textura da pobreza
análise via satélite dos padrões de precariedade urbana
Projeto de Pesquisa (arquivo .pdf):
biau2008-pesquisa-texturadapobreza.pdf
Integrantes do grupo de pesquisa:
Fabiano José Arcadio Sobreira - Arquiteto e Urbanista, PhD. - fabiano.sobreira@gmail.com
José Barbedo - Arquiteto e Urbanista. -
Mauro Barros Filho - Arquiteto e Urbanista, PhD. -
Produção técnica relacionada:
OBJETIVO GERAL
Desenvolver e validar um método de mapeamento da pobreza urbana a partir da interpretação de texturas de imagens de satélite. Pretende-se analisar padrões de precariedade urbana,em cidades de países em desenvolvimento, com o objetivo de identificar as áreas de concentração de pobreza a um nível espacial detalhado. Construção de um método complementar de mapeamento da pobreza para a orientação de estratégias de redução da pobreza urbana ao nível local e melhoria das condições de habitabilidade.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Desenvolver análises em múltiplas escalas da textura urbana e sua correlação com os padrões de habitabilidade em Recife, Nairobi e Bangkok, a partir de imagens de satélite adquiridas gratuitamente ou de baixo custo.
Identificar, quantificar, e localizar as áreas de concentração de pobreza ocupadas por assentamentos informais de baixa renda caracterizados pelos baixos níveis de habitabilidade.
Desenvolver ferramentas analíticas de baixo custo a partir de recursos disponíveis na Internet, como subsídios complementares de apoio à decisão no desenvolvimento de estratégias de redução da pobreza urbana.
Explorar o potencial da Internet como meio de comunicação, articulação entre pesquisadores, desenvolvimento de uma base de dados e catalogação de ferramentas de baixo custo para a análise da pobreza urbana.
CONTEXTOS
“Habitar o território, desde a terra e o mundo”
De acordo com o Programa Habitat das Nações Unidas, um dos principais desafios para o urbanismo no século XXI é a pobreza, e os conseqüentes problemas sociais que se apresentam em nível mais agravante nas grandes metrópoles dos países em desenvolvimento, onde se verifica um acelerado crescimento urbano informal caracterizado pelas precárias condições de habitabilidade e ausência de planejamento. As principais expressões sociais e morfológicas desse fenômeno urbano são as favelas, barrios, kampongs, squatters settlements, slums, bidonvilles, isto é, os assentamentos informais de baixa renda, que em algumas cidades correspondem a mais de 80% da área urbanizada. Diante de tal crescimento rápido e desigual, a paisagem urbana muda com velocidade e tamanho superiores à capacidade de monitoria e mapeamento das instituições governamentais. Face à dimensão e complexidade destes desafios, a dinâmica social dos países em desenvolvimento tem demonstrado a ineficiência de uma solução única (seja política, econômica ou social), mas a introdução, nos programas governamentais, de políticas de redução da pobreza, através da descentralização de competências e recursos, procurando assim melhores práticas de gestão e desenvolvimento local.
A incorporação de princípios de justiça social no planejamento urbano carece do desenvolvimento de instrumentos complementares adequados a estes propósitos. Neste sentido, o mapeamento da pobreza urbana pode assistir os governos locais na captação e aplicação de recursos financeiros para áreas onde o investimento privado é inexistente. O mapeamento da pobreza urbana não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta valiosa para a reduzir as condições de precariedade urbana. O impacto destes instrumentos está na sua ligação aos mecanismos de financiamento público, fornecendo critérios objetivos para a canalização de recursos nacionais e internacionais para o desenvolvimento estratégico de áreas específicas.
Nos últimos anos, o desenvolvimento de ferramentas para o mapeamento da pobreza tem sido conduzido segundo perspectivas de diferentes campos disciplinares, sejam estes econômicos, sociais, antropológicos ou geográficos, mas raramente se verifica a comunicação entre estas diferentes sensibilidades. O desenvolvimento de metodologias e abordagens complementares, através da articulação interdisciplinar e a integração de analises espaciais dos fenômenos de concentração da pobreza oferecem um campo de investigação com muitas potencialidades.
Até agora, não foram desenvolvidos critérios urbanísticos objetivos para a escolha estratégica de áreas prioritárias de intervenção. A dimensão e complexidade do contexto urbano, a dificuldade de acesso a dados confiáveis e a escassez de recursos financeiros, constituem obstáculos sérios ao desenvolvimento de métodos e ferramentas adequadas a contextos urbanos em rápida transformação. A falta destes instrumentos resulta na dificuldade de responder a um pré-requisito essencial: a identificação dos beneficiários das políticas de redução da pobreza. Para lidar com este problema, existe hoje um consenso de que é necessário estudar as relações entre a pobreza e as características físicas do território.
METODOLOGIA
Imagens de Satélite e Análise da Textura Urbana
Nos últimos anos, tem-se observado que as imagens de satélite estão se tornando cada vez mais populares e acessíveis, e sua aplicabilidade como ferramenta analítica tem sido ampliada. As imagens de satélite, assim como os softwares de análise espacial, disponibilizados gratuitamente na Internet, oferecem um potencial inexplorado para o desenvolvimento de análises morfológicas de baixo custo sobre os padrões de habitabilidade e pobreza urbana. Entende-se que a análise da textura de imagens de satélite se apresenta como uma ferramenta complementar para a compreensão do fenômeno urbano, e que, associada aos diversos enfoques analíticos que já se desenvolvem sobre o tema (sociológico, antropológico, econômico, político, geográfico, cultural, etc), pode contribuir para um diagnóstico mais preciso sobre a dinâmica urbana e as condições de habitabilidade das grandes metrópoles dos países em desenvolvimento.
Com o advento da globalização da informação através da Internet e mais recentemente a maximização da capacidade de transmissão de dados eletrônicos em banda larga , assim como a disponibilidade de dados espaciais georreferenciados e de softwares gratuitos e de fácil operacionalização para a visualização e análise desses dados (como o Google Earth, o ImageJ, o TerraView, o SPRING, entre outros), o que se observa é um campo propício a iniciativas e cooperações internacionais para o estudo do fenômeno urbano em escala global, com ferramentas de baixo custo, aspecto de alta relevância para considerando as limitações orçamentárias das municipalidades em questão, e a democratização dos meios e das técnicas de visualização e análise de dados espaciais.
As análises espaciais tradicionais, baseadas na utilização de softwares de última geração e em imagens de alta resolução espacial e espectral, apesar de apresentarem resultados positivos no campo da análise espacial, envolvem grandes montantes de recursos e alto nível de conhecimento técnico, demandando grandes investimentos. O que se propõe como inovação nesta pesquisa, é o desenvolvimento de análises de textura urbana a partir de imagens de baixa resolução espectral, com a utilização de softwares disponibilizados gratuitamente na Internet, de fácil operação.
Um dos exemplos dessa popularização, nos últimos anos, é o Google Earth, um sistema de visualização de imagens de satélite, disponibilizado gratuitamente na Internet. Estudos recentes (vide bibliografia de referência) indicam que essas imagens de satélite disponibilizadas gratuitamente na Internet, apesar da baixa resolução espectral, são importantes para análises do fenômeno urbano em cidades caracterizadas pelo crescimento descontrolado e informal.
Estima-se que essas ferramentas alternativas, de baixo custo, podem ser úteis no diagnóstico preliminar de áreas urbanas, no que se refere aos níveis de precariedade e pobreza. Estudos recentes (vide item Bibliografia) realizados nas cidades de Recife e Campinas, no Brasil, comprovam que uma análise multiescalar através do reconhecimento e classificação de texturas de imagens de satélite de áreas urbanas, permitem a distinção de diversos padrões de habitabilidade. Esta pesquisa se propõe a testar a validade, robustez e universalidade desses experimentos por meio da análise comparativa de cidades situadas nas três regiões que concentram o maior grau de precariedade urbana: América Latina, África e Ásia.
Passos Metodológicos
A pesquisa está fundamentada nos seguintes passos metodológicos:
a) Coleta de dados sócio-econômicos físico-ambientais dos países em desenvolvimento, com especial atenção para as cidades objetos de estudo (Recife, Nairobi, Bangkok);
b) Análise espacial dos padrões de habitabilidade;
c) Identificação, seleção e recorte de amostras (imagens de satélites gratuitas ou de baixo custo);
d) Processamento digital das imagens selecionadas;
e) Análise espacial dos padrões de textura;
f) Análise comparativa entre texturas e padrões de habitabilidade;
g) Análise comparativa entre os estudos de caso;
h) Consolidação e publicação dos estudos e resultados
Estudos de Caso
Para o desenvolvimento das análises citadas no item anterior foram selecionadas cidades da África, da América e da Ásia do Sul, regioes globais que concentram os maiores indices de pobreza urbana. Os casos de estudo escolhidos para o desenvolvimento das analises propostas sao Nairobi, Recife e Bangkok, que seguidamente descrevemos sumariamente:
Recife
O Recife é a quinta maior cidade do Brasil, um país que se posiciona como uma das maiores economias do mundo, mas apresenta altos índices de desigualdade social. Nos anos 1991 e 2000, o Recife se situou como a capital brasileira com maior desigualdade de renda. Entre esses dois anos, o índice Gini[1] do município cresceu de 0,67 para 0,68. A cidade também se destacou dos outros municípios da sua região metropolitana pela alta desigualdade social e concentração de riqueza, com valores relativamente altos de renda, mas muito inferiores de longevidade e de educação. Existem evidências da presença de mocambos (termo utilizado para denominar as atuais favelas) no Recife desde o século XVII. Entre o final da década de 1930 e o início de 2000, o número de domicílios em assentamentos informais do Recife cresceu de 45 mil para 270 mil, ou seja, teve um crescimento 6 vezes maior. Em 2000, a cidade apresentava uma área territorial de 219,493 Km² e uma população de 1.422.905 pessoas (IBGE, 2000). Quase metade desta população (46%) vivia em áreas pobres que ocupavam apenas cerca de 15% do território da cidade. Estes percentuais vêm se mantendo constante desde o final da década de 1930. Em 1987, foi instituído no Recife um pioneiro programa de urbanização de favelas conhecido como PREZEIS (Plano de Regularização de Zonas Especiais de Interesse Social), que ainda hoje é utilizado como referência no planejamento e gestão urbanos de diversas cidades brasileiras.
Nairobi
Nairobi e a capital do Quênia, sendo hoje a maior cidade da África Oriental e com a população mais jovem da região. Não obstante este potencial, a cidade entrou no séc. XXI atravessando a maior crise econômica desde a independência em 1963, registrando durante estas décadas um crescimento da pobreza absoluta de 57%. Segundo dados oficiais, a região metropolitana de Nairobi apresenta um índice Gini de 0,58. A cidade desenvolveu-se a partir da estação ferroviária construída na última década do séc.XIX, devido à sua localização entre Mombasa e Kampala. Após a independência, Nairobi experimentou uma das taxas de crescimento mais altas de África, O crescimento atual é estimado em 6.9%, sendo previsto alcançar uma população de 5 milhões em 2015. E estimado que cerca de 60% da população habita em assentamentos informais, concentrados em 5% da área residencial urbana. Kibera, uma área com cerca de 2 km2 situada a Oeste de Nairobi foi classificado num relatório das Nações Unidas como "some of the most dense, unsanitary and insecure slums in the world." Outros exemplos deste tipo de ocupação urbana são Mathare e Korogocho, que se destacam das 66, áreas que apresentam elevados indices de precaridade urbana.
Bangkok
Bangkok é a capital da Tailândia, constituindo uma das maiores metrópoles da região com uma densidade populacional de 3 630 habitantes por km2 numa area de 1 568,7 Km 2. Na ultima década, um conjunto de políticas de redução da pobreza tem demonstrado resultados positivos na diminuição das desigualdades sociais da região. No entanto o índice Gini ronda os 0,43 na Área Metropolitana de Bangkok. A cidade cresceu ao longo da margem do rio Chao Phraya, evoluindo de um pequeno porto comercial para uma metrópole com mais de 7 milhões de habitantes. A cidade é o maior centro econômico e financeiro do Sudoeste Asiático. Em 2005, produziu um Produto Interno Bruto de 220 bilhões de dólares, representando 43% do PIB nacional. Bangkok experimentou uma das taxas de crescimento maiores do mundo, com uma transformação económica que implicou alterações dramáticas na sua configuração urbana e social. Os distritos mais pobres de Bangkok encontram-se espalhados pela cidade, embora a área que apresenta uma maior concentração de pobreza localiza-se na região norte do Porto de Bangkok, junto ao rio Chao Phraya. Com uma área de 10 km², o distrito de Khlong Toei é uma das áreas mais pobres do país abrigando em condições de grande precariedade imigrantes e trabalhadores das províncias do Nordeste da região de Isan.
BIBLIOGRAFIA
Publicações dos autores da pesquisa (relacionadas ao tema) :
Barbedo, J. (2007) Desenvolvimento de Politicas Urbanas de Reducao da Pobreza na Africa Sub Sahariana. CITTA–Centro de Investigacao do Territorio, Transportes e Ambiente, FEUP, Porto, Portugal
Barbedo, J. (2006) Monitoria e Avaliação do Projecto de Descentralização e Governação Local - transição de Projecto para Processo. Programa de Desenvolvimento das Nacoes Unidas, Luanda 2006
Barros Filho, M. N. M. (2007) A morfologia da habitabilidade intra-urbana: o uso de imagem CBERS-2 na análise de padrões morfológicos no Recife. Proceedings 13th SBSR Annual Meeting. Florianópolis, Brazil 21-17, April 2007.
Barros Filho, M. N. M. and Sobreira, F. A. (2005) Analysing spatial patterns in slums: a muliscale approach. Proceedings 1th PLURIS Annual Meeting. University of São Paulo, Brazil 28-30, September 2005.
Barros Filho, M. N. M. and Sobreira, F. A. (2005) Assessing texture pattern in slums across scales: an unsupervised approach Working Paper Series. CASA – Centre for Advanced Spatial Analysis - University College London, London, UK.
Barros Filho, M. and Sobreira, F. (2005) Favelas Via Satellite: Spatial Analysis in Slums. Proceedings 10th International Symposium CORP - Competence Centre of Urban and Regional Planning,Vienna University of Technology, Vienna, Austria.
Barros Filho, M. and Sobreira, F. (2007) Urban textures: a multiscale analysis of sotio-spatial patterns. Proceedings CUPUM 2007 – 10th International Conference – Computers in Urban Planning and Urban Management. Foz do Iguaçu, Brasil.
Barros Filho, M. N. M. (2000) A especificidade da heterogeneidade socio-espacial urbana: o caso da Zeis Torrões na cidade do Recife. Dissertation in Urban Development (Master Course). Department of Architecture and Urbanism, Federal University of Pernambuco, Brazil.
Barros Filho, M. N. M. (2006) As múltiplas escalas da diversidade intra-urbana: uma análise de padrões socioespaciais em Recife. PhD Thesis in Urban Development. Department of Architecture and Urbanism, Federal University of Pernambuco, Brazil.
Sobreira, F. A. (2002) A lógica da diversidade: complexidade e dinâmica em assentamentos espontâneos. PhD Thesis in Urban Development. Department of Architecture and Urbanism, Federal University of Pernambuco, Brazil.
Sobreira, F. A. (2007) Favelas, barriadas, bidonvilles: the universal morphology of poverty. Proceedings Internatiional Seminar on Urban Form. Ouro Preto, Brazil
Sobreira, F. A. and Gomes, M. (2000) The Geometry of Slums. Working Paper Series. CASA – Centre for Advanced Spatial Analysis - University College London, London, UK.
Outras publicações de referência:
APHRC (2002): Population and Health Dynamics in Nairobi’s Informal Settlements. Report of the Nairobi Cross-Sectional Slums Survey (NCSS) 2000. Nairobi.
Allain, C. and Cloitre, M. (1991) Characterizing the lacunarity of random and deterministic fractal sets. Physics Review A, No. 44, 3552-3558.
Baudot, Y. (2001) Geographical analysis of population of fast-growing cities in the Third World. Donnay, J. et al. (eds.), Remote sensing and urban analysis, London, Taylor and Francis.
Donnay, J. et al (2001) Remote sensing and urbana analysis. In Donnay, J. et al. (eds), Remote sensing and urban analysis, London, Taylor and Francis.
Dong, P. (2000) Test of a new lacunarity estimation method for image texture analysis. International Journal of Remote Sensing, Vol. 21, No. 17, 3369-3373.
Henninger, Norbert and Mathilde Snel (2002) Where are the Poor?: Experiences with the Development and Use of Poverty Maps. World Resources Institute.
Kessides, Christine (2006) “The Urban Transition in Sub-Saharan Africa” Cities Alliance, Washington
Mandelbrot, B. (1982) The fractal geometry of nature. Freeman, New Yok.
Marceau, D. and Hay, G. (1999) Remote sensing contributions to the scale issue, Canadian Journal of Remote Sensing, Vol. 25, No. 4, 357-366.
Myint, S. W. et al. (2006) Urban textural analysis from remote sensor data: lacunarity measurements based on the differential box counting method. Geographical Analysis, No. 38, 371-390.
Myint, S. W. and Lam, N. (2005) A study of lacunarity-based texture analysis approaches to improve urban image classification. Computer, Environment and Urban Systems, S.l., No. 21, 501-523.
Plotnick, R. et al. (1996) Lacunarity analysis: a general technique for the analysis of spatial patterns. Physical Review, Vol. 55, No.5, 5461-5468.
UN-HABITAT (2003a); The Challenge of Slums, Global report on Human Settlements 2003. Nairobi.
UN-HABITAT (2003b); Slums of the World: the face of urban poverty in the new millennium. Nairobi.
UN-HABITAT (2004); Urban Poverty and slums, intra-city differential study of Nairobi, internal report UN-HABITAT. Nairobi.
University of Westminster (2003). Mapping Urbanisation for Urban and Regional Governance. UK- DFID Research Project R 8130 - Research Report, London, UK.
(Available at: http://www.wmin.ac.uk/builtenv/maxlock)
Weeks, J. (2003) Using Remote Sensing and Geographical Information Systems to identify the underlying properties of urban environments In Champton, T. and Hugo, G. (eds.), New forms of urbanization: beyond the urban-rural dichotomy, London, Ashgate.
[1] O índice Gini mede a desigualdade de renda e varia entre 0 e 1. O valor 0 significa que todas a pessoas têm a mesma renda, e o valor 1 que uma só pessoa detém a renda de toda a sociedade.