Cidade de Eventos
 

                                               A Cidade de Eventos

                                                                                           Humberto Cardoso

                                                                                           Jornal ASEMANA 19/02/2010

Cabo Verde é dos países que menos ganha com o Turismo. Enquanto países como Maurícias, Seychelles, Serra Leoa e Mali retiram respectivamente 955, 1060, 1070 e 930 euros por cada chegada de turistas, Cabo Verde fica praticamente pela metade, por uma quantia de 505 euros. Mudar esse estado de coisas deve ser um imperativo nacional. O grau do sucesso conseguido em incorporar na economia local despesas feitas pelo emigrante, pelo turista ou visitante, dirá em que medida o Turismo está, de facto, a transformar-se num dos motores do desenvolvimento.

 

As potencialidades do País no sector tornaram-se notórias com o fluxo turístico dos  anos 2006, 2007. Mas logo a partir de 2008 apareceram sinais de quebra no fluxo, visíveis no número cada vez menor de turistas dispostos a regressar para uma segunda visita, devido à falta de visão e de acção estratégica das autoridades. A crise em 2009 só veio piorar um quadro que já se configurava negro, particularmente na ilha do Sal.

 

Falhas verificaram-se em, pelo menos, três níveis: Primeiro, O governo falhou em garantir segurança pessoal e segurança jurídica em relação à propriedade. Segundo, o governo não se antecipou quanto ao impacto previsível que teria o influxo de dinheiro, as migrações internas e o crescimento rápido da população sobre a economia das ilhas, sobre o tecido social das comunidades tradicionais e sobre as infraestruturas de base, designadamente no domínio da energia, água, saneamento  habitação e de serviços de sáude e formação profissional. Por último, não foi proactivo em promover as ilhas e em incentivar as suas populações a desenvolver uma cultura de  serviço, a criar produtos culturais e de entretenimento próprios e atractivos  e a organizar a economia local tendo em mira a qualidade, a fiabilidade dos métodos de produção e os standards de apresentação de produtos, exigíveis nos mercados externos.

 

Ter turismo como motor do crescimento significa gerar e manter um fluxo turístico crescente em direcção ao País; significa seduzir turistas em voltar uma ou mais vezes e em divulgar uma boa imagem do destino a familiares, amigos e colegas; significa repercutir os efeitos do turismo na economia local e nacional através de empregos, de novos negócios e de prestação de novos serviços. Ou seja, há que gerar tráfico, há que o manter e renovar criativamente e há que o aproveitar para criar riqueza.  

 

C.-ºabo Verde conta à partida com o fluxo dos emigrantes em férias. Todas as ilhas sentem o seu impacto na economia local e no rendimento e qualidade de vida de familiares. È um fluxo que certamente pode ser ampliado, reduzindo constrangimentos que ainda o condicionam. Pode-se por exemplo rever preços das passagens aéreas, ser mais imaginativo na organização de excursões ligados a eventos no país, modernizar os circuitos inter-ilhas de transporte e estimular e regular um circuito de restaurantes, pensões e hotéis dirigido para o turismo interno.  

 

A vinda dos emigrantes dos Estados Unidos e da Europa para o Carnaval 2010 de S. Vicente demonstra que é possível gerar fluxos turísticos externos com base em eventos nas ilhas. E tudo leva a crer que a promoção não tem que se limitar ao mercado das comunidades emigradas. Aproveitar o tráfico criado implica, porém, não cometer os erros cometidos no passado que contribuíram para que o País não fosse lançado para um outro nível de crescimento económico sob o impulso do Turismo.

 

A melhor atitude é não “tirar os olhos da bola”. Dos resultados. As infraestruturas por exemplo, não são fins. São meios para se chegar a algum lado, atingir algum patamar de qualidade de vida ou aceder a recursos essenciais como água, energia e saneamento. O Governo não pode enfatuar-se simplesmente com obras e não dar sequência ao conjunto de acções necessárias para se atingir os fins prometidos de aumento de tráfico de pessoas e bens.

 

O sentimento de insegurança, que vem afectando negativamente o fluxo turístico, não deve ser contraposto com estatísticas policiais, promessas de construção de esquadras e aumento de efectivos. Esses aí são meios. O que a população quer, e o país espera, é que sejam utilizados, de forma eficiente e eficaz, para se atingir o resultado desejado da segurança. De outro modo o exibir dos meios até pode parecer tentativas de desresponsabilização.

 

Também, é não concentrar nos resultados insistir num discurso do turismo como um dos motores da economia e não tomar as medidas adequadas e no tempo certo para a actividade se concretize em postos de trabalho e em riqueza criada. Realça-se, de facto, o potencial da indústria mas deixe-se que interesses por ganhos imediatos ponham em perigo objectivos finais.

 

Nessas situações acontece o que todos puderam presenciar em S.Vicente nos últimos anos. A ilha tinha atraído investidores no turismo imobiliário com projectos de hotéis, resorts e campos de golfe em vários locais, designadamente Salamansa, Baía das Gatas, Palha Carga, Flamengos e Calhau. Os projectos enredaram-se nas querelas entre o Estado e a Câmara Municipal quanto a propriedade de terrenos. O Governo em 2007 efectivamente bloqueou o projecto de Salamansa Sands, um projecto já aprovado pelo próprio Governo, via Cabo Verde Investimentos, e pela Câmara de S.Vicente, não obstante ter os terrenos registados na Conservatória. O acto do governo, contestando um registo público de propriedade, criou uma extraordinária insegurança jurídica no País que foi ainda agravada com a proibição, na prática, do registo de propriedades. Nenhum dos projectos anunciados foi concretizado. S.Vicente, Porto Novo e Sal foram os mais afectados, resultando em oportunidades desperdiçadas, quebra na dinâmica da construção civil e perda de empregos.

 

A abertura do aeroporto de S.Vicente para voos internacionais, não obstante ter acontecido anos depois do que estava previsto e com o “inesperado” constrangimento de não receber aviões à noite, coloca a ilha em melhor posição de explorar plenamente uma vocação muito especial: Ser uma cidade de eventos. S.Vicente sabe receber visitantes, é capaz de rapidamente os envolver na vida da cidade e faz de qualquer acontecimento uma experiência partilhada por todos. Eventos como Carnaval, Festival de Baía das Gatas, Mindelacto e Fim de Ano juntam as pessoas, atraem visitantes das outras ilhas, das comunidades emigradas e do estrangeiro e movem significativamente a economia da ilha.

 

A exemplo da ilha da Madeira e de outros destinos turísticos, S. Vicente, como estratégia de desenvolvimento, podia assumir por inteiro a sua vocação de bem receber e organizar um ou dois eventos mensais ao longo de todo o ano. Isso implicaria uma mudança radical de atitude do s.vicentino e das autoridades locais e nacionais.

 

A cidade nasceu com o porto e naturalmente alimenta a nostalgia dos tempos áureos do passado que, bem fundo, quer ver repetidos no futuro. A realidade das ilhas em todo o mundo é, porém, outra. O passado quase nunca se repete. O passado é constituído de oportunidades únicas, derivadas de situações e condicionalismos diversos que dificilmente voltam a reunir-se da mesma forma e no mesmo local. Não é construindo um porto com 15 metros de profundidade em vez dos actuais 12 metros que se vai atrair a frota atlântica e repetir o movimento dos fins do século XIX na Baía do Porto Grande. Por isso, para não ficar para trás a ilha tem que se mover, como um surfista sempre à procura da onda seguinte.

 

Sucesso em ser a cidade de eventos deverá assentar nos alicerces firmes de uma cidade limpa, de uma cidade segura e de uma cidade cosmopolita. A vitória de S.Vicente sobre a dengue, impedindo que essa doença se tornasse endémica na ilha, mostra que é possível recorrer efectivamente à consciência cívica das pessoas para enfrentar as maiores calamidades, quando há lideranças esclarecidas orientadas pelo interesse público como se viu do Delegado de Saúde, o Dr. José Manuel d´Aguiar. Esse civismo mindelense deve ser cultivado por todos, exigido a todos e direccionado para, estrategicamente, suportar uma economia de serviços.

 

A Segurança, a ordem e tranquilidade públicas têm que ser garantidas. Os falhanços verificados na ilha do Sal e também na Boavista em controlar os assédios aos turistas, os assaltos às pessoas, o tráfico de drogas, a imigração clandestina e a prostituição não devem repetir-se em S.Vicente. Já prejudicaram extraordinariamente a Ilha do Sal e estão a minar a Boavista como destino turístico. Em S.Vicente, há que exigir do Governo e das forças da ordem uma outra abordagem que aposte na prevenção de situações conducentes à prática de crimes.

 

A polícia tem que ser mais interventiva no combate a incivilidades dentro das práticas provadas noutras paragens com as políticas de “no broken windows”. Tráfico de drogas como o “crack” tem que severamente combatido e a venda de bebidas alcoólicas não pode ser actividade informal a partir de balaios de vendedeiras de rua. Deve sim ser uma actividade muito regulada, até para se cumprir a lei de proibição de venda de álcool a menores de 18 anos.

 

No mesmo sentido há que exigir das autoridades firmeza no controlo das horas de funcionamento de bares, boites e estabelecimentos afins.  Evita-se assim prolongar para dentro da noite o consumo do álcool que, a ajuntar-se ao efeito de falta de sono, aumenta exponencialmente as situações de risco em acidentes rodoviários e em explosões de violência, sobrecarregando as autoridades policiais e os serviços de emergência nos hospitais. Sem falar no barulho que a presença de jovens a circular a altas horas provoca e na tensão que filhos fora de casa durante toda a noite causam nos pais. Não há ganhos aí e, como acontece em muitos países, um estrito controlo nas horas de entretenimento nocturno deve ser posto em prática o mais urgente possível.

 

O cosmopolitismo da cidade deve ser agressivamente promovido no incentivo à criatividade e inovação, na aquisição de competências linguísticas múltiplas, em particular o inglês, e no desenvolvimento de uma forte cultura de serviço. Tudo isso deve ser conjugado com uma aposta séria num ensino superior de bases sólidas e qualidade provada capaz de atrair estudantes, nacionais e estrangeiros, de qualidade. Estar-se-á a juntar os ingredientes necessários para se criar na região de S.Antão, SVicente e S Nicolau um centro económico e cultural dinâmico que certamente contribuirá para que Cabo Verde cresça equilibrado, unido, mas salvaguardando a sua diversidade.

 

Que assim seja.