Educação Sexual

Brincadeiras NÃO tem sexo

        Os pequenos não estão nenhum pouco preocupados com as regras que definem papéis diferentes para eles ou para elas. O que querem é se divertir! Até os 3 anos, em média, as crianças não encaram as características biológicas como diferenças. Mas, se repreendidas ridicularizadas quando não fazem as escolhas consideradas corretas, aprendem, além de homens e mulheres não serem iguais, que existe um modelo de masculinidade e feminilidade e uma relação de poder entre eles. E ai de quem ousar romper com valores construídos há séculos!
        Trabalhar esses padrões e expectativas é função do professor porque disso depende também a construção da identidade dos pequenos. Essa tarefa se cumpre nas relações do dia-a-dia e não por meio de um projeto esporádico ou de uma sequência didática. "A formação da identidade passa pela descoberta do próprio corpo de sua importância no mundo e da individualidade, mas também pela observação de atitudes, costumes, referências e exigências em casa e na escola", diz a coordenadora pedagógica Silvana Augusto, de São Paulo.
 
Como na vida real
 
        O maior medo dos pais que vêem seus garotos brincando de casinha é de que eles se tornem homossexuais.
        "Há professores que não questionam os modelos sociais e acabam interferindo consideradas inadequadas para atender as famílias. Esse comportamento é resultado de sua própria vivência em casa", explica Ana Maria Niemeyer, da Universidade de Campinas. É realmente difícil romper com padrões tão irraizados, mas essa postura é ultrapassada. Pessoas que estudam lêem e se atualizam sabem que a sociedade está mudando, assim como os papéis do homem e da mulher. "Discutir as relações de gênero é, antes de tudo, atribuir novos significados à nossa própria história e cultura", explica Daniela Finco, pesquisadora do Grupo de Estudos de Educação Infantil da Unicamp.
        A brincadeira é uma representação da vida. Por meio dela, as crianças dão sentido às experiências por que passam e reproduzem sua relação com as pessoas ao redor. Impidir que os meninos ninem uma boneca, por exemplo, é uma das piores formas de censura. Os garotos tem visto pais, tios e amigos de família dividindo os cuidados dos filhos com as mulheres. Ao reproduzirem esse novo modelo de masculinidade, no entanto, são rotulados de anormais.
"Há muitos estudos sobre a descriminação contra a mulher, mas só recentemente começamos a discutir o preconceito contra os homens", afirma a socióloga Rosimeire dos Santos Brito, de São Paulo. Ela estudou poruqe os meninos são as principais vítimas do fracasso escolar no ensino fundamental. Um dos motivos, de acordo com a pesquisadora, seria o preconceito dos professores, que acreditam em um único modelo masculino nas classes socias: o do machão, que não valoriza os estudos atormenta as meninas e vive competindo e lutando com os outros garotos. O exemplo mostra preconceito sexual e social. Segundo a pesquisadora, em escolas onde estudam os filhos das classes privilegiadas, os meninos que gostam de ler, estudar e cuidar com zelo dos cadernos são valorizados, diferentemente do que acontece na periferia. O professor recrimina o modelo de machão, que não gosta da escola e das meninas, mas é o primeiro a questionar a sexualidade do aluno quando ele se mostra diferente desse padrão.
        As meninas também se transformam em vítimas quando são tratadas como inferiores aos meninos e, pior, quando são convencidas de que isso é verdade por questões biológicas. Elas não podem falar alto, são estimuladas a serem educadas, meigas e emocionais. Além disso, aprendem que as tarefas domésticas serão suas incumbências no futuro. É como se não houvesse outra possibilidade de vida além de ser mãe e esposa.
 
 
Fonte: Revista Nova Escola.