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Diário de Bordo Peru

 

Total pedalado até hoje: 3.577 km

Horas pedaladas = 269h

 


Trujillo

09/06/09 a 15/06/09

 

 

Lucho e Família um exemplo a ser seguido. Cheguei a Trujillo com a intenção de ficar apenas dois dias e acabei ficando sete dias na casa do ciclista. O que mais impressiona é que a casa não tem nenhuma infra-estrutura para acolher o cicloturistas. Num quarto com 3 camas estão dormindo cinco pessoas. Um casal dorme numa cama de solteiro e outro dorme no chão. Eu improvisei meu quarto na sala de instrumentos para duas noites e fiquei sete noites. Alguns ciclistas ficam aqui por duas ou três semanas. O banheiro e o chuveiro com água fria, único para uma família, um inquilino e 8 ciclistas funciona normalmente sem problemas. Água encanada só durante o dia e não existe caixa d’água. A água para o vaso sanitário ;e recolhida num tambor. E pensa que alguém reclama? Pelo contrário ninguém quer mais sair daqui. Parece que a simpatia e o bom atendimento do Lucho contagia as pessoas.

Aqui em Trujillo visitei os sítios arqueológicos de Chan Chan e pedalei um pouco pela cidade. Acompanhei o Lucho numa comunidade de periferia onde ele ensina bateria para os jovens, descansei bastante e engordei um quilo!

 

 

 

18/06/2009 - PERU

Piura – El Alto

154,63 km em 8h55min

Total pedalado até hoje: 3.440 km

Horas pedaladas = 260

 

A semana que passei na casa do Lucho, a Casa do Ciclista foi excelente. O problema foi que me deixou um pouco preguiçoso. É bom demais ficar vários dias na companhia de pessoas que têm o mesmo ideal e falam a mesma linguagem da aventura em duas rodas. A troca de informação enriquece muito. Esta foi a minha primeira experiência. Espero ter outras durante a viagem.

Houve porém um ponto negativo. O relato de vários assaltos a ciclistas numa cidade a 50 km de Trujillo chamada Pajan. O Lucho queria me acompanhar até passar o perigo, como tem feito com outros ciclistas. Na última vez que ele acompanhou um casal de ciclistas, conseguiu escapar do assalto por pouco. Diante destas narrações resolvi facilitar a minha vida e a dele. Viajei de ônibus diretamente para Piura.

Não consegui alojamento nos Salesianos, mas em compensação os Bombeiros me receberam de braços abertos. Dormi três noites nos Bombeiros Voluntários de Piura. Valeu!

Depois de tantos dias descansando era hora de continuar a minha viagem. Faltava vencer pouco mais de 300 km para chegar à fronteira com o Equador. Saí de Piura bem cedo. Ainda era escuro. A pedalada foi boa e o vento era a favor. Pedalei 154 km e ainda poderia ter ido mais adiante. Antes de chegar à entrada de Talara encontrei um cicloturista Norte Coreano que iniciou a viagem no México a 7 meses. Também ele vai passar na casa do Lucho em Trujillo.

Às 17 horas cheguei a entrada da cidade de El Alto, um pequeno povoado às margens da Panamericana. Parei num posto de gasolina e procurei por um lugar para armar a barraca com segurança. Havia alojamento, mas custava vinte dólares. Um funcionário do posto, Henrique, foi muito gentil comigo. Mandou-me sentar e esperar que ele ia falar com o patrão para arrumar uma sala para eu acampar. O patrão tinha acabado de sair, mas ele disse que voltaria em meia hora. Depois de duas horas de espera, fui procurar de novo o Henrique. Eu já estava cansado de esperar e já era noite. Ele levou-me então para um lugar atrás do posto onde os funcionários dormiam. Armei a barraca e depois de preparar o meu jantar, dormi até às 5h30min.

 

 

19/06/2009 - PERU

El Alto - Cancas

58,73 km em 4h02min

Total pedalado até hoje: 3.499 km

Horas pedaladas = 264

 

Hoje senti o efeito do calor do norte do Peru. O sol começou a castigar cedo e tive que enfrentar várias subidas pesadas e vento contra. Cheguei a uma praia famosa, Máncora, mas não vi muita coisa interessante. Já tinham me alertado de que a cidade é muito cara.

Encontrei de novo o meu amigo Wolfgang, o austríaco que está viajando sozinho e que me fez companhia nas Termas no dia 13 de maio e em Trujillo no dia 10 de junho. Talez nos encontremos de novo em Quito no dia 15 de julho. Poderia dizer que é o encontro do primo rico com o primo pobre. Cada um a seu modo estamos curtindo as maravilhas da viagem. Ele tem mais conforto e eu tenho mais aventura. No final o resultado é idêntico e os gastos bem diferentes.

Ao meio dia cheguei à cidade de Cancas e como estava meio cansado, resolvi parar por ali mesmo. Ao entrar na cidade um senhor, dono de um mototaxi me parou e queira que eu fosse pernoitar na casa dele. Começou pedindo quinze dólares e baixou para quinze soles, cinco dólares. A casa ficava um pouco fora da cidade, mas não sei bem o porquê, não senti firmeza na proposta. Agradeci e segui adiante. Fui visitar a praia dos pescadores e bater umas fotos e na saída, encontro de novo com o mesmo senhor que voltou a me convidar para comer peixe na sua casa. De novo agradeci. Mais adiante encontrei uma senhora que aluga quartos. O preço era o mesmo, quinze soles. O ambiente é familiar. Coloquei a Tanajura dentro do quarto de aproveitei para descansar mais um pouco.

Estou numa região de deserto à beira mar. Toda a costa peruana é deserta. Chuva só nos meses de verão, janeiro e fevereiro. O resto do ano não chove. A água para abastecer a cidade vem das montanhas onde chove e há os glaciais. Aqui no norte, na província de Tumbes já se vê um pouco de verde, mas é uma vegetação tipo o nosso cerrado. Passei por uma grande área onde se cultiva o arroz, nos vales. Nos últimos dois dias viajei pela terra do petróleo. Ao longo da estrada se vê inúmeras bombas trabalhando 24 horas por dia na coleta do petróleo. E sabem quem está por aqui? A nossa conhecida Petrobras.

 

 

 

19/06/2009 - PERU

Cancas -Tumbes

80 km em 4h55min

Total pedalado até hoje: 3.577 km

Horas pedaladas = 269

 

O descanso em cancas foi bom. Serviu para restaurar as energias. A viagem seguiu tranquila num dia de céu nublado e temperatura amena. Em cada povoado que eu passava era aquela festa. Alguns me chamavam de papai noel, outros riam às gargalhadas e eu continuava o meu caminho. Faltavam sete quilômetros para chegar ao destino final, Tumbes. Parei para fazer a ultima merenda antes do meio-dia. Ai reiniciar a viagem pedalei uns 50 metros e o pneu dianteiro furou. Parei para consertar e vi que havia centenas de espinhos grudados nos dois pneus. Levei muito tempo para removê-los. Um grupo de meninos curiosos se aproximou para ver a pobre da Tanajura de perna para cima. Troquei a câmara, montei a roda e quando ia sair os meninos me avisaram que o pneu traseiro estava vazio. Como faltavam só cinco quilômetros para chegar a Tumbes, enchi o pneu e pedalei num ritmo acelerado. Cheguei aos Bombeiros às 13 horas, mas não havia ninguém para me atender. Enquanto esperava, aproveite para consertar o pneu traseiro. Às 14 horas fui procurar um Hostal. Achei vários, de 40, 25, 20 e até de 10 soles. O problema era que o de dez ficava no segundo andar e não era possível subir com a bicicleta. Fui para outro de 20 soles com o quarto no andar térreo onde eu podia colocar a bicicleta, Já estava entrando com a bicicleta, quando resolvi tentar mais uma vez os Bombeiros. Combinei com o porteiro que se eu não conseguisse lugar nos Bombeiros eu voltaria. Enquanto eu pedalava vi que mais uma vez o pneu dianteiro estava vazio. Enchi e deixei para consertar quando estivesse alojado.

Cheguei aos Bombeiros às 14h40min e esperei até as 15 horas. Quando já estava para desistir, parou um carro e um bombeiro veio falar comigo. Quase ao mesmo tempo a porta se abriu e apareceu um bombeiro voluntário. O bombeiro que desceu do carro telefonou para alguém e conseguiu autorização para eu entrar. Pronto estava em casa com duas noites garantidas. Consertei de novo o pneu e fiquei sem saber se a câmara tinha furado ou seu eu tinha colocado uma câmara furada.

À noite os bombeiros prepararam um jantar e me ofereceram um prato de arroz com peixe e banana frita.

Tumbes está a 25 km da fronteira com o Equador. É uma cidade bastante grande, bonita e muito barulhenta. As ruas estão cheias de mototaxis. Parecem mosquitos e chegam de todos os lados ao mesmo tempo. É o meio de transporte mais barato da cidade.

A Panamericana passa dentro da cidade.

 

 

 

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06/06/2009 - PERU

Casma - Chimbote

60 km em 4h16min

Total pedalado até hoje: 3.126 km

Horas pedaladas = 240

 

Como a etapa era curta eu não tinha muita pressa para iniciar a viagem, mesmo assim às 7 horas já estava na estrada. Depois de alguns quilômetros no vale verde, entrei de novo no deserto e começaram as subidas. Algumas ladeiras eram um pouco fortes, mas em geral consegui subir pedalando.

Cheguei a Chimbote às 11 horas e me dirigi à Av. Peru para encontrar a casa do Todd onde eu ia me hospedar. Achar a rua foi tarefa fácil, agora encontrar a indicação S-7 foi impossível. Uma busca feita no mapa da cidade revelou que esta legra não existe nesta avenida. Ainda tentei procurar em outra rua onde havia a letra S, mas não deu resultado. O jeito foi seguir adiante até Santa a 10 km de distância.

Chimbote é uma cidade grande dividida por um rio. Na parte onde eu estava era a Chimbote Nova e quando atravessei a ponte vi a placa dando as boas vindas a Chimbote a capital do peixe. Perguntei a um taxista se havia outra Av. Peru e a resposta foi negativa. Um senhor de mais idade me garantiu que a avenida X se chamada também Peru. Eu procurava por um missionário e fui logo encaminhado para o Padre Juanito, que segundo eles era quem eu estava procurando. Pelo sim e pelo não fui procurar o tal de Padre Juanito. Pedalei alguns quilômetros e como não vi igreja nenhuma, desisti da ideia e segui adiante para chegar a Santa. Os curiosos eram muitos. Alguns mototaxis me acompanharam durante um bom trecho. Quando eu menos esperava, vi uma igreja. Aproximei-me e o vigia já me fez entrar no pátio. O Padre Juanito está nos Estados Unidos, mas tem um leigo responsável que poderá atendê-lo. Fui muito bem recebido e já me encaminharam para a casa do gringo onde me alojei.

A Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é um modelo de Obra Social que emprega 90 funcionários e atende desde a Creche até os cursos profissionalizantes, passando por refeitórios para pessoas carentes. O Padre Juanito recebe o apoio dos seus conterrâneos americanos e irlandeses e leva a obra adiante com as doações que recebe. Nom0mento está nos USA com um grupo de cantores fazendo campanha para coleta de dinheiro durante dois meses.

O ajudante dele é o P. Juan, peruano muito dinâmico que me acolheu com muita amabilidade. Durante a celebração da Eucaristia me apresentou à comunidade que me acolheu com palmas. Gostei de conhecer esta obra na periferia pobre da cidade.

 

 

 

08/06/2009 - PERU

Chimbote - Chao

69 km em 4h44min

Total pedalado até hoje: 3.195 km

Horas pedaladas = 245

 

 

Os dois dias passados na Paróquia do Perpétuo Socorro, do Padre Juanito foram muito bons, mas era preciso continuar a viagem. Tive um atendimento VIP. Consegui um livro sobre a vida do Padre Juanito com o título:

 

AN ORDINARY MAN:

AN EXTRAORDINARY MISSION

The story of Father “Jack” Davis

and his mission to Chimbote, Peru.

 

Embora seja um peso a mais ara carregar, vou ler com muito carinho. Chimbote seria um ótimo lugar para fazer um pouco de voluntariado. Vou ficar atento daqui para frente e onde houver possibilidade vou parar por alguns meses.

Aminha intenção era pedalar 130 km e chegar a Trujillo, na casa do Lucho que já hospedou mais de mil cicloturistas do mundo inteiro. Tenho interesse em conhecer o sistema dele, pois ao terminar o meu projeto vou construir a Casa do Cicloturista em Barra Velha.

A viagem seguia normal. Os primeiros 30 km foram na planície, mas depois começou uma subida lenta, matadora, de 15 km onde a velocidade não passava dos 11 km/h até chegar ao pé da montanha onde foram mais 2 km empurrando a Tanajura. Finalmente cheguei ao topo. Coloquei a minha capa corta-vento e iniciei uma linda descida chegando a 62 km/h. Mas a alegria não durou muito. Apareceu um barulho estranho na roda dianteira. Parei, examinei a roda, mas não encontrei a causa do barulho. Na terceira parada descobri onde esta a causa do barulho. O pneu dianteiro tinha estourado a lona.

 

 

Esvaziei um pouco o pneu e continuei a pedalar até chegar a Chão, ao meio dia onde resolvi passar a noite. Como eu estava usando a fita protetora consegui fazer mais 10 km sem furar a câmara. Achei uma hospedagem boa com apartamento, TV a cabo e lugar para colocar a bicicleta dentro do quarto no piso térreo, por cinco dólares. Troquei o pneu e comprei outro para levar como reserva. O pneu que estourou era da marca Pirelli e só agüentou 650 km. Muito pouco, pois o normal é chegar a 4.000 km. Agora estou usando um Sheng Shin Tire e espero que dure um pouco mais. Comprei um Kenda 24 X 2,10 para levar como reserva. O jovem da loja onde comprei o pneu era também mecânico e fez uma regulagem no câmbio dianteiro que estava desregulado. Imaginem que ao entrar num túnel, o segundo em toda a Panamericana, a corrente caiu e trancou. O túnel era escuro e estreito. Tive que subir no acostamento para ajustar a corrente e esperar o momento certo para poder continuar.

 

 

 

09/06/2009 - PERU

Chão - Trujillo

66 km em 4h32min

Total pedalado até hoje: 3.262 km

Horas pedaladas = 249

 

 

Deixei o Hostal às 7h40min. A etapa era curta e eu não tinha muita pressa em chegar ao destino. A estrada continuou como sempre com longas subidas minando as forças aos poucos. No meio do caminho encontrei uma plantação de uvas. Comprei e devorei dois lindos cachos. Faltavam 30 km para chegar ao destino quando um carro passou por mim e parou. Era o Wolfgang, um austríaco que eu tinha conhecido no dia 13 de maio nas termas de Ccnoc, perto de Cusco. Ele viaja sozinho, de carro. Passei a ele o endereço da casa do cicloturista aonde eu ia me hospedar e à noite ele veio me visitar. Marcamos para amanhã uma visita ao sitio arqueológico de Chan Chan.

Cheguei na casa do cicloturista em Trujillo sem ser esperado pois o Lucho n~ao tinha respondido à minha mensagem. Para minha surpresa encontrei sete cicloturistas hospedados aqui. Alguns já estão a mais de 10 dias. São dois brasileiros, uma norteamericana, dois franceses e um casal de canadenses.

Assinei o livro de visitas com o número 1245. O Lucho é um jovem idealista, simpático e acolhedor. Não havia lugar para mim, mas ele abriu espaço numa sala de aparelhos de som e eu fiz a minha cama no chão. Ao contrário do que eu pensava, o ambiente é muito simples e nem sequer tem uma cozinha. Os cicloturistas, porém, se sentem muito à vontade aqui. Amanhã o casal canadense vai seguir viagem e ai chegar mais um francês. Vou aproveitar para descansar alguns dias aqui.

Encontrei aqui uma balança eletrônica e matei a curiosidade sobre o meu peso. Bati o record da magreza: 75 quilos. A última vez que tinha chegado a este peso tinha sido em 1972 em Turim. Confesso que me admirei, pois não esperava tão pouco. Iniciei a viagem no dia 15 de março com 88 quilos. Já se foram 13 quilos. Está aí uma boa dica para quem quer perder uns quilinhos. É só pedalar pelas cordilheiras peruanas conduzindo uma bicicleta com 55 quilos... Não há barriga que resista.

 

 

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01/06/2009 - PERU

Lima – Chancay

83 km em 6h32min

Total pedalado até hoje: 2.756 km

Horas pedaladas = 214

 

Terminaram os meus dias em Lima e era preciso retomar a viagem. Iniciei a pedalada às 6h40min com uma temperatura de 15 graus. O pátio do colégio e o asfalto na rua estavam molhados. Uma garoa muito fina deve ter passado por ali, mas quando saí não chovia. O céu, como em todos os dias que passei em Lima, estava cinzento. Eu estava a quatro quilômetros do centro e precisei de mais de 30 km para sair da cidade. O trânsito era intenso. Ainda bem que encontrei uma ciclovia que me levou até fora da cidade. O problema era que a ciclovia era muito estreita e era preciso parar para cruzar com outro ciclista. Para aumentar ainda mais a confusão todo mundo queria caminhar pela ciclovia. O jeito era tocar em cima dos pedestres para que ela saíssem da ciclovia. Quando acabaram as várias cidades emendadas umas nas outras, e entrei no deserto o trânsito ficou bom.

Eu tinha duas opções, fazer 150 km ou apenas 80. Estava disposto a tentar os 150 km, mas ao chegar aos km 50 optei por seguir pela montanha e peguei duas grandes subidas que me fizeram alterar os planos. Cheguei a uma cidade chamada Chancay às 15 horas e fui procurar um lugar para pernoitar. No primeiro Hostal que parei para perguntar o preço a dona Elisa Fernandes Flores queria me cobrar 30 soles. Pela qualidade do Hostal o preço era razoável, mas não para o meu bolso.... Agradeci e ela baixou o preço para 20 soles. Já ia sair, pois é possível encontrar lugares mais simples por 10 soles, mas a senhora Elisa me deteve. Falei que tinha pouco dinheiro e que costumo acampar quando encontro um lugar seguro. Ela me levou ao pátio interno e me mostrou um lugar para acampar sem precisar pagar nada. Era tudo o que eu queria. Na hora de escolher o lugar para armar a barraca, vi que ao lado havia um galpão com um bar desativado. Não tive dúvidas. Armei a barraca dentro do galpão onde havia luz e banheiro. Falei para a senhora Elisa que eu ia colocar o nome do Hostal na Internet e ela ficou contente.

 

 

02/06/2009 - PERU

Chancay - Huacho

73 km em 5h22min

Total pedalado até hoje: 2.829 km

Horas pedaladas = 220

 

Uma noite muito tranquila. Somente na hora da despedida eu me identifiquei. Recebi um abraço, um beijo e um pedido de oração por um sobrinho que está com leucemia.

Iniciei a viagem com a intenção de fazer 120 km. No segundo quilômetro iniciei uma subida daquelas enjoadas que não acabam nunca e pouco a pouco vão minando as energias. Depois de alguns quilômetros, quando pensei que ia melhorar, aí sim foi que piorou. Já não conseguia mais subir pedalando e começou a operação empurra-mpurra.  Decidi então pernoitar em Huacho. Tinha um contato do Hospitality Club mas infelizmente ninguém atendeu ao telefone. Procurei por um Hostal e achei mais de um por dez soles. O problema era que os três estavam no primeiro andar e era preciso subir com a bicicleta. Escolhi um que tinha a escada mais larga e com a ajuda do recepcionista levei a Tanajura até o quarto que por sinal era bastante amplo. Na hora do banho a água quente não funcionava. Resolvemos com um balde de água quente e lá fui eu para mais um banho de cuia.

Durante a viagem vi uma cena no mínimo curiosa. Dois funcionários da empresa de manutenção da estrada estavam recolhendo lixo na beira da auto-estrada. Os peruanos têm o péssimo costume de jogar lixo pela janela do carro e do ônibus. É impressionante ver a quantidade de garrafas pet de todos os tamanhos ao longo da estrada. Nas saídas das cidades o deserto fica tomado de lixo. Que vergonha.

Antes de chegar a Nasca, dormi num acampamento, perto dos vigias noturnos. Pela manhã eu tinha esvaziado um pote de marmelada. Como eu não queria levar a embalagem vazia, perguntei ao guarda onde estava a lixeira. Ele mandou que eu jogasse ali mesmo. Como eu não via nenhuma lixeira, ele disse que eu deixasse ali que depois ele ia por no lixo. Enquanto eu preparava a bicicleta ouvi o seguinte comentário por parte de um deles:

- Viu a preocupação dele com o lixo? Os estrangeiros são assim, estão preocupados com o meio ambiente. Nós peruanos jogamos o lixo em qualquer lugar.

Acho que não seria errado dizer que podemos medir a cultura de um povo pela quantidade de lixo que encontramos na estrada. Neste ponto o nosso Brasil serve de exemplo.

Estou viajando quase ao nível do mar. A umidade é muito grande. Desde bem antes de Lima que não vejo mais o sol. Dizem que são 300 km assim. Muita neblina que às vezes chega a ser quase uma garoa. Chuva por aqui só nos três primeiros meses do ano. Mais um dia de pedalada e saio deste clima sombrio.

 

 

03/06/2009 - PERU

Huacho - Paramonga

60 km em 3h38min

Total pedalado até hoje: 2.889 km

Horas pedaladas = 223

 

Uma etapa bastante curta como preparação para a próxima que vai ser 90 km de deserto. Na verdade vai ser uma etapa normal, mas pelo simples fato de as pessoas falarem que não há nada entre as duas cidades, eu fico um pouco ansioso.

Cheguei a Paramonga, a última cidade antes de entrar no deserto, antes do meio dia. Como sempre, o passeio pela cidade desperta a atenção dos curiosos. Ouço vários tipos de comentários. O mais chato que escuto com freqüência, por causa da bandeira, é:

- “Brasil, o país mais grande do mundo”.

Muitos dão risadas. Ainda não descobri o que é que eles vêm de tão engraçado. Uma coisa é certa, estou evoluindo. Em Rio Branco eu era o “Tio”. Depois que entrei no Peru passei a ser “Papá” e de Lima para cá evolui mais uma vez. Agora sou o “Abuelito”, ou seja, avozinho. Só uma vez escutei um idiota dizer “ho, ho, ho” por causa da barba. Em Joinville, quando a minha barba estava grande, sempre havia um bando de idiotas que gritavam “ho, ho, ho”.

A frase mais original que ouvi foi em Lima. Uma criança disse para a mãe:

- “Mira Mamá, uma Moto Bicicleta”.

Achei genial a associação das duas coisas.

Estou pedalando ao nível do mar, perto da praia, mas o tempo continua cinzento. Já estou com saudades de ver a cara do sol. Às 14 horas a temperatura está em 18 graus.

 

 

 

04/06/2009 - PERU

Paramonga - Huarmey

91,6 km em 6h40min

Total pedalado até hoje: 2.889 km

Horas pedaladas = 230

 

Coisas interessantes acontecem numa viagem como essa. Ao chegar à cidade, aproximei-me de uma banca de revista para pedir informação sobre hospedagem. Aqui no Peru existem três categorias: Hotel com um preço mais elevado; Hostal que pode ser de até três estrelas, mas também pode ser econômico e a Hospedaje, geralmente mais barata. Como nos outros países, aqui também depende muito de cidade para cidade. O preço da habitação mais simples com banheiro compartilhado (estou usando o linguajar daqui), é de 10 soles, ou seja R$ 7,70 o que se torna bastante acessível, mas mesmo assim não dá para exagerar e sempre que posso procuro acampar. Voltando à banca de revista, um senhor que estava olhando os jornais ouviu a minha pergunta, mas não disse nada. Depois de encontrar um lugar para ficar, saí para dar uma volta pela praça, acessar a Internet, etc. Na praça aproxima-se de mim o Sr. Hernán Broncano Moreno de 70 anos, professor de matemática e me faz várias perguntas sobre a bicicleta e a viagem. Era o mesmo senhor da banca de revista. Conversa vai, conversa vem, ele queria que eu conhecesse outro professor, amigo dele e que tinha a minha idade. E assim, às 20 ele foi ao Hostal onde eu estava hospedado e me levou até a casa do amigo Prof. Perez. Foi uma noitada muito interessante e, modéstia à parte, com conversa de alto nível. Na verdade os três éramos professores. Quando fui dormir já eram quase 23 horas e às 5h30min o despertador me tirou da cama.

Eu estava meio ansioso com os 90 km de deserto sem nada no meio, mas venci sem maiores dificuldades. Havia algumas subidas pesadas onde tive que empurrar a Tanajura e outras bastante compridas que iam minando as energias aos poucos, mas depois vinha a compensação da descida. Pedalar no meio do deserto é interessante porque a paisagem vai mudando sempre. O que permanece inalterado é a cor da areia. De vez em quando a estrada se aproxima do mar. É gostoso ouvir o barulho das ondas, mas para se aproximar da água é necessário enfrentar a areia pesada. Por isso eu só olho a água de longe...

Entrei na cidade de Huarmey e fui procurar alojamento. Aconteceu uma cena curiosa. Os curiosos se aproximaram de mim e uns 10 mototaxis, os famosos triciclos peruanos, fecharam a rua. Foi preciso vir a polícia para fazer o trânsito circular. Era a primeira vez que eles viam uma coisa tão rara assim. Perto de onde eu estava parado havia uma corporação do Corpo de Bombeiros. Levaram-me para lá, pois eles diziam que os bombeiros iam me dar apoio. Nem precisei falar, eles mesmo me apresentaram ao bombeiro. O jovem fechou a porta e foi falar com o comandante. Voltou em seguida e disse:

- O meu comandante disse que está proibido hospedar turista aqui.

- Obrigado, disse eu.

Um jovem que tinha me acompanhado com o Mototaxi disse:

- Que raro. O senhor tem barraca?

- Tenho, disse eu.

- Então vamos lá em casa que tem um lugar para armar a barraca.

Era o Jimy, irmão da Gedi, cabeleireira, esposa do Ladislau. Coloquei a bicicleta na garagem e armei a barraca na parte superior da casa onde está sendo construído o segundo piso. Foi excelente, o único problema foi que não havia lugar para tomar banho, mas um dia sem banho não mata ninguém.

 

 

05/06/2009 - PERU

Huarmey - Casma

83 km em 6h6min

Total pedalado até hoje: 3.066 km

Horas pedaladas = 236

 

 

A etapa de hoje foi na verdade uma continuação da de ontem. O deserto era o mesmo, só as subidas eram mais pesadas. Havia algumas de 5 km continuados que iam minando as energias bem de vagar. O velocímetro não passava dos 9km/h. Já estou ficando experto em pedalar morro acima. Também ao nível do mar é bem mais fácil. Já estou pensando em trocar o pedevela para desenvolver mais velocidade. Estou usando um de 24, 34, 44, mas o melhor seria 28, 38, 48 como eu tinha antes de usar o Nexus Wave com as 8 marchas internas. Mas isto vai ser só quando eu chegar à Colômbia. Até lá tenho que me contentar com pedalar só até 32 km/h na planície.

A recepção em Casma foi mais modesta, mas mesmo assim fui fotografado e alguns curiosos me acompanharam até o Hostal e me ajudaram a subir com a bicicleta pela escada acima. Já está virando moda subir a escada carregando 55 quilos. Eu tiro alguma coisa, uns 10 quilos e depois faço uma boa física com a bike nas costas. Se para subir é difícil, para descer não é menos complicado. Aos poucos vou me acostumando com este pequeno detalhe.

 
 
 
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25/05/2009 - PERU

Nasca – Rio Grande (Palpa)

57km em 3h40min

Total pedalado até hoje: 2.417 km

Horas pedaladas = 189

 

 

Cheguei a Nasca às 8 horas da manhã e tinha o dia inteiro para gastar na cidade. Fui para um Hostal e durante o dia entrei em contato com um jovem da comunidade Hospitality Club e resolvi ficar mais dois dias na casa dele. Era o Ruben que recebe amigos na sua casa. A acolhida foi muito simpática e no domingo, juntamente com o Javier, outro jovem ciclista e também do Hospitality Club, fomos conhecer as ruínas da cidade Foi uma pedalada gostosa, sem carga na bicicleta e com muita calma. Conheci lindos lugares como Cantalloc, Paredones e os Aquedutos construídos pelos Incas e que funcionam ainda hoje. É impressionante como eles conseguiram fazer um sistema de captação de água subterrânea que funciona o ano inteiro numa região desértica onde não se vê nada de verde.

No dia seguinte, segunda-feira o Javier me acompanhou até a torre para ver as Linhas de Nasca a 25 km da cidade. Foi mais uma experiência interessante. É claro que não sobrevoei as linhas, pois meia hora custava sessenta dólares.

A etapa de hoje era muito curta, apenas 57 km e por isso eu não tinha pressa. Para ajudar ainda mais entrei numa região mais “humana” quer dizer, mas dentro dos nossos padrões brasileiros de pedalar. Subidas suaves a apenas 500 metros acima do nível do mar e já estou baixando até chegar ao nível do Oceano Pacífico dentro de alguns dias.

Faltava pouco para chegar ao destino e encostei numa sombra. Um senhor de moto parou do outro lado da estrada e veio conversar comigo. Depois de um pequeno papo me convidou para pernoitar na casa dele. Era ainda onze horas da manhã, mas eu não podia continuar porque tinha mais de 100 km de deserto pela frente. Aceitei o convite e uma hora depois já estava na casa do Jorge. Fui acolhido com festa por uma família muito simpática. Depois de um delicioso almoço conversamos até às 15 horas e descobri que do cerro da frente (cerro no Brasil significa montanha) era possível ver as linhas incas formando um relógio solar. Deixei para tomar o banho na volta e subi a montanha. Foram duas horas de caminhada de ida e volta, mas valeu a pena.

 

 

 

26/05/2009 - PERU

Rio Grande (Palpa) - Ica

94km em 6h03min

Total pedalado até hoje: 2.511 km

Horas pedaladas = 196

 

 

A hospedagem na casa do Jorge foi “barba, cabelo e bigode”, almoço, jantar e café da manhã. Foi uma experiência bonita a convivência com a família dele. A esposa, a Liliana é colombiana. A mãe, dona Aide é uma simpatia de pessoa. Senti muita harmonia naquela casa. Despedimos-nos com a promessa de mantermos contato pela Internet.

Quando deixei a casa já passava das sete horas. Mas, como a etapa era fácil, pouco mais de 100 km de planície, pelo menos era o que eu pensava, não tinha pressa. Mas não foi bem assim. Logo na saída uma montanha de mais de 5 km empurrando a Tanajura fez com que meus planos fossem por água abaixo. Após a grande subida uma pequena descida e entrei no Pampa com deserto de 60 km de planície com algumas subidas. O sol era forte. Não se via nada de verde, apenas areia, pedra, horizonte e céu azul sem nenhuma nuvem. A um dado momento escuto um assobiar no pneu dianteiro. Era o canto do cisne. Pobrezinho já tinha passado dos cinco mil e estava com a lona aparecendo e cheia de buracos. O que o fez aguengar tanto foi a fita protetora. Coloquei um pneu novo e uma nova câmara, tudo com muita calma e assim lá se foi mais uma hora. Resolvido este problema, segui adiante pelo meio do deserto. Parece que hoje era mesmo o meu dia de sorte. Mais adiante não consegui mudar a marcha da relação da frente. Parei e vi que o cabo estava quase todo desfiado. Deixei a segunda marcha fixa e segui adiante. Ao chegar a um povoado pedi informação e me mandaram para uma oficina que funcionava num casebre de palha. Perguntei ao mecânico se ele sabia regular o câmbio e trocar o cabo e ele disse que sim. Já comecei a desconfiar quando vi que ele com um alicate, tentava afrouxar o cabo, em vez de usar uma chave ale. Emprestei a minha. Ele tirou a proteção do cabo com os dentes e cortou o cabo com o alicate. Na hora de tirar o cabo do trocador nem sabia por onde começar. Como eu já tinha avisto a mesma coisa na minha cidade, mostrei a ele por onde se tira o cabo. O homem já queria desmontar tudo. Mexe daqui, vira dali e não conseguiu soltar o cabo. Desisti e disse que eu ia deixar assim mesmo até chegar a Lima. Para repor o cabo cortado no lugar ele queria cortar o conduite. Não deixei e com um pedaço de cabo velho, fixamos o câmbio na segunda marchar e assim ia seguir até Lima por mais 300 km. É claro que eu tenho 8 marchas internas no cubo, mas, mesmo assim, perco na velocidade e nas subidas.

Resolvido mais este problema, já passava das 15 horas. Faltavam 30 km para chegar a Ica e mais 15 para chegar a Guadalupe onde eu prendia passar a noite. Como a hora passava rápida, decidi pernoitar em Ica num Alojamento. Enquanto pedalava, faltavam ainda 10 km, conversei com Nossa Senhora e deixei nas mãos dela o que eu deveria fazer, ir até o centro da cidade em busca de um alojamento ou procurar um lugar para acampar. Não se passaram nem 10 minutos e cheguei a um posto de gasolina onde havia um restaurante. Pedi permissão e me deixaram acampar atrás num lindo lugar. Consegui um bom banho no posto e assim passei mais uma noite.

 

 

26/05/2009 - PERU

Ica - Chincha

120 km em 7h027min

Total pedalado até hoje: 2.631 km

Horas pedaladas = 203

 

Uma noite bem dormida, pois a grama era macia e a temperatura agradável. Por segurança e para dormir mais tranquilo, coloquei a bicicleta dentro do restaurante onde dormia o guarda. Acordei às 6 horas e comecei a pedalar às 7h30min. A viagem foi tranquila. Pedalava numa grande planície pelo meio do deserto e por isso mudei a corrente da segunda para a terceira engrenagem, uma vez o cabo de mudanças de marcha estava arrebentado. Assim ganhei em velocidade, pois como estava, não passava dos 22 km/h. Ficou bem melhor, porém mais difícil quando começaram a aparecer as subidas depois de Pisco. Mesmo assim subi quase todas as ladeiras pedalando. Existe uma diferença muito grande em pedalar ao nível do mar e acima dos 4.500 metros de altitude. Ao nível do mar parece que as subidas ficam mais suaves. Ou será que eu já estou tão bom assim que nem sinto o cansaço?

Ao passar por Ica enfrentei um verdadeiro caos no trânsito e isto porque não passei pelo centro da cidade. São milhares de triciclos moto-taxis todos buzinando ao mesmo tempo e querendo ocupar o mesmo espaço. Havia também muito lixo na beira da estrada. Já me tinham avisado para não parar ali por ser uma cidade perigosa.

Ao chegar a Chincha outra surpresa. Parece mais uma cidade indiana do que uma cidade peruana. O trânsito é um verdadeiro caos. Os triciclos moto-taxis parecem um exame de abelhas e o bip bip das buzinas nunca param. Nas calçadas encontra-se de tudo para comprar, mas o que predomina é a comida.

Como eu estava com problemas na bicicleta e a próxima etapa seriaá de muitas subidas resolvi facilitar a minha vida. Faltavam apenas 200 km para chegar a Lima e resolvi seguir de ônibus para fazer uma revisão da Tanajura em Lima.

 

Deixei Chincha às 9 horas pela empresa Flores. A cada 15 minutos parte um ônibus para Lima e parece que todos viajam lotados. Paguei 10 soles = R$ 7,80 e 8 soles pelo transporte da bicicleta. Para quem está acostumado com os padrões brasileiros a vida aqui é muito barata. Um bom almoço não chega a quatro reais.

O dia amanheceu cinzento e continuou assim até chegar a Lima. A viagem pela costa foi sempre pelo meio do deserto. Ao chegar ao Oceano Pacífico não havia nada que lembrasse as nossas praias. Deserto por todos os lados. Muitas comunidades são erguidas no meio da areia. Fez-me reviver um pouco a periferia da cidade de Maputo em Moçambique com  milhares de “palhotas” feitas de caniço. Ao se aproximar de Lima o ônibus levou quase uma hora para chegar à “rodoviária”.

Como nem sempre tudo são flores, cheguei perto de meio dia à Inspetoria Salesiana aonde ia me hospedar por alguns dias. Infelizmente todos os diretores estavam fora de Lima em reunião e só voltariam no dia seguinte. Para mim não é novidade, pois sei muito bem que só quem pode decidir numa casa salesiana é o diretor. O porteiro me barrou já na portaria. Fui ao colégio ao lado e aconteceu a mesma coisa. O porteiro foi mais gentil e ligou para o diretor, mas não conseguiu contato. Indicou-me uma Paróquia a 4 km de distância onde o Pároco poderia me atender. Lá fui eu. Mas como já passava das 13 horas o Pároco só ia voltar a atender depois das 15 horas. Depois de muita insistência com um porteiro mal humorado, para não dizer outra coisa, consegui um lugar para deixar a bicicleta e saí para almoçar. Voltei às 15 horas e o Pároco, um jovenzinho de 80 anos, me atendeu com muito carinho. Pediu-me para esperar um pouquinho que ele ia telefonar para o diretor e tudo estaria resolvido. Disse que eu esperasse no colégio que ele já ia me atender. Só que havia uma fila de pessoas esperando para falar com ele. Fui ao colégio e esperei até às 16h30min. Voltei à Paróquia. Só mais um pouquinho, disse-me ele.  O tempo ia passando e eu à espera. Às 17h30min ele disse que não tinha conseguido falar com o diretor, mas ia telefonar para as Irmãs de Sant’Ana para me arrumar um lugar para eu passar a noite e no dia seguinte, quando o diretor voltasse, eu poderia voltar ao colégio. Depois dizem que vida de padre não é complicada. A estas alturas eu já estava pronto para ir a um Hostal, mas já que tinha esperado tanto, resolvi esperar um pouquinho mais. Levou-me ao refeitório e depois do jantar chamou um motorista e me mandou deixar na casa das irmãs. As irmãs têm um colégio, ginásio de esportes, comunidade e casa de retiro que ocupa um quarteirão inteiro, onde eu fiquei sozinho num AP com banho quente, pois até este dia só tinha tomado banho frio.

 

Conserto da Tanajura

Em Nasca o Javier me deu um cartão de uma loja de Lima onde, segundo ele, tinha um bom mecânico. Cheguei ao local e esperei até depois das 10 horas para que a loja abrisse. Não tive sorte, o mecânico já não trabalhava mais ali. Comprei um pneu e depois de muita busca consegui um mecânico que mais parecia um açougueiro. Dava a impressão de que ia desmantelar toda a bicicleta. Eu queria fazer uma revisão completa na bicicleta, mas me dei por satisfeito ao conseguir trocar o cabo de marcha. Depois de muitas tentativas, saí para fazer o teste. Na primeira troca a corrente caiu. Voltei para novos ajustes. E assim saí quatro vezes até que as marchas funcionassem mais ou menos. Era tudo na base da tentativa, mas sem muita paciência e conhecimento do que se fazia.

Na parte da tarde voltei à paróquia e consegui alojamento na Casa de Formação, ao lado da Paróquia. Resolvido o problema do alojamento, era só descansar até segunda-feira, dia 1 de junho quando iria reiniciar a viagem em direção ao norte rumo ao Equador. São 1.350 km de deserto beirando o mar. A viagem vai ser monótona, mas pelo menos não haverá montanhas pela frente.

No sábado pela manhã fui a uma oficina perto do Seminário para trocar a corrente. Fiz uma boa limpeza na bike e mudei os adesivos da carenagem que já estavam detonados.

 

Nesta primeira etapa no Peru pedalei 1.117 km

Na segunda etapa, de Lima até a fronteira com o Equador são 1.350 km

 
 
 
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19/05/2009 - PERU

Abancay - Pampamarca

61,72km em 4h35min

Total pedalado até hoje: 2.204 km

Horas pedaladas = 173

 

Ainda não eram sete horas quando saí em direção ao centro à procura do jornal da cidade onde foi publicada uma entrevista que o jornalista fez comigo no dia anterior. O Kiosko só ia abrir às 9 horas e eu não quis esperar. Foi pena, mas não tinha outro jeito. No dia anterior, quando cheguei à cidade, um senhor me disse que de Abancay até Chalhuanca era só descida e ele fazia em quatro horas com a bicicleta. O mapa indicava 135 km. Achei um pouco estanho, mas acreditei. Era conveniente que eu acreditasse, pois assim a viagem ficaria mais fácil. Iniciei uma descida fantástica que durou apenas 17 km. Daí para frente a estrada ia beirando um rio que descia das montanhas. Eu sempre estava com a esperança de que na próxima curva começasse a baixar. O odômetro marcava 23 km e eu estava empurrando a Tanajura ladeira acima. Mais adiante parou um Toyota de cabine dupla e o caroneiro desceu do carro e fez sinal para eu me aproximar. Perguntou se eu queria uma carona, pois dali para frente era só subida. Aceitei. Acomodei a bicicleta na carroceria e sentei no banco de trás. Não levou nem meia hora e a Tanajura empacotou. Do jeito que caiu ficou até o fim da viagem. Ainda bem que não se quebrou nada. Chegamos a Chalhuanca e já tínhamos subido mais de mil metros. (O idiota do informante tinha dito que era só descida!) O frio começava a apertar. Agasalhei-me bem e continuamos a subir até chegar ao acampamento da mineradora que fica bem no cume da montanha a 4.300 m.

Disseram-me que eu ia só descer, pegar um trecho de pampa muito suave e depois descer até chegar a Puchio. Eram só 120 km que eu poderia fazer sem dificuldades. O relógio marcava 11h30min. Iniciei a descida. Que maravilha. Pena que durou só 6 km. A pampa era de uma subida suave constante e me lê vou até os 4.500 metros de altitude. A hora passava rápida e a viagem não rendia nada. Às 15h15min encontrei um casebre no meio do nada. Na casa só estavam duas crianças e achei melhor seguir adiante. As subidas não acabavam nunca. Às 16h30min finalmente consegui chegar ao cume. Mais meia hora de descida e cheguei a um povoado chamado Pampamarca a 4.300 m de altitude com uma temperatura de 9 graus.

Encontrei um Posto de Saúde e fui procurar a enfermeira. Eu disse que queria um lugar para armar a barraca, mas ela não deixou por causa do frio. Levou-me para um quarto do posto onde o médico dormia, quando estava de serviço e trouxe quatro cobertores para eu enfrentar o frio. Por via das dúvidas, peguei também o meu saco de dormir e dormi como um anjo.

 

 

 

20/05/2009 - PERU

Pampamarca - Puquio

72km em 6h30min

Total pedalado até hoje: 2.276 km

Horas pedaladas = 180

 

 

A enfermeira tinha me alertado sobre as grandes subidas que eu ia enfrentar. Teria que chegar a 4.700 metros de altitude antes de entrar nos pampas onde, segundo ela, havia muitas subidas e baixadas.

Comprei pão e biscoito e iniciei a pedalada na companhia de quatro garotos curiosos que pedalavam com muita desenvoltura. Queria saber como eu ia fazer para subir a montanha. Acompanharam-se durante um quilômetro e voltaram. A esta altura eu já estava botando o coração pela boca e desmontei. Iniciei então uma árdua subida d4 várias horas. Quanto mais eu subia, mas tinha que subir. A cada curva uma nova subida. Quando parecia que ia terminar, eu olhava para cima e via um caminhão baixando a uns 300 metros de altura. Pensava no meu amigo Roberto que se estivesse comigo certamente teria desistido por ali mesmo. Mas eu continuava a subir e quanto mais subida, mas admirava a paisagem que se ampliava atrás de mim. Pensava no Santo Padre João Paulo II que gostava muito das montanhas e conseguia compreender o porquê da admiração dele pelas montanhas. Não existe nada de mais belo do que contemplar o horizonte a partir de um monte de 4.700 metros de altitude.

Pouco depois do meio dia, eu estava parado fazendo o meu lanche, quando vi um carro parar e voltar de marcha a ré até onde eu estava. Era um sul-africano que trabalha com energia eólica em vários países da América Latina, inclusive no Brasil. Conversamos um pouco em inglês, ele tirou várias fotos e disse que no dia seguinte ia voltar e que me levaria até Lima. Achei ótima a ideia, pois a “paulera” que eu ia enfrentar era pesada demais. Continuei na minha “pedalada-caminhada” ou “caminhada-pedalada”. Este senhor me confirmou que o que vinha pela frente era somente subida e baixada sem fim. Continuei mais animado na esperança de no dia seguinte conseguir uma carona para descansar em Lima. Mais algumas horas e para uma moto com um casal todo agasalhado que mal se via um pedaço do rosto. Caminhando ou pedalando o corpo se aquece, mas na moto é preciso se proteger bem. Desceram da moto e vieram me fotografar junto com eles. Só então os reconheci, ou melhor a senhora se apresentou. Era a enfermeira e o marido. Queriam uma lembrança do cicloturista aventureiro. A estas alturas eu já sabia que não ia conseguir chegar a Puquio antes do anoitecer. Eles me informaram que mais uns 20 km e havia um restaurante onde eu poderia acampar. Boa notícia, pois eu estava mesmo no meio do nada. Além do asfalto só se via pedra, subida e descida. Nenhuma alma viva. De tanto em tanto passava um veículo que me obrigava a levantar a mão para retribuir ao cumprimento. Até pensei em colocar uma mola no guidão para a cada buzinada apertar um botão e o braço se levantar sozinho para acenar. É verdade que este movimento de levantar o braço e acenar já se tornou meio mecânico. Acho que raramente eles vêm um maluco montado numa coisa meio esquisita enfrentando o deserto nas montanhas. Pedalei mais um pouco e um grupo de trabalhadores da estrada gritaram para eu parar. Parei um pouco adiante, estava numa baixada. Eles correram com uma máquina fotográfica na mão e vieram tirar fotos comigo. Eram quatro e cada um queria uma recordação. Realmente estou ficando famoso!  Um deles me informou que dali para frente não havia mais nada. Teria que chegar a Puquio. Falei sobre o restaurante e ele disse que havia um no lago, fora da estrada principal. Continuei a pedalar na esperança de encontrar o tal de restaurante, pois eu já estava bastante cansado. Passei por um lago, dois três. Nada de restaurante. Pensei até em acampar na beira de um deles, mas desisti. Os lagos ficaram para trás. No meio de uma subida uma placa dizia CABANA. Parei e vi que era a entrada ara um sítio arqueológico. Não havia indicação de distância. Será que era ali o tal de restaurante? Tentei pedir informação,mas o carros que passara não pararam para me responder. Na dúvida segui adiante. Mais alguns quilômetros e apareceu outro lado e do outro lado havia uma casa que parecia ser um restaurante. Subi até o topo da montanha e lá havia uma estrada de piçarra que levava até o restaurante. Deveria ser um pouso mais de umm quilômetro. Foi então que vi uma placa onde estava escrito: Puquio a 35 km. Como iniciava, o que dizem por aqui, “pura bajada” resolvi enfrentar. No meio da baixada encontro um acampamento e um guarda apita e me chama. Parei. Queria saber de onde eu vinha. Perguntei se havia alojamento ali e ele disse que eu podia armar a barraca ali mesmo. Eu estava a mais de 4.300 metros e o frio já se fazia sentir. Eram 17 horas. Perguntei como era a estada até Puquio e ele me disse: “Pura bajada” hai solamente uma quebrada. E me mostrou a quebrada do outro lado do vale. Para escapar do frio decidi seguir adiante. Imaginem só, baixar até o fundo do vale, fazer a volta e subir tudo de novo até chegar à mesma altura em que eu estava para então começar a descida até Puquio. Assim é a estrada aqui. Soltei a Tanajura morro abaixo até o fundo do vale e depois mais quinze minutos de caminhada, correndo contra o tempo. A esta altura do acontecimento eu já nem ligava mais para o cansaço. Parava a cada cem ou duzentos metros para tomar fôlego e continuava a subir. Finalmente inicie a baixada. No final da quebrada havia uma curva bem acentuada e o que é que vejo? Um restaurante. O relógio marcava 17h30min e ainda faltavam uns 20 km para chegar a Puquio. Que alegria. Encostei a bicicleta a bicicleta e entrei no restaurante. Duas jovens, uma delas com um bebê no colo me receberam. Expliquei a minha situação e perguntei se eu podia passara a noite ali. Podia ser ali mesmo no restaurante um lugar para eu dormir. A resposta da jovem foi um seco NÃO. Insisti um pouco e ela disse que era apenas uma funcionária e que “el dueño no está”. Disse que eu podia chegar a Puquio que era “pura bajada”. Para minha sorte começou a chover e o tempo logo se fechou. Ela então disse que eu podia ficar numa casinha que havia atrás do bar. Era uma peça de dois por três metros somente com uma porta e a metade estava cheia de vários objetos como arreio, roupa, etc. Coloquei a Tanajura para dentro. Limpei um pouco o ambiente usando a lanterna para ver onde eu ia dormir e quando ia armar a barraca ela disse que eu poderia esperar o “dueño” chegar que quem sabe ele me deixaria dormir dentro do restaurante. A coisa já começou a melhorar. Fui para o restaurante e comi um delicioso caldo de carneiro. Um tigela de mais ou menos um litro. A temperatura começou a baixar. Agasalhei-me melhor, mas mesmo assim o frio apertava. Finalmente, às 19 horas chegou “el dueño” e disse que eu poderia dormir ali mesmo. Trouxe um cobertor para eu me enrolar com ele que eu usei para me cobrir. Armei a minha cama num canto e forrei o isolante térmico com dois pelegos de carneiros. Deitei e apaguei. Às 23 horas uns malucos começaram a bater na porta. Eram quatro homens que queria compara alguma coisa. Diziam que estava muito frio. Depois que foram embora, “el dueño” me trouxe mais um cobertor que eu usei como travesseiro. E assim encerrou-se mais um dia de aventuras nas cordilheiras peruanas.

 

 

 

21/05/2009 - PERU

Puquio - Nasca

67km em 4h24min

Total pedalado até hoje: 2.344 km

Horas pedaladas = 184

 

 

Depois de um reforçado mate de coca, iniciei a descida até Puquio. O termômetro marcava três graus negativos. O lado externo do restaurante estava todo branco de geada. Inicie então mais uma das tantas descidas das cordilheiras andinas. Mas como tudo o que é bom, dura pouco, ao chegar a Puquio o asfalto acabou. Comecei a subir uma ladeira da parte baixa para a parte alta da cidade. Diga-se de passagem, que esta foi a cidade mais feia que vi até hoje. Tudo o que eu baixei em dois dias tive que subir de novo. Na esperança de encontrar o meu amigo sul-africano para ir até Lima, comecei a subir bem de vagar. Caminhei das 8 até as 14 horas para chegar perto do cume da montanha. Um caminhão, desses que transportam máquinas pesadas, passou por mim vazio. Mais adiante parou, antes de uma curva e o motorista desceu para fotografar a estrada. Aproximei-me e perguntei para onde ele ia. Para Nasca, respondeu. Será que eu poderia colocar a minha bicicleta aí em cima? Claro, disse-me ele. Que maravilha. Amarramos a bicicleta com uma corda e eu entrei na cabine do Volvo. Sentei-me na cama do motorista, pois havia um ajudante com ele.

A distância de Puquio a Nasca é de 155 km segundo o meu mapa. Eu já tinha caminhado uns 15 km e parei a 15 de Nasca e assim a carona durou 120 km. Foi uma das travessias mais alucinantes que já fiz na minha vida. Subimos de novo a mais de 4.700 metros e continuamos por horas pelo meio das cordilheiras num sobe e desce continuo até iniciar uma das mais loucas descidas que já vi. A impressão que se tinha era que não estávamos na terra, mas sim em algum outro planeta onde não existe vida. Eu nunca tinha visto nada igual. Quando o P. Jesus tinha falado em Cusco de que este trajeto é matador, eu não fazia ideia do que eu ia enfrentar. Mas digo com sinceridade. Valeu cada esforço que fiz. Dificilmente algum outro brasileiro terá coragem de fazer esta travessia de bicicleta. Mas quem quiser enfrentar grandes aventuras venha com ama bike mais leve que aminha e faça de Cusco a Lima passando por Abancay, Puquio e Nasca. Creio que em todo o restante da viagem não verei mais nada igual.

A viagem foi tranquila. Às 17 horas paramos numa barreira e esperamos até às 18 horas. Já estava escuro quando a estrada foi liberada. Chegamos a 15 km de Nasca e o motorista parou num acampamento para deixar a carreta e seguir adiante só com o cavalo. Eu acampei ali mesmo ao lado dos guardas do acampamento. Estava doido para chegar a um Hostal para tomar um banho – estava a quatro dias sem tomar banho – mas ainda não foi desta vez. Armei a barraca, tomei uma caneca de leite com pão e dormi até às 6 horas da manhã. Eu tinha que me levantar cedo pois os guardas não queriam que o chefe me visse acampado ali, pois ia chamar a atenção deles porque eles não tinham autorização para me deixar acampar ali.

Quando baixei a bicicleta vi o estrago que o caminhão tinha feito no baú da Tanajura.

 

 

A noite foi tranquila e às 6h30min deixei o acampamento debaixo dos olhares curiosos dos guardas que queriam ver como é que eu ia pedalar. Na noite anterior um dos guardas me disse: - Quando eu ficar louco vou sair pelo mundo viajando de bicicleta. O que ele não sabe é que esta é uma loucura que é para poucos privilegiados. Não é para quem quer e sim para quem pode.

 
 

 

13/05/2009 - PERU

Cusco – Limatambo

66,40 km em 5h37min

Total pedalado até hoje: 2.020 km

Horas pedaladas = 155 h

 

Passei quatro dias em Cusco e aproveitei para descansar e atualizar o meu site, o blog e o Orkut. Só faltou mesmo enviar as fotos para o álbum, mas em compensação enviei todas as fotos no tamanho original para o meu servidor em Lisboa. Assim além de conservar uma cópia no HD externo, guardo uma no servidor, por segurança.

Como eu já tinha visitado Machupichu em 2003 desta vez não quis acompanhar o Roberto e o Alexandre. O que pude observar é que tudo está muito caro em Cusco. Estão explorando demais os turistas. Em 2003 eu paguei doze dólares para fazer a visita guiada pelas igrejas e museus da cidade e arredores. Hoje o mesmo bilhete custa quarenta dólares. O trem de Ollantaitambo a Águas Calientes custava dezoito dólares. Hoje custa quarenta e um dólares. A entrada em Machupichu custava quinze dólares, hoje custa quarenta.

No domingo tive a oportunidade de visitar a Cartedral e mais três igrejas na hora da celebração da missa. Fora do horário das celebrações é preciso pagar quatro dólares para entrar. É uma pena ver as igrejas transformadas em museus. É uma mais bonita que a outra, todas folheadas a ouro.

Na segunda-feira levei a bicicleta numa oficina de solda a alumínio para ajustar a manopla do guidão que tinha entortado na queda ao baixar do caminhão. O Roberto e o motoristas que estavam em cima da carroceria soltaram a bicicleta e eu e o Alexandre não conseguimos segurar a pobrezinha da Tanajura que caiu com tudo no chão. Ainda bem que o estrago foi pouco. Enquanto eu pedalava palas ruas da cidade ouvia os comentários dos transeuntes, admirados em ver uma coisa tão bonita, ou será tão esquisita? Passei o dia todo mexendo na bicicleta.

Na terça-feira saí para comprar um mapa do Peru e mais algumas coisas necessárias para a viagem. Passei no Hostal onde os dois estavam hospedados e fiquei surpreso ao ver o Roberto embalando a bicicleta. O Alexandre tinha partido às seis horas da manhã rumo ao Pacífico via Arequipa. O Roberto resolveu voltar de avião para São Paulo, levando de volta a garrafinha com a água do Atlântico que ia ser derramada no Pacífico. Sentiu-se muito cansado na caminhada em Machupichu e achou que não ia conseguir pedalar nas altitudes do Peru.

Eu segui por outro roteiro rumo a Lima passando do Abancay e Nasca. Na conversa com os salesianos houve muita contradição. Diziam que o roteiro que eu escolhi é matador. Tenho que passar por três divisores de água “ABRA” como dizem aqui que estão acima dos 4.300 metros. Argumentei que já pedalei na Bolívia até os 5.100 metros e que esta altitude não me assusta. Depois de várias ponderações, me aconselharam a seguir o meu roteiro. Tenho pela frente um grande deserto, mas isto é problema para ser resolvido mais adiante.

Às sete horas, antes da partida, uma pose para a foto com a Comunidade, o P. Jesus, o diretor do Colégio Salesiano fez questão de me acompanhar até à saída e tirou varas fotos minhas com os alunos. Foi boa demais a minha estadia no Colégio. Senti-me como se eu ainda fosse salesiano, tal foi a atenção e o carinho com que todos me trataram. Obrigado P. Jesus.

Depois de uma baixada durante 1200 metros, começou uma subida de cinco quilômetros. Demorei uma hora e meia para chegar à rodovia que leva a Abancay. Numa altitude beirando os 4.000 metros entrei num lindo vale onde pedalei normalmente até os 45 km. Depois foram mais 4 km de subida até chegar à parte mais alta, acima dos 4.000m. A partir daí começou uma descida de 22 km e ainda não cheguei ao final dela. Algo nunca visto antes. Uma beleza sem par. Um espetáculo de encher os olhos até dos mais pessimistas. Se alguém de vocês vier pedalar em Cusco faça este trajeto. É demais mesmo. Parei várias vezes para fotografar e contemplar as maravilhas criadas por Deus. Valeu mesmo.

Cheguei em Limatambo às 16h15min e antes de entrar na cidade vi uma placa indicando Camping numa estrada de pedra para o meio do mato. Um jovem que passava por ali me informou que o Camping só funciona no final de semana, mas ali atrás, disse ele, tem um hotel que funciona todos os dias. É muito caro, perguntei. Dez soles, disse-me ele. Isto equivale a R$ 7,70. Voltei, desci por uma estrada de pedra rodeada de uma linda vegetação e logo encontrei o Alojamento. O lugar é muito bonito rodeado de montanhas. Um quarto amplo, a rés do chão, com três camas. Coloquei a Tanajura pra dentro e fui procurar o banheiro para tomar banho. Surpresa, banho frio, ou melhor, com água gelada. Mas, para tudo dá-se o jeito. Pedi um balde, aqueci a água com o rabo quente e tomei mais um gostoso banho de cuia.

A água deve ter tanto cloro que os meus cabelos ficaram tão duros que quase não consegui pentear.

Depois do banho filtrei 3 litros de água e preparei o meu jantar. Neste período a luz foi embora três vezes.

Pelas belezas que vi hoje, pela alegria que senti no meu coração, Deus seja louvado.

Não tem jeito. É preciso pegar a estrada com determinação e seguir adiante sem medo. Quem nunca fez uma aventura como essa, dificilmente conseguirá entender do que é que eu estou falando. É como ver uma linda foto de um bolo e pegar um pedaço dele e comer.

 

 

 

15/05/2009 - PERU

Limatambo – Termas Cconoc – Municipalidad Distrital de Curahuasi

33,40 km em 2h52min

Total pedalado até hoje: 2.020 km

Horas pedaladas = 158 h

 

 

Ontem desci 22 km e hoje continuei a descer por mais 18 km até chegar à ponte quando comecei a subir. São 40 km seguidos de pura descida. Este é um privilégio para poucos. Mas, nada é de graça, tudo tem seu preço. Hoje já subi 14 km, 12 dos quais empurrando a Tanajura. Ainda faltam mais 30 ou 40, pois as informações são contraditórias.

Era quase 11 horas quando vi uma placa onde estava escrito:

Bienvendios a las Aguas Termo Medicinales de CCONOC Municipalidad Distrital de Curahuasi. A outra placa indicava a distância = 3 km.

Fotografei a placa e decidi acampar nas termas. Não reparei que ao lado da placa havia uma estrada de piçarra e segui adiante. Afinal eram só 3 km. Pedalei, isto é, empurrei a bicicleta por 1,5 km e encontrei um funcionário arrumando a estrada. Perguntei pelas termas e ele disse que a entrada era na placa. Mostrou-me onde esta a terma. Na beira do rio que ficava a uns 700 metros abaixo de onde eu estava. Pensei, analisei, ponderei e soltei a bicicleta morro abaixo até chegar à placa. Imagine que situação. As termas estavam exatamente a 3 km abaixo da placa. Iniciei uma das descidas mais loucas que já fiz até hoje.

Descer um desnível de 600 metros em três quilômetros. Era uma curva atrás da outra descendo vertiginosamente. Havia trechos bons e outros com muito cascalho. Para me equilibrar arrastava os pés no chão. A temperatura mudou drasticamente e subiu para 33 graus. Paguei 5 soles = R$ 3,84 para usar as termas e acampar por tempo indeterminado. O lugar é lindo e excelente para descasar. Na verdade hoje não me cansei nada, pois mais da metade da viagem foi descida. Mas como as águas são “medicinales” vou aproveitar e dormir duas noites aqui. Como vou fazer para sair daqui no sábado, não sei. Por enquanto é só relaxar.

 

 

 

16/05/2009 - PERU

Termas Cconoc – San Luis Bajo Km 156  Distrito de Curahuasi

30,58 km em 4h58min

Total pedalado até hoje: 2.0830 km

Horas pedaladas = 163 h

 

Durante a viagem de caminhão até Cusco o meu ciclocomputador desregulou. Fiz os devidos acertos, mas esqueci de ajustar o diâmetro da roda. Ao zerar ele voltou ao aro 26 e eu uso aro 24. Foi até interessante, pois caminhava até a 7 km por hora morro acima. Sentia-me orgulhoso com o progresso. Somente hoje de manhã caí na real ao ver que os 3 km não batiam. Acertei as medidas e refiz os cálculos desde Custo até as Termas.

Foram dois dias de descanso merecidos. A água das piscinas é cristalina. Embora a temperatura não seja muito quente, é suficiente para relaxar. Muita gente frequenta a piscina. Além do camping grátis, pode-se também alugar apartamentos por 17 soles. Na sexta-feira chegou muita gente, de carro, a pé e de bicicleta. Os jovens,, sobretudo, dormiam no chão ou no átrio do banheiro onde se troca a roupa. Alguns dormiam no lado de fora e outros em barraca. O clima é bastante quente na beira do rio Apurimac chegando a 33 graus durante o dia.

Levantei às 4 horas e deixei o acampamento às 5h30min. Uma hora empurrando a tanajura e chegue à beira da pista. Empurrei a bicicleta morro acima por quase 30 km seguidos. Foram poucos os trechos que consegui pedalar, não tanto pela dificuldad4 da subida, mas sim pela dificuldade da respiração. Fiquei feliz quando cheguei a Curahuasi, pois pensava que já estivesse no topo da montanha. Parei, fiz um bom lanche e me informaram que deveria subir uma grande montanha até chegar a mais de 4.100 metros de altitude. Depois de uma pequena descida, iniciei a subida. Às 13h30min eu estava no km 156 e ainda faltava mais de 15 km de subida para chegar ao cume. Encontrei uma jovem canadense que descia de speed. Conversamos um pouco e ele me mostrou as famosas antenas. Disse que as antenas estavam a 20 km de distância. Olhei para cima e decidi procurar um lugar para acampar. Perto há via uma igreja. Ao lado da igreja um portão aberto dava entrada a uma linda residência. Entrei e encontrei o Sr. Alberto Valer 73, o Sr. Eduado Ortiz Miranda 70 e Dona Concepción Pancorvo Castañera que estavam no chão escolhendo feijão. Fizeram-me um convite to gentil que não pude resistir. Era tudo o que eu precisava. Um lugar tranquilo e seguro para passar a noite.

 

 

 

 

17/05/2009 - PERU

San Luis Bajo Km 156  Distrito de Curahuasi - Abancay

60km em 5h40min

Total pedalado até hoje: 2.143 km

Horas pedaladas = 169 h

 

Como na casa não havia luz elétrica, deitei-me às 18 horas para descansar e logo adormeci. O Eduardo me acordou às 6 horas da manhã. Embora eu tivesse dormido 12 horas seguidas, ainda estava com sono. Não parece mas caminhar morro acima empurrando uma bicicleta com 56 quilos não é nada fácil.

Às sete horas iniciei mais uma etapa que parecia ser fácil. Dormi a 2.900 metros de altitude e tive que chegar a 4.100 empurrando a Tanajura por 23 km de subida continuada. À medida que eu chegava perto dos 4.000 metros a respiração ficava mais difícil e eu tinha que parar a cada 200 metros ou menos, dependendo do grau da inclinação do terreno. Quando parecia que já estava chegando no cume, olhava para cima e via um caminhão descendo lá nas “grimpas”.

Para saber como é esta sensação é preciso experimentar. Não se pode descrever com palavras. O mais importante de tudo é dispor de tempo. Cheguei ao cume sem me estressar às 14h30min. No início da descida uma placa indicava Abancay a 30 km. Trinta quilômetros de descida alucinante saindo de 4.100 para chegar a 2.000 metros. E eu que achava a Serra do Rio do Rastro emocionante. Mas a coisa não para por aqui. Tenho mais duas “Abras” para atravessar antes de chegar ao Pacífico, uma de 4.200 e outra de 4.330 metros. Haja fôlego.

Estou num Hostal no centro da cidade e vou descansar até terça-feira e depois sigo para mais uma terma, desta vez bem quentinha.

UM GRANDE ABRAÇO A TODOS E TODAS.

 
 
 

06/05/2009 - PERU

Puerto Maldonadeo – Laflorida

49,46 km em 3h29min

Total pedalado até hoje: 1.849 km

Horas pedaladas = 141 h

 

A parte da manhã foi meio confusa. O Roberto foi à procura de uma oficina para consertar o bagageiro da bicicleta que havia quebrado, eu saí à procura de um mapa do Peru, mas não o encontrei. Na Prefeitura só havia o mapa da cidade e na Biblioteca Municipal não havia nada. O jeito foi ficar com o mapa baixado na Internet.

Voltei para o quarto às dez horas e como não encontrei os dois, escrevi o meu diário e fui acessar a Internet. Quando voltei ao hotel encontrei os dois preparando a bicicleta para partir. O pior foi        que eles já tinham almoçado e tive que montara a minha bike às pressas e sair sem comer.

Iniciamos a pedalada às 14h10min e chegamos ao destino quase de noite, às 17h25min. Os últimos 15 km foram sem asfalto e a estrada estava muito ruim pois as máquinas estão espalhando pedra na pista. Acampamos numa serraria onde fomos muito bem acolhidos.

 

 

06/05/2009 - PERU

Laflorida – KM 120

71,70 km em 5h57min

Total pedalado até hoje: 1.921 km

Horas pedaladas = 147 h

 

Foi um dia bastante difícil numa estrada com muitas subidas e um piso nada animador. As informações de distâncias como sempre são contraditórias. Perto de meio dia encontramos uma senhora que vendia suco de carambola e empanada. Tiramos a barriga da miséria, pois estávamos sem pão a dois dias e as bolachas já não eram suficientes para matar a fome.

No Km 103, 104 e 105 deparamos-nos com uma situação no mínimo inusitada. Vários acampamentos em casas construídas de pau a pique e cobertas de palhas. Era de um movimento parecido com os nossos sem terras do Brasil, só que muito mais organizado que os nossos. A maioria dos ocupantes possuía carros ou motos. Havia de tudo no acampamento, bares, restaurantes, bazares e até alojamento para quem quisesse passar a noite. Havia até uma espécie de feira com vários caminhões descarregando todo tipo de mercadoria. Pela pouca informação que tivemos, eles estão à espera de lotes de terra.

Pouco depois das 13 horas o tempo fechou rápido e mal conseguimos nos abrigar numa casa aparentemente abandonada, mas com sinal de sobreviventes nela. Nesta área é comum ver casas abandonadas que são ocupadas por peões que trabalham na coleta da castanha. Choveu forte por mais ou menos uma hora, o suficiente para refrescar o tempo.

Continuamos a nossa pedalada e o tempo passava rápido e ainda faltava bastante para chegar a um povoado para pernoitar. Às 15h30min chegamos a uma casa coberta de palha onde havia um riacho e uma fonte onde um jovem se banhava. O rapaz nos disse que a casa não era de ninguém e que podíamos entrar. Um senhor apareceu em seguida e disse que podíamos ocupar a casa da frente. Eles ocupavam a outra que ficava nos fundos. Armamos as barracas na parte assoalhada e dormimos na companhia das ovelhas que dormiram na parte de baixo onde havia um fogão a lenha. Como estávamos cansados, deitamos às 18 horas. A noite foi comprida e a partir das 3 horas da manhã o Roberto começou uma sinfonia que só acabou às 5h30min quando levantamos.

No dia 8 tínhamos em mente pedalar 90 km e chegar a Mazuco. Pelas informações, erradas como sempre, a estrada seria plana e logo pegaríamos o asfalto. Depois de pouco mais de uma hora na estrada tínhamos que atravessar um riacho num desvio da ponte em construção. O Alexandre tentou passara pedalando e caiu na água. Eu e o Roberto estávamos procurando a melhor maneira de passar quando apareceu um caminhão e nos ofereceu carona. O Roberto disse que sim, pois pensou que era para atravessar o riacho. O motorista seguiu adiante e parou onde estava o Alexandre e o convidou para ir até Mazuco. Nós três concordamos pois ganharíamos um dia de pedalada. Como o Alexandre está correndo contra o tempo, a oferta da carona não podia ser melhor.




O motorista do caminhão, o Sr. Rubens nos ajudou a colocar as bicicletas em cima da carroceria que era totalmente aberta. O caminhão servia para transportar máquinas e estava voltando vazio. Quando ele falou que ia até Cusco eu já me prontifiquei a seguir com ele até o destino final. Os outros dois iriam somente até Mazuco. Quando o caminhão começou a se movimentar, ficamos assustados. As bicicletas estavam soltas e nós em cima da carroceria sem nenhuma proteção. A cada buraco as bicicletas pulavam de um lado para o outro. A minha que era a última, começou a cair para o lado direito. Tive que sair engatinhando, me agarrando nas outras bicicletas para puxar a pobre da tanajura para o meio da carroceria. Peguei uma corrente e com muito custo amarrei as três bicicletas. Melhorou um pouco, mas mesmo assim não estavam seguras. Continuamos nos solavancos e para a nossa surpresa, depois de meia hora enfrentamos uma grande subida com alto grau de dificuldades. Foi então que percebemos que este trecho até Mazuco só seria vencido em dois dias de pedalada. Como eu já tinha decidido ir até Cusco, os dois conversaram e resolveram me acompanhar. Eram 9 horas da manhã e a previsão de chegada a Cusco era a meia noite. Às 10h30min paramos para almoçar. Compramos folhas de coca para fazer o famoso mate de coca para enfrentar a cordilheira. Preparamos o chá e deixamos pronto para beber mar tarde. Seguimos viagem e mais adiante, um jovem que viajava na cabina desceu e eu fui para frente. Íamos fazer revezamento a cada duas horas. Mas a alegria durou pouco. A cada trecho a estrada é interditada por varais horas por causa do trabalho das empreiteiras. Na primeira barreira o motorista conseguiu passar porque trabalha para empresa construtora. Na segunda barreira, a cosia ficou preta. Não só não o deixaram passar, como um guarda da segurança quis autuar o motorista por levar passageiros na carroceria sem segurança. Houve um bate-boca feio e por fim tivemos que viajar os três na cabina. Mesmo assim tivemos que esperar duas horas. Seguimos em frente por trancos e barrancos. Chegamos a Quincemil e a estrada já subia fortemente. Em Marcapata já estávamos nas alturas. Com seguimos viajar até às 17 horas e ai tivemos que esperar até meia noite para poder continuar. Estendi o saco de dormir em cima da carroceria e dormi até a hora da partida. Os outros dois deitaram em cima de uma mesa mas dormiram pouco. Antes de deitar, o motorista teve o bom senso de amarrar as três bicicletas em pé. Assim podemos viajar mais tranqüilos.

O acento do caminhão acomodava duas pessoas um pouco apertadas. O problema era que tínhamos que conseguir espaço para três. Eu fiquei no meio e o Alexandre pendurando na ponta do banco, numa posição bastante desconfortável. Não havia lugar para colocar as pernas. Depois de várias tentativas eu coloquei o saco de dormir atrás das costas e me sentei bem na frente do banco dando assim espaço para os dois ficarem mais a vontade. Mesmo assim a noite foi pesada. Chegamos a Custo às 8 horas da manhã.

A subida das cordilheiras é algo de impressionante. Como era noite de lua cheia e não conseguíamos dormir, pudemos apreciar a grandiosidade da natureza. Chegamos a 4.751 metros de altitude. Os cumes estavam nevados e o frio castigava, bem abaixo de zero. Dentro da cabine estava mais ou menos confortável, mas com os dois vidros abertos o vento que entrava pela janela era bastante frio. Ao iniciarmos a descida o Alexandre começou a chamar o Hugo e vomitou em cima da blusa do motorista. Paramos, descemos e aí foi que sentimos o quente esta frio.

Toda a parte da descida está asfaltada e para nossa sorte descemos de dia. O espetáculo que se vê é indescritível. Achei bem mais impressionante que a Custa del Lipan da Argentina. A descida vertiginosa acaba no vale de Cusco.

Desembarcamos a 10 km do centro de Custo. Depois de tirar algumas fotos na Praça de Armas, fomos à procura de um Hostal para o Roberto e o Alexandre. Eu vim para o Colégio Salesiano e fui muito bem recebido. Só vou seguir viagem na quarta-feira.




03/05/2009 - PERU

Assis Brasil AC – Ibéria Peru

68 km em 5h06min

Total pedalado até hoje: 1.623 km

Horas pedaladas = 124 h

 

 

Chegou o tão esperado dia de sair do Brasil. Embora não seja a primeira vez que eu faça uma viagem internacional, desta vez tem um sabor especial, pois trata-se do primeiro de mais de 70 países que vou conhecer. Ainda estou no primeiro dia e muita coisa vai acontecer.

Na véspera da partida eu tinha ido a uma Internet para atualizar o Diário de Bordo e como a conexão era muito lenta não consegui atualizar o mapa do Google. Voltei ao hotel já perto das 23 horas e vi um grupo de pessoas sentado no outro lado da rua, bem na frente do hotel. A bicicleta estava na varanda e fiquei com receio e resolvi levá-la para dentro do quarto. Foi então que percebi que a haste com as bandeiras do Brasil e do Projeto não estava na carenagem. Tinha ficado dentro do ônibus. Por sorte o ônibus estava estacionado bem na frente do hotel e só ia sair às 6h30min. Preocupado em perder a hora coloquei dois relógios para despertas às 5h30min. Antes das 6 horas eu já estava a espera da agência abrir. O motorista só chegou às 6h20min e eu recuperei a minha bandeirinha. Voltei para o quarto e dormi até às 8 horas.

Pedalamos até a alfândega brasileira, fizemos os trâmites e partimos com calma para chegara à Aduana peruana que só abria às 9 horas. Cambiamos os reais em soles peruanos e depois de uma longa espera de mais de vinte minutos depois das nove horas, chegou o funcionário da alfândega na maior calma dizendo que não havia táxi para levá-lo. Quando conseguimos iniciar a viagem já era quase 10 horas da manhã. A pedalada foi tranquila embora a estrada apresentasse muitas subidas que dificultaram um pouco.

O que mais me chamou a atenção no lado peruano foi ver como a floresta amazônica se conserva intacta. No lado brasileiro, no Estado do Acre a devastação é total. No lado peruano a floresta é exuberante. O desmatamento na beira da estrada não passa de cem metros. Dezenas de placas ao longo da rodovia convidam as pessoas a conservarem o bosque intacto. Parabéns povo peruano.

Pedalamos 68 km e chegamos a uma pequena localidade chamada Ibéria. Bem perto da cidade uma placa indicava a entrada de um balneário com piscina e trilhas ecológicas. Não tivemos dúvidas. Entramos para conferir mais de perto. O lugar era fantástico, mas o encarregado disse que não podia autorizar que nós armássemos as barracas ali. Tínhamos que ir até a cidade e falar com o prefeito para pedir autorização. Saímos os três, compramos mantimentos para o jantar e fomos até a casa do prefeito que sem mais delongas autorizou a nossa dormida no balneário. Aí foi só alegria. Banho de piscina, freezer para gelar água, mesa, cadeira e área coberta para armar as barracas.

Às 20h30min todos já estávamos na cama.

 


 

 

04/05/2009 - PERU

Ibéria Peru - Mavila

90 km em 5h58min

Total pedalado até hoje: 1.714 km

Horas pedaladas = 131h

 

 

A noite teria sido excelente se não fosse pela sinfonia de ronco do Roberto. Mas mesmo assim, entre um intervalo e outro era possível dormir.

Iniciamos a pedalada às 08 horas e depois de pedalar 90 quilômetros, chegamos, às 15 horas, a um pueblo chamado Mavila. Procuramos pelo responsável pela seguridad e fomos encaminhados para a casa da Dona Inês, uma senhora muito simpática que nos acolheu e abriu as portas da sua casa paras que armássemos as nossas barracas numa grande sala que ainda está em construção. O esposo que estava de serviço só chegaria à noite. Tomamos um excelente banho de cuia e saímos para tomar uma cerveja gelada e comprar pão.

O percurso de 90 km foi sempre pelo meio da floresta amazônica. É impressionante como a floresta se conserva intacta no Peru. A estrada que passa pelo meio da selva não agride o meio ambiente. O único problema para o cicloturista é que existem poucos pontos de apoio. Somente nos pueblos se consegue alguma coisa. A estrada com asfalto novo é gostosa de pedalar mas em compensação é um sobe é desce constante. O sol também estava muito quente o que desgastou um pouco, mas depois do banho tudo voltou ao normal.

 

 

 

04/05/2009 - PERU

Mavila – Puerto Maldonado

86 km em 6h56min

Total pedalado até hoje: 1.800 km

Horas pedaladas = 138h

 

Já passava das sete e meia e estávamos prontos para partir quando começou a chover. O sol ainda exibia seus tímidos raios, mas aos poucos a chuva foi aumentando e se transformou num grande aguaceiro. Aproveitamos para coletar água da chuva para a viagem. A chuva passou e iniciamos a viagem num ritmo normal. Mas a alegria não durou muito. Aos 50 km acabou o asfalto. Entramos na estrada de lama, mas sem chuva. Pedalamos em torno de cinco quilômetros, o tempo de chegar a um abrigo e a chuva despencou. Esperamos alguns minutos. O Roberto e o Alexandre vestiram a capa de chuva e seguiram para Puerto Maldonado. Eu esperei a chuva passar. Estava disposto a passara a noite ali mesmo e seguir no dia seguinte, mas depois resolvi enfrentar a chuvinha fina. Foi o trecho mais pesado da viagem. A lama entrava por baixo do para-lama e bloqueava a roda. Onde as máquinas estavam trabalhando o jeito era empurrar a pobrezinha da tanajura pelo meio da lama. Pedalei uma hora e meia e alcancei os dois que depois se distanciaram de novo, pois eu tinha que fazer a minha parada para descansar.

Encontramo-nos de novo às margens do Rio Madre de Dios. Fizemos a travessia de balsa e depois de uma longa ladeira, chegamos a Puerto Maldonado e nos hospedamos num Hostal bem no centro.

Puerto Maldonado é uma cidade bonita, com amplas avenidas. O que impressiona é ver a quantidade de motos e de triciclos, motos transformadas em triciclos a circularem pela rua.

Ainda estamos indecisos se seguimos hoje ou amanhã.