"poetar para adiar o poente"
Isaías Carvalho
 

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   Estes

                (obra completa)  Isaías Carvalho  1997


Ilustração da capa: Wellington Mendes da Silva Filho 




 

Tão tênue melodia

Que mal sei se ela existe

Ou se é só o crepúsculo,

Os pinhais e eu estar triste.

 

                                Fernando Pessoa

 

 

 

 



 

 

Prefácio

 
 

                Isaías Carvalho (IC daqui por diantedecidiu-se por publicar seu primeiro livro de poemas – Estes. E é bom que o faça. Já pode fazê-lo. Acredito que não o renegará no futuro, como é comum a tantos poetas.

         O título do seu livro incide sobre a atenção do (possível) leitor: Estes. Que pode ser lido com a vogal inicial fechada ou aberta. Se [ê]stes, pensa-se – principalmente após ter lido o livro – no olhar além do eu para o outro. O outro da linguagem, na ânsia do poeta de expressar sua experiência no mundo. Mundo dos outros tornados próximos, interiorizados pelo eu que os mira – objetos, paisagens, pessoas, situações – e os rememora, rememorando-se. Se [é]stes, imagina-se o plural de horizontes. Horizontes a nascerem-se, metáfora para a atividade poética, busca de formar renovadamente o mundo informe, o que permite a [ê]stes e [é]stes tornarem-se sinônimos, guardando, contudo, a ambigüidade. Que é fônica e experiencial, já que IC situa-se num limiar, ponto de equilíbrio instável entre o falar e o calar, de onde o poeta irá procurar seu modo próprio de dizer a vida – território comum, a partir da língua – patrimônio comum: “Mas minha fala arde/de onde canto,/do limbo do desejo"("Ao leitor I"). A luta, entretanto, é a de sair do limbo, romper o casulo do silêncio, trabalhando no coração da língua, para torná-la diferenciada, pelo crivo do estilo individual. Desse modo, poder atingir a vida e expressá-la, reencontrando-se com a sociedade humana.

         Voltemos ao estilo, entretanto. IC tende ao hiperbólico, mobilizando os níveis lingüísticos – do fônico ao morfo-sintático, ao lexical, ao semântico – em favor do verso e daquele verso, “o próximo verso,/que nunca se realiza” – conforme se lê em  “Estética da Melancolia”, declaração de princípios poéticos do autor de Estes. Inclusive nos poemas em língua inglesa, na última seção do livro, pode-se perceber o retorcer-se, o esgar, a “lua cuspindo estrelas,/ferindo a escuridão” (“Poema sozinho”). A atmosfera geral do livro é toda de extremos, num movimento labiríntico do barroquismo, mas, também, caldeada pela exasperação tantálica de Augusto dos Anjos. “Então a vida, inflada,/arremessa, nesta tela parca,/o farto espectro das cores do nada” (“Cromatismo”); “Vampiros da metrópole,/eis um anjo/novo a seu dispor!” (“Anjo novo”); “Palavras de chama líquida,/arrastam-se. Milênios de criação,/recriação do sempre-mesmo” (“Poema sem carne”): os exemplos se encontram a cada passo. Por outro lado, surge a face do poeta – fingidor a encontrar trégua, apenas, no ato de escrever. Ainda bem que o jovem poeta sabe escolher suas leituras e tem consciência delas – é o que se infere de um modo lúdico-irônico ou irônico-lúdico que percorre Estes. Se imerge em Fernando Pessoa, em mais de um heterônimo, mas principalmente Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ele-mesmo – nesta ordem -, é para relê-lo em seu próprio contexto de época. Embora a solidão do eu se extreme, sem renunciar à tentação de dizer, é porque dizer é sobreviver e viver: “Sã e profunda a minha melancolia,/e vivo,/pois a poesia” (“Estética da melancolia”). IC demonstra assim, em Estes, algumas tendências que vêm se evidenciando - no que já denominei de “vintecentismo” – nos traços desse final de século: o sentimento de fronteira entre o eu e o mundo, o desamparo do indivíduo na sociedade eletronizada, o desfalecimento da ilusão de estar-no-mundo e estar-com-todo-mundo, via Internet, e a busca do passado para um futuro a ser instalado não se sabe quando. Estes é, nesse sentido, e já pelo título, um livro “pós-moderno” (as aspas são apenas um meio de redimir a expressão de tantos malentendidos em seu nome). Porém, apesar das diferenças contextuais entre ontem e agora, o ser humano continua a sofrer o que IC denomina “o não das coisas” (“Máscara”). Mas é do poeta o dever de exprimir o que não pôde ser dito pela maioria silenciosa. Quem é poeta sabe dessa experiência crucial.

         Pois bem. Esse saber, se se começa a formá-lo pela palavra poética, atinge um sabor que a linguagem, ela-mesma, propicia. A linguagem como sedução, o poeta se semeia para o mundo (“Arado”) por meio do desejo do mundo e de sua formação em matéria linguística: dois pesos pesados que a lira faz dançar ao ritmo, às rimas, às assonâncias e aliterações, no mergulho rumo às possibilidades do código lingüístico, onde a poesia – código de código – se realiza e instiga o poeta a exceder-se na procura do texto que escreve sua individualidade meio ao desafio do cânone literário.

         Creio que Isaías (e estou a profetizar a partir de um poeta com nome de profeta?) continuará a perseguir a próxima palavra, com rigor obstinado que deve ter o verdadeiro poeta: a palavra mais próxima do que poderá ser uma “estética da redenção” – movimento da poesia e das artes em geral, a perseguirem um estágio de integridade para o ser humano através da auscultação profunda do mundo e da linguagem.

 

 

         Que Isaías tenha me pedido para apresentar seu livro, causa-me alegria. Conheci-o numa oficina que orientei, em 1994, na Fundação Casa de Jorge Amado. Oficina de poesia, denominada “De como lembrar-se”. O grupo de então continuou a se encontrar, por algum tempo, na própria Fundação, sob a proteção da madrinha da oficina, Myriam Fraga. Também em minha casa, algumas vezes. Pensamos em publicar os poemas da oficina e o grupo chegou a organizar a edição do livro, com Marcus Vinícius Rodrigues e Terezinha E. N. Teixeira à frente da editoração. Causas externas ao nosso desejo sustaram o projeto. Percalços do cotidiano. Mas creio que nenhum de nós esqueceu a experiência da oficina. Isaías, ele mesmo, disse-me há poucos dias que, para ele, a oficina continuou através destes três anos. Para todos nós, foi um momento de beleza: “A thing of beauty is a joy forever”, sem dúvida.

         Agora surge Estes, no qual percebo que Isaías não deixou de trabalhar na sua própria oficina – esta, a definitiva prova dos nove para o poeta. Ele próprio, no momento, como professor da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos – ACBEU, orienta a oficina “Poetry in the Classroom: Teaching more effectively through the Unteachable”. Um poeta sempre encontrará os meios de se encontrar com a Poesia, fascinando as próximas gerações.

 

 

Salvador,  outubro de 1997.

 

Maria da Conceição Paranhos 


 

 

 

 


 

 

 

 

I

POÉTICA DA MELANCOLIA

 

 

Ao leitor   (I)

 

A fala ácida queima seu suporte,

combustão que cala na cara,

cadáveres de sábios europeus,

eis o que jaz às margens destes versos-carbono.

 

Não é de outra fonte,

a não ser por efêmeras sensações,

que se alimenta este poeta:

da fuligem do velho mundo.

Mas minha fala arde

de onde canto,

do limbo do desejo.

Se finjo bem convivermos,

é porque aos poucos serás devorado,

matéria de mim mesmo.

Lamberei os lábios após engolir-te.

Gargalharei a tua digestão.

 

Irmão, matéria de mim mesmo,

dar-te-ei a impressão de que escrevo poemas

e não tua sentença:

minha paixão.

 

 

 

Ao leitor (II)

 

Perguntas se há cura

como para uma doença ou vício.

O que lês nos meus versos?

 

Mudo, sisudo, apenas

inclino-me sobre o papel

e mel rima pelas bordas

de minha boca,

e quase escuto o pulsar

do pensar.

 

A música em mim dança,

como se esta língua,

indistinta, jazesse à margem de um poema

e de sua fonte,

pois se soubesse claramente o que dizer

eu não seria poeta.

 

Respondo: não há cura.

 

 

 

 

Estética da Melancolia

 

O único sinal de júbilo

parece ser, em minha poética,

aquela marca seráfica

naquele verso dentre todos:

o próximo verso,

que nunca se realiza.

 

Aconteceu. O tempo passou, e eu.

Sentimentos são cordeiros

ignorantes de sua imolação semântica.

Meu ser triste, incerto e de parca rima,

perdeu o interesse pela vida?

E a vida (que em mim delira a lira)?

Meu suicídio

força-me a viver,

e o faço,

pois o vinho.

Minha melancolia

não advém

das batalhas e amores perdidos,

do parco tesouro possuído,

dos afetos não recebidos,

da pouca fé,

dos poucos amigos,

do desconhecido,

da peste,

dos males da alma

ou dos defeitos do corpo.

Sã e profunda a minha melancolia,

e vivo,

pois a poesia.

 

 

 

 

 

Iminência

 

A poesia escreve-se.

 

Cada poema singular

é verso ou rima

contida no poema maior: a vida.

Corrói-me a cada passo

este desejo esparso,

de síntese

dos heterogêneos ásperos espinhos

que brotam de mim,

rasgando a pele do sentido.

Busca da morte,

um grito

sem dor nem porquê.

Deslizo impreciso

meio a corriqueiras intenções,

coisa espremida, expelindo metáforas,

para alcançar o preciso

momento de dizer, expiação

pelos que afoguei, sufoquei.

Métrica e previsíveis rimas,

neguei.

Frenesi de buscar.

 

Profética criação,

ainda que se resuma em mera latência

toda a poesia que há para ser.

 

 

 


 

 

Poema sem carne

 

Que mais fazer

senão digerir o dito e feito?

 

Palavras de chama líquida

arrastam-se.

Milênios de criação,

recriação do sempre-mesmo.

Por elas

poetas vampirizados,

nessas noites sem pátria,

quando acaricio a solidão

no frio do poema sem carne.

 

A língua que transporta a minha dor

Antecede-me.

A arrumação dos sentidos,

mistério maior que chuva, morte.

 

Pensar, tempestade e funeral, então.

Tanto mais

que apenas no próximo verso

terei algo a dizer. Se tiver.

E agora quebro este poema.

Dor.

 

 

 

A voz das Coisas

 

Formas são fontes

que se silenciam

enquanto são.

Creio, mas em sonhos.

Dispenso

a busca de vinho

ou de pão,

mas vivo de pão

e de vinho,

deste, como não?

 

Se nos dias

que se sucedem

tivesse fé,

dormiria mais à sombra,

não aquela fresca e boa,

mas à sombra escura

da largura do ser,

como quando sonhei que estou morto.

 

Sim. Escrevo autobiografia póstuma.

Já acariciei a solidão.

Creio, porque me é,

na estética da melancolia.

Creio em coisas nas quais

jaz o silêncio,

jazem formas

que se silenciam sendo,

pedindo.

 

 

 

 

Rimas internas

 

Alguns morrem sem protestos

nos pequenos afazeres,

nos restos dos fatos triviais,

nos prazeres pequenos,

nos mais inúteis esforços

obscenos dos dias.

 

Destroços de vida, rima fácil,

alegrias efêmeras de canapé,

dócil permissão

da fé, do tempo.

Solidão de fúteis brinquedos,

contento de nulos planos,

medos pobres incontidos

nos insanos fracos

reprimidos desejos.

 

Parcos domínios do mesmo,

beijos também. Mesmos, em diferentes lábios.

À esmo, o ser em ideal

que os sábios pintam.

Mau, o que se sabe.

Sintam.

 

Não cabem nessa tela tantas cores.

Ficam os néscios fartos,

de horrores, alguns fortes,

quase mortos, lutam.

com a sorte traiçoeira não contam,

furtam do nada, a essência.

Sonham o indizível.

Da ciência, os erros.

Impossível, um,

aos berros.

 

 

 

 

 

Epitáfio a um músico

 

Gotas de música

caem sobre o mar de mim,

revolvem a superfície.

Ritmo pulsando, coração de um deus.

Leva-me aos primeiros sons

do desejo no nada.

Mãe-Terra,

útero do cosmo,

sou o quando não era,

ainda.

 

 

 

                

Poema sozinho

 

Lua,

buraco de luz no escuro da noite,

porta para outra dimensão,

onde os santos,

anjos não-nascidos.

 

Lua cuspindo estrelas,

ferindo a escuridão.

  

            Lua. Eu.

            Solidão.

 

 

Máscara

 

Meu sono digere

a dor camuflada do dia.

Meu sonho fantasia em sim

o não das coisas.

 

 

 

 

 

Pequenas almas

 

Quando o sol beijava meu dorso,

cavei o solo do ser,

para ali plantar a sombra.

Nasceu negra rosa

de pétalas tímidas à luz,

rosa. Morrerás,

se o mundo,

mesmo que por ínfimo espasmo de tempo,

for todo claridade.

 

Amiúde,

na calma calma dessa flor de sombra,

descansa a filosofia,

as palavras, descansam -

estas pequenas almas que de tudo zombam.

 

 

 

 

Encontro

 

Quando os olhos da simplicidade

avistam os meus,

dissolvo-me em gritos

de silêncio

(não a ausência de som,

mas de sentido).

Cumplicidade.

 

Desejar.

Desejo tudo em ti.

O desejo que me deseja

como a morte.

Desejo as palavras.

Elas me mordem

em versos tristes, torpes,

a me escreverem

na orgia do tédio,

este, meigo e puro,

uma criança morta.

 

És tu, poesia,

a quem de simples chamo,

teu adjetivo até a última

gota de minha alma, entretanto.

Não te peço em casamento.

Acasalamento,

é o que te peço

agora. Teus olhos, os meus.

Não te peço para ser livre

dessa vontade de deitar-me,

em linhas,

e ser o verso denso

da falta de certeza,

onde me apresto,

renascendo.

 

 

 

A cabeça da beleza

                        A Carlos Drummond de Andrade

 

A cabeça da beleza

pende estonteada,

sobre o ombro do poeta.

Vomita

esboços de vida.

 

A cabeça da beleza,

cansada do eterno

nos limites do tempo,

ao vilipêndio de olhares curtos,

no colo do poeta,

deita-se,

em contornos de morte.

 

A cabeça da beleza,

já ôca,

sem forças,

abandona-se nos cantos de quaisquer poemas.

 

 

 


O inseto

 

Além do azul, do nublado,

um mundo calado habita outro

mundo contido

no meu mudo rosto.

Lâmina rasga o infinito,

mostrando um outro infinito

(possível?).

Sonhar, de tanto de viver,

se não vivesse para sonhar tanto.

Poder parar aqui mesmo,

perguntar a quem me ensinou

o sofrer, o cantar.

 

Porque canto,

pois que canto, mesmo

sem saber se canto, sofro

ou se sou sopro

do além, do nublado.

 

É quando pousa um inseto,

e mãos

limpam o céu.

 

 


 

 

Mas

 

Eis que um sopro de inspiração

entra por uma janela.

A minha.

 

Diz-me que sou profeta,

incerto,

pequeno,

sereno,

ferino.

 

Se pudesse rimar infinito,

se pudesse brincar infinito,

se pudesse ficar infinito,

calar,

mesclar

todas as sensações.

 

Eis que o sopro

esvai-se,

mas.

 

 

 

 

 

Réquiem

 

Em meus braços morreu a musa, a última.

Não sou culpado.

Delito aparente

sem razão, sem réu,

pelo qual pago desde sempre.

 

Não a matei, poetas do mundo,

apenas encenei profana Pietá,

acolhendo-a, após violentada

por séculos de arte.

 

Morreu a musa, a última,

eu,

sua sepultura.

 

 

 


                                  

Mancha

 

Deixo almas

de mim desprendidas

no tempo, que, de soslaio,

passa.

Não são rastros,

mas esse desgaste do ser,

manchando o mundo.

 

Em que tela imensa,

sem expressão cadente,

tudo é mácula e acidente?

Quiçá de algo mais denso,

pequena nódoa desgarrada,

rubra de ira.

 

E de tal obra,

quando vislumbrados os traços,

apenas bruma

disforme e suja,

o ser.

 

 

 

 

Delicatessen

 

Amassar a palavra-pão,

espremê-la,

não para a verdade,

mas para a expressão.

 

Vê-la em contorções,

Meneio de mão infantil

tangendo os nãos.

 

Torturá-la,

não por confissões.

 

Amar o verbo,

tornando-o nervo, alma,

toda a calma e a ebulição

do silêncio.

 

 


 

 

Sorte

 

A maior sorte,

ninguém pode ter:

não nascer.

 

Condenados à vida

(sorte para alguns),

às pequenas sortes

somos vulneráveis.

 

Que se realize o maior dos milagres:

a morte,

a grande sorte para todos.

 

 

                


 

Cromatismo

 

Mostro-me.

Ao pintar este quadro

com as cores da dor,

pincelo nas mãos do acaso

traços do ser.

 

Explicito algum fazer

a fazer-se,

neste pouco poema.

 

Na moldura do mundo,

encerro os séculos

para quem sabe olhar.

 

Nos contornos do sonho,

defino o indizível

para os insaciáveis.

 

Então a vida, inflada,

arremessa, nesta tela parca,

o farto espectro das cores do nada.

     





Beba Coca-Cola

 

Amigos vindos,

Idos.

Cadáveres

em degraus,

escada para o findo.

 

Uma vez vivo,

morte, a necessidade.

A sorte, meu vinho,

meu corpo, este copo,

arremessado contra o muro,

meu amigo.

 

Lata de Coca-Cola, vazia, na rua,

poema lido.

 

 

 


 

Expectação

 

Quando tudo

parece já ter sido soprado

pelo último vento da noite,

quando as luzes,

em sinfonia,

apagam-se nos prédios,

quando não existe quando,

como fazer nada em uma tarde de domingo.

 

Eu amo,

clamo calado

pelos muitos amigos

que me espreitam, ainda.

 

Sou tão lobo.

Olho para o céu

cravado de astros,

tatuagem no coração do universo,

sofro.

 

 

          

 


Profilaxia

 

Quando minha casa

lentamente fecha os olhos -

e aquela próxima palavra não vem -

sem constrangimentos,

pernilongos pousam

sobre o campo de versos escassos,

escassas metáforas,

pois escassos, poetas.

 

Mãos matam insetos até o amanhecer.

 

 

 

 

 


Itabaiana

 

Um raio de sol

ama intensamente uma gota d’água

sobre uma folha de mangueira.

 

Que solidão sente aquela gota d’água!

 

 


 

 

Poesia

 

Sinto-te, poesia,

como a um ente autônomo,

meu outro

que não volta a ser este,

visto que em ti não me reconheço.

És como um deus que crio,

que então me cria

e me abandona.

 

 

 


Autofagia

 

Lânguido,

na volúpia da solidão escolhida,

exercito a lâmina dos olhos.

 

Pela janela

vislumbro meu funeral sem glória.

Beijos de chuva

acariciam os seres ainda vivos,

que me arrastam.

Estranho cortejo.

 

Depositam meus restos

no cemitério de mim:

meu desejo.

 


 

 

Alteridade

 

A serra espreita a vila,

rimas de gente.

A vila margeia o rio,

versos de vida.

Um sol, não qualquer

(o dos meus olhos em sangue),

pinta o barro,

ilumina o sexo das pedras.

 

Peregrino,

Perdi-me na estrada de mim para mim.

 

Nessas imagens,

sou caco de vidro

a espreitar a serra, a vila, o rio,

e já não sei se morto,

ou outro.

 

 
 

***********************************************

 
 
II
Estes

 

 

 

Este

 

Há homens que nasceram para as mulheres,

há os que nasceram para os homens,

há outros tantos para tantas

vidas vãs.

 

Há este que nasceu quando,

para dormir manhãs

e ser homem enquanto descansam

os que nasceram para o labor

(os de mente sã).

 

Este que não se inclina,

na relva sórdida dos feitos humanos,

a qualquer fazimento,

na incógnita paisagem interior,

a qualquer sentimento banal,

na inóspita visão do eterno cósmico,

a qualquer alento.

 

Na concretude espúria dos objetos,

apenas o nada

em marcha,

desatento.

 

 

 

 

Anjo novo

 

Vampiros da metrópole,

eis um anjo

novo a seu dispor!

 

Límpido,

ao menos em aparência,

até que sintam

o que o sustenta.

 

Conversão inversa.

 

 



As águas

 

Anacrônico,

nasci tarde ou cedo.

Falo de vagas idéias

ardidas de medo,

de rimas mesmas

 

- a forca é a última rima -

para completar o poema da vida,

e que não venho

para cantar minhas raízes,

ao certo, não sei a que venho.

Escrevo porque dôo,

como tantos doem.

Escrevo como se desenhasse

colméia de versos

e curvas.

 

Porque as águas ainda estão turvas,

desagúo.

 

 

 

 

As flores

A Charles Baudelaire

 

Espírito

que dorme nos teatros e cafés,

vê, além das conversas triviais

e espetáculos banais,

as tolas alegrias dos boêmios.

 

 

Esquecido,

porque dormi durante o show,

mas sonhei de aplausos

e flores.

(As mesmas que enfeitarão meu túmulo).

 

 

 

 

Nada

A Cecília Meireles

 

Meu nome,

todos os abortos

e óvulos estéreis.

 

Meu nome não me nomeia,

pois me mato antes, sempre -

forma estendida sobre um abismo

entre o belo extremo

e o execrável.

 

Não moro em meu nome,

mas onde se abraçam sopros de vento

indistintos,

onde se choram gotas de chuva

por entre rochas faciais anônimas.

 

Meu nome é um momento,

e momentos morrem em ato,

outros em esquecimento.

Meu nome é nada.

 

 

 

 

Arado

 

Ainda ara em mim

o arado das terras de menino,

da mãe que orava.

Ainda ora.

 

Torrões secos

ainda secam

meu ser que erra.

Tantas hipóteses.

Tantos banhos e sonhos.

 

Ainda ara em mim

o arado das terras de menino,

mas ara, agora, o destino -

sulcos mais profundos,

nos quais me semeio para o mundo.

 

 

 

 

Liberdade

 

Nasci livro,

livre, limpo,

aberto,

concreto, barroco,

outros.

Bíblia, biblioteca,

estante,

instante, silêncio,

ler, lido.

Morro livro.

Livre?

 

 

 

Tercetos

 

Confrange-me,

em ti,

ver minha alma repousar.

 

Invejo-te,

pois que vestes minha beleza,

a mim negada.

 

Tortura-me

minha abnegada vontade,

que em ti se revela.

 

Dói-me

todo o meu gozo,

que em ti se realiza.

 

Encho-me de horror

por ser em ti, em ti só,

que sou.

 

 


 

                       

 

 

III

Estes Indomados

 

 

 

Minha casa

 

Minha casa não é só minha.

Divido-a com imagens,

miragens e reflexos,

que vagueiam, insinuantes,

num pêndulo.

(consciência-inconsciência).

 

Preso de tais pensamentos

paro,

e penso que pensar é vício, sina, pena.

 

 

 

 

Ad-verbo

            

Hipoteticamente, cometerei todos os erros

humanamente permitidos.

Idealmente, sou capaz,

conscientemente, de esmagar

cruelmente, o amor mais puro.

lentamente torturar a beleza, aniquilar,

reciprocamente, com poesia, guerra,

com guerra, poesia.

Friamente executar o criador,

Tardiamente, a criatura.

 

Então, a mim mesmo.

 

Hedonisticamente, avermelhando o que ouse.

Ontologicamente, ser,

lançando-me em um abismo.

Indefinidamente, amoral.

 

Opostos não têm sentido,

apenas o tédio

pastoso, húmus dos restos

do projeto humano.

 

 

 

 

 Ética

 

Evito te matar.

Não por bondade.

 

Não te amordaço

ou te acorrento.

Não por ser justo.

 

Não te violento.

Não penses que sou puro.

 

Procuro não de todo te ignorar.

Não sou essencialmente gentil ou democrático.

 

Eu te amo:

poderia te odiar.

 

 

Considero-te íntegro, oh, outro,

apenas por necessidade pragmática,

ou da gramática.

 

Se preciso seguir

sem que me venhas a

aniquilar,

calar,

enjaular,

estuprar,

esquecer

ou a me odiar, sem porquê.

 

 

 

 

(Im)potência

 

Conquistaria todos os tesouros,

toda a sabedoria,

todas as mulheres

defloraria.

 

 

 

 

O sétimo dia

Um deus bêbado

e só,

perdido

em uma dessas ilhas do universo.

Adormecido,

sonhou de terras,

belos seres, janelas e mares, e mais.

Ao despertar

viu seu sonho de pé.

Tentou alcançá-lo.

Percebeu que sua criação

se arrumara em realidade. Autônoma.

Então, seguiu,

para o próximo botequim.

 

 

 

 

 

Edipiana

 

        Ao estrangeiro,

        invasor de meus sonhos:

        revela-te ou me devora!

 

 

 

                        

Natureza felina

 

Dois gatos brincam no mármore branco.

Um gato sou eu,

o outro, outro eu,

um gato és tu,

o outro, outro tu.

 

Dois gatos,

natureza

de movimento e mármore,

pêlos ferinos, agilidade.

 

Dois gatos,

ato.

Gatos brancos, branco mármore,

gatos de mármore,

apenas

o frio mármore.

 

 

 

 

P

 

Vapores, poeiras,

lama

sobre o teu corpo

não me impedem:

pedem minha língua

sobre a tua pele.

 

 

 

 

Fálico

 

Pendes em natural iminência, só,

Entre fêmures trêmulos ao toque.

Narciso, quando te sentes modelo,

Inflamado,

Sangue.

                              

 

 


 

 

 

 

IV

Janelas

 

Janela

 

Por que aquele solitário

debruça-se à janela?

Que espera

no horizonte?

 

Não lhe bastam

as paredes nuas de lembranças,

seus vícios menores

e o sorriso sem sentido no escuro?

 

Quer atirar-se sobre a multidão,

convidá-la a revirar seu baú?

 

Por que tão somente não deita,

fecha os olhos, a janela?

 

 

Metrópole I

 

Passos,

homem curvado,

cansaço,

não somente do esforço.

Esboço de caminhar.

 

Pedras da rua

refletem as luzes do alto,

iluminando o medo

do outro iminente

do beco sem sombra ou claridade.

Fétida luz de propaganda

delimita ocos opacos sentimentos.

 

E a cidade abre-me suas pernas,

avenidas.

 

Beijo-lhe os olhos,

molho meus lábios

de lágrimas, carbono e enxofre.

Prédios, torres,

tumores na pele urbana,

homens.

 

 

 

 

Metrópole II

 

Ruas e becos,

tarde da noite.

Esta sensação: me observam do alto.

Espíritos divinos,

mas não o são.

São os das janelas.

 

 

 

 

Metrópole III

 

Eis que me curvo

à janela mais discreta

de todas as eras.

As luzes da cidade,

as fogueiras de neon,

as duras formas euclidianas

no balé do horizonte urbano

e o céu.

 

Meus. Pois contemplo.

Não há olhares que se cruzam,

mas vazios que se olham:

eu e a noite metropolitana.

 

 

 

Metrópole IV

 

O prédio em que moro - choro-

cai sobre a rua,

pessoas correm, morrem.

 

Última rima,

o prédio, o tédio despencando.

Há gritos,

mas eu já não mais, pois morri

primeiro.

Sou os escombros na praça.

 

 

 

Museu

 

Sedimentos de sentimentos

universais, prostrados diante de quaisquer.

Cada quadro,

janela para um mundo inteiro.

Cada escultura,

movimento de um todo.

Cada forma, cada pedaço,

laço

para tempos outros.

Templo de contemplação.

 

 

 

      


 

 

 

V

Estes Outros

 


Profundamente

                a Manuel Bandeira

 

Quando eu tinha sete anos,

lembro que atravessava amiúde uma mesma ruela,

onde havia o labor

e fôlego das gentes.

Certo dia, senti nada

e uma vontade de apenas,

apenas, o invisível.

Senti que Deus morria

na vontade indizível

que me invadia.

Vontade de

deitar, deixar e dormir

profundamente.

 

Ainda há pouco,

ao perceber a integridade sonolenta

da massa que sou,

vi o mesmo fôlego das gentes lá fora,

e senti

que estou deitando, deixando e dormindo

profundamente.

 

 

 

 

Poema para meu filho

 

Pira de idéias

escurece mais.

Apodrece mais.

Depravada fênix

copula com o corvo de Poe.

Do pó

nasceu o verbo,

o rebento por larvas amamentado,

o genitor por vermes carcomido,

a maternidade do futuro sabe,

a cinzas,

a nada.

Das substâncias úteis

nutriu-se a esperança:

fúteis conquistas

na dança dos dias -

da poeira do sem-sentido

ao nó do tecido da terra.

Embora poucas guerras perdidas,

por ter vivido, ou, agora, fogo-fátuo,

nada ganhou esse herói,

senão a construção de novos homens, a ciência,

imagem mais fiel

da escuridão desse céu,

imensidão desse fim.

 

 

 

Cabeça de Terra

 

Pau bate pau,

lata,

coivara, vara,

pote.

Carro de boi,

vaca,

metal no solo,

buchudo no colo,

mulher buchuda,

feijão, buchada,

farinha,

forno de lenha,

barro,

lombrigas,

manga, jaca, caju, laranja, banana.

Donana de boi,

dona de boiada.

Menino já fui,

onde tinha goiabeira e muito mais.

Tenho terra na cabeça, nada mais.

 

 

 

 

Fechando as cortinas

 

Paralisam-se os engenhos humanos.

Apenas o silêncio

Passeia, alheio,

sobre crânios

reluzentes.

 

Shakespeare, moribundo,

ainda bate à minha porta:

um saco de ouro,

na outra mão uma pena.

 

Todas as vicissitudes humanas

escorrem-lhe da boca,

vermes

exigindo liberdade

 

As cortinas quedam-se cerradas,

nos assentos,

o que cala.

O espetáculo acabou,

e torna-se, em um instante,

difícil de continuar.

 

 

 


 

 

 

VI

O não das coisas

(variações em inglês)

 

 

 

Mask

Variação do poema “Máscara”.

 

My sleep recycles

of the day the disguised pain.

My dream fantasizes in freedom

What I couldn’t say.

 

 

 

 

 

Requiem

Variação do poema “Réquiem”.

 

The last muse died of old age,

of love,

in my arms, her last words:

 

“Centuries of wounds in my soul

kill me”.

 

Guilty I’m not,

I just staged profane Pietà

for the secular eyes

of many all poets!

 

Farewell, brave Erato,

rest in peace, in me,

your grave.

 

 

 

 

Itabaiana

Variação do poema homônimo.

 

The sun kisses

and dearly caresses a dewdrop

on a mango tree leaf.

 

What a lovely lonely dewdrop that is!

 

 


 

 

New angel

Variação do poema “Anjo novo”.

 


Metropolis vampires,

here I am,

a new angel on fire

for you!

Apparently pure and innocent

until you feel

my inner essence.

 

Inverse conversion.

 

 

 

 

Nothingness

Variação do poema “Nada”.

 

Mine is the name

of all aborted,

seeds of no deeds.

I’m not in my name,

but in dead adjectives.

Shapeless abyss between the wonder

and the unspeakably lame.

My name is a moment

in the face of the ordinary,

an almost nothing

in the cosmic shame.

 

               

 

 

To a musician

Variação do poema “Epitáfio a um músico”.

 

Drops of music

fill the sea of my soul,

heaving its surface.

A god’s heartbeat is the rhythm

of the primal sounds in desire,

the face of nothingness.

Mother Earth,

the womb of our universe,

made me what is not

yet.

 

 

 

 

Shadows

Variação do poema “Pequenas almas”.

 

Drilling the ground  of the being,

being the sun on my back,

I sowed the shadow.

 

Shy to light,

a doomful dark rose bloomed

to die when,

even for an instant,

illumination.

 

Nearby

lies philosophy,

in the quiet quietness of this pain.

Rest words,

these minute souls

mocking the world.

 

 

 

 

This

Versão do poema “Este”.

 

I see those who live  for the women,

Those others for the men,

And many others

Living life in vain.

I see this myself born when,

To sleep mornings

And  be a man

Later, while those who labor, rest

Then.

This myself who’s not tempted,

In the bizarre field of human deeds,

By any doing,

In the mysterious landscape of love,

By any easy feeling,

In the wild view of the universe,

By any safe ground.

In the concrete being of the objects in orgy,

Only the ineffable

Marching,

Carelessly.

 

 

 


 

 

       

 

Índice

 

 

 

 

I     POÉTICA DA MELANCOLIA 

        Ao leitor (I)

Ao leitor (II)

Estética da melancolia

Iminência

Poema sem carne

A voz das coisas

Rimas internas

Epitáfio a um músico

Poema sozinho

Máscara

Pequenas almas

Encontro

A cabeça da beleza

O inseto

Mas

Réquiem

Mancha

Delicatessen

Sorte

Cromatismo

Beba Coca-Cola

Expectação

Profilaxia

Itabaiana

Poesia .

Autofagia

Alteridade

 

II    ESTES

       Este

        Anjo novo

        As águas

        As flores

        Nada

        Arado

        Liberdade

        Tercetos

 

 

III  ESTES INDOMADOS

       Minha casa

        Ad-verbo

        Ética

        (Im)potência

        O sétimo dia

        Edipiana

        Natureza felina

        P

        Fálico

 

IV   JANELAS

       Janela

        Metrópole I

        Metrópole II

        Metrópole III

        Metrópole IV

        Museu

         

V    ESTES OUTROS

       Profundamente

        Poema para meu filho

        Cabeça de terra

        Fechando as cortinas

 

VI   O NÃO DAS COISAS (variações em inglês)

Mask

        Requiem

        Itabaiana

        New angel

        Nothingness

        To a musician

        Shadows

        This











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