Estes
(obra completa) Isaías Carvalho 1997
Ilustração da capa: Wellington Mendes da Silva Filho
Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.
Fernando Pessoa
Prefácio
Isaías Carvalho (IC daqui por diante) decidiu-se por publicar seu primeiro livro de poemas – Estes. E é bom que o faça. Já pode fazê-lo. Acredito que não o renegará no futuro, como é comum a tantos poetas.
O título do seu livro incide sobre a atenção do (possível) leitor: Estes. Que pode ser lido com a vogal inicial fechada ou aberta. Se [ê]stes, pensa-se – principalmente após ter lido o livro – no olhar além do eu para o outro. O outro da linguagem, na ânsia do poeta de expressar sua experiência no mundo. Mundo dos outros tornados próximos, interiorizados pelo eu que os mira – objetos, paisagens, pessoas, situações – e os rememora, rememorando-se. Se [é]stes, imagina-se o plural de horizontes. Horizontes a nascerem-se, metáfora para a atividade poética, busca de formar renovadamente o mundo informe, o que permite a [ê]stes e [é]stes tornarem-se sinônimos, guardando, contudo, a ambigüidade. Que é fônica e experiencial, já que IC situa-se num limiar, ponto de equilíbrio instável entre o falar e o calar, de onde o poeta irá procurar seu modo próprio de dizer a vida – território comum, a partir da língua – patrimônio comum: “Mas minha fala arde/de onde canto,/do limbo do desejo"("Ao leitor I"). A luta, entretanto, é a de sair do limbo, romper o casulo do silêncio, trabalhando no coração da língua, para torná-la diferenciada, pelo crivo do estilo individual. Desse modo, poder atingir a vida e expressá-la, reencontrando-se com a sociedade humana.
Voltemos ao estilo, entretanto. IC tende ao hiperbólico, mobilizando os níveis lingüísticos – do fônico ao morfo-sintático, ao lexical, ao semântico – em favor do verso e daquele verso, “o próximo verso,/que nunca se realiza” – conforme se lê em “Estética da Melancolia”, declaração de princípios poéticos do autor de Estes. Inclusive nos poemas em língua inglesa, na última seção do livro, pode-se perceber o retorcer-se, o esgar, a “lua cuspindo estrelas,/ferindo a escuridão” (“Poema sozinho”). A atmosfera geral do livro é toda de extremos, num movimento labiríntico do barroquismo, mas, também, caldeada pela exasperação tantálica de Augusto dos Anjos. “Então a vida, inflada,/arremessa, nesta tela parca,/o farto espectro das cores do nada” (“Cromatismo”); “Vampiros da metrópole,/eis um anjo/novo a seu dispor!” (“Anjo novo”); “Palavras de chama líquida,/arrastam-se. Milênios de criação,/recriação do sempre-mesmo” (“Poema sem carne”): os exemplos se encontram a cada passo. Por outro lado, surge a face do poeta – fingidor a encontrar trégua, apenas, no ato de escrever. Ainda bem que o jovem poeta sabe escolher suas leituras e tem consciência delas – é o que se infere de um modo lúdico-irônico ou irônico-lúdico que percorre Estes. Se imerge em Fernando Pessoa, em mais de um heterônimo, mas principalmente Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ele-mesmo – nesta ordem -, é para relê-lo em seu próprio contexto de época. Embora a solidão do eu se extreme, sem renunciar à tentação de dizer, é porque dizer é sobreviver e viver: “Sã e profunda a minha melancolia,/e vivo,/pois a poesia” (“Estética da melancolia”). IC demonstra assim, em Estes, algumas tendências que vêm se evidenciando - no que já denominei de “vintecentismo” – nos traços desse final de século: o sentimento de fronteira entre o eu e o mundo, o desamparo do indivíduo na sociedade eletronizada, o desfalecimento da ilusão de estar-no-mundo e estar-com-todo-mundo, via Internet, e a busca do passado para um futuro a ser instalado não se sabe quando. Estes é, nesse sentido, e já pelo título, um livro “pós-moderno” (as aspas são apenas um meio de redimir a expressão de tantos malentendidos em seu nome). Porém, apesar das diferenças contextuais entre ontem e agora, o ser humano continua a sofrer o que IC denomina “o não das coisas” (“Máscara”). Mas é do poeta o dever de exprimir o que não pôde ser dito pela maioria silenciosa. Quem é poeta sabe dessa experiência crucial.
Pois bem. Esse saber, se se começa a formá-lo pela palavra poética, atinge um sabor que a linguagem, ela-mesma, propicia. A linguagem como sedução, o poeta se semeia para o mundo (“Arado”) por meio do desejo do mundo e de sua formação em matéria linguística: dois pesos pesados que a lira faz dançar ao ritmo, às rimas, às assonâncias e aliterações, no mergulho rumo às possibilidades do código lingüístico, onde a poesia – código de código – se realiza e instiga o poeta a exceder-se na procura do texto que escreve sua individualidade meio ao desafio do cânone literário.
Creio que Isaías (e estou a profetizar a partir de um poeta com nome de profeta?) continuará a perseguir a próxima palavra, com rigor obstinado que deve ter o verdadeiro poeta: a palavra mais próxima do que poderá ser uma “estética da redenção” – movimento da poesia e das artes em geral, a perseguirem um estágio de integridade para o ser humano através da auscultação profunda do mundo e da linguagem.
Que Isaías tenha me pedido para apresentar seu livro, causa-me alegria. Conheci-o numa oficina que orientei, em 1994, na Fundação Casa de Jorge Amado. Oficina de poesia, denominada “De como lembrar-se”. O grupo de então continuou a se encontrar, por algum tempo, na própria Fundação, sob a proteção da madrinha da oficina, Myriam Fraga. Também em minha casa, algumas vezes. Pensamos em publicar os poemas da oficina e o grupo chegou a organizar a edição do livro, com Marcus Vinícius Rodrigues e Terezinha E. N. Teixeira à frente da editoração. Causas externas ao nosso desejo sustaram o projeto. Percalços do cotidiano. Mas creio que nenhum de nós esqueceu a experiência da oficina. Isaías, ele mesmo, disse-me há poucos dias que, para ele, a oficina continuou através destes três anos. Para todos nós, foi um momento de beleza: “A thing of beauty is a joy forever”, sem dúvida.
Agora surge Estes, no qual percebo que Isaías não deixou de trabalhar na sua própria oficina – esta, a definitiva prova dos nove para o poeta. Ele próprio, no momento, como professor da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos – ACBEU, orienta a oficina “Poetry in the Classroom: Teaching more effectively through the Unteachable”. Um poeta sempre encontrará os meios de se encontrar com a Poesia, fascinando as próximas gerações.
Salvador, outubro de 1997.
Maria da Conceição Paranhos 
I
POÉTICA DA MELANCOLIA
Ao leitor (I)
A fala ácida queima seu suporte,
combustão que cala na cara,
cadáveres de sábios europeus,
eis o que jaz às margens destes versos-carbono.
Não é de outra fonte,
a não ser por efêmeras sensações,
que se alimenta este poeta:
da fuligem do velho mundo.
Mas minha fala arde
de onde canto,
do limbo do desejo.
Se finjo bem convivermos,
é porque aos poucos serás devorado,
matéria de mim mesmo.
Lamberei os lábios após engolir-te.
Gargalharei a tua digestão.
Irmão, matéria de mim mesmo,
dar-te-ei a impressão de que escrevo poemas
e não tua sentença:
minha paixão.
Ao leitor (II)
Perguntas se há cura
como para uma doença ou vício.
O que lês nos meus versos?
Mudo, sisudo, apenas
inclino-me sobre o papel
e mel rima pelas bordas
de minha boca,
e quase escuto o pulsar
do pensar.
A música em mim dança,
como se esta língua,
indistinta, jazesse à margem de um poema
e de sua fonte,
pois se soubesse claramente o que dizer
eu não seria poeta.
Respondo: não há cura.
Estética da Melancolia
O único sinal de júbilo
parece ser, em minha poética,
aquela marca seráfica
naquele verso dentre todos:
o próximo verso,
que nunca se realiza.
Aconteceu. O tempo passou, e eu.
Sentimentos são cordeiros
ignorantes de sua imolação semântica.
Meu ser triste, incerto e de parca rima,
perdeu o interesse pela vida?
E a vida (que em mim delira a lira)?
Meu suicídio
força-me a viver,
e o faço,
pois o vinho.
Minha melancolia
não advém
das batalhas e amores perdidos,
do parco tesouro possuído,
dos afetos não recebidos,
da pouca fé,
dos poucos amigos,
do desconhecido,
da peste,
dos males da alma
ou dos defeitos do corpo.
Sã e profunda a minha melancolia,
e vivo,
pois a poesia.
Iminência
A poesia escreve-se.
Cada poema singular
é verso ou rima
contida no poema maior: a vida.
Corrói-me a cada passo
este desejo esparso,
de síntese
dos heterogêneos ásperos espinhos
que brotam de mim,
rasgando a pele do sentido.
Busca da morte,
um grito
sem dor nem porquê.
Deslizo impreciso
meio a corriqueiras intenções,
coisa espremida, expelindo metáforas,
para alcançar o preciso
momento de dizer, expiação
pelos que afoguei, sufoquei.
Métrica e previsíveis rimas,
neguei.
Frenesi de buscar.
Profética criação,
ainda que se resuma em mera latência
toda a poesia que há para ser.
Poema sem carne
Que mais fazer
senão digerir o dito e feito?
Palavras de chama líquida
arrastam-se.
Milênios de criação,
recriação do sempre-mesmo.
Por elas
poetas vampirizados,
nessas noites sem pátria,
quando acaricio a solidão
no frio do poema sem carne.
A língua que transporta a minha dor
Antecede-me.
A arrumação dos sentidos,
mistério maior que chuva, morte.
Pensar, tempestade e funeral, então.
Tanto mais
que apenas no próximo verso
terei algo a dizer. Se tiver.
E agora quebro este poema.
Dor.
A voz das Coisas
Formas são fontes
que se silenciam
enquanto são.
Creio, mas em sonhos.
Dispenso
a busca de vinho
ou de pão,
mas vivo de pão
e de vinho,
deste, como não?
Se nos dias
que se sucedem
tivesse fé,
dormiria mais à sombra,
não aquela fresca e boa,
mas à sombra escura
da largura do ser,
como quando sonhei que estou morto.
Sim. Escrevo autobiografia póstuma.
Já acariciei a solidão.
Creio, porque me é,
na estética da melancolia.
Creio em coisas nas quais
jaz o silêncio,
jazem formas
que se silenciam sendo,
pedindo.
Rimas internas
Alguns morrem sem protestos
nos pequenos afazeres,
nos restos dos fatos triviais,
nos prazeres pequenos,
nos mais inúteis esforços
obscenos dos dias.
Destroços de vida, rima fácil,
alegrias efêmeras de canapé,
dócil permissão
da fé, do tempo.
Solidão de fúteis brinquedos,
contento de nulos planos,
medos pobres incontidos
nos insanos fracos
reprimidos desejos.
Parcos domínios do mesmo,
beijos também. Mesmos, em diferentes lábios.
À esmo, o ser em ideal
que os sábios pintam.
Mau, o que se sabe.
Sintam.
Não cabem nessa tela tantas cores.
Ficam os néscios fartos,
de horrores, alguns fortes,
quase mortos, lutam.
com a sorte traiçoeira não contam,
furtam do nada, a essência.
Sonham o indizível.
Da ciência, os erros.
Impossível, um,
aos berros.
Epitáfio a um músico
Gotas de música
caem sobre o mar de mim,
revolvem a superfície.
Ritmo pulsando, coração de um deus.
Leva-me aos primeiros sons
do desejo no nada.
Mãe-Terra,
útero do cosmo,
sou o quando não era,
ainda.
Poema sozinho
Lua,
buraco de luz no escuro da noite,
porta para outra dimensão,
onde os santos,
anjos não-nascidos.
Lua cuspindo estrelas,
ferindo a escuridão.
Lua. Eu.
Solidão.
Máscara
Meu sono digere
a dor camuflada do dia.
Meu sonho fantasia em sim
o não das coisas.
Pequenas almas
Quando o sol beijava meu dorso,
cavei o solo do ser,
para ali plantar a sombra.
Nasceu negra rosa
de pétalas tímidas à luz,
rosa. Morrerás,
se o mundo,
mesmo que por ínfimo espasmo de tempo,
for todo claridade.
Amiúde,
na calma calma dessa flor de sombra,
descansa a filosofia,
as palavras, descansam -
estas pequenas almas que de tudo zombam.
Encontro
Quando os olhos da simplicidade
avistam os meus,
dissolvo-me em gritos
de silêncio
(não a ausência de som,
mas de sentido).
Cumplicidade.
Desejar.
Desejo tudo em ti.
O desejo que me deseja
como a morte.
Desejo as palavras.
Elas me mordem
em versos tristes, torpes,
a me escreverem
na orgia do tédio,
este, meigo e puro,
uma criança morta.
És tu, poesia,
a quem de simples chamo,
teu adjetivo até a última
gota de minha alma, entretanto.
Não te peço em casamento.
Acasalamento,
é o que te peço
agora. Teus olhos, os meus.
Não te peço para ser livre
dessa vontade de deitar-me,
em linhas,
e ser o verso denso
da falta de certeza,
onde me apresto,
renascendo.
A cabeça da beleza
A Carlos Drummond de Andrade
A cabeça da beleza
pende estonteada,
sobre o ombro do poeta.
Vomita
esboços de vida.
A cabeça da beleza,
cansada do eterno
nos limites do tempo,
ao vilipêndio de olhares curtos,
no colo do poeta,
deita-se,
em contornos de morte.
A cabeça da beleza,
já ôca,
sem forças,
abandona-se nos cantos de quaisquer poemas.
O inseto
Além do azul, do nublado,
um mundo calado habita outro
mundo contido
no meu mudo rosto.
Lâmina rasga o infinito,
mostrando um outro infinito
(possível?).
Sonhar, de tanto de viver,
se não vivesse para sonhar tanto.
Poder parar aqui mesmo,
perguntar a quem me ensinou
o sofrer, o cantar.
Porque canto,
pois que canto, mesmo
sem saber se canto, sofro
ou se sou sopro
do além, do nublado.
É quando pousa um inseto,
e mãos
limpam o céu.
Mas
Eis que um sopro de inspiração
entra por uma janela.
A minha.
Diz-me que sou profeta,
incerto,
pequeno,
sereno,
ferino.
Se pudesse rimar infinito,
se pudesse brincar infinito,
se pudesse ficar infinito,
calar,
mesclar
todas as sensações.
Eis que o sopro
esvai-se,
mas.
Réquiem
Em meus braços morreu a musa, a última.
Não sou culpado.
Delito aparente
sem razão, sem réu,
pelo qual pago desde sempre.
Não a matei, poetas do mundo,
apenas encenei profana Pietá,
acolhendo-a, após violentada
por séculos de arte.
Morreu a musa, a última,
eu,
sua sepultura.
Mancha
Deixo almas
de mim desprendidas
no tempo, que, de soslaio,
passa.
Não são rastros,
mas esse desgaste do ser,
manchando o mundo.
Em que tela imensa,
sem expressão cadente,
tudo é mácula e acidente?
Quiçá de algo mais denso,
pequena nódoa desgarrada,
rubra de ira.
E de tal obra,
quando vislumbrados os traços,
apenas bruma
disforme e suja,
o ser.
Delicatessen
Amassar a palavra-pão,
espremê-la,
não para a verdade,
mas para a expressão.
Vê-la em contorções,
Meneio de mão infantil
tangendo os nãos.
Torturá-la,
não por confissões.
Amar o verbo,
tornando-o nervo, alma,
toda a calma e a ebulição
do silêncio.
Sorte
A maior sorte,
ninguém pode ter:
não nascer.
Condenados à vida
(sorte para alguns),
às pequenas sortes
somos vulneráveis.
Que se realize o maior dos milagres:
a morte,
a grande sorte para todos.
Cromatismo
Mostro-me.
Ao pintar este quadro
com as cores da dor,
pincelo nas mãos do acaso
traços do ser.
Explicito algum fazer
a fazer-se,
neste pouco poema.
Na moldura do mundo,
encerro os séculos
para quem sabe olhar.
Nos contornos do sonho,
defino o indizível
para os insaciáveis.
Então a vida, inflada,
arremessa, nesta tela parca,
o farto espectro das cores do nada.
Beba Coca-Cola
Amigos vindos,
Idos.
Cadáveres
em degraus,
escada para o findo.
Uma vez vivo,
morte, a necessidade.
A sorte, meu vinho,
meu corpo, este copo,
arremessado contra o muro,
meu amigo.
Lata de Coca-Cola, vazia, na rua,
poema lido.
Expectação
Quando tudo
parece já ter sido soprado
pelo último vento da noite,
quando as luzes,
em sinfonia,
apagam-se nos prédios,
quando não existe quando,
como fazer nada em uma tarde de domingo.
Eu amo,
clamo calado
pelos muitos amigos
que me espreitam, ainda.
Sou tão lobo.
Olho para o céu
cravado de astros,
tatuagem no coração do universo,
sofro.
Profilaxia
Quando minha casa
lentamente fecha os olhos -
e aquela próxima palavra não vem -
sem constrangimentos,
pernilongos pousam
sobre o campo de versos escassos,
escassas metáforas,
pois escassos, poetas.
Mãos matam insetos até o amanhecer.
Itabaiana
Um raio de sol
ama intensamente uma gota d’água
sobre uma folha de mangueira.
Que solidão sente aquela gota d’água!
Poesia
Sinto-te, poesia,
como a um ente autônomo,
meu outro
que não volta a ser este,
visto que em ti não me reconheço.
És como um deus que crio,
que então me cria
e me abandona.
Autofagia
Lânguido,
na volúpia da solidão escolhida,
exercito a lâmina dos olhos.
Pela janela
vislumbro meu funeral sem glória.
Beijos de chuva
acariciam os seres ainda vivos,
que me arrastam.
Estranho cortejo.
Depositam meus restos
no cemitério de mim:
meu desejo.
Alteridade
A serra espreita a vila,
rimas de gente.
A vila margeia o rio,
versos de vida.
Um sol, não qualquer
(o dos meus olhos em sangue),
pinta o barro,
ilumina o sexo das pedras.
Peregrino,
Perdi-me na estrada de mim para mim.
Nessas imagens,
sou caco de vidro
a espreitar a serra, a vila, o rio,
e já não sei se morto,
ou outro.
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II
Estes
Este
Há homens que nasceram para as mulheres,
há os que nasceram para os homens,
há outros tantos para tantas
vidas vãs.
Há este que nasceu quando,
para dormir manhãs
e ser homem enquanto descansam
os que nasceram para o labor
(os de mente sã).
Este que não se inclina,
na relva sórdida dos feitos humanos,
a qualquer fazimento,
na incógnita paisagem interior,
a qualquer sentimento banal,
na inóspita visão do eterno cósmico,
a qualquer alento.
Na concretude espúria dos objetos,
apenas o nada
em marcha,
desatento.
Anjo novo
Vampiros da metrópole,
eis um anjo
novo a seu dispor!
Límpido,
ao menos em aparência,
até que sintam
o que o sustenta.
Conversão inversa.
As águas
Anacrônico,
nasci tarde ou cedo.
Falo de vagas idéias
ardidas de medo,
de rimas mesmas
- a forca é a última rima -
para completar o poema da vida,
e que não venho
para cantar minhas raízes,
ao certo, não sei a que venho.
Escrevo porque dôo,
como tantos doem.
Escrevo como se desenhasse
colméia de versos
e curvas.
Porque as águas ainda estão turvas,
desagúo.
As flores
A Charles Baudelaire
Espírito
que dorme nos teatros e cafés,
vê, além das conversas triviais
e espetáculos banais,
as tolas alegrias dos boêmios.
Esquecido,
porque dormi durante o show,
mas sonhei de aplausos
e flores.
(As mesmas que enfeitarão meu túmulo).
Nada
A Cecília Meireles
Meu nome,
todos os abortos
e óvulos estéreis.
Meu nome não me nomeia,
pois me mato antes, sempre -
forma estendida sobre um abismo
entre o belo extremo
e o execrável.
Não moro em meu nome,
mas onde se abraçam sopros de vento
indistintos,
onde se choram gotas de chuva
por entre rochas faciais anônimas.
Meu nome é um momento,
e momentos morrem em ato,
outros em esquecimento.
Meu nome é nada.
Arado
Ainda ara em mim
o arado das terras de menino,
da mãe que orava.
Ainda ora.
Torrões secos
ainda secam
meu ser que erra.
Tantas hipóteses.
Tantos banhos e sonhos.
Ainda ara em mim
o arado das terras de menino,
mas ara, agora, o destino -
sulcos mais profundos,
nos quais me semeio para o mundo.
Liberdade
Nasci livro,
livre, limpo,
aberto,
concreto, barroco,
outros.
Bíblia, biblioteca,
estante,
instante, silêncio,
ler, lido.
Morro livro.
Livre?
Tercetos
Confrange-me,
em ti,
ver minha alma repousar.
Invejo-te,
pois que vestes minha beleza,
a mim negada.
Tortura-me
minha abnegada vontade,
que em ti se revela.
Dói-me
todo o meu gozo,
que em ti se realiza.
Encho-me de horror
por ser em ti, em ti só,
que sou.
III
Estes Indomados
Minha casa
Minha casa não é só minha.
Divido-a com imagens,
miragens e reflexos,
que vagueiam, insinuantes,
num pêndulo.
(consciência-inconsciência).
Preso de tais pensamentos
paro,
e penso que pensar é vício, sina, pena.
Ad-verbo
Hipoteticamente, cometerei todos os erros
humanamente permitidos.
Idealmente, sou capaz,
conscientemente, de esmagar
cruelmente, o amor mais puro.
lentamente torturar a beleza, aniquilar,
reciprocamente, com poesia, guerra,
com guerra, poesia.
Friamente executar o criador,
Tardiamente, a criatura.
Então, a mim mesmo.
Hedonisticamente, avermelhando o que ouse.
Ontologicamente, ser,
lançando-me em um abismo.
Indefinidamente, amoral.
Opostos não têm sentido,
apenas o tédio
pastoso, húmus dos restos
do projeto humano.
Ética
Evito te matar.
Não por bondade.
Não te amordaço
ou te acorrento.
Não por ser justo.
Não te violento.
Não penses que sou puro.
Procuro não de todo te ignorar.
Não sou essencialmente gentil ou democrático.
Eu te amo:
poderia te odiar.
Considero-te íntegro, oh, outro,
apenas por necessidade pragmática,
ou da gramática.
Se preciso seguir
sem que me venhas a
aniquilar,
calar,
enjaular,
estuprar,
esquecer
ou a me odiar, sem porquê.
(Im)potência
Conquistaria todos os tesouros,
toda a sabedoria,
todas as mulheres
defloraria.
O sétimo dia
Um deus bêbado
e só,
perdido
em uma dessas ilhas do universo.
Adormecido,
sonhou de terras,
belos seres, janelas e mares, e mais.
Ao despertar
viu seu sonho de pé.
Tentou alcançá-lo.
Percebeu que sua criação
se arrumara em realidade. Autônoma.
Então, seguiu,
para o próximo botequim.
Edipiana
Ao estrangeiro,
invasor de meus sonhos:
revela-te ou me devora!
Natureza felina
Dois gatos brincam no mármore branco.
Um gato sou eu,
o outro, outro eu,
um gato és tu,
o outro, outro tu.
Dois gatos,
natureza
de movimento e mármore,
pêlos ferinos, agilidade.
Dois gatos,
ato.
Gatos brancos, branco mármore,
gatos de mármore,
apenas
o frio mármore.
P
Vapores, poeiras,
lama
sobre o teu corpo
não me impedem:
pedem minha língua
sobre a tua pele.
Fálico
Pendes em natural iminência, só,
Entre fêmures trêmulos ao toque.
Narciso, quando te sentes modelo,
Inflamado,
Sangue.
IV
Janelas
Janela
Por que aquele solitário
debruça-se à janela?
Que espera
no horizonte?
Não lhe bastam
as paredes nuas de lembranças,
seus vícios menores
e o sorriso sem sentido no escuro?
Quer atirar-se sobre a multidão,
convidá-la a revirar seu baú?
Por que tão somente não deita,
fecha os olhos, a janela?
Metrópole I
Passos,
homem curvado,
cansaço,
não somente do esforço.
Esboço de caminhar.
Pedras da rua
refletem as luzes do alto,
iluminando o medo
do outro iminente
do beco sem sombra ou claridade.
Fétida luz de propaganda
delimita ocos opacos sentimentos.
E a cidade abre-me suas pernas,
avenidas.
Beijo-lhe os olhos,
molho meus lábios
de lágrimas, carbono e enxofre.
Prédios, torres,
tumores na pele urbana,
homens.
Metrópole II
Ruas e becos,
tarde da noite.
Esta sensação: me observam do alto.
Espíritos divinos,
mas não o são.
São os das janelas.
Metrópole III
Eis que me curvo
à janela mais discreta
de todas as eras.
As luzes da cidade,
as fogueiras de neon,
as duras formas euclidianas
no balé do horizonte urbano
e o céu.
Meus. Pois contemplo.
Não há olhares que se cruzam,
mas vazios que se olham:
eu e a noite metropolitana.
Metrópole IV
O prédio em que moro - choro-
cai sobre a rua,
pessoas correm, morrem.
Última rima,
o prédio, o tédio despencando.
Há gritos,
mas eu já não mais, pois morri
primeiro.
Sou os escombros na praça.
Museu
Sedimentos de sentimentos
universais, prostrados diante de quaisquer.
Cada quadro,
janela para um mundo inteiro.
Cada escultura,
movimento de um todo.
Cada forma, cada pedaço,
laço
para tempos outros.
Templo de contemplação.
V
Estes Outros
Profundamente
a Manuel Bandeira
Quando eu tinha sete anos,
lembro que atravessava amiúde uma mesma ruela,
onde havia o labor
e fôlego das gentes.
Certo dia, senti nada
e uma vontade de apenas,
apenas, o invisível.
Senti que Deus morria
na vontade indizível
que me invadia.
Vontade de
deitar, deixar e dormir
profundamente.
Ainda há pouco,
ao perceber a integridade sonolenta
da massa que sou,
vi o mesmo fôlego das gentes lá fora,
e senti
que estou deitando, deixando e dormindo
profundamente.
Poema para meu filho
Pira de idéias
escurece mais.
Apodrece mais.
Depravada fênix
copula com o corvo de Poe.
Do pó
nasceu o verbo,
o rebento por larvas amamentado,
o genitor por vermes carcomido,
a maternidade do futuro sabe,
a cinzas,
a nada.
Das substâncias úteis
nutriu-se a esperança:
fúteis conquistas
na dança dos dias -
da poeira do sem-sentido
ao nó do tecido da terra.
Embora poucas guerras perdidas,
por ter vivido, ou, agora, fogo-fátuo,
nada ganhou esse herói,
senão a construção de novos homens, a ciência,
imagem mais fiel
da escuridão desse céu,
imensidão desse fim.
Cabeça de Terra
Pau bate pau,
lata,
coivara, vara,
pote.
Carro de boi,
vaca,
metal no solo,
buchudo no colo,
mulher buchuda,
feijão, buchada,
farinha,
forno de lenha,
barro,
lombrigas,
manga, jaca, caju, laranja, banana.
Donana de boi,
dona de boiada.
Menino já fui,
onde tinha goiabeira e muito mais.
Tenho terra na cabeça, nada mais.
Fechando as cortinas
Paralisam-se os engenhos humanos.
Apenas o silêncio
Passeia, alheio,
sobre crânios
reluzentes.
Shakespeare, moribundo,
ainda bate à minha porta:
um saco de ouro,
na outra mão uma pena.
Todas as vicissitudes humanas
escorrem-lhe da boca,
vermes
exigindo liberdade
As cortinas quedam-se cerradas,
nos assentos,
o que cala.
O espetáculo acabou,
e torna-se, em um instante,
difícil de continuar.
VI
O não das coisas
(variações em inglês)
Mask
Variação do poema “Máscara”.
My sleep recycles
of the day the disguised pain.
My dream fantasizes in freedom
What I couldn’t say.
Requiem
Variação do poema “Réquiem”.
The last muse died of old age,
of love,
in my arms, her last words:
“Centuries of wounds in my soul
kill me”.
Guilty I’m not,
I just staged profane Pietà
for the secular eyes
of many all poets!
Farewell, brave Erato,
rest in peace, in me,
your grave.
Itabaiana
Variação do poema homônimo.
The sun kisses
and dearly caresses a dewdrop
on a mango tree leaf.
What a lovely lonely dewdrop that is!
New angel
Variação do poema “Anjo novo”.
Metropolis vampires,
here I am,
a new angel on fire
for you!
Apparently pure and innocent
until you feel
my inner essence.
Inverse conversion.
Nothingness
Variação do poema “Nada”.
Mine is the name
of all aborted,
seeds of no deeds.
I’m not in my name,
but in dead adjectives.
Shapeless abyss between the wonder
and the unspeakably lame.
My name is a moment
in the face of the ordinary,
an almost nothing
in the cosmic shame.
To a musician
Variação do poema “Epitáfio a um músico”.
Drops of music
fill the sea of my soul,
heaving its surface.
A god’s heartbeat is the rhythm
of the primal sounds in desire,
the face of nothingness.
Mother Earth,
the womb of our universe,
made me what is not
yet.
Shadows
Variação do poema “Pequenas almas”.
Drilling the ground of the being,
being the sun on my back,
I sowed the shadow.
Shy to light,
a doomful dark rose bloomed
to die when,
even for an instant,
illumination.
Nearby
lies philosophy,
in the quiet quietness of this pain.
Rest words,
these minute souls
mocking the world.
This
Versão do poema “Este”.
I see those who live for the women,
Those others for the men,
And many others
Living life in vain.
I see this myself born when,
To sleep mornings
And be a man
Later, while those who labor, rest
Then.
This myself who’s not tempted,
In the bizarre field of human deeds,
By any doing,
In the mysterious landscape of love,
By any easy feeling,
In the wild view of the universe,
By any safe ground.
In the concrete being of the objects in orgy,
Only the ineffable
Marching,
Carelessly.
Índice
I POÉTICA DA MELANCOLIA
Ao leitor (I)
Ao leitor (II)
Estética da melancolia
Iminência
Poema sem carne
A voz das coisas
Rimas internas
Epitáfio a um músico
Poema sozinho
Máscara
Pequenas almas
Encontro
A cabeça da beleza
O inseto
Mas
Réquiem
Mancha
Delicatessen
Sorte
Cromatismo
Beba Coca-Cola
Expectação
Profilaxia
Itabaiana
Poesia .
Autofagia
Alteridade
II ESTES
Este
Anjo novo
As águas
As flores
Nada
Arado
Liberdade
Tercetos
III ESTES INDOMADOS
Minha casa
Ad-verbo
Ética
(Im)potência
O sétimo dia
Edipiana
Natureza felina
P
Fálico
IV JANELAS
Janela
Metrópole I
Metrópole II
Metrópole III
Metrópole IV
Museu
V ESTES OUTROS
Profundamente
Poema para meu filho
Cabeça de terra
Fechando as cortinas
VI O NÃO DAS COISAS (variações em inglês)
Mask
Requiem
Itabaiana
New angel
Nothingness
To a musician
Shadows
This

caogeo 2010
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