Competência linguística estratégica
 

                                   Competência linguística estratégica

 

                                                                                                Humberto Cardoso

                                                                                            Jornal ASEMANA  5/2/2010

 

È objectivo de qualquer país ser ganhador no engajamento com o mundo. Nesse sentido aproveita as oportunidades existentes, faz valer as suas vantagens comparativas e caminha, criativamente, no sentido da evolução e crescimento da economia global. Para as grandes economias, sucesso significa rendimentos crescentes e maior qualidade de vida á medida que sobe na cadeia global de criação de valor. Para os pequenos países, é, antes de mais, uma questão de sobrevivência e de manutenção de relevância e competitividade no ambiente de rivalidades e interdependências do pós-guerra.

 

Países como Holanda, Dinamarca e Suécia, compreenderam isso logo que se calaram as armas nos campos de batalha da Europa. Uma das grandes medidas tomadas foi usar o sistema de ensino para fazer as novas gerações fluentes no inglês. O facto de serem países com extraordinários legados históricos, e certamente orgulhosos da sua cultura e da sua língua, não constituiu obstáculo. Adoptaram, nas relações internacionais, a língua de um país, várias vezes, rival no passado.

 

Consequência: ganharam, e muito. Os seus cidadãos distinguiram-se no comércio e na indústria, serviram nas instituições internacionais e brilharam nas ciências e nas tecnologias, contribuindo para os extraordinários avanços de segunda metade do século vinte. O exemplo foi emulado por outros pequenos países como a Irlanda que, não obstante o passado de dominação britânica e o seu apego à língua celta, apostou no inglês. Os retornos dessa e de outras apostas no sistema educacional fizeram-se sentir nas décadas de oitenta e noventa, lançando o país para crescimentos próximos de dois dígitos. O desemprego caiu estrondosamente e o rendimento per capita da Irlanda chegou a ser o segundo da Europa, logo atrás do Luxemburgo.

 

No outro lado do mundo, a Índia, um país de grande passado histórico e cultural, foi sábia em manter o inglês no seu sistema de ensino e em investir fortemente nas ciências nos já famosos institutos de tecnologia da Índia (IIT). A entrada triunfal da Índia no outsourcing e offshoring de empresas TIC (tecnologias de informação e comunicação) através de call centers e outros BPOs imaginativos serviu para lançar o país como um gigante no fornecimento mundial de serviços do futuro.

 

O sucesso desses países, e também das Maurícias e Singapura, que souberam implementar políticas de aquisição de competência linguística, consentânea com as necessidades de inserção dinâmica no mundo, contrasta com os que se retraíram na sua concha. O exemplo paradigmático disso é o Madagáscar. Depois de décadas de ensino em francês, antes e depois da independência, o regime de Ratsiraka forçou a introdução da língua malgache. A introdução dessa língua, sem os materiais didácticos necessários, levou à actual situação em que, segundo o Afrol News de 9 de Abril de 2009, nem professores, nem alunos dominam o francês, a língua usada nos exames de acesso aos níveis superiores do ensino.

 

Também, assim com aconteceu noutros países como Aruba e Curação em que o papiamento, o crioulo local, foi autorizado como língua do sistema de ensino em certas escolas e o holandês noutras, verificou-se uma separação da população estudantil. Os filhos dos mais abastados foram para as escolas de ensino nas línguas europeias. Os mais pobres ficaram nas que o ensino é feito na língua materna.

 

É evidente que em Cabo Verde, a opção só pode ser a abertura para o mundo. Mas construir uma economia de prestação de serviço exige competência linguística dirigida para o exterior, em especial, investimento no português, no inglês e francês.  O português é a língua de ligação com a Europa mais próxima e também a língua do Brasil, com mais de 130 milhões de habitantes, e, em breve, a quinta maior economia do mundo. O inglês é a língua internacional de negócios, da ciência e da tecnologia. Fluência no inglês adquire especial relevância num País que quer o turismo como um dos principais motores da sua economia. O francês é essencial para se potenciar, com ganhos, a relação com a sub-região e o continente africano.

 

Uma das grandes vantagens de Cabo Verde é ser uma nação homogénea do ponto de vista étnico, linguístico, religioso e cultural, não obstante a diversidade das ilhas. Por isso, o crioulo, com todos os seus variantes, não é factor de divisão. A língua não é discriminada. É falada por elementos de todos os extractos sociais e é o meio de comunicação usado na música, a expressão máxima da cultura nacional. Titulares de órgãos de soberania usam livremente o crioulo em cerimónias oficiais e os cidadãos interpelam os seus governantes e depõem nos tribunais na língua materna, sem quaisquer constrangimentos.

 

A homogeneidade da nação caboverdiana é preciosa e rara. Não é o que se encontra em realidades aparentemente similares nas Caraíbas e outras ilhas crioulas. Essas sociedades ainda têm latentes conflitos diversos, resultantes de marcas deixadas pela sua história, como ficou demonstrado nas erupções de violência nas ilhas de Martinica e Guadalupe, em Fevereiro de 2009.

 

Por outro lado, não há urgência com o crioulo. Ninguém, por exemplo, demonstrou que a qualidade do ensino está a sofrer porque o ensino é feito em português e não na língua materna. Ou que há abandono escolar porque professores e alunos não se entendem na sala de aula. 

 

Também não é evidente que o caboverdiano esteja à beira de uma crise de identidade. E que para a enfrentar precisa de  "injecção de confiança" com dois ingredientes: comunicar-se na língua que já fala todos os dias; escrever usando um alfabeto, o alupec, cuja razão principal de existência parece ser fugir da forma etimológica que todos aprenderam a reconhecer as palavras, tanto no crioulo como no português.

 

Sem razões válidas, que podiam justificar-se em falhas do sistema de ensino ou numa pretensa perda de auto-estima do caboverdiano, sobra ao Governo razões ideológicas para se manter obstinado.  Para, sorrateiramente, dar continuidade à sua ofensiva de reafricanização dos espíritos. Nesse sentido, instrumentaliza o crioulo, transformado em língua de resistência. Esforça-se por trazer para a consciência nacional o passado de escravatura. E procura fazer dos quinhentos e cinquenta anos da história deste país um percurso similar aos países africanos que, há cento e poucos anos atrás, viram-se invadidos e dominados pelos europeus e que, em reacção, organizaram acções de resistência política, armada e cultural.

 

O lugar preferido para essa ofensiva é a escola, como todos podem comprovar lendo os manuais escolares. Também o preâmbulo do pedido da autorização legislativa para alterar as Leis de Base do Sistema de Ensino revela as intenções do Governo de usar o ensino básico para aprofundar o conhecimento e a afirmação do alupec, quando claramente não há consenso geral sobre a matéria e a Assembleia Nacional adiou a oficialização do crioulo. São acções feitas em violação da proibição de o Estado programar a educação e o ensino segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas, estabelecida no artigo 49 alínea c) da Constituição.

 

Gabriel Fernandes no seu livro “Em Busca da Nação” (pag. 202) mostra como no esforço de reafricanização “(…) os actores políticos caboverdianos acabaram por exacerbar as diferenças internas abrindo um fosso entre os próprios caboverdianos, doravante percebidos, não em termos culturais-unitários, como parte integrante de uma entidade peculiar, mas sim político-dualísticos, sob o rótulo de anticolonialista ou de colaboracionista”. Compreende-se assim porque é que o crioulo hoje tende a tornar-se um factor de divisão, quando, com todas as suas variantes, sempre foi elemento para os naturais de todas as ilhas se reconhecerem como caboverdianos. É o resultado dessa ofensiva.   

 

Luxemburgo depois de um século de esforço conseguiu oficializar a escrita do luxemburguês em Julho 1999. Em 1946 ensaiou o uso de um alfabeto fonético, proposto por Jean Feltes, que, no mesmo sentido do alupec, afastava-se da forma padronizada como as pessoas estavam habituadas a reconhecer as palavras, todas elas originárias do alemão e do francês. Foi rejeitado. O Estado, então, encomendou um trabalho a uma comissão de especialistas, que após décadas de trabalho, 1950-1977, propôs um novo alfabeto. Esse alfabeto ainda sofreu modificações e só veio a ser oficializado 24 anos depois. Os luxemburgueses são geralmente trilingues, mas com uma nuance: Informalmente, falam a língua materna, escrevem geralmente em alemão e muito do que é oficial, designadamente leis, está em francês.  

 

Calibrando pelo processo luxemburguês, que ainda não conseguiu generalizar a escrita da língua materna, e considerando as perturbações graves que noutros países tentativas similares provocaram, é de se ponderar qualquer iniciativa que envolva o sistema de ensino no País. De facto, não há razões para precipitações. A Constituição instruiu o Estado para criar as condições para a oficialização do crioulo. Não passaria, porém, pela cabeça de ninguém criar essas condições precisamente dentro do sistema de ensino. Ou seja usar o ensino básico, para, das diferentes variantes do crioulo, se encontrar a forma padronizada a utilizar em manuais, outros meios didácticos e nos exames a serem prestados em todo o território nacional, como parece sugerir a lei de autorização legislativa referida.

 

A exemplo de Curaçao, o Estado podia começar por promover jornais em crioulo nas diferentes ilhas. As pessoas habituar-se-iam a ler o crioulo e também a escrever para esses jornais. Desse exercício, muito mais barato e com menos consequências em caso de falhanço, ficar-se-ia a saber se, de facto, há “mercado” para o crioulo escrito. E se os caboverdianos estão realmente interessados em se comunicarem e em se exprimirem, por escrito, em crioulo.

 

Há um mundo por conquistar. Cabo Verde não tem divisões internas, que outros registam, a tolher os seus passos. Não tem que os inventar. O País precisa de toda a sua energia para ganhar hoje e preparar as novas gerações para vencer amanhã. Mobilizar recursos, atenção e boa vontade na aquisição das competências linguísticas certas é essencial para a consecução desse objectivo.