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Uma onda de esperança

Publicado a 18/05/2010 05:18 por Hugo Martins
Viagem Apostólica de Bento XVI a Portugal
 
Vivemos, em Portugal, na última semana, quatro dias de intensa emoção e verdadeiro reencontro com a nossa identidade de povo. O Papa Bento XVI foi recebido em festa  por multidões que o aclamaram intensamente, desde Lisboa ao Porto, passando pelo Santuário de Fátima. Centenas de milhar de pessoas desceram às praças e às ruas para saudarem o Papa nestes quatro dias da sua presença em Portugal. A todos deixou uma importante mensagem de esperança, inspirada na Boa Nova do Evangelho.

Logo à chegada, no aeroporto de Lisboa, lembrou a relação histórica de Portugal com a Fé Cristã e com a Santa Sé, em particular, falando de como essa relação pode ser inspiradora de uma visão sobre a vida e sobre o mundo conducente ao sempre desejado ordenamento justo da sociedade.

No Terreiro do Paço, perante uma moldura humana surpreendente, referiu a vocação histórica do Povo Português para partir ao encontro de outros povos e culturas, mas também a sua capacidade para acolher aqueles que chegam. O estuário do Tejo, que constituia o belo quadro envolvente, foi o motivo inspirador. Ainda em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, em encontro com o mundo da cultura e dos intelectuais portugueses, sublinhou, na cultura portuguesa, o ideal cristão da universalidade e da fraternidade, que, de facto, estiveram na base da aventura dos descobrimentos. E teve a oragem de destacar que a Igreja hoje, na sua intrínseca missão de promover a procura da verdade, tem de “aprender a conviver com outras verdades ou com a verdade dos outros”.

Em Fátima, para um público de centenas de milhar de peregrinos e partindo da experiência vivida pelos três pastorinhos videntes de Nossa Senhora, chamou a atenção para o fundamento real da esperança que é a pessoa de Jesus de Nazaré e a Fè em Deus. A Fé, disse o Papa, abre ao homem o horizonte de uma esperança que não desilude. Ainda em Fátima e falando aos agentes da pastoral social, sublinhava que a diaconia da caridade é própria dos leigos, chamados a promover organicamente o bem comum e a justiça social na vida colectiva. Lembrou, em consequência, a necessidade de formar uma nova geração de líderes. Por sua vez, em encontro reservado aos Bispos Porugueses também realizado em Fátima, o Papa insistiu em que os tempos actuais exigem um novo vigor missionário dos cristãos, principalmente a partir de um laicado maduro, identificado com a Igreja e solidário com a complexa transformação do mundo. Precisamos hoje de verdadeiros testemunhos de Cristo, insistiu o Papa, sobretudo em meios humanos onde o silêncio da Fé é mais amplo e profundo, como são os da política, os inteletuais e os da Comunicação social.

A encerrar, no Porto, com a Avenida dos Aliados e as ruas anexas apinhadas de gente, insistiu na responsabilidade missionária da Igreja e dos cristãos. Não levar a sério esta responsabilidade seria, disse, morrer a prazo enquanto presença da Igreja no mundo. Chamou a atenção para os novos contornos da acção missionária no mundo de hoje, ao lembrar que, nestes últimos anos se alterou o quadro antropológico, cultural, social e religioso da Humanidade. Por isso, a missão “ad gentes” não a podemos continuar a definir simplesmente em termos geográficos, mas também e principalmente em termos humanos e socio-culturais. Isto quer dizer que muitos dos nossos ambientes também são terreno de missão.

Ao Partir do aerorprto do Porto e já depois, o Papa expressou o seu grande contentamento e agradeceu ao Povo Português por estes quatro dias de afectuoso acolhimento que encontrou entre nós.

Queremos agora e para terminar, perguntar-nos sobre aquilo a que se deveu esta onda de entusiasmo, que ultrapassou as expectaivas e a muitos surpre­endeu.

À Comunicação Social não a podemos atribuir, pois quem esteve atento, nas últimas semanas, verificou as persistentes críticas feitas à figura deste Papa.

Também se não pode atribuir à administração pública, mesmo que tenha decretado alguma tolerância de ponto, pois vivemos num legítimo regime de separação Igreja-Estado.

Mesmo só o apelo feito pelos Bispos e pelos Padres não é suficiente para explicar este autêntico fenómeno de massas.

Por exclusão de partes, concluimos que só a tradição e o dinamismo da Fé enraizados no mais fundo do nosso sentimento popular podem explicar o que aconteceu. Por sua vez, o apego à figura do Papa, enquanto representante visível de Cristo na terra, continua a ser, como ficou provado, marca distintiva da nossa mais genuina portugalidade.

 

16 de Maio de 2010

 

+Manuel R. Felício, B. da Guarda.