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14/11/2009 – El Salvador Zacatecoluka – San Salvador 68,79 km em 5h47min Total pedalado até hoje: 7.321 km Horas pedaladas = 527
A distância mas curta nem sempre é a mais fácil. Iniciei a viagem rumo a San Salvador às 6 horas já sabendo que ia enfrentar uma grande subida. Pelos cálculos de um dos bombeiros, seriam 9 quilômetros de subida continuada. Pelos meus cálculos eu conseguira vencer esta distância em duas horas, mesmo que tivesse que caminhar o tempo todo. Consegui pedalar os sete primeiros quilômetros e depois alternei entre pedaladas e caminhadas. Completados os 9 km veio uma pequena baixada, mas as subidas continuaram ate completar 20 km. Os músculos das duas cochas estavam bastante doloridos por causa da escalada ao vulcão no dia anterior. O sol também estava forte mas mesmo assim conseguir chegar ao destino às 13h30min . O que se passou a seguir foi muito interessante. Na fronteira da Colômbia com Panamá eu tinha conhecido o César que na ocasião me passou o endereço da Paróquia onde ele vivia. Na véspera da minha chegada a San Salvador eu tinha lido um recado do César na minha página onde dizia que a casa dele era pequena mas ia arrumar um lugar para eu armar a minha barraca. Como eu não tinha o endereço dele, respondi que eu ia esperá-lo na Paróquia, mas não sabia se ele iria abrir o correio antes que eu chegasse. E assim de fato aconteceu. Cheguei à residência dos padres mas o portão estava fechado. O Sr.Luis, um senhor que ali perto estava, disse que eu tinha que tocar a campainha. Como eu estava em cima da bicicleta, ele dirigiu-se ao portão e tocou a campainha para mim. Faltavam dez minutos para as 14 horas. Ninguém atendeu ao portão. Chegou uma senhora, Dona Graziela e ao saber que eu estava procurando um lugar para passar a noite, me ofereceu a casa dela. O Sr. Luís também me ofereceu a casa dele. Era só escolher para onde ir. Passados alguns minutos, chegou o padre com cara de poucos amigos. Era baixinho e jovem tanto que eu nem o identifiquei como sendo o padre. O Sr. Luís falou com ele e disse que eu estava buscando um lugar para passar a noite e que ele tinha oferecido a casa dele. Ele apenas respondeu: leva para sua casa e nem se dignou a me cumprimentar. Fechou o portão e foi para dentro. A Sra. Graziela e o Sr. Luís comentaram a atitude descortês do padre. Agora eu tinha que decidir para onde ir. A casa do Sr. Luís era mais perto e os dois acharam melhor que eu fosse para a casa dele. Daí para frente foi só alegria. A irmã do Sr. Luís que mora ao lado já me preparou um delicioso prato de comida. Coloquei a bicicleta dentro de casa, para maior segurança. Mais tarde vim a saber que o César era um velho conhecido da família e eles tinham o número do telefone dele. Não levou nem meia hora e recebi a visita do César. Como na casa dele não tem espaço decidimos que eu ficaria onde estou. Estas são uma daquelas coisas que acontecem durante a viagem que muitos chamam de coincidência mas eu prefiro chamar de providência. É impressionante como Deus prepara as coisas para mim. Fiquei pensando com os meus botões sobre o motivo pelo qual duas pessoas desconhecidas me abriram as portas das suas casas. Será pela barba? Será pela bicicleta? O que será que as pessoas vem em mim? Isto porém me dá mais confiança e mostra que estou no caminho certo. Deus seja louvado.
Dormi três noites na casa do Sr Luis. No domingo fui à missa junto com a família e depois fui conhecer o centro histórico e acessar a internet. O centro de São Salvador em como todas as outras cidades por onde passei demonstra a situação em que se encontra o país. As ruas estão repletas de vendedores ambulantes e é bastante desconfortante caminhar numa calçada onde quase não há lugar para o pedestre. Conheci a catedral que é bonita por fora, mas por dentro não apresenta nada de especial. Na segunda-feira pela manhã acessei a internet e pela parte da tarde o Sr. Luís me levou a conhecer o local onde, em 1980, foi assassinado Monsenhor Romero. Foi uma visita muito interessante. O Bispo Do m Romero foi assassinado por um franco atirador durante a homilia. Nestes dias também se comemoram os 20 anos do martírio de 6 sacerdotes jesuítas pelo exército de El Salvador. Caminhar por aqui parece tranquilo, mas basta conversar com alguém para se dar conta de que a criminalidade ainda anda solta. Um grupo chamado “MARA” mata sem dó nem piedade. Quando eles assaltam os ônibus matam motorista e cobrador. Depois de ouvir tantas historias e ver as fotos pela TV eu já estava com vontade de deixar a capital o quanto antes.
13/11/2009 – El Salvador
São Miguel - Zacatecoluka 112,57 km em 6h31min Total pedalado até hoje: 7.253 km Horas pedaladas = 521
Levantei cedo, 4h15min e iniciei a viagem uma hora depois. Ainda era escuro e o sol só apareceu às 5h38min. Segui o conselho dos bombeiros e viajei pelo litoral aumentando 60 km mas em compensação sem nenhuma subida relevante. A Panamericana passa pelo meio da montanha e é bastante difícil para pedalar por ali. O dia estava quente sem nenhuma nuvem no céu. Ao aproximar-se o meio dia senti um pouco de cansaço por causa do calor, mas como já faltava pouco para chegar a destino não houve problemas. Procurei os Bombeiros e mais uma vez fui muito bem atendido. Contaram-me que os quatro americanos estiveram hospedados aqui há duas semanas. Depois do banho atualizei o diário e saí para procurar alguma coisa para comer.
11/11/2009 – El Salvador
Às 19h30min, depois do meu “jantar” armei a barraca ao lado das mesas onde as pessoas se sentavam para comer. O lugar era bonito com um gramado bom mas não me inspirava confiança. O guarda apareceu por ali com uma baita escopeta na mão e lhe pergunte se o lugar escolhido era bom. Ele disse que não pois durante a noite há muito movimento por ali. Teria sido melhor se eu tivesse acampado na Aduana que é mais seguro. Esta resposta confirmou o que eu já pensava que seria uma noite difícil. Procurei o encarregado e lhe relatei o ocorrido. A bicicleta estava dentro de uma área cercada e o cadeado seria fechado das 21 horas até às 5 horas da manhã. Propus armar a barraca dentro do cercado. O encarregado me disse que ele dormia num quarto cuja porta de entrada era por dentro deste cercado. Não poderia haver melhor escolha. Levei a barraca para dentro e dormi com segurança total. Lá pelas tantas da madrugada apareceu um grupo de jovens que aprontou o maior fuzuê do lado de fora. Agradeci a Deus por não estar dormindo do lado de fora, pois certamente teriam me incomodado. O sono estava tão bom que quando o cadeado foi aberto às 5 horas, decidi dormir maias alguns minutinhos. Ao abrir os olhos e olhar o relógio os ponteiros já marcavam seis horas. Preparei tudo, tomei o meu café e às 7 horas iniciei mais uma etapa dentro de El Salvador. Céu aberto, sol forte e o calor não demorou a se apresentar. Mas pior do que o calor, foram as muitas subidas que me fizeram empurrar a Tanajura morro acima várias vezes. A meta era San Vicente a 110 km de distância, mas ao chegar a San Miguel procurei pelos Bombeiros e interrompi a viagem antes do meio dia. Fazia muito calor. Fui muito bem recebido e ao entrar com a bicicleta num grande salão vi que ali estavam mais quatro bicicletas. Dois jovens e duas jovens americanos que estão viajando de Cancun no México até o Panamá. De lá seguem para o Equador, Peru, Bolívia e Brasil. Com esses sobe para 23 os cicloturistas encontrados até agora. As duas jovens chamam-se Cristina e Jenifer e os jovens Douglas e Jensen. San Miguel é uma linda cidade e está a poucos quilômetros do vulcão Chaparrastique que se mostra majestoso e imponente. Aproveitei da companhia dos ciclistas americanos para subir ao vulcão. Éramos quatro, o Jensen não pode ir porque tinha um compromisso. Fomos de ônibus até a base da montanha. Iniciamos uma caminhada de duas horas por uma estrada que seguia pelo meio do cafezal. Quando entramos na trilha por cima das pedras soltas que descem do vulcão, a Cristina desistiu. A subida era realmente muito difícil. Havia momentos em que a gente dava dois passos no cascalho solto e voltava três. Esta segunda etapa foi a mais complicada. A terceira etapa foi por cima das rochas até chegar à cratera. Foi a primeira vez na minha vida que eu consegui entrar numa cratera de vulcão. Foi algo muito interessante. No centro, na parte mais baixa, saem os gases em vários lugares e sente-e o cheiro do enxofre. Há algumas fotos no álbum.
10/11/2009 – Honduras – El Salvador
Levantei às 5 horas depois de uma noite bem dormida. Preparei o café, fiz alongamento e deixei os Bombeiros às 6h15min. A viagem seguia tranquila num dia de sol e bastante calor. Às 8h50min fui premiado com mais um furo no pneu traseiro. Desta vez encontrei o arame que furou a segunda câmara em dois dias. Em vinte minutos já estava pronto para seguir viagem. Pedalei uns 10 metros e percebi que algo não funcionava. O pneu estava vazio outra vez. Outra câmara, só que desta vez a câmara era do tipo que se usa por aqui com a válvula diferente da nossa. Consegui montar o pneu mas a câmara ficava com um pedaço para fora. Desmontei de novo e tirei uma proteção. Eu estava usando duas. Beleza, ficou bom. Enchi pneu, montei a roda na bicicleta e só então vi que o pneu formava um calombo. Estava mal encaixado. Mais uma vez tive que tirar a roda e desmontar o pneu. Desta vez sim, funcionou só que demorei uma hora e vinte minutos nas duas vezes que trabalhei com o pneu. Já passava das dez horas e o sol estava forte. Pedalei quase uma hora e parei na sombra de uma árvore. Depois de alguns minutos apareceu um canadense o Ian, inglês que mora no Canadá e está fazendo a travessia das Américas até Ushuaia. Já pedalou oito mil km desde o Canadá até aqui. Isto quer dizer que ainda me faltam mais de nove mil para completar esta etapa até o Alasca. Conversamos quase uma hora. Com muita pena tivemos que nos separar. O sol estava mais forte e a viagem ficou mais difícil. Parei várias vezes para descansar. Às 14h50min, pelos meus cálculos ainda faltavam 10 km para chegar à fronteira, cheguei na fronteira. A minha intenção não era atravessar a fronteira para El Salvador. Sempre gosto de fazer a travessia pela parte das manhã. Mas ali não havia nada. Aconselharam-me a seguir adiante até Santa Rosa que fica a 15 km da fronteira. Saí de Honduras sem carimbar o passaporte e entrei em El Salvador sem carimbo também. O senhora da imigração me explicou que eu ainda tenho 57 dias para atravessar El Salvador e Guatemala. Os 90 dias que me deram ao entrar em Nicarágua vale para os quatro países. Pedalei cinco quilômetros e encontrei um posto de gasolina. Consegui um lugar seguro para deixar a bicicleta e um bom lugar para armar a barraca, além de um bom chuveiro, é claro. El El Salvador usa-se o dólar americano como moeda, e como consequência, tudo é mais caro.
09/11/2009 – Honduras Em cada país que entro as pessoas reagem de maneira diferente. Já me chamaram de tudo por causa da barba, mas o mais interessante e original aconteceu em Managua, Nicaragua, quando um maluco gritou Barrabás! A maioria, porém me chamava Santa Claus, (San Nicolás). Aqui em Honduras as crianças gritam: Gringo e San Nicolás. Os adultos porém me chamam de Bin Laden ou simplesmente fazem HO, HO, HO. Eu simplesmente os ignoro e sigo adiante. A barba anda não completou um ano, imaginem quando estiver no quarto ano. Alguém me disse que a minha barba faz parta da história da minha viagem. O problema é que agora, além de explicar várias vezes por dia o sentido da minha viagem e o roteiro, tenho também que explicar porque estou deixando crescer a barba. O verdadeiro motivo nem eu sei, mas acho que uma barba comprida faz a diferença assim como a Tanajura também a faz. Costumo dizer que pedalar numa bicicleta comum qualquer um é capaz de fazer, mas pedalar numa Cruzbike, somos apenas dois em todo o mundo. Um americano que vai em direção a Ushuaia e depois vai atravessar a África e eu que vou fazer todos os continentes. Uma coisa curiosa foi que ao me apresentar na imigração de Honduras, a funcionária ligou para alguém e em seguida me pediu para fazer fotocópia de três páginas do passaporte: a primeira página com os meus dados e a foto; a página como carimbo de entrada em Nicarágua e o mais importante, a página onde está o visto para os Estados Unidos. Já vi que este visto é muito valioso para mim. Vai abrir muitas portas. Paguei três dólares para entrar no país mas a funcionária não pôs nenhum carimbo no passaporte. Disse que basta o carimbo de entrada em Nicarágua. Espero não ter problema na hora da saída. Eu já estava tão acostumado com o tratamento carinhoso do pessoal da Cruz Vermelha de Nicarágua, que ao chegar a Choluteca fui diretamente para a Cruz Vermelha. Cheguei às 11h30min. Esperei alguns minutos até que a encarregada terminasse uma reunião e quando falei com ela soube que era preciso esperar até às 13 horas para falar com o presidente. Até aí, nada de especial. Sentei-me na sala de espera e assisti a vários noticiários. Até as 13 horas o tempo passou rápido. Só que o tal de presidente não aparecia. Às 14 horas, perguntei se ainda teria que esperar muito para ter uma resposta. A funcionária entrou numa sala e falou com um suposto membro do conselho que ao entrar nem sequer se dignou a me cumprimentar. Passados alguns minutos disse que tinha falado com um dos membros do conselho e ele disse não podia me receber por causa da situação política. É a desculpa mais esfarrapada que já ouvi. O mesmo aconteceu em Costa Rica. Tem gente que se acha muito importante e se sente o dono do mundo. Dirigi-me aos Bombeiros e fui recebido com muita dignidade. Que diferença de uma corporação para outra. Eu disse que tinha uma barraca e que não fazia questão de armá-la. Tudo o que eu preciso é de um lugar seguro para deixar a bicicleta e um chuveiro para o banho. O funcionário que me apresentou ao comandante foi o encarregado de me mostrar as instalações. Achamos um bom lugar para armar a barraca, mas a noite, depois do meu jantar, um jovem bombeiro falou com o encarregado e me ofereceu uma cama. Foi bem melhor, pois além de ser mais confortável, e mais rápido sair de manhã cedo.
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