"poetar para adiar o poente"
Isaías Carvalho
 

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Doses Poéticas

Isaías Carvalho (2009/2010) @





Prontidão Poética
                                        

Pronto para a poesia?

Para remexer o lixo de si?
Profanar a sepultura do eu?
Já morta a criança?
Já perdidos todos amores?
Já pelejado o suficiente pela traição absoluta?
Já renegado três vezes mil e mais?
Já despedaçados os projetos postos outrora?

Já está pronto?
Pronto para a poesia?

Nunca se está pronto para a poesia.
A poesia nunca está pronta,
mas sempre em prontidão:
morrer já não basta.
Tudo morre,
tudo bosta.




Inospitalidade



Não é insônia.
É a madrugada que insiste em não dormir.
Persiste um outro defeito em mim:
sou inóspito, inabitável, intratável.
Assim me fiz (me fizeram, está feito)
um Midas invertido:
tudo que toco apodrece.
Maldito tanto quanto.
Outro, não sou digno de que entreis em minha morada,
mas, se disserdes um só palavra,
abro as portas e tudo perece.








Acordei, e era outro
                                                              


Acordei, e era outro.
 
Pensara fosse apenas ficção.
Kafka, D. Quixote, Alice...
O que fazer com estes restos?
Não reconheço rostos que dizem me amar,
não consigo parar de dizer ‘não’.
Não amo uma terra e raízes certas que me pariram,
não sinto dores pelas dores alheias,
não minto transcendências ou vazios,
minhas veias cheias de essências e cios
de qualquer
 
Sou o super-, o supra-, o sopro-homem,
o sonho cibernético:
uma máquina orgânica saturada de inteligências.
 
Adormeci, e era eu.






Criaturalidade



Minha mortalidade vai envelhecendo
e vou me criando uma concha,
tecendo uma carcaça dura,
uma troncha redoma
na qual vou acumulando os mucos
e dejetos de minhas criaturas:
caducos pensamentos abjetos
em torno da matéria criatural do eu,
tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas, vocês, aqueles, aquelas, estes, estas, esses, essas... aquilo:
Pinóquio, Pygmalion, Golem, Adão, Eva, Frankenstein, Jesus, Lúcifer...
Todos esses títeres, marionetes, autômatos e andróides que receberam vida
de onde só havia intenção inorgânica.

Minha mortalidade vai envelhecendo
e minha criaturalidade vai esculpindo meu esquife.

Onde diabos foi morrer o criador?





Poemeto à UESC                              



Universidade Estadual de Santa Cruz: 

sonolenta pedra imensa no meio do caminho 

entre os ilhéus de são Jorge Amado 

e as simplórias tabocas – vegetais e humanas – grapiúnas.





Poesia e Cultura
                        

Os poemas de cada local e suas cores: 

paráfrases uns dos outros. 

A trad(i)ução mais fiel que há.






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