Tudo se move e exalta e se esforça e gravita: Tudo se evola e eleva e vive e ressuscita. Nada pode ficar na surda obscuridade.
Da alma exilada a senda é toda a eternidade E se aconchega ao céu, que a todos nos reclama Aos dóceis se lhes atenua a dolorosa flama
Da dura provação: A sombra faz-se aurora Homem e besta em anjo se aprimora; E pela expiação, escada de equidade,
De quem uma parte é treva e outra claridade, Sem cessar, sob o azul do céu calmo e formoso Sob o universo dor ao universo gozo.
Victor Hugo
CREIO que não temos nossa causa em nós mesmos, que existe acima do homem e superior à Natureza um Ser pensante, infinito, eterno, imutável, um supremo legislador; que a existência de um criador, de uma Razão primitiva, é um facto adquirido pela evidência material dos factos; que a vida não é uma confusão sem fim, um caos informe; que tudo tem sua razão de ser, seu alvo, seu fim.
CREIO que nada é palavra vã; que a morte não existe, que nada morre; que o ser sobrevive ao seu invólucro, isto é, ao seu corpo físico; que a morte não é um termo, mas uma metamorfose, uma transformação necessária, um renovamento; que somos eternos pela base do nosso ser ( Espírito ); que nada do que existe pode ser aniquilado; que existimos porque existimos.
CREIO que não há o aniquilamento, mas sempre estados sucedendo a outros estados, a eterna transmissão de uma ordem de coisas a outra, de uma economia a outra, de um serviço a outro; que tudo renasce; que tudo volta à sua hora, melhorado, aperfeiçoado pelo labor; que o nascimento não é um verdadeiro começo; que nascer não é o princípio mas mudar de figura; que nossas existências não são mais do que continuações, séries, consequências; que sono ou despertar, morte ou nascimento, são uma e mesma coisa, transição semelhante, acidente e previsto.
CREIO que tudo evolui e tende para um estado superior; que tudo se transforma e aperfeiçoa; que o homem marcha sempre e sempre se engrandece; que tudo rola, se prolonga e renova; que a morte é o único teatro das nossas lutas e de nossos progressos a realizar; que o Universo é sem lacuna; que há mundos infinitos nesse mundo infinito; que um mundo é um ponto que nos conduz a outro e que os há para todos os graus de crescimento ( Estádios/Planos de nossa evolução ).
CREIO que, saindo desta vida, não estamos em um estado definitivo; que nada se acaba neste mundo; que enquanto um destino humano tem alguma coisa a cumprir, isto é, um progresso a realizar, nada está para ele acabado; que a morte não deve ser tomada senão como um descanso em nossa viagem; que a morte é feixe de caminhos, que irradiam em todas as direcções do Universo e nos quais efectuamos nosso destino; que a morte não nos retira do Universo, apenas nos faz sair de uma dimensão e entrar em uma outra.
CREIO que Deus não criou almas selvagens e almas civilizadas; que a alma humana é o resultado da vida; que todos os homens são cidadãos da mesma pátria, membros da mesma família, ramos da mesma árvore; que todos têm origem, destino e aspiração comuns; que todos começaram a ascensão e que estão somente mais ou menos alto, neste ou naquele degrau da escada da vida conforme seu próprio mérito; que não há, na ordem absoluta, nem arbitrário nem abandono; que a alva, esse alvor que se faz no meio da noite, far-se-á na escuridão; que os mais vis têm por lei alcançar os mais elevados, porque tudo tende para a Perfeição.
CREIO que o homem não é o último anel de cadeia que une a criatura ao Criador; que temos ao menos tantos degraus sobre a fronte como abaixo dos pés; que a vida está em toda a parte e para todos, para o animal como para a planta, como para o mineral; que tudo segue a mesma rotação; que tudo morre da mesma maneira e morre utilmente; que a vida sorve todos os elementos da própria morte; que cresce por série contínua de transformações infinitas, que parte do infinitamente pequeno e marcha para o infinitamente grande.
CREIO que tudo o que vive é encarnação; que toda a evolução, toda a transformação é encarnação; que as criaturas sobem no crescimento da alma como no invólucro; que o homem é um espírito encarnado; que a alma não é criada ao mesmo tempo que o corpo, que ela é apenas incorporada; que a encarnação é uma lei da Natureza, uma necessidade absoluta, consequência lógica da lei do progresso; que todo o homem é um resumo de existências anteriores, que se compõe de numerosos personagens formando um só.
CREIO na pluralidade dos mundos, na multiplicidade das existências, na universal ascensão dos seres, na progressão contínua da alma com os seus transportes, seus recuos, suas crises e sanções que daí decorrem.
CREIO que neste Universo, obra da infinita sabedoria, nada acontece pelo jogo do acaso (o acaso não existe); que nada se faz sem uma soberana justiça; que toda a desordem não existe senão em aparência; que não há acaso nem fatalidade; que há forças, leis que ninguém pode derrogar; que todas as coisas do mundo têm ligação entre si; que nada é isolado; que o mundo material é solidário do mundo espiritual e que ambos se penetram reciprocamente; que tudo se mantém, tudo concorda, tudo se encadeia e se liga, sob o ponto de vista moral como físico, que na ordem dos factos, do mais simples ao complexo, tudo é regulado por uma lei.
CREIO que a lei moral é uma verdade absoluta; que a justiça, a sabedoria, a virtude existem na marcha do mundo tanto quanto a realidade física; que não se pode transpor sem trabalho e sem mérito um grau de iniciação humana; que o espírito deve chegar, só por si, à verdade, que tem de tornar-se merecedor de sua felicidade; que a felicidade, para ter tido o seu preço, deve ser adquirida e não concedida.
CREIO que a vida não é um jogo, uma ilusão; que a verdadeira vida não é a que multiplica os gozos; que a felicidade tal qual a entendemos não pode existir; que é preciso que o esforço subsista neste mundo; trabalhar e combater; que a luta é necessária ao desenvolvimento do espírito; que o verdadeiro fim da vida consiste no dever que incumbe a todo o ser humano de subjugar a matéria ao espírito; que quanto tal suceder, será o homem Santo, porque compreendeu o sentido último - teleológico - da Vida.
CREIO que o homem é justificado, não por sua fé, mas por suas obras; que a prática do bem é a lei superior, a condição SINE QUA NON de nosso futuro; que a santidade é o alvo a que devemos chegar; que não se pode fazer tudo impunemente; a felicidade e a desgraça dos homens dependem, absolutamente, da conservação ou da violação da lei universal que rege a ordem da Natureza.
CREIO que existem um inferno e um paraíso filosóficos, isto é, um sistema natural que liga entre si intimamente os efeitos às causas aquém e além do tempo; que sempre nos sucedemos a nós mesmos; que sempre determinamos por nossa marcha a que seguiremos mais tarde.
CREIO que o presente determina o futuro; que cada homem tece em volta de si o seu destino; que se torna sem cessar o que merece ser; que nenhum desvio do caminho recto fica impune; que todos os que dele se afastam serão a ele elevados fatalmente; que o progresso é uma lei soberana à qual ninguém resiste ou foge; que não há um defeito, uma imperfeição moral, uma acção má que não tenha a sua contradita e as suas consequências naturais; que não há acto útil que fique sem proveito, falta sem sanção ( Lei de Causa e Efeito ); que não há acção que se possa sonegar.
CREIO que cada um deve a si mesmo a sua sorte; que cada um cria as suas alegrias como as suas penas; que o homem é o seu próprio algoz; que é juíz do tribunal no qual se sentará como réu; remunera-se e pune-se a si mesmo; que colhe o que semeia e nutre-se do que colhe, debilitado ou fortificado pelos alimentos que ele próprio produziu; que a alma transporta em si mesma o seu próprio castigo, em todo o lugar em que se possa encontrar; que o inferno não é um lugar mas uma condição de ser, um estado de ser.
CREIO que toda a vida culposa deve ser resgatada; que toda a falta cometida, todo o mal causado, é uma dívida contraída que deve ser paga, quer num momento quer noutro, quer numa existência quer noutra; que a fatalidade aparente, que semeia de males o caminho da vida, não é senão a consequência do nosso passado, o efeito produzido pela causa; que a vida terrestre é ao mesmo tempo reparação e preparação; que nenhum de nós é o que deve ser e que é preciso que a razão cumpra, que a justiça se faça e o bem seja feito.
CREIO que cada nova existência é um novo ponto de partida em que ohomem é aquilo que ele se fez; que ele renasce com o seu deve e o seu haver; que nada perde do que adquiríu; que o esquecimento temporário do passado é condição indispensável de toda a provação, de todo o progresso, e de que o esforço seja livre e voluntário; que o conhecimento dos factos anteriores e das sanções inevitáveis embaraçaria o homem em lugar de ajudá-lo; que é justo e necessário que em seu estado actual o passado e o futuro lhe sejam ocultados.
CREIO, enfim, que a revelação é progressiva, que a verdade se desvenda sempre segundo os tempos e os lugares; que estamos na aurora da vida consciente e que marchamos, todos, na solidariedade universal, através das nossas vidas sucessivas, para a infinita perfeição; que o futuro encerra em suas profundezas a felicidade, que debalde procuramos em volta de nós; que tudo foi criado tendo em vista um bem final; que o bem é a lei do Universo e o mal um estado transitório sempre reparável, uma das fases inferiores da evolução dos seres para o bem; que nada de irremediável pesa sobre nós; que tudo se apaga, tudo se dissolve; que a dor é libertadora; que nada é negro, nada é triste; que tudo acaba bem e que não se tem senão de esperar a sua hora em um mundo ou em outro. "
Este ‘Credo‘ foi divulgado em: O Reformador, (Edição de Outubro/Novembro de 1937).
|

