Biologia e Geologia

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Biologia 12º ano

Um filho de camponeses luta pela vida. A teoria mendeliana da hereditariedade

A Europa do século XIX assistiu a transformações consideráveis na sua estrutura económica, social e política. Uma delas foi a diminuição da população dedicada à agricultura e outra a criação do ensino público e a sua obrigatoriedade. Uma das longínquas consequências destas transformações é ilustrada pela vida do criador da primeira teoria moderna explicativa da hereditariedade.

 
Johann era o segundo de três filhos - outras duas raparigas morreram na infância - de um casal de camponeses de Heinzendorf/Hyncice [então no Império Austro-Húngaro, agora República Checa. A sua instrução básica decorreu numa escola pública e o seu mestre notou-lhe capacidades promissoras, mas cuja concretização exigiria uma disponibilidade económica que seria contraditória com o seu estatuto familiar.

O ingresso numa ordem religiosa veio "resolver" a questão: Johann torna-se Gregor e vê, a partir daí, parte dos seus problemas resolvidos, embora tenha tido consciência daqueles que aí mesmo começavam. Vale a pena citá-lo Ido seu

curriculum vitae de 7850, ao descrever as dificuldades dos seus estudos sem apoio económico): "O respeitosamente abaixo assinado compreendeu que lhe era impossível continuar a suportar tais esforços, sentindo-se compelido a colocar-se numa posição que o libertasse da amarga luta pela existência. As suas circunstâncias decidiram a sua escolha vocacional. Requereu e recebeu, no ano de 1843, a admissão ao Mosteiro [...]. Com este passo, as suas circunstâncias materiais mudaram completamente."(Soudek, 1984). É também curioso que pareça ter desejado voltará vida laica, visto que tentou obter licença para ensinar através de um exame especial, dado que, nessa altura, não tinha formação universitária. Chumbou, no entanto, apesar dos resultados satisfatórios em Física e Matemática. Foi a História Natural, ironicamente, a responsável pelo insucesso. Ficaram registados os comentários dos examinadores que o julgaram insatisfatório para o ensino secundário, em que se lhe apontava um conhecimento insuficiente de Sistemática e o uso de terminologia inadequada. No exame oral não conseguiu convencê-los de ser capaz de ensinar mesmo os níveis mais elementares. Faleceu em 1884, já como abade do mesmo mosteiro, em Brrio. É tristemente irónico que tenha feito aquela escolha forçada para poder dedicar-se aos estudos e que, mais tarde, as obrigações eclesiásticas lê algumas guerrilhas com o poder temporal) lhe roubassem todo o tempo. Também ironicamente, e igualmente triste para quem passou tantas provações na infância e juventude, é que engordou muitíssimo e procurava dominar o apetite fumando até vinte charutos por dia. Terá dito "o meu tempo virá", não se sabe com que precisas intenções. Caso se referisse aos aspectos científicos, teve razão, mas não em dias da sua vida.

Foi com este homem e neste contexto que se inicia a genética. Na verdade, não é bem assim, na medida em que os seus resultados só foram "digeridos" pela comunidade científica muito depois -a "redescoberta"dá-se, oficialmente, em 1900.

... quanto à definição de aplicabilidade, restringiu a sua análise a características exibidas pela espécie em estudo sob formas alternativas discretas, ignorando todos os matizes exibidos individualmente. Concretizemos quanto à característica "cor" da semente. Ao contrário da abordagem naturalista, que descobriria uma espantosa diversidade, a ponto de cada indivíduo analisado ter uma cor subtilmente diferente da de todos os outros, Mendel decide que só serão analisáveis características que mostrem descontinuidade na sua distribuição populacional. Assim, embora não haja duas ervilhas igualmente "verdes", o que de facto importa é ser possível distingui-las a todas, sem ambiguidades, das de uma outra classe, as "amarelas". Os nomes apostos às categorias são irrelevantes (confesso-vos que seria difícil para qualquer de nós, mesmo sem sermos daltónicos, classificarmos de "amarelas" algumas das que não são verdes; o que de facto importa é que os indivíduos sejam arrumáveis em classes não sobreponíveis quanto ao seu estado relativamente à característica em estudo. Chama-se hoje fenótipo [literalmente: tipo de aspecto a cada uma destas classes em que se agrupam os indivíduos relativamente a uma característica mendeliana. Será característica mendeliana cada um dos espaços analíticos [ou janelas de observação] em que podemos decompor o exame dos seres vivos e para os quais se observem descontinuidades [ou seja, existam classes, ou fenótipos.

Amorim, A.,A espécie das origens, Gradiva, 2002

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