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O texto que se segue foi escrito por Nuno Crato e retirado do site: http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e4.html
A ilustração científica é uma técnica e uma arte velha de cinco séculos. É uma técnica especializada, que serve naturalistas, médicos, biólogos e outros cientistas. E é uma arte que tem produzido gravuras de incomparável beleza - gravuras que espantam, pelo pormenor e pela composição, tanto o cientista como o leigo.
Os últimos cinco séculos de ilustração científica compreendem praticamente todo o património desta técnica e arte, que só pôde florescer com a invenção e desenvolvimento da imprensa. Anteriormente, quando a reprodução dos textos estava a cargo dos copistas, as ilustrações que neles eram inseridas não podiam ser reproduzidas com fidelidade. Plínio o Velho (23-79 d.C.), talvez o naturalista mais importante da antiguidade, dizia que «a diversidade de copistas, e os seus comparativos graus de habilidade, aumentam consideravelmente os riscos de se perder a semelhança com os originais». E explicava que «as ilustrações são propensas ao engano, especialmente quando é necessário um grande número de tintas para imitar a natureza». Por tudo isso, recomendava Plínio, os autores devem-se «limitar a uma descrição verbal» da natureza. Em meados do século XV, tudo mudou. O advento da imprensa de caracteres móveis incentivou a reprodução de gravuras, feitas em madeira ou cobre e por processos manuais. Essas gravuras passaram a poder ser inseridas em livros e reproduzidas em grande quantidade, mantendo fidelidade quase absoluta ao original. É nessa altura também que invenção renascentista da perspectiva veio a introduzir técnicas mais realistas de criação de imagem. Com a perspectiva linear, os artistas do renascimento iniciaram um conceito em pintura que só no século XX veio a ser questionado: a ideia de que o quadro plano era uma janela para o mundo e que essa janela respeitava a perspectiva da visão, a cor local e as proporções visuais. A perspectiva tinha as suas bases em conceitos geométricos e matemáticos, o que reforçou a ideia renascentista de que era possível reproduzir a natureza com rigor científico. O cepticismo de Plínio o Velho sobre as imagens veio a ser substituído pelo optimismo renascentista na possibilidade de representação da realidade.
A transição dos séculos XV para o XVI traz consigo uma explosão no conhecimento do mundo. É nessa altura que se realizam as grandes viagens de descobertas. Contrariando a crença grega clássica de que os trópicos eram inatingíveis e inabitáveis, os navegadores do Infante D. Henrique descem pouco a pouco a costa africana, dobram o equador e atingem o sul de África. Vasco da Gama contorna o continente africano e descobre o caminho marítimo da Europa à Índia. Colombo encontra a América. Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil, terra de espantosa fauna e flora que ainda hoje espanta o mundo.
Ao dobrar os séculos, nota-se um apuro da técnica, mas não se pode deixar de admirar o pormenor realista e a preocupação didáctica e descritiva dos autores mais antigos. Ao contrário de reproduções artísticas motivadas por preocupações puramente estéticas e expressivas, como se observa nos óleos dos pintores que habitualmente apreciamos nos museus, estas ilustrações científicas preocupam-se em contar uma história, em descrever uma realidade, pelo que inserem cortes, perspectivas variadas e anotações explicativas. A ilustração científica é uma arte aplicada que serve um propósito: dissecar a realidade da natureza.
Ao chegar aos séculos XIX e XX, a técnica atinge um requinte inaudito. As ilustrações contemporâneas de Alfredo Conceição, um ilustrador português que dedicou a vida à ilustração biológica, sobretudo de insectos moçambicanos, surpreendem pelo requinte de pormenor e fidelidade de cor. Já nos finais deste século, atinge-se um novo patamar nesta história antiga de cinco séculos. O ilustrador tem agora à sua disposição um instrumento gráfico novo: o computador. Essa nova ferramenta permite-lhe um controlo sem precedentes sobre o pormenor das imagens, sobre as cores, as perspectivas e as proporções. O ilustrador científico moderno utiliza as novas tecnologias a par com as antigas. Pedro Salgado, um biólogo e ilustrador português conhecido, sobretudo, pelos seus magníficos desenhos de peixes, não desdenha a tinta da china nem a aguarela. Daniel Muller, biólogo português que se especializou em ilustração médica, não deixa de recorrer ao computador para os retoques finais nos seus slides e gravuras. Estes artífices, que produzem as ilustrações que os cientistas e médicos utilizam para comunicar as suas experiências, são também artistas que deleitam os olhos do público. Nuno Crato
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