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Porque devo ser um Calvinista
Explicando a soberania de Deus sobre o homem e o pacto com o homem por P. Andrew Sandlin . Não cremos que a fé esteja limitada à doutrina, ainda que seja essencial, e certamente não está limitado ao tipo de teologia acadêmica que alguém encontra somente nos seminários de torres de marfim que concedem licenciaturas de Th.D [N.T.: Doctor of Theology = Doutor de Teologia]. Não, o Calvinismo é uma crença e uma vida. Na linguagem de Tiago do Novo Testamento, é fé e obras juntos. Tendo tudo isto em mente, deixe-me dizer-lhe porque devo ser um Calvinista.
Eu devo ser um Calvinista, primeiro, porque eu não posso reconhecer nenhum fato maior no universo do que a soberania de Deus. O que é a “soberania de Deus”? Nas palavras de um sábio ministro, a soberania de Deus significa que Deus é...Deus. Deus não é um homem, e não há ninguém a quem possamos compará-LO (Isaías 40:18). Os antigos deuses pagãos – e os falsos deuses de hoje, com a relação a isto – eram simplesmente extensões da humanidade. Eles eram insignificantes, vingativos, caprichosos e tímidos. Expressavam características exageradas do próprio homem. Este não é o Deus revelado na Bíblia, e não é o Deus dos Calvinistas. Cremos que Deus é absoluto, todo-poderoso, onisciente, onipresente, sempre amoroso, sempre justo, sempre perfeito. Ele é autocontido, auto-suficiente e autodeterminado. Ele não é “contingente” em nenhum sentido. Ele não depende de ninguém ou de algo mais para Seu ser ou ações. Quando Moisés perguntou a este Jeová Deus qual era o Seu nome, Deus respondeu simplesmente, “Eu sou”, ou “Eu sou o que sou”. Não há nenhum fator externo ou derivado com o qual possamos comparar a Deus. Deus simplesmente é. Este é o Deus a quem amamos e servimos. Cremos que Deus faz o que Lhe agrada. Na realidade, Ele nos diz em Sua Palavra, a Bíblia, que isto é precisamente o que Ele faz (Salmos 115:3). Ele não pede permissão para o homem. Ele é o Criador, e o homem é a criatura (Gênesis 2:7). O homem é a sua mais alta criatura, e foi feito à Sua imagem; mas apesar de tudo o homem é uma criatura. Deus é soberano. Ele conhece o fim desde o princípio porque Ele determina o fim desde o princípio. Ninguém pode frustrar a sua vontade, e ninguém pode deter Sua mão. Não podemos escudrinhar Sua mente, e não podemos conhecer Sua vontade aparte de Sua revelação na Bíblia e na criação e em Seu Filho Jesus Cristo. Em Isaías lemos, “assim como meus pensamentos são mais altos que vossos pensamentos” (Isaías 55:9-10). Como o resto de Sua criação, o próprio homem é uma criatura; e Deus faz com o homem o que Ele quer. Romanos 9 faz isto abundantemente claro. Deus é soberano, e isto significa que o homem não é soberano. É bastante claro como Deus exerce esta soberania. Ele o faz por meio de Seu Filho, Jesus Cristo. Jesus Cristo é o grande Rei. [3] Como resultado de Sua morte e ressurreição, o Pai concedeu a Cristo o domínio universal (Daniel 7:13-14; Mateus 28:18-20; Filipenses 2:5-11). Ele está governando hoje desde os céus (Atos 2:29-36). O grande centro da fé para os Cristãos primitivos era o Senhorio do Cristo elevado e exaltado. [4] Na realidade, a fé Cristã pode ser resumida em três palavras:
A soberania de Deus é vista na criação e muito mais, porém alcança sua plena expressão no governo de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor, Salvador e Rei. A morte de Cristo na cruz e sua ressurreição da tumba asseguram a salvação dos homens, e você pode estar seguro que nosso Deus é soberano na salvação do homem, da mesma forma como é soberano em qualquer outro aspecto do universo. Este é o princípio dominante da crença Calvinista na soberania de Deus. Deus salva homens; Ele não os ajuda a se salvarem. Deus não está no negócio de fazer com que os homens que andam dando tombos voltem a afirmar seus pés com segurança. Os pecadores estão mortos em delitos e pecados (Efésios 2:1). Eles não são homens enfermos que necessitem de um remédio: são homens mortos que necessitam de uma ressurreição. Isto é exatamente o que o Espírito Santo dá aos eleitos, os escolhidos de Deus. A salvação de acordo com os Calvinistas não é um esforço cooperativo. Deus enviou a Seu Filho, Jesus Cristo, à terra para salvar pecadores que Ele amou (João 3:16). Sua morte não faz simplesmente a salvação disponível; sua morte na realidade assegurou a salvação dos pecadores. Este é o porque o escritos de Hebreus nos diz, “Não pelo sangue de bodes e novilhos, mas por seu próprio sangue [de Jesus Cristo], entrou uma vez por todas no santo lugar, havendo obtido uma eterna redenção” (Hebreus 9:12, ênfase adicionada). Ele realmente obteve salvação. Deus salva pecadores; Ele não os ajuda a se salvarem. [5] Nenhuma destas coisas significa que o homem é uma máquina ou um autômato. Deus certamente deu uma vontade e uma escolha ao homem. Repetidamente, Deus apela à vontade do homem. Para o Israel do Antigo Testamento, Jeová disse, “Vê que hoje te pus diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal” (Deuteronômio 30:15). No Novo Testamento, o próprio Jesus declara, “Vinde a mim, todos os que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). As escolhas do homem são escolhas reais, e sua vontade é uma vontade real. Porém – este é um ponto crucial – acima de toda a vontade e escolhas do homem está a soberana e eterna vontade de Deus (Efésios 1:11). Como nós, os Calvinistas, explicamos isto? Como a soberania de Deus e a vontade do homem se harmonizam? Uma resposta simples é: nós não sabemos. De fato, é precisamente porque Deus é soberano e nós não, que não professamos entender a relação entre a soberania de Deus e vontade do homem. Sabemos que Deus é soberano em todas as coisas, e sabemos que o homem tem uma vontade e uma capacidade de escolha que tem um significado real; e deixamos isto nesse ponto. Se Deus é soberano, Ele é tão soberano que pode criar um ser como o homem com uma vontade cujas ações não são coagidas por Deus, e não obstante, cumpre de maneira perfeita a vontade de Deus. Como pode ser isto? Eu não sei. Deus é soberano e nós não o somos.
Há uma segunda razão pela qual eu devo ser um Calvinista. Os Calvinistas crêem que o pacto se acha no centro dos relacionamentos de Deus com o homem, e creio que isto é exatamente o que a Bíblia ensina. Este é o segundo grande distintivo do Calvinismo. 6] É um distintivo cuja importância é freqüentemente não reconhecida. Parte da razão para esta falta de reconhecimento é devido à uma época na qual se perdeu a noção total de pacto. Um pacto é um vínculo sagrado. É uma relação na qual o amor e a legalidade se harmonizam da forma mais bela. Nós freqüentemente tendemos a ver estes dois fenômenos de uma maneira antitética: a lei e o amor são opostos. O amor é espontâneo e emocional, enquanto a lei é calculada e racional. Mas a doutrina Bíblica do pacto destrói esta falsa antítese. Nos pactos bíblicos (e eu estou falando dos pactos entre Deus e os homens), Deus entra em uma relação obrigatória com o homem. Não é menos obrigatória porque ela é cheia de amor, e não é menos amorosa porque é obrigatória. Deus ama tanto o homem que está disposto a comprometer a Si mesmo para com o homem. Como resultado do prévio amor de Deus para com o homem, o homem está disposto a se obrigar para com Deus por causa de seu amor por Deus. Ele é tanto espontâneo como calculado, tanto emocional como racional. Deus ama o homem e faz um compromisso para com o homem; o homem ama a Deus e faz um compromisso para com Deus. Esta é a base do pacto bíblico. O pacto é um tema dominante na Bíblia – desde o pacto de Deus com Noé de que nunca destruiria novamente a terra com um dilúvio, Seu pacto com Abraão de que Ele seria Deus para ele e para sua descendência depois dele e que abençoaria a todas as famílias da terra através daquela semente, Seu pacto com Israel como nação de que lhes abençoaria tanto que eles guardariam Sua lei, Seu pacto com Davi de que levantaria um rei para sempre no trono de Israel do fruto dos lombos de Davi, até o “novo pacto” que Deus colocaria Sua lei nos corações de Seu povo. [7] Jesus ratificou seu novo pacto com o derramamento de Seu sangue na cruz, da qual Sua última refeição com os discípulos, ou a Ceia do Senhor, é um poderoso sinal ou selo. Paulo, o grande apóstolo do Novo Testamento, definiu seu ministério em termos do novo pacto (2 Coríntios 3:6). O fato é: o pacto é a maneira como Deus se relaciona com o homem. Ele poderia ter escolhido outra maneira, mas Ele não o fez. Ele escolheu entrar em um vínculo sagrado e bilateral com os homens no tempo e na história. Ele amorosamente Se comprometeu para com os homens, e eles respondem por um comprometimento amoroso para com Ele. Deus nos deu Sua Palavra em revelação como uma palavra pactual. Tem duas partes, o Antigo e o Novo Testamento, ou o antigo e o novo pacto. Esta Palavra, as sagradas Escrituras, confirmam a relação pactual com Seu povo; e esta Palavra, uma palavra infalível, apresenta Seus termos para Suas criaturas. Esta Palavra é a forma escrita do vínculo pactual. [8] O pacto necessita fé inter-geracional. Somos membros do pacto Abraâmico, únicos a Cristo, a semente prometida. Porém nossos filhos, também, estão no pacto com o Senhor (Genêsis 17:7-14; Atos 2:38-39; 1 Coríntios. 7:14). Como Andrew Murray certa vez observou, Deus deu a Isaque as mesmas promessas que Ele deu a Abraão. [9] Deus é o mesmo Deus, e Suas promessas são as mesmas promessas. Confiamos que Deus salvará nossos filhos e os trará para Si mesmo e que eles O seguirão. Eles são Sua propriedade especial. Eles permanecem no pacto com Ele. E nós permanecemos nas promessas do pacto de Deus na criação de nossos filhos. Eu devo ser um Calvinista porque creio que o pacto é o meio pelo qual Deus se relaciona com Seu povo.
Terceiro, e finalmente, devo ser um Calvinista porque estou convencido que a Fé Cristã deve dominar a totalidade da vida e da existência do homem. Não há expressão do Cristianismo ortodoxo que haja reconhecido este fato tanto como o Calvinismo o fez. Os Calvinistas crêem que Jesus Cristo é Senhor, não somente do serviço de adoração da igreja nos Domingos, mas também das salas de reuniões ou seminários nas Segundas. [10] Tudo pertence a Cristo e tudo o que presentemente se encontra debaixo do domínio do pecado deve ser reorientado para a justiça bíblica. Os Calvinistas concordam com Francis Schaeffer quando ele declarou que um dos grandes problemas com os Cristãos hoje é que eles vêem as coisas em pequenos pedaços, em vez de vê-las como um todo. [11] Estas boas pessoas vêem os males na sociedade aqui e ali, mas não reconhecem que estes males são parte de um “sistema de vida” particular, ou cosmovisão. No Ocidente, esta cosmovisão é o humanismo secular. Porém pior ainda, os Cristãos não entendem que o mesmo Cristianismo requer seu próprio “sistema de vida” distintivo. Por quase dois mil anos o Cristianismo dominou as vidas dos devotos, e hoje esta necessidade é ainda mais premente. Diferentemente de muitos de nossos antepassados na Europa e nos Estados Unidos, já na vivemos dentro de uma cultura Cristã. Portanto, devemos estar especialmente vigilantes para enfatizar o Senhorio de Cristo em todas as áreas da vida, a fim de que não venhamos simplesmente a afirmar a visão humanista secular das coisas, por falta de outra opção. A Bíblia declara que o que quer que comamos ou bebamos, devemos fazer tudo para a glória de Deus (1 Coríntios 10:31). Isto significa que todas as áreas da vida devem estar debaixo da autoridade de Cristo. A arte, ciência, tecnologia, vocação, mídia, políticas, economias – todas estas e mais – se encontram debaixo da autoridade de Cristo. O Calvinista não crê que haja áreas “neutras” da vida e que tanto o crente como o não crente possam concordar nos princípios básicos destas áreas. <[12] Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele não é simplesmente um caminho, uma verdade e uma vida para alguma parte de nossa existência. O próprio Jesus nos diz que vamos ao Pai somente por Cristo; e se não vamos ao Pai, somos espiritualmente cegos (1 Coríntios 2:14). Necessitamos interpretar as coisas desde a “perspectiva” de Deus para interpretá-las apropriadamente. Se Jesus Cristo não é o Senhor da vida de alguém, o homem não pode esperar interpretar (inclusive a si mesmo) o mundo com exatidão. Se o conhecimento de Cristo domina nosso próprio ser, devemos, como as Escrituras dizem, trazer todo pensamento cativo a Cristo (2 Coríntios 10:5). Simplesmente não podemos ser Cristãos de “meio tempo”. [13] O Cristianismo se estende muito além da esfera entre nossas duas orelhas – ele deve dominar a totalidade da cultura, a totalidade da vida.
Deus é soberano. Deus se relaciona com o homem por meio de pacto. E a fé é abrangente, não limitada à poucas áreas. Há muito mais que poderia ser dito, mas isto é o porque eu devo ser um Calvinista. Oro para que você também se torne um. [1] Oscar Cullman, Salvação na História (New York: Harper, 1967) [2] Richard J. Mouw, “A Bíblia no Protestantimos do Século Vinte: Uma Taxonomia Prelimiar”, A Bíblia na América, eds., National O. Hath e Mark A. Noll (New York: Oxford, 1982), 142-143. [3] William Symington, O Messias, o Príncipe (Edmonton: Still Waters Revival Books, [1884] 1990). [4] Oscar Cullmann, “O Reinado de Cristo e a Igreja no Novo Testamento”, A Igreja Primitiva (Philadelphia: Westminster, 1956), 105. [5] David N. Steele e Curtis C. Thomas, Os Cinco Pontos do Calvinismo Definidos, Defendidos, Documentados (Phillipsburg: P&R, 1971) [6] Geerhardus Vos, “A Doutrina do Pacto na Teologia Reformada”, História Redentora e Interpretação Bíblica, ed. Richard B. Gaffin Jr. (Phillipsburg,; P&R, 1971), Cap. 7. [7] O. Palmer Robertson, O Cristo dos Pactos (Phillipsburg: P&R, 1980). [8] John M. Frame, “A Escritura Fala por Si Mesma", A Palavra Inerrante de Deus, ed., John Warwick Montgomery (Minneapolis: Bethany, 1973), 178-200. [9] Andrew Murray, Como Criar Teus Filhos para Cristo (Minneapolis: Bethany, 1975), 35-39 and passim. [10] Abraham Kuyper, Conferências sobre o Calvinismo (Grand Rapids: Eerdmans, 1931). [11] Francis Schaeffer, Um Manifesto Cristão nas Obras Completas de Francis A. Schaeffer (Westchester: Crossway, 1982), 423-425. [12] Cornelius Van Til, A Defesa da Fé (Phillipsburg: P&R, 1967). [13] P. Andrew Sandlin, Totalismo (Vallecito: Chalcedon, 2001).
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