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Em entrevista à Ecclesia, o padre José Tolentino Mendonça defende que Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no coração humano e que o moralismo reduz a pessoa de Cristo. Apresentamos a primeira parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e o responsável pela Agência Ecclesia, Paulo Rocha. Alguns excertos da entrevista vão ser transmitidos durante a Quaresma nos programas da Ecclesia (RTP 2, de segunda a sexta-feira, às 18h00).
“Quem dizem os homens que eu sou?” foi uma pergunta de Jesus que causou perplexidade desde o momento que foi proferida. Já está respondida? É uma pergunta que continua em aberto. Tem a ver com o estilo de Jesus, que é aberto e inclusivo. Vemos que as suas ações e palavras não tinham uma interpretação única, e nesse sentido dependiam da qualidade do acolhimento que lhes era proporcionada. E por isso a pergunta “Quem dizem os homens que eu sou?” é muito plausível porque dizem-se, em todos os tempos, coisas muito diferentes acerca de Jesus, já que acerca dele, e nele, nós refletimos as perguntas do próprio coração humano.
Sente que nos diálogos de hoje essa pergunta continua a ser formulada? Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no coração humano. Veja-se, por exemplo, como de uma forma secular e laica, Jesus passou do vitral para a montra. E há uma curiosidade enorme por ele: a quantidade de publicações, filmes, conversas e as tentativas, muitas vezes tentações, de entrar por veredas um pouco estranhas representam, no fundo, o desejo de tocar Jesus.
Jesus nunca teve a preocupação de dar respostas conclusivas acerca de si... Isso é interessante na pedagogia de Jesus, que é aberta. Jesus não dá respostas. E as palavras que diz solicitam sempre um caminho de adesão. Nunca nada é imediato em relação a Jesus. É uma pessoa que não aponta soluções mas caminhos...
Jesus escolhe sempre palavras quase enigmáticas para falar da sua pessoa... Por exemplo, “Eu sou o pão da vida”. Isso é muito interessante porque se prende com a poética de Jesus. Ele utiliza uma linguagem que não é fechada nem de sentido único, mas sempre com uma semântica plural, uma diversidade de sentidos. Isso dá à sua palavra uma riqueza enorme e uma responsabilidade de apropriação, no sentido que cada leitor, cada ouvinte, é chamado também a apropriar-se de uma forma original daquilo que lê e ouve.
Muita dessa poética de Jesus está apropriada em ambientes litúrgicos, ou até mais moralistas, em alguns setores eclesiais? São duas coisas diferentes. A liturgia é vida e também faz uma apropriação poética de Jesus, dado que a oração é uma experiência aberta. Aquilo que Romano Guardini chamava o jogo da liturgia. Ele dizia uma coisa interessante: “Só quem sabe brincar com um brinquedo entende a liturgia”. Porque ela é feita de cor, é feita para os nossos sentidos perceberem. E por isso ela é também uma linguagem aberta.
É um traçado que não interessa... Porque reduz Jesus. A experiência cristã não é, antes de tudo, uma experiência moral, mas uma experiência do ser. É a partir dela e da experiência do amor que nós chegamos à decisão moral, à decisão ética, que é sempre um momento segundo em relação à verdade do amor.
O que é que a História nos diz acerca de Jesus? É uma personalidade fascinante, da qual, mesmo parecendo que são poucas, temos muitas informações. Sabemos que Jesus é um crente judeu. Sabemos que ele lê a tradição dos pais, a tradição das Escrituras, e que as comenta de uma forma que, ao mesmo tempo, é em continuidade com a tradição profética e messiânica de Israel, mas também é uma forma nova.
© Ecclesia | 16.03.11 |