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Computação Gráfica na Astronomia

 
A ciência da computação gráfica tem crescido muito nos últimos anos e, através dela, podemos falar hoje da fotografia digital, na qual se encaixa a Astrofotografia. A computação gráfica é a área da informática que estuda a captação, a manipulação e a interpretação de modelos e imagens de objectos através de um computador. Estes modelos e imagens podem ser aplicados nas mais diversas áreas da ciência, tais como: na física, na matemática, na engenharia e, no nosso caso, na astronomia. A computação gráfica pode dividir-se em 3 sub-áreas.  São elas:
 
- Síntese de imagens: compreende a produção de representações visuais, a partir das especificações geométrica e visual dos seus componentes. É frequentemente confundida com a própria computação gráfica;
 
- Processamento de imagens: envolve as técnicas de transformação de imagens. As transformações visam melhorar as características visuais da imagem: aumentar o contraste, a focagem ou mesmo diminuir ruídos e/ou distorções; Este processamento parte de imagens já prontas para serem visualizadas, que são transferidas para o computador por mecanismos diversos - digitalização de fotos, imagens de vídeo ou obtidas através de uma câmara CCD, etc. - para serem manipuladas visando diferentes objectivos.
 
- Análise de imagens: procura obter informação quantitativa acerca dos componentes de uma imagem a partir dela própria. Diferenças entre o sistema analógico e o sistema digital.
 
O sistema analógico, representado pelas máquinas fotográficas, possui algumas desvantagens em relação ao digital. A principal vantagem de uma imagem digital é estar quantificada, facto que permite tratar a imagem para uma melhor visualização de detalhes, o que é muito difícil quando se usam as películas fotográficas convencionais. Outra vantagem está nos tempos de exposição das imagens que, devido à grande sensibilidade dos detectores digitais, são muito curtos quando comparados com os filmes convencionais. Para além disto, o rendimento de uma imagem digital pode atingir os 90% da luz (fotões) incidente, enquanto o dos filmes convencionais é de apenas 2 a 5%. A principal desvantagem deste sistema de imagens é o facto de envolver uma tecnologia de difícil acesso, cara e por vezes complicada. Deste modo, enumera-se, de seguida, uma comparação entre ambos os sistemas:
 
- Sistema analógico: a sensibilidade do filme à luz é baixa. geralmente é necessário um longo tempo de exposição do filme para o registo do objecto celeste em questão; o tempo entre a exposição do filme e o resultado final é grande devido ao processamento químico necessário; a resolução da imagem final é baixa, pois utilizam-se filmes de sensibilidade elevada. Não é possível fazer grandes ampliações; o tratamento da imagem é muito limitado (mesmo no computador); o material sofre desgaste com o tempo, deteriorando-se; o mesmo filme fotográfico não é reutilizável;  a duplicação da imagem original é muito difícil; não lineariedade.
 
- Sistema Digital: a matriz é extremamente sensível à luz, o que possibilita um baixo tempo de exposição; a imagem final pode ser obtida rapidamente, através de passos intermédios que não tornam o processo lento; a imagem é quantificada, o que possibilita grande variedade de tratamentos de imagem; conservação da informação por tempo ilimitado; a matriz pode ser utilizada muitas vezes; duplicação integral das informações: fácil e rápida;
 
Basicamente um sensor CCD é composto por:

- Matriz CCD: conjunto de células fotossensíveis formado por linhas e colunas;
- Peltier: dispositivo para arrefecimento da matriz CCD até a temperatura de operação;
- Placa de circuítos: circuito electrónico que controla as funções da câmara;
- Obturador: controla a entrada de luz;
- Entrada do cabo: liga a câmara ao computador;
- Janela óptica: em geral de quartzo;
- Adaptador para filtros;
- Caixa;
- Suporte de Fixação.
 


Esquema de câmara CCD

O que é um CCD (Charge Coupled Device ou em português dispositivo acoplado de carga)?
 
O Dispositivo Acoplado de Carga é formado por um conjunto de sensores, chamados "células fotoeléctricas" ou “Pixel”, dispostos numa matriz de linhas e colunas. Estes sensores são muito mais sensíveis à luz do que os cristais de prata dos filmes convencionais, O princípio físico utilizado para se obterem imagens digitais baseia-se no facto de alguns materiais terem a propriedade de, quando iluminados, absorverem fotões e produzirem electrões. Essa propriedade é conhecida na física como efeito fotoeléctrico.
A luz que incide sobre a matriz CCD sensibiliza as células fotoeléctricas e provoca a criação de electrões livres, em quantidade proporcional à quantidade de luz recebida. Podes, então, fazer uma analogia: pensa neste processo como a captação de água da chuva com muitos baldes onde cada fotão é uma gota de chuva e cada balde um dos sensores da matriz. Ao fim de algum tempo teremos baldes com mais água, pois são estes que receberam mais luz, e baldes com menos água e, portanto, menos iluminados.
No detector, essa informação luminosa (convertida em electrões) irá equivaler a uma determinada quantidade de carga eléctrica que é transmitida ao computador por meio de números. Na imagem que depois aparece no ecrã, a informação será disposta de igual modo ao da matriz, ou seja, a posição de determinado sensor e a intensidade luminosa por ele recebida vão ser associadas a uma cor ou a um tom.
Para o computador, a imagem não passa de um conjunto de números que podem ser manipulados de modo a aumentar o contraste da imagem, tornando-a mais brilhante ou mais escura, ou ainda realçando detalhes que são invisíveis aos nossos olhos.
 
Os sensores CMOS (Complementary Metal-Oxide Semiconductor)

 

Os sensores CMOS são uma versão actual dos sensores CCD. Na sua essência, não existem diferenças entre ambos, pois baseiam-se nos mesmos princípios alterando-se apenas os materiais fotossensíveis e o modo de funcionamento. Existem dois tipos básicos de sensores de imagem CMOS – os passivos e os activos, existindo, em ambos, um transístor individual e saídas individuais de informação em cada fotograma.

Os sensores passivos, inicialmente utilizados nos anos 60, têm em cada célula um elemento fotossensível que converte os fotões numa carga eléctrica que é transportada para o exterior do sensor e amplificada. São pequenos, com dimensões apenas para os elementos fotossensíveis e respectivas ligações. No entanto, apresentam o problema do ruído que aparece como um padrão de fundo da imagem. Este problema é normalmente compensado por processamento digital adequado.

Os sensores activos possuem um circuito em cada pixel que determina o nível de ruído nesse pixel e anula-o.

 

Como se obtêm as imagens

 

Como foi referido anteriormente, a imagem obtida é convertida em números que indicam a posição de cada sensor e a intensidade de luz por ele recebida. Porém, os números são facilmente manipuláveis e isso permite-nos entrar no campo do tratamento digital de imagens.

Nos filmes fotográficos convencionais, quando o filme é sub ou sobre exposto à luz, nós podemos fazer horas e horas de exposição e não conseguir um bom resultado da fotografia tirada. Podemos, então, utilizar recursos químicos para melhorar o resultado. No entanto, esses recursos são complicados e, às vezes, caros e irreversíveis. Portanto, um pequeno erro pode ser fatal!

A digitalização, ou seja, a conversão da informação analógica em digital refere-se ao processo da tradução da carga proveniente do sensor num formato binário que é reconhecido pelo computador. Uma câmara fotográfica com 12 bits tem um “output” de 212 o que equivale a 4096 níveis de cinzento, enquanto que uma câmara com 16 bits possui um output de 65536 níveis de cinzento, ou seja 216.

Na fotografia convencional, normalmente, chama-se tempo de exposição ao tempo durante o qual a película recebe luz do objecto que se quer registar. A este tempo na captação de imagens digitais chama-se tempo de integração. Apesar disso, ambos os termos são sinónimos.

O astrónomo que possui um sistema de detecção digital corre menos riscos, pois o computador passa a ser a sala escura de tratamento fotográfico e esse tratamento pode ser feito rapidamente, em questão de minutos ou mesmo de segundos.

 

Eficiência quântica

 

A importância do detector digital, comparado com a película fotográfica, prende-se com a capacidade de captar luz rapidamente, por outras palavras, com a sensibilidade. A eficiência quântica é o termo que define esta capacidade num sensor e que descreve a resposta deste a diferentes comprimentos de onda do espectro electromagnético.

Existem dois tipos de sensores com características distintas. O standard de iluminação frontal é mais sensível ao verde, vermelho e infravermelho, com comprimentos de onda entre 500 e 800nm. Um outro tipo de sensores são os retro iluminados que possuem maior sensibilidade (ou eficiência quântica) e podem, por vezes, atingir ou mesmo ultrapassar os 90% de eficiência quântica. Estes últimos são, normalmente, os usados para a obtenção de imagens do céu profundo.

De qualquer modo, existem diferenças substanciais dentro de cada uma das classes de modelos de mercado, sendo que cada fabricante produz sensores diferentes na resposta a determinados comprimentos de onda.

 

Blooming

 

Ao aumentar a sensibilidade dos detectores, os elementos de imagem ou pixels dos sensores digitais apresentam um sinal de saída elevado perante luminosidades relativamente baixas. Temos, no entanto, de ter em conta que à semelhança do balde que enche de água, também cada sensor só é capaz de acumular uma determinada quantidade de electrões. Quando o balde estiver cheio vai “transbordar” e derramar o excesso nos recipientes vizinhos. A este efeito dá-se o nome de blooming.

Imagina que estás a fazer uma imagem de uma nebulosa pouco luminosa. Se entre a nuvem e o telescópio existe uma estrela luminosa, o tempo para detectar a estrela vai esgotar muito mais rapidamente do que o que é necessário para obter a imagem desta, e portanto o detector saturado vai “manchar” os seus vizinhos.

Alguns sensores digitais têm, como opção, um sistema anti-blooming concebido para eliminar o excesso de carga dos elementos de imagem saturados. Nos sensores em que este não esteja presente, as estrelas brilhantes produzem uma risca vertical (ou horizontal) que é característica da saturação. Os sensores que integram um sistema anti-blooming são cerca de 30% menos sensíveis.

 

Binning

 

Na maioria dos CCD e CMOS temos a possibilidade de agrupar electronicamente os elementos de imagem ou pixels, formando-se, deste modo, um pixel maior. Assim, estamos a juntar num elemento a capacidade de vários elementos de imagem, permitindo captar a mesma quantidade de luz, em tempos significativamente inferiores.

A esta característica chamamos binning. Um binning de 1x1 significa que não são agrupados individualmente quaisquer elementos de imagem. Um binning de 2x2 equivale à soma da informação proveniente de uma área com 4 elementos de imagem confinantes. Neste último caso, a sensibilidade aumenta cerca de 4 vezes, mas limitamos a resolução da imagens para cerca de metade, visto retirarmos parte dos elementos da imagem.

Apesar de parecer pouco importante, esta característica dos detectores é fundamental no trabalho de captura das imagens contribuindo para captar objectos muito difusos ou testar o alinhamento do telescópio em relação ao objecto a registar, visto necessitar de tempos mais curtos de integração.

 

Como obter imagens digitais de objectos celestes?

 

A forma mais fácil e intuitiva de captar imagens digitais de objectos celestes é utilizando o sistema afocal. Aliás, considera-se ser o melhor sistema para imagens totais do Sol, da Lua e de grandes campos de estrelas ou constelações.

Este processo é particularmente útil pelo facto da maioria das câmaras digitais não possuírem objectivas intermutáveis.

Esta é uma adaptação do sistema de projecção positivo e o seu método é simples e intuitivo. Depois de apontado o telescópio para o objecto pretendido, com uma ocular de pupila nunca inferior a 15mm, deves colocar a objectiva da câmara fotográfica digital directamente sobre a ocular.

Existem, no entanto, dois problemas a resolver. O primeiro prende-se com o facto da maioria das máquinas digitais não possuírem lentes macro[1] e o segundo é relativo  ao suporte que é feito sobre a ocular do instrumento.

Podemos resolver facilmente o segundo problema, adquirindo no mercado da especialidade suportes adequados a este tipo de captura de imagens, ou podes construir tu mesmo um sistema para a suportar[2] sobre a ocular. De qualquer forma, poderão ser sempre realizadas imagens suportando manualmente a máquina.

O primeiro problema resolve-se compensando na focagem do telescópio o que a máquina não consegue resolver. Por outras palavras, terás de colocar a objectiva sobre a ocular e procurar o ponto de focagem não na máquina mas, no telescópio.

Este tipo de captura de imagens é muito útil também pelo facto de muitas máquinas digitais permitirem, ao contrário das webcams, tempos de exposição que chegam aos 30 segundos. Assim, serás capaz de, mesmo com alguns dos problemas causados por falta de arrefecimento no CCD, registar objectos difusos do céu profundo com algum detalhe e interesse de estudo.

Outra enorme vantagem resume-se ao facto de estas máquinas possuírem resoluções elevadas, o que elevará consideravelmente as possibilidades da informação registada. Assim, em fotografias solares ou da Lua, poderemos ampliar imagens de modo a obter maiores detalhes das imagens base, caso não tenha sido usado zoom digital[3].

Fotografia de alta resolução

 

Os instrumentos que possuem detectores digitais, por permitirem ampliar consideravelmente as imagens, são capazes de nos fornecer detalhes importantes de planetas do sistema solar, da Lua, do Sol e mesmo de outros corpos celestes. No entanto, essas grandes ampliações, aproximam-se dos limites de resolução do instrumento que utilizas. O limite teórico[4] de resolução de um instrumento é dado pela equação de Dawes:

 

d = 115.8 / D

 

em que:

 d = menor ângulo resolvido pelo instrumento em segundos de arco;

D= diâmetro da objectiva em milímetros.

 

Por exemplo, o telescópio Celestron G8 de 203 mm de abertura consegue resolver, em princípio e caso esteja bem colimado[5], detalhes até 0.57” (segundos de arco). Deves, no entanto, ter em conta que este cálculo não tem em conta o “seeing”.

O “seeing”, habitualmente expresso em segundos de arco, corresponde ao espalhamento da luz que chega de um objecto pontual (por exemplo uma estrela) por uma área superior ao limite teórico de resolução de um telescópio. Se observarmos com o telescópio G8 acima referido em condições de “seeing” de 2” será impossível resolver detalhes separados por distâncias angulares inferiores a 2”, mesmo que sejam superiores ao limite teórico de 0.57” imposto pelo telescópio. O ”seeing” resulta da turbulência na atmosfera terrestre.

 

 

Para além da turbulência atmosférica deves levar em consideração a colimação do instrumento. Uma má colimação vai impossibilitar a obtenção de imagens de qualidade.

Um telescópio encontra-se descolimado quando o centro óptico da objectiva não coincide com o centro óptico do sistema instrumental, dando origem a distorções e aberrações que, quando ampliadas, vão impedir a observação dos mais finos detalhes.

Um telescópio está descolimado quando em ampliações acima de 150 vezes, fontes pontuais como estrelas apresentem um alongamento ou coma, padrões de difracção não uniformes ou, no caso de telescópios catadióptricos, quando desfocadas ligeiramente, apresentem a sombra do espelho secundário descentrada. 



[1] Capacidade de focar a distâncias inferiores a 100 mm.

[2] Depois de colocada a máquina, deve ser realizada a correcção no equilíbrio da montagem.

[3] O zoom digital é uma manipulação por software da imagem retirando informação à mesma

[4] Visto nenhum instrumento atingir o limite calculável e para um valor de cerca de 5000 Angstron.

[5] Com um alinhamento óptico perfeito.

[6] Peça de suporte para o espelho secundário, constituída normalmente por três hastes metálicas.

[7] Pode ser uma estrela brilhante próxima do zénite, desde que as condições de estabilidade atmosférica sejam boas.

[8] O parafuso central nunca deve ser mexido pois suporta o espelho secundário. Caso seja retirado fará com que o espelho se solte, caindo dentro do tubo podendo causar sérios e irreparáveis danos no espelho primário e secundário.

[9] Nunca apertar demasiado os parafusos pois poderão “moer” as cabeças. O maior aperto de um parafuso depende da folga dos outros dois.