do cansaço para o merecido final da volta. 

Paramos no café perto do inicio da ciclovia para beber uma cola e comer uma barra energética. A paragem foi rápida porque a noite estava a cair e ainda faltavam 30 a 40 km. 

O que se passou a seguir foi algo de verdadeiramente alucinante. Seguimos em fila pela ciclovia, cada um fazendo um turno a puxar pelo grupo. As velocidades elevadas combinadas com a pequena largura da pista resultaram numa sensação de velocidade enorme. Éramos um comboio expresso a seguir pela antiga linha férrea. E embora tivéssemos todos mais de 100 km nas pernas ainda éramos capazes de passar pela frente e impor um ritmo brutal de cerca de 30 km/h a subir. Penso que não falo só por mim quando digo que fiquei surpreendido com isto.

Quando chegamos a Guimarães a escuridão era já grande. Tempo de tirar as luzes dos seus locais de armazenamento e montá-las nas bicicletas. 





Com o ET a guiar, atravessamos o animado centro de Guimarães entre trânsito e peões. As luzes das nossas bicicletas misturavam-se com as luzes do trânsito e as primeiras decorações natalícias. Serpenteando nos acessos da cidade, saímos no escuro da noite em direcção a Gondar e depois de atravessar esta localidade ainda houve tempo para passar no famoso Trilho Maldito, segundo me contam local de quedas humilhantes para um ilustre membro do CEVA. Os locais pareciam no entanto empenhados em que não caísse lá eu, pois avisavam-me antecipadamente das dificuldades. 

E finalmente, 11 horas depois de a deixarmos para trás, a localidade de Delães apareceu à nossa frente. Parece inacreditável, mas nem por um momento pensei que não fossemos cumprir o objectivo. Esta foi uma volta quase perfeita onde com planeamento adequado e muita força de vontade dos participantes se fez algo para recordar durante muitos anos.

Um grande abraço aos três que me guiaram e acompanharam... e venha a próxima!