"poetar para adiar o poente"
Isaías Carvalho
 

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Isaias Carvalho


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(in)versos

(obra completa)  Isaías Carvalho   1999

Ilustração da capa: Wellington Mendes da Silva Filho 

 

 

 

 (di)versos inversos

                                                     Décio Torres Cruz*

 

Quem é Isaías Carvalho?

Isaías é um nome. Prenome de uma árvore sólida como as palavras que ele busca para a construção de seus versos. E árvores geram folhas (de papel) que um dia se transformam em poesia. Isaías é poeta, daqueles que transformam seu próprio nome em poema. Em nome do pai, mãe, e filho da poesia. Poeta sem adjetivos, pois ele os gasta para se inventar e descrever a condição humana: em busca de versos que signifiquem a vida do lado de fora das janelas da criação: a vida inventada, vida ao inverso, vida pelo avesso.

Não se assustem com a inversão dos títulos. O poeta caotiza forma e linguagem em trocadilhos múltiplos e polissêmicos, e termina pelo começo em uma “gênese arrependida”. Decretando a morte da poesia e dos grandes poetas, ele está na verdade querendo “criar verbos (...),/ desafiar os mestres e ser um”, inscrever seu nome na história das vanguardas e fazer com que a poesia continue viva, linguagem nascente a rolar por “corredores da gênese da linguagem e de depois”, assim como em um exílio do tempo e do espaço. Enquanto as cinzas do amanhã não chegam, ele segue compondo e decompondo versos como “lâminas afiadas” em “ermas rotas””, buscando palavras “(...) sólidas para erguer a nova cerca acerca do sentido” do poema original, perseguindo a eternidade “(...) em gotas de tédio”.

Note-se aí ecos implícitos de João Cabral e T.S. Eliot. Um poeta se conhece pelas suas leituras. E Isaías nomeia os seus mestres: Drummond, Pessoa, Dostoiévski. E deixa implícita toda a sua herança das vanguardas modernas e pós, pois trata-se de um poeta de adjetivação sombria, como as utopias. Ao mesclar poesia, prosa, e teoria literária em seus versos, Isaías reafirma a tendência da escrita contemporânea à dissolução das fronteiras entre os gêneros e entre as tipologias literárias. Ele passeia pelas diversas veredas da ambigüidade que caracteriza o nosso momento histórico: sério, cômico, irreverente, político, lírico, cínico, irônico, crente, descrente, sacro, profano, sexual, espiritual, etc. e tal.

Por vezes triste e desesperançoso, por vezes alegre e brincalhão, outras vezes irado e revoltado, ele nos convida a compartilhar as diferentes paisagens da alma urbana. E nos convida ainda a participar do jogo, da brincadeira da criação como co-autor, construindo com ele os diversos universos de signos em busca de significado.

(in)versos é para ser degustado gota a gota: de cima para baixo, de trás para frente, do começo pro fim. Cuidadosamente. Afinal, se “a realidade é um sonho que não deu certo”, até o sumário constitui um poema. Deixemos que os seus versos falem por si. Sigam em frente e boa viagem através das alamedas dessa poesia que nos faz refletir sobre a nossa condição de seres que vivem “assim como”, e nos indaga se não somos realmente parte de um sonho alheio.

 

Ph.D. em Literatura Comparada pela State University of New York, em Buffalo, EUA. Professor Adjunto da UFBA e da UNEB.

 


 




“(...)quando em frente à poesia
meditabunda que
se quer filosofia,
mas que sem a coragem e o rigor
de ser uma ou outra, joga e hesita,
ou não hesita e apenas joga
com o fácil, como vigarista.
Pois tal meditabúndia
certo há de ser escrita
a partir de latrinas
e diarréias propícias.”

              João Cabral de Melo Neto














I
Cronológicos


Eis-me, janela para outras janelas,

rabiscando palavras para outras palavras.

Versos caem pedra sobre pedra

sobre homens,

com os quais não conto para o combate.

De fato, não sou arauto

de povos e jovens utopias,

nem de mim mesmo ou dos meus.

Prego mais uma vez a morte da poesia e de toda arte.

Que se precisa de muita incerteza

para não se calar de pronto

tal afã de viver o inverso em versos.

 

Saio. Vou encontrar poemas.

                                Retirada

 

 

 

Era o funeral da última musa.

Acorreram escassos poetas,

pequenos todos,

pois grandes mais não há.

Se já.

“Estes” Revisitado

 

 

 

Vi um homem

velho,

sentia dor.

 

Vi um homem

louco,

senti a dor.

 

Um velho cão

moribundo,

odor.

 

Vi um espelho,

vi-me

cão louco e velho.

Cronológico

 

 

 

 

Quando jovem, incendiário.

Hoje, bombeiro.

No mais,

escudeiro quase fiel dos meus quereres infantis.

 

Sonhava desbravar o fora do útero,

provar da terra e dos fenômenos básicos,

criar verbos e belos genes,

desafiar os mestres e ser um,

explorar o corpo e a alma desvairadamente.

Tantos feitos e desfeitos.

 

Não me bastam.

O que satisfaz um homem?

O infinito? A morte certa? A vaga dádiva de viver?

 

 

Talvez me baste organizar o próprio funeral,

construir a própria tumba.

Uma morte generosa pode ser o bem supremo. Ou o mal.

 

Quando jovem, incendiário.

Hoje, bombeiro.

Amanhã, cinzas.


                Fogo





Grandes canais me passaram

e ainda.

A vida, cada vez mais vaga,

vaga por alamedas tortuosas

de ser e de morte.

Um corredor, espaço de espaços,

de cor e dor. De tanto.

 

Já não mais me assustam os becos

secos e seus regos putrefatos.

Os túneis sem luz nem trevas.

No final: mais túneis.

 

Choro. Os olhos ocos.

Não sei porque o faço.

Se choro pelos sulcos sem sementes do cotidiano.

Se pelas entranhas azuis infinitas entre nuvens esparsas.

Se pelos estreitos intransponíveis entre mim e o outro.

Se pelo púbico entre coxas ainda não acariciadas.

Nem sei ao certo se choro ou se chora

o corredor no qual me prostro:

o agora.

                Corredores

 

 

 

No princípio era o nada.

Veio o verbo, então,

para que falássemos do amor.

 

E já fomos líricos, épicos, tísicos, dramáticos,

escolásticos, renascidos, renascentistas, barrocos,

tortos, loucos, poucos. E não é tudo.

 

O que somos hoje não é o meio, o princípio

nem o fim, que deste não se sabe.

O que hoje somos não chega a sê-lo e já o foi.

 

Do amor se fala, mas o que é?

O vasto e sensual nonsense.

        Da Gênese da Linguagem e de Depois

 

 

 

É o oitavo dia.

Por que sujar hoje a criação?

Meu trabalho resultou inútil e é tarde demais.

Cerrarei os olhos.

Doarei meu sonho e meu sangue ao acaso.

Apenas não esqueçam:

façam o que eu digo,

não façam o que eu falso.

Gênese Arrependida

 

 

 

 

Erguerei um sonho

para além dos cenhos dos meus irmãos.

Abrigará minhas rimas, minhas alucinações.

 

 

Erguerei um monumento

aos sonhos dos meus irmãos

para além dos seus cenhos.

Representará os meus verbos, meus insubstantivos.

 

Erguerei um muro

da altura dos cenhos dos meus irmãos.

Revolucionários e rebeldes lerão meus adjetivos, minhas despronominações.

 

Erguerei meus desejos

para além desse muro,

tanto que, quando apenas escombros,

sejam memória os sonhos dos meus irmãos

e façam sonhar a história.

Aos meus irmãos

        1994-1999 (sempre inacabado)

 

 

 

 

Conheci o meu pai, trabalhador da terra.

Minha mãe, simplesmente.

Irmãos, caminhos.

 

Conheci putas e seu ofício.

Conheci um poeta, só.

Conheci a mãe dos meus filhos, que não conheci.

 

Conheci o presidente, o príncipe, o estudante, o engenheiro, o médico, o

[soldado, o religioso, o ladrão, o professor.

 

Conheci vizinhos. Amigos?

Já os convidei à adega.

 

Conheci o espectador, o leitor, o consumidor.

Já fui massa com eles.

 

E o amor espalhado nos conhecidos, espelhados nos que não conheci.

Conheci mesmo o amor?

 

Conheci o viajante, o eremita, o monge.

Já contemplei mistérios com eles.

 

Mistérios? Não me conheci. Faltou tempo.

                                        (des)Conhecidos

 

     

 

Eretas, as estruturas concretas se mantêm.

Apontam para um céu de firme beleza.

Aleluia! Suas terras não tremem.

As guerras lhes são escassas e veladas muitas. A natureza lhes faz bem.

Ainda, Caminhas e tantos reis os estupram em seu imaginário

- primeira metáfora de carne, osso, sangue e tateável sacanagem.

Com líderes que não os lideram, mas a seus próprios umbigos (amigos), amém!

 

Eis um milagre imponderável: seres vivos, aí, se movem.

Humanos e outros vermes exercitam uma convivência implausível.

É um milagre da falsa ternura harmoniosa que a tudo fura e corrói.

Quase uma aberração de precedentes sem.

Resistem.

 

Um milagre. E daí, meu bem?

Versos Brancos e Outros nem Tanto – Apresentados por um Longo Título Entediante e Permeados por um Certo Misticismo e por uma Lucidez Coniventes - para as Cidades e para o Povo do Brasil do Fim do Século do Fim das Velhas Utopias (Quantidade de Preposições Utilizadas até Aqui: 12)

 

 

 

 

Ergo uma muralha de rotina dispensável,

uma fortaleza de hostilidade mansa.

Aquelas rosas dançantes no jardim nunca entrarão,

permanecerão pedintes em vão balanço

até que despetalem silentes.

 

Vivo de bocejos.

Grito para calar os monstros - os desejos.

Sonho em voz alta para calar os anjos - os desejos.

Talvez sonhe comigo mesmo, mas acordo sem o saber,

assim como tantos poemas morrem em intenção.

 

Me lembro que o mundo está cheio de outras coisas.

Que é preciso calar um pouco e se fazer conjeturar.

Que a coisa mais misteriosa que o sol pode cobrir é...

Rimbaud emudeceu.

                                Exílio

 

 

 

 

O passado cairá do espaço.

Latas, metais,

tantos pedaços que o tempo,

o tempo perderá o passo.

O espaço ficará vazio mais uma vez

e o passado, quem sabe,

descansará em paz.

Tempo e Espaço

 

 

 

 

Assim como há homens em corpos femininos e mulheres em perfis de homem;

assim como há tantas pessoas naquele famoso português;

assim como não veio quase nada de novo após ele;

assim como aquele se matou;

assim como aquele outro é racista, fascista e presidente;

assim como deus é plural;

assim como o mar massageia os banhistas com o sal e os restos,

serei reto:

se queres ser um bom banquete para os vermes,

é preciso que vivas assim como.

           Assim Como

 

 

 

 

Ao te ver pelas lentes do tempo,

me convenço:

o adulto é um príncipe virando sapo.

Trespassado de momento,

quando penso ser grande, olho o mar;

quando penso ser forte,

te avisto e grito:

animais e crianças do mundo, uni-vos!

          Para Ciro

 

 

 


Voltemos às figuras!

Um soneto, um haicai, os sapos.

A morte dos paradigmas – em farrapos –

pode ser uma corruptela,

um golpe dos não-inspirados.

Uma loucura passageira?

 

Procuro ainda a voz que me pertence,

em um verão (além dessas paisagens e dessa sujeira),

onde me espero em mansidão latente.

            Às Vanguardas

 

 

 

 

O tempo explora a minha cabeça.       

Entradas e bandeiras pela testa. Careca.

Não só por essa,

morro já.

              Calvície

 

 

 

 

Meu diálogo com os que vieram antes se faz pelo verso...

Dos de hoje? Não sei a língua.

Se há uma, não é a (minha) poesia...

Quanto aos de amanhã, só o tempo se faz sucesso.

                    Heranças

 

 

 

 

Se tu viesses,

eu virilha.

Se tu para sempre fores,

eu furores.

Se tu queres,

I care.

Se tu sentes,

eu sento.

Se tu mentes,

eu menta.

Se tu foges,

eu fogo.

Se tu me amas,

eu mamo.

Se tu me mordes,

eu miau!

 

Se tu existisses de fato,

eu foto.

Mas se já és terceira pessoa,

eu passo.

                Trocrocodilhos para a Segunda Pessoa Moribunda

 

 

 

 

Muros caídos deixo para trás.

Adiante não há pedras para reconstruí-los.

Encontrarei palavras sólidas?

Sólidas para erguer a nova cerca acerca do sentido?

 

Sobre mim cai uma palavra japonesa. Não falo japonês.

Seria a palavra primeira, dura?

 

Enquanto isso, na sede do caminho,

a eternidade me é servida em gotas de tédio.

                    Ermas Rotas

 

 


 

 

II

Reciclados

 

 

(Argutas ambiguidades

descansam onde moram as metáforas.

Aguardam o cio dos poetas.)

 

O silêncio brisa em meu rosto

e diz que os louros não são meus.

A vitória em versos

é ver, na poeira, no vento,

os mortos átomos da paixão.

 

Teu corpo, meus sonhos.

Teu sorriso, mirra e incenso,

morte e ressurreição

da fênix-poesia

a cada tempo de não.

 

O silêncio chove em meu rosto.

Metaforização

 

 

 

 

Em meio a tanta quanta sujeira e pó,

pousa displicente

um poema saltitante.

Nenhum homem,

nem mesmo o mais sábio,

jamais o compreenderá.

Poema-inseto

 

 

 

 

Como piadas,

versos vêm e me fazem rir.

Distraído, até esqueço que são lâminas afiadas.

                    Poema-corte

 

 

 

 

O poeta não é a sua poesia,

se, tal Narciso,

afoga-se nela.

Busquem a poesia.

Quanto ao poeta: esqueçam-no.

Deixem-no afundar...

em paz?

Poema-fonte

    a Joceval Santana

 


 

 

 

Por dias da poesia me olvidei

levado por vozes: “poemas são utopias”.

Mas é dessa quimérica menos-valia

que sugo o que sem

bem pouco faria.

Ora, bem-vinda, pródiga companhia!

Poema-lucro

 

 

 

 

Algo sorri na sala

sempre,

e cala o homem,

seu ventre semi-

desejo estonteado,

seu quase ser

morrente.

 

Mais que o mundo, ali

sorriem objetos

manequins

para esse meio-homem,

e tão bem

que também ele

se pensa sorrindo.

 

Algo ri na sala.

TV

 

 

 

 

Luz que se a

paga a conta do milênio.

Cidadãos do mercado, nú

meros marcados para negó

cio sem gozo. Prontos e emba

lados esquerdo e direito de apenas con

sumo de tudo. Expostos diaria

mente parabólica no mar de in

formações eletrônicas. Estatis

titicas de ga

linhas de montagem. Ser pós-moder

no mundo-aldeia é is

só, em meu canto.

Se ainda canto.

                Pois, Moderno

 

 

 

 

Tempos outros, caro poeta!

 

Faço versos, quando os faço,

como almoço em fast food,

como o alvoroço do sexo jovem

ou a cópula dos coelhos,

como bombas que chovem em Kosovo

ou como Hollywood faz fotos.

 

Metamorfoseio marcas dos mestres mortos muito vivos de minha infância.

Remendo. Emendo brancos versos,

bravos bocejos da pujança dos símbolos.

Ruminação.

                Pr(oc)ess(o)a de Criação

 

 

 

 

Quero fazê-lo. O farei.

Posso fazê-lo. O farei, se quiser.

Devo fazê-lo. O quero. Posso não fazê-lo, entretanto.

Sou livre.

 

Patavina!

Quero matar o rei. Posso? Devo?

Posso matar a mim mesmo. Quero? Devo?

Devo pagar os impostos, o dízimo. Quero? Posso?

 

Livre é a pedra

que o pariu!

       Livre-arbítrio





Na língua flor do Lácio, língua é também músculo,

dorso, lâmina, ápice.

A transcrição do homem.

Músculo de prazer

e de não.

O músculo do nome.

 

Dos pulmões, em polvorosa,

o ar sonha ser energia sonora.

A senhora língua,

ora na boca (em samba), ora fora,

copula com os signos do mundo.

Phoné

 

 

 

 

I

saías. Hoje não sais mais. Os músculos não te respondem.

Nem as proteínas ou os sais.

I

saias não. Preciso da segunda. A terceira pessoa não me basta.

I

saias de renda, saias de ciganas e saias mais. Tantas saias.

 

Isaías? Não se sabe.

                       Meu Nome

 

 

 

 

Versos são sementes

semeadas por dementes

nos áridos sulcos dos sertões dos outros.

 

Portanto:

 

adrede, atávicos vocábulos

me tomam em azáfama,

chilreando para este, o estro,

esfazendo a dor,

o esgar.

Sou o étimo do ego,

nihil-obstat de minha obra:

eu mesmo.

 

Caoso-me:

causo o caos,

caotizando a causa.

Caos

 

 

 

 

Cedo, um sonho derrama-se manso

sobre as dores da rua.

Mas é tanta a dor que eis logo deserta de sonhos

mais uma manhã de sono abundante.

 

Não há de ser nada.

Dormirei:

é a que me proponho

por mais um instante.

Ressaca

 

 

 

 

A realidade é um sonho que não deu certo.

Um sonho que se perdeu da nação onírica.

                                                Real

 

 

 

 

Ah! Meu caráter quase sem jaça

e sem graça também.

Não fossem meus parcos versos,

eu mesmo me diria:

-         és ninguém!

Do Autor

 

 

 

A priori, já usei todo o meu latim

e sou a prosopopéia de uma língua encantada.

A flor do lácio murchou o cio, o sim,

sua proposta,

sua estrada.

Como o vagido natal

e a lata senhora fatal - comuns aos mortais,

mutatis mutandis , o verbo vive apenas quantum satis.

                            A Língua Ur

 

 

 

 

 

O que deixaste para eu dizer, Pessoa?

Simulo a tua resposta, uma vez que te podes metamorfosear em tantos:

 

“por que queres dizer,

caro poeta?

Silencia e ouve o sibilo das formas,

vê como o real te vê,

senão por rima, por prazer... senão por quê?”

 

És tu, Fernando,

ou este outro que usa a segunda pessoa

para ver como soa?

Este muito consciente para ficar louco

ou vice-versa.

 

(Este heterônimo tardio, abandonado e duvidoso)

 

            Dele guardei este poema sem título e marcas profundas na minha alma, onde quer que ela more. Não lhe guardei o nome.

Mas como ele tinha em abundância o que um nome não revela! Se era de fato um poeta vivente ou apenas uma miragem minha, não sei. Era.

            Anacrônico. Se não tinha cem anos, tinha mais. Não fosse a língua insuficiente para a descrição e não fossem as descrições tão incompletas, daria, porque o tenho em mim, um exato retrato do homem que conheci. Que nos bastem o seu nariz avantajado e já sem formas definidas – mero suporte para os óculos antigos -, seu corpo magro curvado em denúncia de uma grande estatura outrora, sua pele pálida – quase a ausência de cor -, suas roupas e seu chapéu pretos – já inerentes à sua figura fora de moda, fora de tudo.

            Aos fatos, se os há. A partir do momento em que me descobri um não-estético (não sei ao certo o que isso significa, apenas o sinto, sinto muito), o que coincidiu com a perda do meu status de cidadão casado e de todo tributável, passei a frequentar um bar no alto de um dos muitos morros com vista para o mar. Em Salvador, na Bahia, certamente, mas o nome aqui é prescindível.

- O que são os nomes diante dos mistérios do mar? O meu, por exemplo, é menos que um nome.

Respondeu ele à minha curiosidade natural.

Notei que sempre sentava no mesmo canto, todos os dias. Todos os dias em que eu estava lá, lá estava ele, do meio da tarde ao meio da embriaguez e a da falsa escuridão metropolitana. Não me recordo de um “boa noite” ou de um “adeus”. Mas me lembro da primeira vez que o abordei, levado por um misto de impulso etílico e de comunhão circunstancial.

            Se, para mim, a realidade circundante não interessava, para ele, nem parecia existir. Rabiscava em guardanapos, pedaços de papel e velhos jornais, enquanto se mantinha em contemplação evasiva do mar e do ar. A primeira impressão que tive foi a de que ele sempre estivera ali. Antes da existência do bar. Antes daquele primeiro de junho de 1988, dada a justeza do conjunto que ele formava com a mesa, a cadeira e o que o seu olhar divisava. Me aproximei:

-         Com licença, não pude evitar...

Tentei esboçar uma abordagem formal, quando ele me interrompeu:

-         Pode sentar, meu caro.

Obedeci, meio tonto, mas prevendo a importância do que se sucederia.

- Sem protocolos, camarada. Estamos aqui por motivos semelhantes.

Fiquei em silêncio. Tomei uma cadeira, sem lhe bloquear a visão do mar, que lhe enchia os olhos da mesma cor. Ele sabia, por razões além da minha consciência, que eu não precisava lhe fazer perguntas. Continuou:

-  Eu me recusei a seguir a teoria do mestre Caeiro, mas caí na mesma armadilha que ele e todos os outros histerônimos: procurei ordenar o caos pela linguagem. Hoje, sou apenas um fragmento exilado e esquecido do caso pessoano.

Eu era todo silêncio. Entendi o que ele tentava me dizer, mas não pude dialogar. Não percebi a extensão do momento. Sua voz saía como se de um baú antigo. De dentro de mim. Eu o ouvia primeiro em mim para depois sentir a realização física dos sons. O que aquele senhor pensava estar fazendo ao se integrar tão bem ao mundo pessoano, que sempre me fascinara, mas parecia ser a última coisa de que eu precisava naquele momento da minha existência duvidosa?

Em um outro momento dos nossos poucos encontros, ele me disse:

- Nasci no mesmo dia e hora que Pessoa, de uma gestação múltipla e ubíqua. Mas naufraguei na grande barca da língua portuguesa. Desde sempre o mar me vomitou nesta nação-continente que, de Portugal, herdou a esperança do que nunca vem.

De biográfico, acrescentou ter ficado órfão, morrendo-lhe a mãe no parto, e ter sido adotado por todo o nonsense profetizado para o século XX. Para ganhar a vida, a qual me disse ter perdido profundamente, fez de tudo um pouco, menos o lícito.

O que dele mais me marcou, no entanto, foi o seu rancor para com o ortônimo, veladamente notado em seu poema:

-   Se há alguém que tenha vivido plena e validamente, esse não fui eu. Uma palavra resume o meu fado: desilusão. Pessoa me fez acreditar que eu era outro. Nada me ilude hoje, nem o fato de eu ser o único genuinamente (mal) criado nos trópicos. Somos todos o mesmo na diferença. Foi mais uma sua brincadeira de ser Deus. Nunca o perdoei. E por isso abandonei a poesia, sem que ela me abandonasse, entretanto. Ela me foi uma maldição.

Diariamente, como um ritual, me sentei à sua mesa até o dia 13 daquele mesmo mês, daquele ano, a partir de quando nunca mais o vi. Não é pressa narrativa: é a insuficiência dos significantes para relatar a inconsistência dos fatos. Seu único poema talvez revele mais do que o meu vão relato.

Quando procurei o meu amigo esquizofrênico (ou seria histeroneurastênico?), no dia 14 daquele junho, encontrei apenas uma mesa vazia e o poema já aqui transcrito, rabiscado em um guardanapo surrado. Sem assinatura. Teria morrido de velhice? Suicídio? Atirara-se ao vasto mar? A Portugal, finalmente? De nada adiantou inquirir dos garçons, pois eles nunca o viram. Nunca enxergaram um velho mais velho que a velhice em uma de suas mesas.

Desolado, percebi um espelho naquele canto privilegiado do bar. Nunca o vira antes, mas me asseguraram que ele sempre estivera ali.

O Heterônimo Tropical

 

 


 

 

III

Químicos

 

Tantos usam esse perfume,

mas é em ti que ele se assume,

pois que o olfato não está nas narinas.

Está no desejo simples e vital

de quando precisar de mim mesmo,

hei de te procurar e te cheirar.

Que se não for poema, conto, cantiga, sentença de morte ou romance,

seja puro texto perfumando de ti, de tua nuance,

na qual debruço o meu nariz de ser o que sempre quis.

E já não se trata de perfume ou escritura,

mas de uma vontade claro-escura de tudo em ti.

Suspiro.

O Amor Tem Cheiro

 

 

 

 

O amor verdadeiro, se,

quer devorar a carne, sugar o vermelho, roer o cálcio,

estrangular a alma e gozar em espasmos insanos.

Até que não exista mais o outro, o limite,

o que excita e se faz cio.

 

Eu te amo. Eu acho.

Declaração

a Cláudia

 

 

 

 

Essa árvore me lembra uma donzela de outrora.

Uma donzela de pernas pro ar.

Cabeça e cabelos, suas raízes.

Seu sexo envolto em panos fartos, a copa.

Quando bate o vento

(mancebo ousado a lhe bolinar),

abre as pernas

-         perdão! Os galhos.

 

Quando também for um vegetal,

desposarei essa árvore.

Mas hoje mesmo penetrarei inteiro

sob suas opulentas vestes vitais,

que para gozá-la, eu sei,

diversamente do humano tronco,

quanto mais roupa, mais.

Vegetal

 

 

 

Pedras. Pedras esbranquiçadas. Pedras pretas.

Íngremes. Intermináveis. Pedras.

Pontiagudas.    Solitárias. Várias.

Pendurado a uma pedra.         

Quebrarei as pernas.

Serei pedra. Só.

Ecos dos meus não-gritos.

Caio.

Uma música insólita sopra. Sinto pedras.

Em que rocha ficou a minha dor?

Sou pedra.

 

Ah, poeta,

não há uma pedra no meio do caminho. O caminho é pedra.

Há um caminho no meio das pedras. Que leva às pedras. E só.

                        Pedras

a Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

Penetrei no átomo de uma pedra.

Visitei seus contornos, desenhos em livros de química.

Escolhi um elétron louco e o invadi.

Encontrei um planeta inteiro,

ligeiro, solitário,

onde havia uma pedra,

a qual atravessei, etéreo,

para ver-me - verme - neste lugar,

onde agora laboro indefinições.

 

Penetrei no átomo de uma pedra:

meu ser.

         Pedro, Pierre, Petrus, Pedras...

 

 

 

Quando um “a” e um “l” bailam,

alma e lama:

amálgama.

Alma e Lama

 

 

 

 

É se afogar no seu próprio próprio,

sugar o nada pastoso de dentro para dentro,

suspender um pouco o já pouco.

É quase ficar louco.

 

Abafada construção do desconforto.

Tonta máquina de espalhar vírus.

Uma aspirina, ou logo estarei morto!

 

Atchim! Cadê a saúde?

Minha cama, meu ataúde.

                                Influenza

 

 

 

A ordem, o começo, não sei.

Uma idéia antecede o que escrevo

ou escrevo o antes da idéia?

Qual a ordem, qual a obra?

A ordem é morrer, é deixar o que não nos deixa,

é saber dizer “não sei”.

É não saber dizer:

divagações, digressões...

O que resta? O resto, a réstia.

Por não ser certo, sou perto e longe. Qualquer.

Um verso com lama me chama.

Vou calar o grito.

Silêncio. Silencio.

Parei.

Pari.

Versos a Quatro Mãos Vazias e Ébrias

                        a Xico

 

 

 

 

Não gozo com versos longos

ou com rimas gordurosas.

Poesia - os maribondos

deixam marcas dolorosas.

 

Poemas tão dinossáurios

fatigam e dizem pouco.

Uso óbvio metro falsário,

pois que todo metro é torto.

 

Tal volume e simetria,

nome, mas pouca magia.

Viva o reto, o curto, o corte!

 

Excesso é disenteria,

resto, surto, hemorragia.

A prolixidade, a morte.

Da Poesia Obesa

 

 


 

 

IV

Sacros e/ou Sacrílegos

 

Abaixo os cânones!

Elejo os cães e seus dejetos

o modelo do projeto moderno.

 

Abaixo os cânones!

Elejo o ânus e a merda

as formas belas maiores, as musas.

 

No horizonte,

o buraco negro da criação.

Para Uma Estética da Defecação

 

 

 

Humana festa e totens aos sinais do mundo,

alegoria à diferença do não-nós,

promessa de força com impotência no fundo.

É fogo vão e, dos enganos, a fonte, a foz.

 

Alucinação tonta de que advimos

de instâncias superiores que criamos para nos inventar.

Incenso, sangue, danças, violência e tanto vinho,

ritos, gritos, símbolos para diminuir e dominar.

 

A fé é o feno atado a um palmo da boca do asno.

A certeza de satisfação no inalcançável mistério.

É a graça do itinerário inútil para um outro plano,

 

a farsa do inventário fútil das verdades universais,

a recompensa e o viver monótonos sempre pós-necrotério.

Ora, esqueçamos! Com ou sem crenças, não há paz.

Religiões

 

 

 

 

Na minha religião, eu sou um deus.

Na era de aquário, eu sou Hera, pelo trocadilho.

Os pecados são todos amigos meus,

mas não os cometo todos, para não perder o brilho.

 

Meus rituais são os possíveis:

graças aos hormônios, meus favoritos são os sexuais.

Sei que o fogo vital é perecível,

então incentivo, enquanto duro, os bacanais.

 

A salvação, na minha igreja,

pode ser a eutanásia mais tarde,

como pode ser, agora, uma cerveja.

 

Na minha fé, o homem é o centro

de um círculo sem margens

e oco por dentro.

Minha Religião

 

 

 

 

Meus semelhantes na terra!

Enquanto não decidimos se Deus morto ou moribundo,

se nossa catarse ainda se dá pela guerra,

se a arte, de tão segmentada, foi ao fundo

 

do poço raso, ao menos ensaiemos o próximo passo.

Se é impossível domar o rebanho,

se as diferenças são do todo o laço,

ao menos tomemos o primeiro caminho

 

entreaberto à nossa frente.

Se morreram as musas, as lentes,

ao menos juntemos alguns trapos

 

e sigamos sem o quê em mente.

Se, por mais que se tente,

nos vemos cada vez mais fracos.

Impasses I

 

 

 

 

Há muito caiu a aura do mundo, dos santos,

da hora inspiradora, dos reis e da arte.

Já é desusado dizer, pois certo, em prantos:

não espere nada grande de minha parte!

 

O tema do presente tempo são todos os temas.

Ainda, tento tramar a obra,

trançar os plurais, os esquemas,

tornando-os unos como uma grande cobra.

 

Assim, sem tema e sem aura,

sigo o caminho do ser:

a linguagem que a tudo instaura,

 

as metáforas esquecidas em ermas ilhas,

os versos de se saber pouco e se esquecer.

Ao homem, as paisagens são sempre alheias.

Impasses II

 

 

 

 

Meu sexo teso

(preso à mão,

minha ou não,

ou no dentro úmido de amantes)

é a tese

(improvável, se fora do tato,

do fato)

de que o falo fala

em outras línguas e bocas:

hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.

           Tesão

 

 

 

 

Uma mulher, o que é?

A mulher não é.

Não é apenas um ser que apodrece uma vez por mês.

                         Da mulher ou do mênstruo.

 

 

 

Estou seguro sobre 

a minha orientação sexual,

os meus ideais políticos,

os meus gostos musicais, literários, palatais,

os meus desgostos.

Até sobre a possibilidade de deus.

Não há dúvida:

sou explicitamente dúbio.

Certeza

 

 

 

 

As mulheres que amei

me amaram mais do que eu a elas.

As mulheres que amei

Me esperaram sempre (como se a uma tragédia iminente) às janelas.

 

As mulheres que amei

Definharam lentamente.

As mulheres que amei

Foram todas invenções da minha mente.

As Mulheres Que Amei

 

 

 

 

Há 290 adjetivos com significados afins neste poema;

na primeira parte, as iniciais das palavras formam 8 vocábulos necessários(?).

(Esta pode ser considerada uma informação técnica irrelevante)

 

1 - Do homem e de sua sorte:

Escasso, raso, obsceno, sombrio.

Torso, áspero, nefasto, atro, tosco, obscuro.

Devasso, insólito, odioso, nocivo, ilícito, sibilino, indigno, obtuso.

Bestial, escatófilo, lânguido, zambro, execrando, biofóbico, ufanoso.

Aziago, nauseabundo, torvo, ilusório, chulo, reles, ímpio, satânico, torto, oco.

Lúgubre, umbroso, criminoso, infame, funesto, excrescente, repugnante.

Triste, recôndito, escuso, vazio, ascoso, sórdido.

Atroz, podre, obnóxio, cruel, arisco, louco, ignóbil, pífio, sujo, escuro.

 

2 - Da poesia:

Encurralada, desesperada, encruzilhada, indecisa. Agonizante?

 

3 - Observação:

Outros adjetivos quaisquer teriam bastado.

As palavras aqui foram anistiadas.

Libertas dos valores do autor. (?)

Ou seja, o impossível.

Ou não seja.

Seja o que for.

 

4 - Ainda do homem e de suas circunstâncias, dentre tantas outras particularidades menos elogiosas (complemento dispensável do poema Sombria Adjetivação, este também dispensável, como todo poema):

 

Tenebroso, desastroso, monstruoso, jactancioso,

turvo, torpe, torto, malsão,

penoso, perigoso, preso, pasmoso,

preto, pobre, espúrio, vão.

 

Vil, avaro, vulgar, terrível,

pervertido, adverso, vicioso, execrável,

venenoso, revolto, perverso, desprezível,

malévolo, repulsivo, aflitivo, reprovável.

 

Amargurado, falso, putrefato, escabroso,

degenerado, fraco, atrófico, caliginoso,

definhado, fatal, horrível, asqueroso,

amaldiçoado, falho, disfórico, pavoroso.

 

Descomunal, mórbido, imundo, mau,

manchado, murcho, maléfico, maníaco,

desumano, melado, mirrado, anormal,

misógino, merencório, ermo, desarmônico.

 

Agourento, zote, destroçado, doente,

feio, infeliz, mísero, decadente,

danoso, renhido, peçonhento, deficiente,

desolado, desditoso, fragoso, indolente.

 

Fanático, fétido, sôfrego, pávido,

tirânico, árido, apocalíptico, melancólico,

patético, pusilânime, pérfido, estúpido,

ridículo, anômalo, esdrúxulo, diabólico.

 

Estulto, esquisito, escarninho, estragado,

falido, furibundo, final, frustrado,

sacana, sanguinolento, sinistro, safado,

grosseiro, agreste, grave, desgraçado.

Iracundo, corrupto, rude, errado,

árduo, horrendo, ríspido, depravado,

torturante, cancerígeno, estranho, arruinado,

tolo, preconceituoso, deletério, quebrado.

 

Desairoso, vergonhoso, turbulento, transtornado,

tonto, terrificante, tenso, atormentado,

hediondo, desagradável, perdido, danado,

baixo, branco, abjeto, baldado.

 

Ilegal, imperfeito, infernal, infenso,

nojento, nefando, lancinante, pungente,

inhenho, medonho, leviano, azarento,

mesquinho, inidôneo, intrincado, ofuscante.

 

Misonéico, abominável, miserável, fútil,

Mefistofélico, misossófico, mefítico, fúnebre,

disforme, assustador, soturno, hostil,

inadequado, assombroso, maldizente, medíocre.

 

Taciturno, ressequido, preguiçoso, minguado,

parco, periclitante, pestilento, maldito,

demoníaco, pernicioso, confuso, mortificado,

misterioso, suspeito, desleal, aflito.

 

Letal, pedante, maligno, lastimoso,

molesto, patife, débil, encardido,

mortal, misoneísta, ruim, lutuoso,

infausto, imoral, ininteligível, carcomido.

 

Ladro, tedioso, incestuoso, estuporado,

estuprador, violento, pútrido, homicida,

incoerente, feroz, rabugento, malogrado,

maculado, canibal, covarde, suicida.

                            Sombria Adjetivação  (para ser lido em gotas)

 

 

 

 

 

Se me prendem, me calam, torcem meus braços;

se me esbofeteiam e me cospem;

se me fazem perguntas, cujas respostas já sabem;

se me eletrocutam no escroto;

se me estupram, me jogam no esgoto;

se me levam pro mato, me quebram os ossos;

se me mandam correr, atiram, eu caio - meu último ato;

se me lançam aos abutres...

 

O que querem que eu diga?

 

Que não fui à guerra para defendê-los?

Que não dou esmolas?

Que não canto o hino nacional nem o da bandeira?

Que não votei no presidente?

Que sonego impostos, pois impostos?

Que não ajudei uma velhinha a atravessar a rua?

Que olhei minha mãe nua pelo buraco da fechadura?

Que me masturbei na igreja?

Que não amei o próximo, mas a mim mesmo e só?

Que escrevi versos sujos e impertinentes?

Que morro feliz?

 

Estamos acordados:

vocês mortos, vivendo,

eu vivo, morrendo sempre com sua pólvora sem sentido.

Crime e Castigo

(desomenagem a todos os opressores de povos do mundo)

 

 

 

 

 

Como os maiores perecíveis - dicionários e dinossauros -

extingo-me com o dia. Com a noite.

Como os últimos trocadilhos do poeta cansado

- fértil, mas inútil diante da beleza última -

me preparo para a morte.

 

(Por que tem a fala tão fúnebre, o poeta?

Para conter o suicídio?)

Para conter o suicídio.

Lenta Eutanásia

 

 

 

Um funeral sem glórias

para um cultivador de anti-heróis.

A morte a cada curva

da memória

curta.

Pó.

Só,

furta

da escória,

após a chuva,

o único triunfo por tantos sóis:

um funeral sem glórias.

Anti-Réquiem

 

 

 

 

O vermelho entrará no pano nacional.

O pau-brasil,

o sangue índio,

o sangue negro,

o sangue de todos os nãos.

 

O vermelho devolvido manchará o branco, o azul, o amarelo, o verde.

As entranhas estranguladas

de todos os nãos

serão o progresso e a ordem.

Brasil Vermelho

 

 

 

 

A poesia, finalmente,

é uma prosa corrupta.

Apenas alguns pedaços da gente

 

e das coisas e suas idéias.

Consome algumas rimas fortuitas,

meios e meias epopéias.

 

Não demanda muito trabalho,

quando se tem nas veias

o dom de esculpir sobre atos falhos.

 

            Abaixo a hipocrisia!

            Essas rimazinhas e essas ideiazinhas

            podem ser um poema, aí acima!

            Bem podem ser uma porcaria.

            Bem podem ser a maior obra do século que se inicia.

            Ou a beleza mínima.

 

O poema, finalmente,

se quebrou.

Farrapos Poéticos de um Fim de Tarde


 

 

I  -  Cronológicos

Retirada

“Estes” Revisitado

Cronológico

Fogo

Corredores

Da Gênese da Linguagem e de Depois

Gênese Arrependida

Aos meus irmãos

(des)Conhecidos

Versos Brancos e Outros nem Tanto – Apresentados por um Longo Título Entediante e Permeados por um Certo Misticismo e por uma Lucidez Coniventes - Para as Cidades e Para o Povo do Brasil do Fim do Século do Fim das Velhas Utopias (Quantidade de Preposições Utilizadas até Aqui: 12)

Exílio

Tempo e Espaço

Assim Como

Para Ciro

Às Vanguardas

Calvície

Heranças

Trocrocodilhos para a Segunda Pessoa Moribunda

Ermas Rotas

II  -  Reciclados

Metaforização

Poema-inseto

Poema-corte

Poema-fonte

Poema-lucro

TV

Pois, Moderno

Pr(oc)ess(o)a de Criação

Livre-arbítrio

Phoné

Meu Nome

Caos

Ressaca

Real

Do Autor

A Língua Ur

Heterônimo Tropical

 


III - Químicos

O Amor Tem Cheiro

Declaração

Vegetal

Pedras

Pedro, Pierre, Petrus, Pedras ...

Alma e Lama

Influenza

Versos a Quatro Mãos Vazias e Ébrias

Da Poesia Obesa

 

IV  -  Sacros e/ou Sacrílegos

Para Uma Estética da Defecação

Religiões

Minha Religião

Impasses I

Impasses II

Tesão

Da mulher ou do mênstruo.

Certeza

As Mulheres Que Amei

Sombria Adjetivação 

Crime e Castigo

Lenta Eutanásia

Anti-Réquiem

Brasil Vermelho

Farrapos Poéticos de um Fim de Tarde

Sumário é o Último Poema

O Sumário é o Último Poema











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