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Diario Nicaragua

07/11/2009 – Nicaragua

Chinandega – Somotillo

76,59 km em 4h16min

Total pedalado até hoje: 6.933 km

Horas pedaladas = 502

 

O dia que passei a mais em Chinandega foi proveitoso. No final da tarde construí mais um fogareiro a álcool diante de uma boa plateia. Eles já tinham feito mais três, mas como não dispunham de ferramenta adequada, foi preciso reconstruir todos. No final somente o que eu fiz funcionou mas eles aprenderam como se deve fazer. Aquele que eu construí foi encomenda da diretora da instituição.

Já passava das 19 horas quando a Rubia resolveu entrar em contato com a imprensa. Primeiro gravei uma entrevista para a rádio local e nacional. Mais tarde chegou um jornalista da Prensa de Managua e uma repórter do Canal 10. Para mim foi bom pois as reportagens são sempre bem vindas.

Durante a noite choveu forte e ao me levantar às 4 horas a chuva continuava. Iniciei a viagem às 5h20min de baixo de uma chuvinha fina. Durante o trajeto choveu, fez sol e choveu de novo. A dez km do meu destino parei num abrigo de ônibus. Depois de alguns minutos de espera, montei na bicicleta para continuar a viagem e as pessoas que ali estavam me advertiram de que o pneu traseiro estava vazio. Tive que trocar a câmara para continuar a viagem. Este foi o 18 furo até o momento.

Ao chegar a Somotillo fui procurar a casa do Sr. Ivan Efigenio, primo da Rubia da Cruz Vermelha de Chinandega. Ela escreveu um bilhete para eu me apresentar na casa do primo Ivan para que ele  me apoiasse. Cheguei à casa do Sr. Ivan e fui muito bem atendido. Deram-me um quarto e rizeram questão de me oferecer as refeições. Senti-me logo em casa. Como é bom quando a gente entra numa casa onde reina paz e harmonia entre o casal e os filhos. Esta e sem duvida uma das coisas mais bonitas da viagem. O contato direto com as pessoas. A família do Sr. Ivan é formada pela esposa, Sandra de Socorro, um amor de pessoa, três filhos, Alexandre, Mariangele e Lenin Adan. Vive também com a família a Vovó Maria del Carmen, mãe do Sr Ivan. Posso dizer que para mim foi uma bênção ser hospedado por esta família. Que Deus abençoe a todos.

Como eu não gosto de viajar no domingo, só vou entrar em Honduras na segunda-feira.

 

 

 

05/11/2009 – Nicaragua

Leon - Chinandega

44,05 km em 2h14min

Total pedalado até hoje: 6.856 km

Horas pedaladas = 498

 

Conversei até às 22 horas com o Francisco, vice-presidente da Cruz Vermelha de Leon. Fui um diálogo muito proveitoso. Levantei tarde pois a distância era curta e iniciei a pedalar às 9 horas. Antes da saída um voluntário me disse que às 13 horas ia chegar um furacão que estava vindo de Honduras. Por um lapso de tempo pensei em adiar a viagem, mas depois vi que era possível fazer os 42 km em duas horas e segui adiante.

Já perto de Chinandega encontrei um ciclista japonês Tatsuhito Noda que vinha do México e ia até Panamá. Disse-me ele vai voltar para o Japão para trabalhar mais um ano e para conseguir dinheiro para fazer outra viagem. Era um jovem que viajava dum modo muito particular. Comprou a bicicleta no México, uma bike bem comum, com garfo rígido e não levava alforjes. Em cima do bagageiro levava uma caixa de plástico onde colocava parte do equipamento. Numa cesta de guidão, destas que se usa no Brasil nas bicicletas femininas, levava o resto da tralha. Levava também uma pequena barraca mas agé agora só se hospedava em hotel. Disse que é muito barato. Cada vez me convenço mais de que para viajar basta querer. Uma simples bicicleta nos leva a lugares impensáveis. O importante é a peça que vai em cima dela.

 

 

 

 

 

Foi bom o nosso encontro pois é mais um que me diz que a travessia do México para cá é muito tranquila. Aqui em Nicaragua muita gente me fala que é perigoso viajar por El Salvador, Guatemala e México. Como diziam que Colômbia era perigoso e foi um dos melhores países da América latina por onde passei. Já me aconselharam a fazer a travessia de ônibus, mas vou confiar na minha intuição e seguir adiante tranquilo.

O furacão se deslocou para a zona costeira e não passou por aqui.

No final da tarde eu estava merendando no quarto e vieram os socorristas para ver como eu preparava a comida. Eu estava tomando um café com leite que tinha preparado com o uso do “rabo quente” para aquecer a água. Mas o que chamou a atenção de todos foi quando eu mostrei o meu fogareiro que venho usando desde o Brasil. É o modelo Paulo Toschi. Mostraram-se tão interessados que tivemos que construir um quase sem nenhum recurso. Imaginem que em lugar de um prego para furar a latinha, foi usado um parafuso. Os buracos saíram todos irregulares e não é que funcionou? Como o invento é extremamente fácil de fazer eles querem usar no campo. Os socorristas trabalham como salva-vidas nas praias e durante a temporada passam muitos dias acampados nas praias sem muito recurso.

O relógio despertou às 4 horas pois eu queria sair bem cedo para chegar na fronteira antes do meio dia. Ao acordar escutei barulho da chuva. Choveu até às 8 horas da manhã. Naturalmente adiei a viagem para o dia seguinte e aproveitei para por as coisas em dia.

A diretora da Cruz Vermelha de Chinandega ouviu falar do fogareiro e pediu para ver como era a invenção. Em seguida trouxeram 7 latinhas para que eu fizesse mais dois fogareiros para eles. Aproveitei para fazer uma impressão do manual de construção que se encontra no Blog do Paulo para que eles divulguem entre os demais socorristas.

Ao meio dia me trouxeram um delicioso almoço. É impressionante ver como os voluntários da Cruz Vermelha gostam de ajudar as pessoas. Um grande número de jovens e adultos dedicam várias horas do dia como voluntários sem nenhum tipo de remuneração. Ao conversar com eles a gente sente a alegria e o orgulho que seles tem por serem voluntários. É a alegria de poder doar-se que irradia de dentro de cada um deles.

 

 

 

 

 

 

04/11/2009 – Nicaragua

Manágua – Leon

92,05 km em 4h38min

Total pedalado até hoje: 6.812 km

Horas pedaladas = 495

 

Depois de mais de três semanas parado era hora de reiniciar a viagem. Pensei que eu estivesse fora de forma, mas a viagem de 92 km foi normal. Mantive uma média de 20 km por hora, pois o percurso era quase todo plano. Que bom continuar a viagem mesmo sabendo que em alguns trechos tenho que ser cauteloso. Estou na rota dos vulcões e a paisagem é bastante bonita.

Faltavam 12 km para chegar ao meu destino e veio o primeiro aguaceiro. Consegui abrigo ao lado de uma igreja. A chuva durou apenas 5 minutos. Continuei a viagem feliz da vida mas depois de dez minutos veio outro aguaceiro pior que o primeiro e me pegou desprevenido. Quando encontrei uma casa para me abrigar já estrava parcialmente molhado. Cheguei na Cruz Vermelha de Leon às 11h45min. A dona Anay de Managua já tinha telefonado e eles estavam me esperando. A recepção foi muito carinhosa por parte de todos. Ofereceram logo um café e depois do banho um bom prato de comida. Pela noite a cozinha me foi liberada para que eu pudesse cozinhar.

É curioso como as pessoas me tratam com tanto carinho. Ainda não descobri o que foi que eu fiz para merecer tanta deferência. Ao entrar na cidade de Leon todas as pessoas com as quais eu falava para pedir informação sobre o endereço da Cruz Vermelha, que estava no outro lado da cidade, me diziam que tinham me visto no Canal 2.  Sentiam-se feliz por me ver ao vivo.

Depois do almoço caminhei até o centro para conhecer a Catedral e algumas outras igrejas famosas por aqui. Fui a uma cabine telefônica para ligar para o Brasil para resolver um problema com o meu cartão de crédito, e percebi que tinha deixado o cartão em casa. Voltei, merendei e fui de novo ao centro. Saí debaixo de uma chuvinha fina e quando entrei no local onde se fazia a chamada, despencou uma trovoada que me fez esperar mais de 90 minutos antes de poder caminhar pela beirada das casas procurando me defender um pouco da água. Cheguei ao meu alojamento às 18h15min e foi tempo de entrar e de novo desabou um temporal que entrou pela noite a dentro. Interessante que fiquei 23 dias parado sem chuva. Foi só iniciar a viagem e lá veio a chuva outra vez. Ainda bem que aqui faz bastante calor. Soube depois que se tratava de uma tempestade extra tropical que vinha de Honduras a uma velocidade de 9 km/h e que ia durar a noite inteira.

 

 

 


FINAL FELIZ

 

O visto para os USA foi aprovado. Respirei aliviado e até chorei de alegria na volta para casa.

Sempre deve haver um Plano “B” para uma saída de emergência, só que desta vez eu não queria pensar nesta possibilidade. Continuei a trabalhar a mente positivamente para chegar ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no México e fazer a grande travessia dos Estados Unidos, Canadá e Alasca.

 

Como seria o Plano B? Primeiro continuaria a viagem até Guatemala, depois teria que pegar um avião para outro continente. A Europa seria impraticável por causa do inverno. Poderia fazer o norte da África ou ir diretamente para Nova Zelândia. De qualquer forma seria um grande transtorno. Graças a Deus tudo continua como antes.

 

Até agora sempre que eu pensava no Alasca sentia uma pontada no peito pela incerteza. Agora já posso viver o sonho na realidade.

 

Gostaria de ter um companheiro para fazer a travessia do Alasca. Você que está lendo este texto, saiba que se quiser, pode me escrever e marcaremos um lugar para nos encontrar. Vou fazer a travessia durante o mês de julho de 2010. Ainda temos 9 meses pela frente. Não tenha dúvidas de que este é um desafio para poucos. Não sei se algum brasileiro já o fez de bicicleta. Anime-se, poderemos ser os primeiros, embora isto não tenha muita importância. O que vale mesmo é a aventura. Escreva-me

 

valdojv@gmail.com

 

Tive que esperar quinze dias para fazer a entrevista e por pouco não me apresento sem um documento essencial. Ontem pela manhã caminhei até a Embaixada, estou a 10 minutos de distância. Ao lá chegar li num cartaz que era preciso levar um documento que deveria ser preenchido na Internet. Fui a uma Lan House, preenchi o documento e na hora de imprimir, não foi possível, pois faltava a licença para um programa. Voltei depois do almoço e consegui fazer a impressão. Respirei aliviado. Agora era só esperar o dia seguinte. A noite foi longa. Os homens das ambulâncias me perturbaram a noite inteira. Sempre que voltavam de alguma ocorrência, vinham com o rádio ligado e me acordavam. Quando o relógio despertou às 6 horas, eu estava com muito sono. Ainda não eram sete horas quando iniciei a caminhada para a embaixada. Ao me aproximar do muro da embaixada, um jovem que estava com outras pessoas que também iam para entrevista me mostrou o tamanho da foto que a embaixada exige. 2 X 2 polegadas. A minha era 3 X 4 centímetros, a de passaporte. Disse-me ele que com essa foto eu ia perder a entrevista. Gelei. Levou-me então até uma tenda onde havia um fotógrafo. Até aí tudo bem. O problema era o preço. Queria me cobrar nove dólares por duas fotos. Ofereci cinco e depois de muita insistência, quando ameacei me retirar, ele aceitou. Resolvido o problema da foto, ele disse que eu tinha que fazer uma nova impressão do formulário porque nos campos em branco eu teria que ter escrito NONE. Mostrou-me o documento original onde realmente dizia assim. Teria que pagar mais cinco dólares para imprimir o novo documento. Muitas pessoas pagavam a quantia exigida com medo de perder a data da entrevista. Uma senhora estava reclamando que um sujeito queria lhe cobrar quarenta dólares. Tentei negociar o preço mas eles não abriram mão. Achei que era desaforo tamanha exploração. A impressão que eu levava comigo tinha custado 0,15 dólares e eles queriam me cobrar 5,00 dólares. Resolvi apresentar o documento como estava e se não fosse aceito voltaria para fazer a alteração. Para minha surpresa, não só o documento era válido como também a outra foto teria servido.

Os sujeitos são expertos. Sabem que as pessoas que chegam até ali estão ansiosas para resolver o problema e não querem esperar mais algumas semanas para a nova entrevista.

 

Depois de passar por vários postos de controle, finalmente cheguei á sala onde se faz a entrevista. Tudo resolvido, na parte externa um funcionário me entregou o documento para retirar o passaporte na próxima, quarta-feira no banco, depois de pagar mais sete dólares. Eu estava numa quinta-feira e teria que esperar mais uma semana. Já estava conformado quando uma senhora me chamou e perguntou se eu tinha feito o pagamento do Visto no caixa. Eu disse que já tinha pago no banco. Ela disse que por ser brasileiro teria que pagar mais 60 dólares. Voltei outra vez para a sala. Levaram-me de novo ao mesmo funcionário que tinha me atendido muito bem. Ele consultou e disse que realmente teria que pagar, mas alterou o tipo de visto para um que tinha reciprocidade. Foi então que lhe pedi para agilizar a entrega do passaporte, pois eu já estava a uma semana na Cruz Roja. Para minha alegria ele me deu um novo recibo para retirar o passaporte no dia seguinte. Saí dali exultante de alegria. Agora só falta esperar até segunda-feira para pegar o visto do México. UFA!

 

 

 

 

Salesianos hospedeiros?

 

Um dos meus objetivos durante a viagem pelo mundo era conhecer a obra salesiana nos vários países. A primeira delas foi em Cusco Peru onde tive uma acolhida fantástica. Em Lima tive a primeira decepção na casa inspetorial. Em Piura foi ainda pior. Alguns diretores de colégio se sentem os donos do mundo e quando podem aproveitam para humilhar as pessoas. Em Guayaquil, no Equador, encontrei outro destes diretores mas na mesma cidade recebi apoio incondicional no Colégio Domingos Sávio. Nem parecia que eram da mesma congregação do colégio anterior. Depois desta experiência, desisti de procurar apoio com os SDB. E assim foi na Colômbia, Panamá e Costa Rica. Em Nicarágua também não os procurei, mas quando tive problema com a data da entrevista para o visto dos USA tive que recorrer a eles. Fui muito bem atendido pelo diretor do Centro Juvenil e marcamos a minha entrada para segunda-feira, dia 19 de novembro. Às 13 horas do dia marcado, fui barrado na entrada do oratório. Não me deixaram entrar. Esperei em cima da bicicleta até as 15h45min. O diretor não estava e só voltaria às 19 horas. Um padre me informou que eu não poderia me hospedar ali porque os superiores de Centro América negaram a minha presença. Pareceu-me um pouco estranho, mas como não conseguia falar com o diretor, o jeito foi me conformar e procurar outro lugar para passar a noite. Neste meio tempo apareceram três anjos da guarda. Três meninas muito conversadeiras que queriam me ajudar. Como eu não podia entrar, pedi a elas que fossem até o escritório do diretor para me colocar em contato com ele. Voltaram depois de alguns minutos com a notícia de que o diretor só voltaria a noite. Perguntaram onde eu ia passar a noite e eu disse que não sabia. Elas disseram que não tinham casa e moravam com a avó e por isso não podiam me hospedar na casa delas. Mas, conheciam uma senhora, a dona Johanna que costumava hospedar as pessoas em sua casa. Caminhamos até a casa da dona Johanna e as meninas, como num passe de mágica, abriram as portas da casa da dona Johanna para mim. Quase não acreditei. A dona Johanna, de 32 anos, me convidou paraa entrar e pôr a bicicleta para dentro, numa varanda protegida por grades. Perguntei porque ela me deixava entrar e ela disse que sentiu que deveria fazer assim. Sentia-se feliz em poder ajudar alguém. Mas tarde perguntei se ela hospedava muita gente e ela sorriu e disse que eu era a primeira pessoa a se hospedar na casa dela. Falou-me então dos três anjos que me levaram até ali. Ela é uma pessoa muito ativa na paróquia e gosta de trabalhar com os pobres. É uma pessoa humilde e como a maioria dos nicaraguenses luta pela sobrevivência. A casa é grande, tem muitos cômodos e ela me ofereceu um quarto para dormir onde fiz a minha cama. Para maior segurança coloquei a bicicleta dentro do quarto. A maior dificuldade era que eu precisava de um lugar para esperar 10 dias até resolver o problema do visto. A dona Johanna e o esposo Frank me disseram que eu poderia ficar ali sem problema. Encontrei uma solução que me pareceu boa tanto para mim como para eles. Eu aceitei o lugar para dormir mas ia fazer a minha própria comida usando o meu fogareiro. Eles acharam boa a ideia e eu também. Como a dona Johanna tem uma pequena venda, eu compro a comida com ela. É também uma maneira de ajudar um pouquinho. É claro que eu recebo muito mais do que dou, mas devido às  circunstâncias, acho que foi uma boa solução.

O Frank conseguiu para mim uma reportagem na TV e uma matéria no jornal. Ele me disse que é a primeira vez que encontra um cicloturista dando a volta ao mundo. E olha só, hospedado na casa dele. Que bom poder encontrar pessoa assim durante a viagem. Que contraste com os nossos irmãos salesianos. Como bem me disse um diretor da Cruz Vermelha, a instituição é sempre a mesma, voltada para ajudar as pessoas, mas depende de cada diretor. Não se pode julgar uma instituição por causa de um diretor meio estranho. Por outro lado, para mim também faz bem, de vez em quando, um exercício de humildade. Não se pode viver só de elogios. Às vezes faz bem ter que baixar a crista. E aqui vai um conselho para quem pretende fazer uma longa viagem de bicicleta. Prepare-se psicologicamente para enfrentar todo tipo de situação, sobretudo as menos esperadas, quando você pensa que tudo vai dar certo, de repente você está no mato sem cachorro. E nestas horas é preciso ter calma, respirar fundo e seguir adiante como se nada tivesse acontecido.

 

Dormi quatro noites na casa desta família abençoada. No terceiro dia visitei a sede central da Cruz Vermelha e consegui apoio para me alojar com eles até o dia da entrevista. Ofereceram-me também um bônus para o almoço. Isto foi muito bom pois agora estou num lugar só meu, um AP simples mas com tudo o que eu necessito. O melhor de tudo, tenho a minha chave e entro e saio a hora que eu quero. Aos poucos vou conhecendo mais o espírito da Cruz Roja como se diz em espanhol. A maioria é composta por por voluntários, gente de todas as classes sociais que dedicam parte do seu tempo para trabalhar como voluntários sem nenhuma remuneração. Precisa ver a dedicação e o amor com que desempenham suas funções. Foi pena eu não ter conseguido passar os 90 dias com eles na Costa Rica, como pretendia. Mas espero que não me falte oportunidade de fazer algum tivo de voluntariado durante a viagem.

 
 
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NA ESPECTATIVA DE CONSEGUIR OS VISTOS

 

O que parecia ser tão simples, de repente se complicou. Na segunda-feira, dia 12, fui à Embaixada americana. Estava fechada. Um aviso dizia que para ser atendido era preciso pagar uma taxa no banco para conseguir o PIN com o qual se marca a entrevista. Até aí tudo bem. Fui ao baco e paguei as taxas num total de 143 dólares. Passei na embaixada do México e peguei uma folha com uma lista de documentos necessários para conseguir o visto. Fui informado que era só providenciar os documentos que eles me dava o visto. Beleza. Agora só restava um problema, conseguir um telefone para agendar a entrevista na embaixada americana. Tinha que ser um telefone que permitia ligação internacional pois a entrevista tinha que ser marcada nos USA. Depois de muito procurar achei um centro de ligação internacional. A funcionária preencheu um grande formulário com os meus dados e depois de meia hora a entrevista foi agendada. Na hora de anotar o dia e a hora da entrevista quase caí duro. Era o dia 13 de outubro e a entrevista foi marcada para o dia 29 de outubro. Teria que esperar mais 16 dias em Manágua, uma cidade com poucas opções para se passar uns três dias e eu teria que passar três semanas à espera do dia da entrevista. Embora a acolhida na casa do Tomas tenha sido excelente, eu não poderia abusar. Teria que buscar outro lugar para me hospedar. Dirigi-me ao Centro Juvenil Salesiano e o diretor, Pe. Williams me atendeu muito bem e marcamos para o dia 19 segunda-feira a minha entrada por alguns dias na obra salesiana. Ale vai ser mais fácil passar o tempo pois a obra é muito grande e cheia de vida juvenil.

No dia 14 fui retirar o passaporte na embaixada do México. Para minha surpresa o cônsul só vai me dar o visto depois que eu tiver o visto da embaixada americana. Sem comentário.

Agora só me resta esperar e torcer para conseguir o visto dos gringos.

 

 

 

11/10/2009 – Nicaragua

Masaya - Manágua

27,64 km em 1h36min

Total pedalado até hoje: 6.624 km

Horas pedaladas = 484

 

É sempre bom chegar cedo num lugar. Depois do banho lava-se a roupa e no dia seguinte já está seca. Tive tempo para conhecer a cidade, acessar a internet e assistir televisão. Dormi numa cama bastante confortável numa sala com banheiro e chuveiro. Só não foi melhor porque havia muito barulho. A estação de bombeiros fica numa esquina bem movimentada. Mesmo assim dormi até as 6 horas da manhã. Eu estava muito perto de Manágua e não tinha muita pressa para chegar.

Iniciei ma viagem às 7h30min e às 9 horas já estava na casa do Tomas, um hospedeiro da Cuchsurfing, sueco de 45 anos, professor e mora sozinho. A acolhida foi fantástica. Apartamento privativo, chave da casa para entrar e sair quando quiser, comida e bom papo. O Tomas conhece mais de 50 países. Em junho deste ano esteve no Rio de Janeiro e Buenos Aires. Tem apenas uma bicicleta e tudo o que ganha como professor usa para viajar. É bom quando a gente consegue se hospedar na casa deste tipo de pessoa que vive o mesmo espírito de aventura.

 

 

 

10/10/2009 – Nicaragua

Rivas - Masaya

81,88 km em 4h44min

Total pedalado até hoje: 6.596 km

Horas pedaladas = 483

 

 

Os funcionários da Cruz Vermelha se esforçaram para me proporcionar o melhor atendimento. O diretor Francisco disse que se sentia honrado com a minha presença. Na verdade mais honrado me senti eu em conhecer um grupo de pessoas humildes que vivem com dificuldades e ainda encontram tempo para trabalhar como voluntários pelo simples prazer de servir a comunidade. São pessoas que merecem todo nosso respeito.

Cheguei a Masaya às 12h30min. Poderia seguir até Manágua, pois só faltavam 30 km, mas o meu hospedeiro só pode me receber no domingo, dia 11. Por isso procurei os bombeiros e mais uma vez fui acolhido com muita deferência. Na Nicarágua os bombeiros são voluntários e aí está a diferença dos bombeiros da Costa Rica.

Nicarágua é um país pobre que luta com muitas dificuldades financeiras, mas o povo é muito amigo. Tudo aqui é mais barato. Bem mais barato do que na Costa Rica.

 

 

 

09/10/2009 – Nicaragua

La Cruz (Costa Rica) – Rivas (Nicaragua)

57,12 km em 3h10min

Total pedalado até hoje: 6.514 km

Horas pedaladas = 478

 

 

Acordei às 5h30min com o cantar estridente de um pássaro que pousou ao lado do barracão onde eu dormia. Os dois bombeiros só se levantaram às 6 horas. Eu não tinha muita pressa porque a fronteira só abriria às 8 horas. Eu estava a 20 km da fronteira. Depois de carimbar o passaporte na saída de Costa Rica ainda tive que esperar vinte minutos pela abertura do banco para trocar as moedas costarricenses por moedas nicaraguenses. Um dólar valia 590 colones em Cosa Rica e agora vale 20 córdobas em Nicarágua.

A viagem foi tranquila sem subidas e com vento a favor. Embora tenha perdito duas horas nas duas fronteiras, cheguei em Rivas às 13 horas. Desta vez tentei a Cruz Vermelha para ver como seria o atendimento e se não desse certo, iria para os bombeiros. Para minha surpresa fui muito bem recebido por todos. Cada país é diferente em relação às pessoas que trabalham nas instituições. Como me disse um funcionário em Costa Rica, os princípios da instituição é o mesmo em todo mundo, mas as pessoas são diferentes. Por isso é preciso estar sempre preparado para receber uma negativa, agradecer e seguir adiante.

No final da tarde acessei a Internet e tive a grata surpresa de receber a resposta de um amigo do Cuchsurfing para me hospedar na casa dele em Manágua. Ainda bem pois vou ter que resolver o problema dos vistos.

Eu estava meio preocupado com a entrada em Nicarágua pois algumas pessoas me falavam que eu precisava de visa para entrar. Não houve problema, Apenas tive que pagar cinco dólares pelo visto para turista e dois dólares de taxa e pronto. Este visto vale somente 30 dias mas para mim é mais do que suficiente. Se não fosse pelos vistos que vou tirar, poderia atravessar o país em cinco dias.