Total pedalado até o dia 01/05/09 = 1.555 km Tempo total = 120h
29/04/2009 Rio Branco AC – Hortigrangeira AC 73 km em 4h46min Total pedalado até hoje: 1.380 km Horas pedaladas = 108 h
Eu já estava me sentindo cansado de tanto esperar. No dia anterior tinha feito uma gravação na TV Rio Branco e para minha surpresa foi ao ar no mesmo dia. Após a entrevista na TV e no Jornal Rio Branco, fui até a casa do Gilberto, o Trota Mundo. Era a segunda vez que eu me encontrava com ele. Assunto ele tem demais. Tive a ousadia de mostrar a ele a minha pasta com artigos de jornais e revistas. Ele admirou, elogiou, mas quando me mostrou o acervo dele fiquei até com vergonha. Até agora eu só pedalei em sete países e ele já passou por 153 países. O Gilberto começou a pedalar em 1980, eu em 2003. É bem verdade que no final desta minha odisseia já terei mais de 70 países, mas mesmo assim é menos da metade do que ele já fez. Batemos fotos e conversamos até o anoitecer. Recebi dele um bilhete para hospedagem em Assis Brasil.
Marquei com o Roberto para iniciar a pedalada às 7 horas. Levantei cedo e às 7 horas passei na TV para pegar o DVD da filmagem com o vigia. Infelizmente o DVD não tinha sido gravado. O funcionário pediu para eu esperar quinze minutos que ele ia fazer a cópia. Só que os quinze minutos duraram cinquenta. Cheguei à rodoviária com uma hora de atraso. Tomei café, parei para comprar uma garrafa de um litro e meio para levar água, compramos laranja e iniciamos a pedalada depois das nove horas. A nossa meta era chegar até Capixaba a 85 km de Rio Branco, mas tivemos que parar um pouco antes, pois o Roberto teve o mesmo problema do meu amigo Giorgio Testoni durante a caminhada para Madre Paulina, ou seja, travou as pernas. Ainda bem que tínhamos chegado a um povoado chamado Hortigrangeira. Procuramos um lugar para armar a barraca e chegamos à Igreja Congregação no Brasil. Fomos acolhidos pelo caseiro da comunidade, o Darlan, que mora atrás da igreja. Armamos a barraca na varanda da casa e depois do banho fomos tomar açaí na casa do vizinho. Aproveitei para assistir a reportagem do dia anterior junto com o pessoa local. Interessante foi ver a reação das pessoas ao me verem na TV e ao mesmo tempo eu sentado na sala ao lado delas. Voltando para o nosso acampamento fiz uma demonstração do fogareiro a álcool que ganhei do Paulo, mas o Roberto preferiu cozinhar no fogão da Geane.
30/04/2009 Hortigrangeira AC – Piçarreira KIM 193 – Município de Xapuri AC 71 km em 4h43min Total pedalado até hoje: 1.452 km Horas pedaladas = 112 h
Durante o jantar, para variar Miojo com sardinha em lata, o Darlan nos mostrou o álbum de casamento e mais outros álbuns da família. Como todos sabem, e quem não sabe fique sabendo agora, quando uma pessoa mostra o álbum de família para alguém é sinal de confiança e partilha. Ficamos muito honrados por termos sido tratados assim, como se nós fôssemos pessoas da família. Ele arrumou também um pouco de arnica para o Roberto fazer massagem para “desembaraçar” os caroços da cocha. Parece que deu resultado, pois hoje o Roberto se comportou muito bem e não sentiu dores nas pernas. Ao meio dia paramos num abrigo de ônibus para merendar. O sol estava quente e o Roberto vestiu uma calça de tactel. Depois da merenda decidimos tirar uma soneca até as 13 horas. Mas nem chegou às 13 horas e começou a chover. Choveu forte durante uma hora. Aproveitamos para coletar água e às 14h30min continuamos a pedalar. A estrada segue sempre pelo meio de fazendas de gado e não é fácil conseguir um lugar para acampar. Chegamos num bar de beira de estrada e o dono estava de saída. No começo mostrou-se um pouco preocupado em nos deixar acampar ali. O Roberto me chamou para conversar com ele. Acho que o homem gostou da minha cara e deixou que nós armássemos as barracas numa área coberta onde havia uma mesa de sinuca. Aí foi fácil. Um cumprade dele, o Sr. Pedro, seringueiro, contador de histórias que estava hospedado ali se responsabilizou de nos assistir. Tomamos banho de cuia, lavamos a roupa fomos preparar o jantar. Conversei com o Sr. Pedro até às 21h30min quando o gerador de luz foi desligado.
01/05/2009 Piçarreira KIM 197 – Município de Xapuri AC – Brasileia AC 103 km em 7h03min Total pedalado até hoje: 1.555 km Horas pedaladas = 120 h
Acordei às seis horas com uma sinfonia meio desafinada, mas mesmo assim interessante. Uma galinha de angola começou a cantar às seis horas e só parou depois das sete. O ganso com uma voz rouca gritava feito um condenado. O galo cantava sem parar. Mas o pior de tudo era um porco que grunhia desesperado bem perto da barraca. Acho que ele estava adivinhando que ia ser castrado naquele dia. Ainda bem que nós estávamos numa varanda a um metro de altura. Quando desci para escovar os dentes, recebi uma bicada do ganso. Mais tarde o Sr. Pedro trouxe um pouco de milho e jogou para a bicharada. Todos se acalmaram um pouco, menos a galinha de na gola que permaneceu no mesmo lugar esgoelando o bico. Já passava das oito horas quando iniciamos a pedalada. A jornada era longa e o sol prometia castigar e castigou mesmo durante todo o dia. O Roberto estava com receio de ficar para trás e pediu para sair um Ainda no frescor da manhã, com sol cobrindo a estrada e a paisagem com seus raios mornos, comecei a meditar. Fiz uma oração de louvor, em voz alta, tão bonita que cheguei a me emocionar. Era uma conversa. Comecei louvando e agradecendo a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo e terminei com um diálogo filial com Nossa Senhora. As palavras fluíam dos meus lábios com tanta eloquência que cheguei a me admirar de mim mesmo. Senti de perto e quase podia tocar com a mão a presença de Deus em mim. Se desde o início da viagem até agora só tivesse acontecido isto, já teria valido a pena. Tenho certeza de que durante o resto da viagem muitas outras meditações irão acontecer.
Tínhamos pedalado 70 km, a meta era 100 km quando o Roberto começou a ter problema com o cambio traseiro. Ele virou a bicicleta coma as rodas para cima e tentou corrigir o erro, mas parece que piorou. Até ali ele só conseguia usar quatro das sete marchas. Mais adiante ele me disse que só estava com duas marchas. Como a estrada tinha muita subidas, a maior parte delas foi feita empurrando a bicicleta. Eu tinha que acompanhá-lo e aproveitei também para descansar um pouco empurrando 52 quilos morro acima.
Chegamos a Epitaciolândia às 18 horas e fomos até a casa de uma família que me tinha sido indicada pelo Trota Mundo, em Rio Branco, mas como era feriado havia muita gente na casa e não havia lugar para nós dois. Saímos então à procura de um hotel barato, mas os quartos econômicos já estavam todos ocupados. Um senhor percebeu que nós queríamos um lugar barato para passar a noite e nos encaminhou para a cidade vizinha, Brasileia que fica do outro lado do rio. Encontramos lugar na Pousada Popular por apenas R$ 10,00. Valeu ter atravessado a ponte.
02/05/2009 Brasileia AC – Assis Beasil AC de ônibus
Bye Bye Brazil
Consertamos a bicicleta do Roberto e fomos caminhamos até Cobija Bolívia onde comprei um radinho de pilha e o Roberto comprou um Pendrive. Às 16 horas embarcamos no ônibus com as nossas magrelas e seguimos para Assis Brasil onde o Alexandre nos esperava. Hospedamos num hotel bem na frente da rodoviária e amanhã cedo vamos entrar no Peru. Vamos pedalr juntos por uns 300 km e depois, pelos vistos vamos nos separar, pois eles querem ir para o sul e eu vou para o norte, em direção Cusco para seguir para Lima.
Cuiabá MT – Rio Branco AC 24 a 29 de abril de 2009 A viagem de Cuiabá até Rio Branco foi mais rápida do que eu esperava. O ônibus encostou na rodoviária às 03h da madrugada. Comecei a fazer a montagem da bicicleta em câmara lenta, sem pressa para esperar o dia amanhecer. Tudo ficou perfeito menos o câmbio que tinha sido removido por segurança e na hora da montagem não funcionava direito. Assunto para ser resolvido mais tarde numa oficina de bicicleta. À medida que o dia amanhecia aumentava o número de curiosos. Alguns apenas olhavam e tocavam em alguma parte da bicicleta como que para ver se era mesmo algo real. O dia amanheceu e às 06h30min telefonei para a casa do Ariquemes onde eu ia me hospedar. Uma voz de sono atendeu no outro lado da linha. - Alôoooo... - Alô. Bom dia, disse eu cheio de energia positiva. É da casa do Ariquemes? - Hã?! - Sou o Valdo, cicloturista e estou na rodoviária. - A mãe está dormindo. - Eu já montei a bicicleta e posso ir pedalando até aí. (O Ariquemes tinha me oferecido uma condução no contato por e-mail.) Pode me passar o endereço? - Endereço? - Sim, o nome da rua e do bairro. - Fica duas ruas antes da Malharia Ponto sem Nó. - Qual é o bairro? - Bairro? Hum, deixa eu ver... Procon - E o nome da rua? - Rua São Paulo. - Tem número? - Número 527. - Tem alguma avenida principal que chega aí? - Tem várias. - OK. Então dentro de uma hora eu chego aí. - Uma hora é muito cedo. - Às nove horas então. Está bom? - Está. Passa o número do seu telefone. - Não tenho telefone, estou no orelhão. - Está bom. - Até logo então. - Até logo. De posse destas informações dirigi-me ao ponto de táxi e obtive as informações de que precisava. Depois de sete quilômetros de pedalada já estava no posto de gasolina a três ruas da malharia. Beleza. Perguntei onde ficava a Rua São Paulo e aí começou a novela. Ninguém conhecia a rua São Paulo. Mas como eu já avistava a malharia, bastava contar as ruas e entrar duas ruas antes e pronto. Muito simples. Como ainda era cedo, pedalei até uma oficina de bicicleta para regular o câmbio. De novo ninguém conhecia a Rua São Paulo. Comecei a procurar todas as ruas antes e depois da malharia e nada de encontrar a tal rua. Entrei na segunda rua e fui procurar o número 527. Também não existia. A numeração acabava antes. Como já se aproximava das nove horas, procurei um orelhão e liguei de novo. Desta vez quem me atendeu foi o Ariquemes. Pediu para eu esperar na malharia que ele ia me buscar. Resolvido o problema esclareceu-se o mistério. Quem tinha atendido ao telefone na primeira vez tinha sido o Mateus, irmão mais novo do Ariquemes. O nome da rua não era São Paulo e sim 1 de janeiro e o número não era 527 e sim 257. E mais, o nome do meu hospedeiro não era Ariquemes e sim Adolfo. Ariquemes era o nicname no Cuchsurfing. Pronto, finalmente eu estava em casa novamente. Como sempre acontece, tive um atendimento VIP. O Sr. Eugênio, pai do Adolfo e do Mateus abriu as portas da casa para mim e me deixou muito à vontade. A seguir conheci a Vó Raimunda e dona Joana, a mãe dos meninos. O que aconteceu depois nem precisa descrever, pois foi tudo maravilhoso. Na parte da tarde saí com o Sr. Eugênio para conhecer um pouco a cidade e no final me deixou na casa do cicloturista Gilberto, o famoso “Trotamundo” que pedala desde 1980 e já percorreu 153 países com mais de 400.000 quilômetros em cima da magrela. Foi um encontro maravilhoso com muita troca de experiência. No domingo visitei o horto florestal e na hora do almoço o Sr. Eugênio preparou um prato que fazia alguns anos que eu não comia. Imaginem só, Tambaqui na brasa e Caldeirada de Dourado. Lembrei-me do Salmão Pedalando pela Paz na casa do Ggladstone, em Esteio RS e do Pacu na casa do Paulo em Cuiabá MT. Mas toda esta mordomia tem um preço a pagar. Dos oito quilos que emagreci nas primeiras semanas, já recuperei quatro. Mas como disse o Eugênio tenho que armazenar gordura parra queimar nas cordilheiras, em breve. Na segunda-feira, dia 27, mudei de casa e me hospedei na casa da Camila Lima, bem perto do centro. Nesta cassa todos trabalham o dia inteiro. Cheguei às 10 h e recebi uma cópia do portão de entrada da casa. Fiquei totalmente à vontade com um apartamento, com ar condicionado, só parra mim. Aproveitei para conhecer o centro da cidade e fui até a Rodoviária para deixar um recado para o Roberto. Como tenho o privilégio de ser “jovem” não preciso pagar o ônibus. Pena que esta mamata vai acabar em breve, pois nos outros países não existem privilégios para os idosos. Na terça-feira fui de novo até a rodoviária e me encontrei com o Roberto, almoçamos e voltei, pois tinha que gravar um programa na TV Rio Branco da SBT. Gravando o programa Boa Noite Rio Branco com Jorge Said. Rio Branco, a Capital do Acre é uma cidade linda, muito limpa e cheia de ciclovias. Embora existam várias ladeiras na cidade, é muito grande o número de ciclistas pedalando pela cidade. Fazia tempo que eu não via tanta gente pedalando numa cidade. É bonito de se ver. Gente de todas as idades. As ciclovias no centro e espalhadas pelos bairros ajudam os ciclistas a se locomoverem com segurança. Como em qualquer cidade da Amazônia, o clima é quente é úmido. Como estamos no final do inverno com chuvas, o clima está ameno, mas basta pedalar um pouco par sentir o efeito do calor. Gravei um programa na TV Rio Branco filiada da SBT com o título: Boa Noite Rio Branco com Jorge Said que deve ir ao ar daqui a dois quando eu já estiver na estrada. Vou conseguir uma cópia em DVD e assim que for possível eu coloco no You Tube. Quero deixar aqui registrado o meu sincero agradecimento à Família da Camila Lima que me acolheu com tanto carinho e confiança. Encontrei a Camila através site www.hospitalityclub.org. Você que também gosta de viajar inscreva-se e participe desta comunidade sem fronteiras. No meu site você encontra a lista das principais. Viva esta experiência que você vai gostar. Amanhã, dia 29, eu começo a pedalada no Acre rumo ao Peru. São 350 km até a fronteira e vamos tentar fazer em 4 dias. Então, até o Peru!
Esteio RS – Cuiabá MT Viagem de ônibus A hora da despedida é sempre complicada. A gente faz amizade com as pessoas e sabe que vai ter que se ausentar para prosseguir a viagem. Embora a convivência seja curta, o vínculo que se cria com as pessoas é muito forte. Em pouco tempo, parece que você já faz parte da família. Penso que isto deve acontecer com todos os cicloturistas que viajam sozinhos. Quando a viagem é feita em grupo a interação com as pessoas é diferente. O grupo prende mais. Depois do lindo passeio de bike em Porto Alegre voltamos para casa de trem e ainda fui atualizar o meu site. O tempo passou rápido e quando chegamos na rodoviária já era 22h25min. O último trem era às 23h15min. O Gladistone me ajudou a desmontar a Tanajura para fazer a embalagem. Ainda falta um pouco para terminar a embalagem e o relógio já marcava 23h10min. O Gladistone saiu correndo para não perder o trem. Eu continuei o meu trabalho com calma, pois tinha toda a noite pela frente. Era quase meia noite quando terminei o trabalho. O movimento de pessoas era intenso e o barulho dos ônibus era forte. Passados quinze minutos da meia noite a rodoviária ficou deserta. Um guarda veio falar comigo, pediu para ver a passagem e sugeriu que eu fosse descansar no piso superior. O problema era a bagagem. Pelo rádio ele se comunicou com outros guardas, mas já não havia nenhum carregador de serviço. O guarda volumes ficava no outro extremo da rodoviária. Resolvi passar a noite ali mesmo. Um índio que ia viajar para Santa Catarina também ia esperar o dia amanhecer ao lado dos seus 20 volumes de bagagem. Sentei-me ao lado dele e combinamos que quando um dormisse o outro vigiasse as bagagens. As horas se arrastavam lentamente. O sono chegou. Coloquei o capacete para servir de travesseiro e deitei-me no chão, ao lado da bagagem. O meu companheiro ia me avisar quando fosse preciso levantar. Não dormi nem dez minutos e ele me acordou. O pessoal da limpeza já tinha chegado ali. Levantei. Passou o primeiro grupo desinfetando o chão ao lado das paredes. Mais uma hora se passou e me deitei de novo. Alguns minutos de repouso e chegou a turma com a mangueira de água. Tivemos que retirar a bagagem do chão para eles realizarem o serviço. Eram 10 funcionários trabalhando em ritmo acelerado limpando tudo o que viam pela frente. Quando o piso secou já era quase cinco horas da manhã. Ainda consegui cochilar um pouco sentado e o dia amanheceu. Às 07h45min embarquei e dormi até a hora do almoço. A viagem foi tranquila. Em Cascavel trocamos de ônibus e quando o dia amanheceu já estávamos em Mato Grosso do Sul. A viagem foi mais curta do que eu esperava. Apenas 36 horas. A surpresa na chegada em Cuibá Às 19h30min desembarquei em Cuiabá e para minha surpresa, vi um senhor com a máquina fotográfica na mão apontando a lente para mim. Pensei que ele estivesse recebendo outro passageiro, mas o sorriso nos lábios e os braços abertos na minha direção não me deixaram dúvidas. A recepção era para mim mesmo. Era o Paulo Toschi que tinha me convidado para me hospedar na casa dele. Rastreou a minha viagem e descobriu a hora exata que eu ia chegar. Daí para frente foi só alegria. Colocamos a Tanajura em cima do fusquinha e seguimos para Várzea Grande que fica do outro lado do Rio Cuiabá a poucos quilômetros. Fui recebido em casa por uma simpática anfitriã, dona Geni e mais tarde chegou o Paulinho, filho do casal. Os três foram tão espontâneos e amáveis que de novo me senti em casa. Ainda estou por descobrir esta magia das pessoas a meu respeito. Receber dentro de casa um velho estranho, como se fosse membro da família não é muito normal. Mas acho que o mérito não é meu e sim da bicicleta e da aventura que estou realizando. Para minha surpresa e sem eu saber, estava na casa do inventor do fogareiro a álcool feito de latinhas de refrigerante. Fui presenteado com um, depois de uma demonstração no preparo do café. Recebi uma aula prática de como fazer o fogareiro durante a viagem e ganhei outro para dar a um amigo cicloturista. Eu não sou muito habilidoso para trabalhos manuais, mas vou tentar fazer alguns durante a viagem. Quem estiver interessado em fazer um basta entrar no Blog do Paulo http://toschinetto.blogspot.com/ Chapada dos Guimarães Sempre tive vontade de conhecer a Chapada dos Guimarães. Já conheço a Chapada dos Veadeiros e a Chapada Diamantina, esta ficava ou pouco fora de rota para mim. Pois este sonho também se realizou no dia 21 de abril. Fui de carro, na companhia do Paulo e do Paulinho com sua namorada Taís. Tomamos banho de cachoeira, almoçamos num restaurante típico e visitamos todos os pontos turísticos, menos o véu de noiva que estava com o acesso interditado. Este é um daqueles passeios que a gente não esquece nunca mais. Valeu Paulo. Hoje a noite, dia 22, viajo para Rio Branco no Acre e vou chegar no dia 24 para esperar pelo Roberto que via ser o meu companheiro para fazer a travessia do Peru. 12/04/09 Nova Petrópolis RS – Bom Princípio= 56 km Total pedalado = 941 km Tempo total = 74h43min A companhia do Egon, da Sonja e do Leonardo era tão boa que acabei ficando cinco dias na casa deles. Sabe quando você se sente bem, como se estivesse na própria casa? Pois era assim que eu me sentia n Linha Imperial, município de Nova Petrópolis RS. Tive a oportunidade de participar do Tríduo Pascal. A igreja ficava a poucos metros da casa onde eu estava. O Leonardo estava de serviço até sexta-feira ao meio dia. No sábado fomos a Nova Petrópolis para as compras. Comprei 4 parafusos para conserta a tampa da carenagem da Tanajura. Depois das compras o Leonardo nos levou no mirante Ninho das Águias onde desfrutamos de uma visão magnífica. Na parte da tarde aproveitei para preparar a Tanajura para a próxima etapa que seria até Montenegro RS. Iniciei a viagem às sete horas na companhia do Egon que pedalou até Nova Petrópolis e do Leonardo que desceu os 10 km de serra para me acompanhar até a ponte do rio caí. Enquanto eu descia a serra pensava no Leonardo que teria que subir tudo de novo para voltar para casa. Vejam o que um amigo é capaz de fazer pelo outro sem esperar nada em troca a não ser a satisfação de pedalarem juntos. Obrigado Leo. Depois de descer a serra a estrada continuava tranquila com algumas subidas leves. Passei por uma cidade chamada Feliz e segui em direção a Bom Princípio. Já estava chegando aos 50 km e faltava pouco mais de 35 km para chegar a Montenegro, a meta de hoje. De repente comecei a sentir um deslocamento estranho na bicicleta. Parei para ver se tinha furado um pneu. Os dois pneus estavam bons. Pedalei mais um pouco, mas sentia que alguma coisa não estava direito. Apeei de novo e descobri o defeito. O quadro tinha quebrado logo acima da suspensão.
Empurrei a bicicleta até um posto de gasolina e tentei encontrar alguém para soldar o quadro, mas por ser domingo de Páscoa, era praticamente impossível encontrar alguém em casa. Ao lado do posto havia um hotel, mas estava lotado. Em compensação a senhora que atendia disse que eu podia usar a Internet sem fio. Ela falou-me de um balneário perto da cidade onde havia uma área de camping. Deixei a bicicleta no posto e caminhei até o Balneário Bom Princípio. Gostei do lugar. Uma grande área verde ao lado de um rio com boa infra-extra. Quatro reais para acampar e um real para tomar banho quente. Decidi acampar ali. Voltei ao posto, pequei no computador e fui até o hotel acessar a Internet. Às 16h30min peguei a Tanajura e a empurrei até o Balneário. Enquanto eu me encaminhava para a área de camping, um senhor parou o carro a meu lado e disse: - Diz pro alemão que você falou comigo que ele não vai cobrar nada. – E como é o seu nome, perguntei. – Sou o Geraldo. Quando cheguei ao Balneário já estavam à minha espera. Quando eles viram a Tanajura a coisa mudou de figura. Já não precisei pagar o camping, nem o banho quente e ainda por cima, fomos até a casa da irmã dele buscar as crianças e tomar uma deliciosa sopa. O alemão me arrumou uma extensão com lâmpada e eu pude ligar o meu notebook para atualizar o diário. Enquanto eu escrevia apareceu um casal, proprietário do Laboratório OK e me ofereceu um “check up” como forma de patrocínio. Naturalmente aceitei e no dia seguinte lá fui eu fazer os exames. 13/04/09 Bom Princípio RS – Montenegro RS = 44 km Total pedalado = 985 km Tempo total = 78h
Saí em jejum para fazer os exames no laboratório e em seguida fui até a ODOMO Bicicletas, www.odomobikes.com.br para ver se conseguia soldar o quadro. O atendimento que recebi foi espetacular. O Marcus V. Kuhn, proprietário da empresa colocou a fábrica à minha disposição. Sem exagero, nunca tinha recebido um atendimento tão especial assim. Os funcionários analisaram o quadro e enquanto eu apreciava as fotos do Marcus, eles trouxeram a bicicleta toda pintada como se fosse nova.
Este encontro foi tão providencial que ganhei um companheiro para pedalar comigo no Alasca. Ficou combinado que quando eu chegar o Alasca o Marcus vai pedalar comigo. Ele já fez a travessia como mochileiro e agora que fazer pedalando. Em julho de 2010 se Deus quiser e tudo der certo estaremos os dois realizando mais um sonho impossível. Depois do almoço às margens do rio, no Balneário Bom Princípio, cascudo frito, picles e pão regado a cerveja, voltei até a ODOMO para fazer um suporte para a bolsa de guidão. De novo contei com o carinho e a habilidade dos funcionários. Obrigado Marcus. A viagem até Montenegro foi tranquila com apenas quatro quilômetros sem asfalto. Em cada lugar que chego uma nova surpresa. Acolhimento VIP como se eu já fosse um velho conhecido. Desta vez o meu anfitrião foi o Paulo Renato Petry, o Paulinho que ao lado da esposa Mariloy Vieira Petry e os filhos Manuela, Rafaela e Paulo Augusto me fizeram sentir completamente em casa. O Paulinho já pedalou desde Montenegro até Brasília e por isso sabe bem como é a vida de um cicloturista. Agora está se preparando para no próximo ano, em março pedalar até o Chile, cruzar as cordilheiras e chegar até o Pacífico. Ele já vive antecipadamente cada etapa da aventura, como acontece também a mim. Assunto é que não faltava para nós. É engraçado como a bicicleta é capaz de unir as pessoas. O que mais me impressionou foi ver alegria que ele sentia em hospedar um velhote na sua casa. Nem bem acabei de chegar e já lá estava um repórter do jornal Diário do Vale do Caí – Jornal Ibiá www.jornalibia.com.br com uma página inteira sobre a aventura de um ex-padre que dá a volta ao mundo de bicicleta. Para ler a matéria publicada no Jornal Ibiá clique aqui.
14/04/09 Montenegro RS – Santa Cruz do Sul RS = 116 km Total pedalado = 1.101 km Tempo total = 86h27min Embora Santa Cruz do Sul já estivesse fora da minha rota, mesmo assim resolvi ir até lá para cumprir um compromisso agendado com o Luiz Faccin antes de alterar o roteiro. Foi uma viagem relativamente fácil, mas um pouco demorada pois havia algumas subidas pelo caminho. Cheguei a loja Faccin Bicicetas www.faccinbicicletas.com.br ao cair da tarde e logo a seguir dei duas entrevistas para dois jornais da cidade. Às 19 horas cheguei ao hotel que estava reservado para mim (é a primeira noite que durmo em hotel desde o início da viagem) e às 20 horas pedalamos até o local do entro com as feras do ciclismo e cicloturismo de Santa Cruz do Sul. Foi um encontro muito interessante com muitas perguntas, fotos e autógrafos nos livros vendidos pelo Luiz Faccin. Ali estava também um fotógrafo e um repórter de um programa de TV. Até parece que sou um personagem importante. Terminado o bate papo houve um momento de confraternização com o salsichão e refrigerantes oferecidos pela Faccin Bicicletas. Valeu mesmo galera de Sana Cruz do Sul. 15/04/09 Santa Cruz do Sul RS - Montenegro RS = 93 km Total pedalado = 1.195 km Tempo total = 93h38min
Deveria ter saído cedo para voltar a Montenegro, mas como o Luiz tinha me oferecido um capacete, tive que esperar a loja abrir às 08 horas. Despreocupado, pois teria que esperar a loja abrir, levantei às 7 horas e só cheguei à loja às 08h30min. Demorei um pouco em conversa e quando consegui sair da cidade já passava das 10 horas. Ainda subia a serra quando um carro parou e vi um jovem sorridente vir ao meu encontro. Era o Nilo que me conhecia pelo Orkut. Ele está construindo uma Cruzbike para ele e quando me viu ficou super feliz. Queria bater uma foto, mas estava sem a máquina. Foi em casa, pegou a mulher e o filho para que ele também visse a Tanajura e me encontrou alguns quilômetros depois, quando eu já tinha descido a serra. Precisava ver a alegria dele. Ele disse: - parece que nós já somos velhos conhecidos. Depois de analisar alguns detalhes da tanajura, despediu-se e eu segui a minha viagem. Durante a viagem tive que parar mais algumas vezes para conversar. É gostoso conversar com as pessoas, mas o tempo ia passando. Quando peguei a parte boa, só de planície, peguei também vento contra. A média final chegou só aos 13,1 km/h. Quando entrei na rodovia que me levava a Montengro e tinha que fazer 20 km sem acostamento, já eram 18 horas. Durante 10 minutos tentei conseguir uma carona, mas depois desisti e pedalei alguns quilômetros até encontrar um bom lugar para passar a noite. Cheguei a um lugar chamado Oficina do Alemão e ele gentilmente me ofereceu um lugar para armar a barraca e me serviu um café com sanduíche, bolacha e banana. Mais tarde ofereceu-me o celular para que eu avisasse o Paulinho que eu ia passara a noite ali. Telefonei mas o Paulinho achou melhor me resgatar para dormir na casa dele. E foi assim que “enfiamos” a Tanajura dentro do carro e seguimos até Montenegro. Eu estava a apenas 15 km de distäncia. Ao chegar em casa tive a grata alegria de receber a visita do Sr. Paulo Petry, pai do Paulinho. Conversamos bastante e acabei por descobrir que ele também, como eu, só quer morrer aos 96 anos de idade.
16/04/09 Montenegro RS – Esteio RS= 59 km Total pedalado = 1.254 km Tempo total = 97h39min A etapa de hoje era curta e por isso sai mais tarde. A viagem foi tranquila sem muitas subidas para atrapalhar, embora nos últimos quilômetros o trânsito fosse muito intenso. O meu destino em Esteio era a casa do Gladistone. Cheguei às 14 horas, liguei para ele e fui encaminhado para a loja Fabec Bicicletas para fazer uma revisão na Tanajura, cortesia do Gladistone. Trocaram a corrente, mudaram as borrachas de freio e fizeram a regulagem das marchas. As 17 horas chegou o Gladistone e pedalamos até a casa dele onde fomos recebidos pela dona da casa, Ireds, e os dois filhos Eduardo de 8 anos e a caçula Gabriele de 5 anos. Para o jantar o Gladistone preparou um delicioso Salmão grelhado acompanhado por uma garrafa de vinho chileno que me fez lembrar os almoços que fazíamos na Carretera Austral. Após o jantar aproveitei para atualizar o meu diário até as 23h30min quando o sono apertou. No dia seguinte acordei tarde e as 10 horas eu e o Gladistone pedalamos até a estação de trem e com as bicicletas dentro do trem fomos até Porto Alegre onde pedalamos pela orla do Guaíba até o estádio do Inter. Foi um lindo passeio. Almoçamos no restaurante do estádio e na volta passamos pelo centro da cidade. Parecia que estávamos pedalando na Índia. Uma das frases mais engraçadas que eu ouvia era: Olha que TRI. Estávamos à procura de plástico bolha para embalar a Tanajura para colocar no bagageiro do busão que vai para Cuiabá no sábado cedo. Compramos seis metros de plástico e voltamos para casa para preparar a viagem. Como o trem só permite levar bicicletas das 9 horas até as 16 e depois das 21 horas, não seria possível partir às 5 horas como estava previsto. Decidimos então que eu iria a noite para a rodoviária de Porto Alegre para embalar a Tanajura e esperar o dia amanhecer para viajar. A partida vai ser às 07h45min.
04-04-2009 Estação Cocal (Morro da Fumaça) – Praia Grande = 138 km Total pedalado = 687 km Tempo total = 52h40min
Depois de dormir quatro noites na casa da Lili, desfrutando da boa companhia dela, do Lucas e do Rafael, estava com preguiça de continuar a viagem. Quando ela me perguntou: - O tio tem certeza de que é isso mesmo que o tio quer? Não tive a menor sombra de dúvidas em responder que sim, pois já fazia três anos que eu estava esperando por este momento de poder realizar o meu sonho. Ainda não são nada, apenas 687 km, mas já estou na estrada e já falta menos para terminar a aventura. Estou muito feliz por poder ter iniciado a viagem. Como sempre acontece, cada viagem é única. É impossível prever o que vai acontecer durante a pedalada. Hoje cheguei à Praia Grande às 9 horas da manhã, a cidade das duas mentiras, como disse a minha amiga Hila, (não tem praia e nem é grande) e fui procurar um lugar para acampar. Interpretei mal a informação do frentista e em vez de virar à direita, atravessei a pinguela e fui para o outro lado do rio Mampituba, entrando no estado do Rio Grande do Sul. Depois de pedalar quase um quilômetro, pedi informação a um ciclista e ele me disse que eu estava indo para o lado errado. Falou-me do lugar do acamamento, mas de novo não entendi onde era. Voltei para a cidade. Parei numa panificadora para comprar pão e a menina do caixa me disse que o lugar para acampar ficava atrás da panificadora, na beira do rio. Era só dar a volta. Comprei um refrigerante, merendei e quando já estava para sair, vi um carro parado do outro lado da rua. Um senhor veio em minha direção para bater uma foto da Tanajura e conversar. Era o Eraldo, dono da www.visaosul.com.br. Convidou-me para ir até a Pousada Malacara onde eu poderia conhecer o Canyon Malacara. Primeiro fomos até o lugar onde eu iria acampar e depois fui até a casa dele para deixar a bicicleta. Foi um passeio maravilhoso, ainda mais que não estava programado. Voltei ao meio dia, preparei o almoço, tomei um banho quente e vim escrever o diário de bordo. O lugar onde estou acampado é muito bom; tranquilo, na beira do rio Mampituba que separa os dois estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Tem uma lanchonete em funcionamento, um bar, fechado e vários quiosques com bancos e mesas ao lado das churrasqueiras que estão à disposição da população. A etapa de ontem foi a mais longa até agora = 125 km. Como a estrada era quase toda na planície, não houve maiores problemas. Ao chegar a Ermo eu tinha duas opções ou seguia para Jacinto Machado fazendo 10 km de asfalto e mais 30 km de estrada de chão para chegar a Praia Grande ou ia em direção à BR 101 aumentando a distância em 15 km, mas pedalando sempre pelo asfalto. Acatei o conselho do dono do posto e fui pela BR 101. Acampei num CTG em São João do Sul. Antes de chegar a Ermo fui parado duas vezes por motoristas. Muitos me confundem com o meu amigo Lauro que atravessou o Brasil recentemente e deu uma entrevista na TV. Como ele também pedalou numa reclinada existe certa semelhança. O segundo motorista, porém, não me confundiu. Esperou-me numa sombra e queria presentear-me alguma coisa. Foi até o carro e voltou com uma palmilha magnética com infravermelho. Era uma palmilha anti-stress, perfumada. Coloquei no pé e senti logo o efeito benéfico. Agora ela vai me acompanhar durante toda a viagem. Quem me doou a palminha foi o Djalmar da www.ciadosono.com.br Valeu Djalmar. 05/04/09 Praia Grande - Itaimbezinho = 37 km Total pedalado = 723 km Tempo total = 58h13min Deixei o acampamento às 08h10min, com céu nublado e iniciei uma das mais difíceis subidas até agora. 18 km saindo praticamente do nível do mar e subindo até os mil metros de altitude por uma estrada cheia de pedras de todos os tamanhos. Em alguns trechos a subida era tão íngreme que eu patinava na areia. Aos poucos, sem pressa e apreciando a magnífica paisagem que ficava mais bonita à medida que eu subia, fui vencendo as dificuldades. Quando a gente inicia a viagem sabendo que vai encontrar uma grande dificuldade parece que tudo fica mais fácil. O triste é ser pego de surpresa. Já passava do meio dia e a chuva ameaçava a chegar a qualquer momento. A estrada muito pouco movimentada, era quase só para mim e a Tanajura que teimava em empurrar o meu braço para trás provocando um pequeno desconforto no antebraço direito. Dos poucos carros que subiam alguns paravam para admirar e conversar com um velhinho empurrando uma coisa estranha morro acima. Quando ouviam que eu estava iniciando a volta ao mundo, ficavam de boca aberta. Um carro descia a serra e parou no meio da estrada. Depois das primeiras perguntas, o motorista desceu do carro, e veio-me cumprimentar. Era o Hudson, dono da LA LUCE ILUMINAÇÃO. Foi tamanho o impacto que eu causei nele, quer dizer, que o tamanho da minha aventura causou nele, que ele resolveu assumir a minha causa e me ajudar. Depois de fotografar e gravar uma reportagem com a filmadora, meteu a mão no bolso e me dei duas notas de cinquenta reais. Disse que ao chegar a Floripa ia fazer uma campanha entre os amigos para tornar a minha viagem mais confortável. Depois do Sérgio de Brusque o Hudson é o segundo que eu encontro que se sensibiliza pelo meu projeto. Ele já vai entrar como padrinho. Segui adiante e ainda faltava vencer a parte mais difícil da montanha. E para complicar, começou a chover forte. Foi um aguaceiro de uns 10 minutos, mas suficiente para por à prova a impermeabilidade da carenagem. O tempo fechou de tal modo que quase não se via a estrada devido à forte neblina. Pensei que não seria desta vez que eu ia ver o Itaimbezinho. Aos poucos a neblina se dissipou e ao chegar ao portão do canyon, o céu estava de novo limpo. Itaimbeimbezinho, um espetáculo da naturezaCheguei ao portão de entrada. O relógio marcava 14h45min. Ingresso de cortesia, os “jovens” não pagam. O encarregado disse que eu ainda tinha 15 minutos, pois às 15 horas fechava a entrada da trilha para o canyon. Eram dois quilômetros de asfalto até o início da trilha. Parei. Pensei. Duvidei. Decidi. Estava tão perto de realizar um sonho, mas se eu seguisse adiante não ia conseguir chegar de dia em Cambará do Sul onde pretendia acampar. Não podia perder esta oportunidade. Criei coragem e segui adiante. Pedalei o mais rápido que pude. Que bom deslizar de novo no asfalto. Cheguei ao posto de controle a tempo de tomar outra decisão. Uma trilha de 1,5 km sendo parte de bicicleta e o restante a pé, onde se via apenas 30% da canyon ou pedalar 3 km numa trilha de terra e chegar ao lado do canyon. Peguei a trilha mais longa. Pedalada tranquila com algumas poças de lama. Quem vai de carro tem que fazer a trilha a pé e muitos não conhecem a beleza que a natureza apresenta, por preguiça de caminhar 3 km. Ao chegar às margens do canyon fiquei encantado. Que maravilha. Só mesmo estando ali para contemplar a obra caprichosa da natureza. As fotos que estão no álbum não conseguem expressar tanta beleza. Quase perdi a noção do tempo, pois quando cheguei de novo ao portão de saída o relógio marcava 16h15min. Como fazer para vencer os 18 km de subidas enormes e descidas onde não se podia passar dos 6 km/h? Mas nada disso importava. O meu sonho estava realizado. Mais meia hora de subida caminhando ao lado da minha companheira, uma pequena descida, e outra subida. O tempo passava a noite se aproximava e a distância não encurtava. Eram 17h10min quando cheguei a um riacho que passava por baixo da estrada e formava uma pequena cachoeira. Logo a seguir uma tenda vendendo mel e uma linda casa cercada de grama e pinheiros. Não tive dúvidas. Vai se aqui mesmo, pensei. O Local se chama Morro Agudo. A senhora que me atendeu, dona Eunara Martins Rocha, foi chamar o marido, Sr. João Gustavo da Silva Gouveia que me perguntou onde eu queria acampar. Eu disse que de preferência dentro do cercado para não ficar na beira da estrada. Para o banho não se preocupe, disse-lhe eu, pois vou me banhar na cachoeira. De jeito nenhum, disse-me ele, a água fria pode lhe fazer mal. Pode tomar banho no chuveiro. A casa não é minha, mas não tem problema. Ele era o caseiro. Guardei a bicicleta no estábulo e ele queria que eu armasse a barraca ali mesmo, mas ia ficar ao lado de uma égua e na companhia de várias ovelhas que iam dormir al lado. Senti-me naquele momento como se fosse o Menino Jesus na Manjedoura, mas decidi armar a barraca no gramado. Tomei banho, armei a barraca e em seguida me serviram um delicioso café. Conversa vai, conversa vem e vem a famosa pergunta. - O que é que o senhor fazia antes de viajar? E como a sinceridade é um dos meus pontos fortes, me apresentei. A reação foi imediata. A dona Eunara queria que eu desarmasse a barraca que ela ia arrumar uma cama para mim. Agradeci a generosidade, mas fiquei na barraca. Pela manhã mais um café com sanduíche, ovo e etc. e ainda umas guloseimas para levar. Deus seja louvado por tanta gente boa que eu encontro pelo caminho. 06/04/09 Itaimbezinho – São Francisco de Paula = 88 km Total pedalado = 811 km Tempo total = 65h28min Comecei a pedalar às 08h10min e cheguei a Cambará do Sul depois do meio dia. Dizer que a estrada estava ruim é elogio, pois estava péssima. Finalmente peguei de novo o asfalto. As subidas continuaram, mas em compensação eu podia aproveitar as descidas chegando até 61 km/h, coisa que nas pedras eu não passava dos 8 km/h nas descidas com medo de cair. Mesmo assim a velocidade média só chegou a 12,15 km/h. No asfalto aumenta o número de veículos e naturalmente aumenta também o número de pessoas curiosas que querem fotografar e filmar. Acho que já estou ficando famoso. Ou será mérito da Tanajura? Quanto mais eu pedalo mais me convenço de que estou levando muito peso. Só não sei como fazer para diminuir o peso. Antes de sair de Estação Cocal eu passei os alforjes para trás e as garrafas de água para frente. A diferença na condução da bike foi sensível. Faltavam 15 km para chegar a São Francisco de Paula quando um motoqueiro parou e perguntou se podia bater uma foto. Eu disse que sim. Ele seguiu adiante e me esperou para fazer uma filmagem. Mais adiante parei de novo para as fotos. Feita as devidas apresentações eu soube que estava diante de um jovem que também gosta de aventura. Eduardo Tellechea que mora em Porto Alegre e tinha ido até Cambará do Sul para espairecer um pouco. Ele gostou tanto da minha aventura que decidiu pernoitar em São Francisco de Paula para me oferecer um jantar. Marcamos o encontro no Corpo de Bombeiros onde eu ia passar a noite. Ao chegar à cidade fui primeiro comprar pão e me demorei um pouco em conversa com os curiosos. Ao chegar aos Bombeiros, soube que o Eduardo já tinha estado ali à minha procura. Alguns minutos depois ele chegou e foi convidado para pernoitar ali. Ele aceitou o convite e logo a seguir fomos “intimados” a aceitar também uma deliciosa macarronada. Esta era a segunda vez que eu me hospedava ali. Eles primam pela gentileza e acolhimento. Um dos bombeiros se lembrava da minha passada por ali no ano passado. Depois do jantar saímos para tomar uma cerveja e por a conversa em dia. Além da moto o Eduardo tem uma bicicleta e quer pedalar um pouco comigo. Ainda estamos por acertar a data e o percurso. 07/04/09 São Francisco de Paula RS – Nova Petrópolis RS= 74 km Total pedalado = 885 km Tempo total = 71h01min
Dormir numa cama num colchão macio é sempre melhor do que em cima de um isolante térmico dentro da barraca. O mesmo não aconteceu com o meu colega que teve problema de insônia e dormiu pouco. Continuei a minha viagem fazendo o caminho inverso que tinha feito no ano passado com o Lucas. Lembro-me bem de como ele chegou cansado em São Francisco de Paula. Desta vez era eu que me esforçava para levar a Tanajura morro acima. O asfalto facilita muito, mas mesmo assim, tenho dificuldade em subir pedalando. As pernas funcionam bem, mas quando o coração começa a acelerar, eu prefiro caminhar. Quando o velocímetro chega a 7 km/h eu desço pois caminho a 6 km/h com muito menos esforço. Gostei muito de refazer a rota romântica, passando por Canela, Gramado e Nova Petrópolis. Canela parece uma cidade europeia. Os motoristas respeitam os pedestres. Se em todas as cidades houvesse uma educação para o trânsito as cidades brasileiras seriam mais humanas. É somente questão de educação. No meio de tanta beleza de Canela e Gramado uma coisa estranha chama a atenção. A estrada tem um asfalto regular, mas não tem acostamento e isto torna a vida do ciclista bastante difícil. Mas o pior de tudo é que tanto para entrar como para sair de Gramado o motorista é obrigado a pagar R$ 6,70 de pedágio sem obter nenhum tipo de benefício. Numa viagem de ida e volta de Nova Petrópolis a Canela o motorista tem que pagar quatro vezes o pedágio: R$ 26,80. Para onde será que vai todo este dinheiro, uma vez que não se vê nenhuma benfeitoria na estrada? Ainda bem que bicicleta não paga pedágio. Cheguei à casa do Leonardo às 16h20 min. A dona Sonja me acolheu com aquele sorriso encantador. O Sr. Egon estava pedalando pelas montanhas e chegou meia hora mais tarde todo suado e também abriu aquele sorriso de acolhimento. Como é gratificante rever estas pessoas queridas. O Leonardo está de serviço em Caxias e só vai chegar sexta-feira. Mudança de roteiroViajar sem patrocínio é ruim, mas a gente fica livre para fazer o que bem entender sem precisar dar satisfação a ninguém. Isto permite também a flexibilidade no roteiro. Nas longas horas de caminhada pelas montanhas pude refletir bastante sobre o desenrolar da minha aventura. O fato de ter que enfrentar dois invernos no mesmo ano me preocupava um pouco. Ainda mais que a partir de maio eu estaria subindo as cordilheiras pela Ruta 40, na argentina e seguiria até o Peru sempre acima dos quatro mil metros de altitude. Em janeiro de 2006, em pleno verão, eu já tinha enfrentado quatro graus negativos na Bolívia. O que será que iria acontecer no inverno, junho e julho? Valeria a pena enfrentar tanto desconforto em cima da bicicleta? Depois de muito refletir, tempo para isso não faltava, decidi mudar o roteiro. Apanhei o ônibus em Nova Petrópolis e fui a Porto Alegre. Consegui uma passagem de ônibus, do idoso, é claro, para Cuiabá para o dia 18 deste mês. De Cuiabá pego outro ônibus para Rio Branco, no Acre e retomo a pedalada para o Peru, em direção a Cusco. Com isso elimino alguns meses de frio e começo a pedalar num novo país, visto que já pedalei nos demais, Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile e Bolívia. Ao chegar ao Equador estarei de novo no verão. É uma mudança de rota estratégica que espero que dê bom resultado. Agora tenho menos de uma semana para ir a Montenegro, Santa Cruz do Sul, Esteio e Porto Alegre. No sábado, dia 11 vou seguir para Montenegro.
30-03-2009 - Grão Pará SC – Estação Cocal SC = 82 km Total pedalado = 531 km Tempo total = 42h
A minha estadia em Grão Pará foi fantástica. Ganhei mais uma Família. Não posso chamá-los de "Pais" porque tanto o Sr. Moisés (67) como a Sra Neca (Nercy), (61) tem quase a minha idade, mas a atenção, o carinho, a amabilidade e a bondade foram iguais à de um pai e de uma mãe para um filho. Isto sem falar dos filhos, mas de modo particular, do Giovani que por pouco não foi meu companheiro de viagem.
No mês passado quando eu estive em Grão Pará ele comprou uma bicicleta para começar a treinar. Pode-se dizer que ainda está engatinhando, mas promete ser um bom cicloturista. No sábado pedalamos pela cidade, visitamos várias pessoas e vimos muita gente admirada ao olhar para a Tanajura. No domingo pedalamos 36 km de Grão Pará até Orleans. Foi a primeira cicloviagem do Giovani. Embora a distância tenha sido curta, enfrentamos longas subidas até chegar ao cimo do morro onde fomos agraciados com uma longa descida até Orleans. Durante o percurso tivemos que parar mais de uma vez para conversar com as pessoas que vinham a nosso encontro. Dei uma entrevista para o jornal de Braço do Norte e mais adiante, perto de São Ludgero, aconteceu algo inusitado. Uma família encostou o carro no acostamento e veio conversar. Queriam conhecer o cicloturista que estava dando a volta ao mundo de bicicleta. O casal, só me lembro do apelido do pai, "Troca", era de Braço do Norte. No carro estavam também dois filhos gêmeos de 10 anos e um coleguinha deles da mesma idade. Até aí nada de especial, mas quando o pai abriu o porta-malas do carro e tirou duas sanfonas que tinha acabado de comprar para os filhos, a coisa mudou de figura. Os garotos se sentaram no porta-malas e tocaram para mim e para o Giovani algumas músicas com muito domínio do instrumento. Os garotos realmente são talentosos. A primeira música foi a Família do Pe Zezinho e a última foi o Brasileirinho. É a primeira vez na vida que eu recebo uma homenagem musical no acostamento em baixo do sol do meio-dia. Valeu mesmo.
Depois do almoço, cortesia do meu amigo Giovani, ele voltou para Grão Pará de carona com o pai para buscar o carro e eu fui tirar uma soneca. Fui despertado por ele às 18h30min para irmos até a casa do sogro dele onde jantamos.
Barraca vendida Com muita pena e com certa dor no coração vendi a minha barraca. Foi pena, mas eu preciso diminuir o peso da Tanajura. Ao passar em Urussanga fui procurar uma nova barraca. Encontrei uma, mas ainda era pesada. 2,10 kg. Comprei um isolante térmico e um funcionário pediu que eu passasse no jornal Vanguarda para fazer uma entrevista. Procurei a redação do jornal e fizemos a matéria que vai sair na quinta-feira, dia 2 de abril. Durante a pedalada parei algumas vezes para atender a curiosidade das pessoas. Dois motoqueiros me viram passar. Pegaram a moto e me alcançaram numa subida. Pararam para conversar comigo e depois de muitas perguntas um deles disse: - Bate uma foto com ele, antes que ele fique famoso. Cheguei a Estação Cocal pouco depois de meio-dia. Parei na Praça da Matriz para ver o endereço da minha sobrinha "Lili". Um motoqueiro parou a meu lado e disse: - Oi tio, não me conhece? Por mais que eu me esforçasse para conhecer o sobrinho, não houve jeito. Ele então se identificou. - Sou o Brunno, irmão do Thiago, filho do Almir. Só então identifiquei o personagem. Já fazia mais de 10 anos que não nos víamos. Hoje o Brunno já é casado, é pai e tem 21 anos. Foi um encontro providencial, pois ele me acompanhou até a casa do pai dele não, sem antes, passar em casa para me mostrar a filha Gabriele que já está com dois meses. Um amor de criança. Encontrei todos com saúde, o Almir, a Márcia e a Daniele. Estes são os momentos bons da viagem, poder encontrar pessoas queridas.
24-03-2009 Angelina – Bom Retiro = 85 km Total pedalado = 345 km Tempo total = 26h27min Eu sabia que a jornada ia ser difícil, mas nunca teria imaginado que seria tão difícil. Comecei a pedalar às 06:30, depois de virar mais uma vez a Tanajura de roda para cima, na frente da Pousada, para inverter a posição da roda traseira que batia no freio. Na noite anterior eu tinha desmontado o pneu para achar uma solução definitiva para os furos. Consegui uma câmara velha, aro 20 e fiz um protetor. Acatando a sugestão do amigo Carlos, comprei um rolo de esparadrapo e tapei os furos dos raios. Em seguida coloquei a câmara transformada em fita por cima do esparadrapo. Agora espero chegar até a Colômbia sem precisar mais consertar um pneu. Serras intermináveisA Hila tinha falado que o trecho até Rancho Queimado era um pouco difícil. Sobe bastante, disse ela. O que eu não podia imaginar era que teria que empurrar a Tanajura morro acima durante 13 km até chegar a Rancho Queimado. Com uma bicicleta normal é relativamente fácil, mas com a minha pesando nada menos de 54 quilos (consegui uma balança hoje), não era possível subir pedalando. Ao chegar à BR 282 pensei que ia melhorar, mas foi ainda pior. 25 km de subida empurrando a Tanajura. Eu já nem sabia mais se o que eu estava fazendo era uma pedalada ou uma caminhada. Na verdade era uma caminhada ao lado de uma bicicleta. Mas nem tudo é tristeza. Ao chegar ao mirante dos 1200 metros de altitude, começou uma descida deslumbrante de 25 km. Eu tinha levado mais de seis horas para fazer 25 km e agora fazia a mesma distância em menos de uma hora. Nestas horas a gente louva o Senhor e esquece todo o sofrimento. Que maravilha. Mas a alegria de pobre dura pouco. A alegria acabou ao cruzar a ponte em Alfredo Wagner. A placa indicava: Bom Retiro a 25 km. Beleza, vou tirar de letra. O relógio marcava 13 horas e alguns minutos. Era ainda muito cedo para pensar em pernoitar. Também porque a meta inicial era chegar a Urubici. Era melhor seguir até Bom Retiro, assim no dia seguinte poderia pedalar sem pressa. Mas uma boa surpresa me aguardava. Foi só atravessar a ponte e começou mais 23 km de subida. O tempo não parava. Já passava das 17 horas quando cheguei perto de Bom Retiro no Parque de Exposição onde acampei. Só para se ter uma ideia, incluindo os 25 km de descida aonde a velocidade máxima chegou a 57,7 km/h, a minha velocidade média no final do dia foi de tão somente 10,73 km/h. Foram 8 horas de pedalada, quer dizer, de caminhada e pedalada. Nem precisa dizer que o visual do caminho é maravilhoso. 25-03-2009 Bom Retiro – Urubici (Corvo Branco) = 67 km Total pedalado = 412 km Tempo total = 32h30min
Ao lado do Parque de Exposição havia uma lanchonete. Falei com o proprietário e ele me autorizou a escolher um lugar no meio de tantos galpões vazios. A primeira coisa foi procurar um chuveiro, que embora fosse de água fria, foi formidável para tirar o cansaço das subidas. Com o banho tomado preparei um bom café com pão, queijo e lingüiça comprados na lanchonete. A seguir sai à procura de um galpão que tivesse luz. Encontrei um amplo, com mesa e tomada para aquecer a água e ligar o notebook. Eu estava sozinho no meio de muitos barracões, todos no escuro. A lanchonete tinha fechado às 19 horas. Confesso que fiquei meio apreensivo em estar ali com as luzes acesas, pois a BR 282 passava a lado. Escrevi rapidamente o diário, tomei mais um chá com biscoitos e às 20h45min já estava dormindo, não sem antes passar o cadeado na Tanajura. Mais serras sem fimEu estava a apenas a 38 km de Urubici. Eu já tinha feito uma vez este caminho em 2004 com uma bicicleta normal e sem carga e não me lembrava de ter encontrado muita dificuldade. De Uubici até Corvo Branco eram mais 29 km, mas eu pensava que fossse quase todo plano. Por isso dormi tranquilo e só comecei a pedalar às 08h30min. As informações eram que eu ia encontrar mais descida do que subida. A visão do motorista é bem diferente da do ciclista. Foi só pegar a estrada para Urubici e pedalar poucos quilômetros para começar a subida da Serra do Panelão. Foram mais quatro horas de caminhada com inúmeras paradas para tomar fôlego. De Urubici eu devia seguir para a Pousada Rio Canoas – Refúgio de Montanha para descansar. www.riocanoas.com.br. A distância era pequena, apenas 29 km, mas devido às péssimas condições da estrada e das muitas subidas, demorei quatro horas para percorrer esta pequena distância. Faltavam 13 km para chegar à serra do corvo branco. Parei num barzinho para tomar um refrigerante. Perguntei a um jovem motoqueiro de 27 anos quantos quilômetros faltavam ara chegar ao corvo branco. 13 km, disse ele. Daqui pra frente é tudo plano. Um motorista que tinha passado por mim de manhã na BR 282 disse que faltavam 18 km e que tinha muitas subidas. Três vezes mais do que eu tinha feito até ali. Brinquei com os dois e disse que eles tinham que tirar o par ou ímpar. De posse duas informações resolvi fazer a média. Na verdade os dois estavam com a razão. Faltavam apenas 13 km mas havia muita subida e até uma serra bem pesada. Desde Brusque estou viajando pelo meio de uma densa floresta verde com muitas bicas de água pela estrada e em muitos lugares escutando o barulho das cachoeiras. Se a estrada é difícil, o visual é maravilhoso. Contratempo resolvidoEu vim parar neste recanto encantado, Rio Canoas – Refúgio de Montanha, www.riocanoas.com.br, por sugestão do Sérgio, de Brusque. Ele ia entrar em contato com o Juan, dono da pousada para me conseguir uma cortesia. Vim tranquilo, pois sabia que o Juan estava à minha espera. Às 17h30min cheguei cansado, mas feliz por ter vencido mais uma etapa. Era só relaxar. Encostei a Tanajura e fui até a recepção. Não havia ninguém. Tudo fechado. Dei a volta, entrei na parte interna da linda pousada, chamei e nada. Desci para o lado do Albergue e a meio caminho ouvi uma voz. Era o Juan que vinha a meu encontro. Ele estava trabalhando atrás da pousada com a roçadeira ligada e não tinha ouvido a minha voz. Apresentei-me e disse quem eu tinha sido apresentado pelo Sérgio de Brusque. O Juan conhecia o Sérgio, mas disse que não tinha recebido nenhum recado. A pousada está sem telefone e a comunicação é feita em Urubici. Disse que até ontem não tinha recebido nenhum e-mail. E agora? Fiz aquela cara de coitado e disse que eu não tinha dinheiro para pagar a Pousada. Só tinha chegado até aqui por sugestão do amigo Sérgio. O Juan olhou para mim e disse: - Não se preocupe. Eu também já fui mochileiro e viajei de carona do Uruguai até o México quando eu era jovem. Levou-me até o Albergue onde havia sete beliches e mandou que eu escolhesse a cama que quisesse. E mais, a cozinha do albergue também ficou à minha disposição, com fogão e geladeira. Que maravilha. Nada como um dia inteiro para descansar. Levantei tarde, tomei café e peguei a máquina para fazer algumas fotos. O Juan veio me cumprimentar e sugeriu que eu fizesse uma caminhada de 12 km até o Morro da Cruz. Olhei no relógio e já passava das dez horas. Agradeci a sugestão e fiz uma caminhada de apenas 3 horas de ida e volta pelas margens do rio canoas. Embora não tenha subido até o pico do morro, o passeio foi magnífico. Acabei de almoçar às 14 horas e tirei uma sesta até às 16h30min. Eu tinha falado ao Juan que ia vender a barraca porque era um pouco grande e pesada para o uso que eu faço dela. Ele interessou-se por ela, mas disse que estava sem dinheiro. No final da tarde, ele pediu para montar a barraca para ele ver. Ele tem várias barracas, pois é guia de caminhadas de montanha. Quando ele viu a barraca montada, ficou encantado com ela. Propôs-me uma troca por uma barraca canadense modelo “frog” da North Face, mais leve e com capacidade para duas pessoas. Montamos a barraca dele. Achei linda também, mas ainda era muita grande para mim. Tinha 2,15m de espaço interno e mais uma varanda de um metro. Boa demais para ser montada e desmontada todos os dias. Durante as intermináveis subidas, fiquei pensando em uma maneira de diminuir o peso da Tanajura. 54 quilos é muito peso para empurrar morro acima e também para pedalar. Resolvi começar pela barraca que pesa 3,6 kg e mais 0,2g do “footprint”, piso para que proteger a barraca. Então vem a proposta:VENDO UMA BARRACA North Face Áquila 23 com apenas duas noites de uso. Tem espaço confortável para três pessoas. Tem 2,2 m de espaço livre dentro dela. Usa o sistema de três varetas, tem duas portas laterais e duas varandas de um metro de espaço externo cada uma. É uma mini casa modelo três estações. Linda de morrer e boa demais para ser montada e desmontada diariamente. Vou adquirir uma menor para uma pessoa. Preço da barraca = $ 300,00 Footprint = $35,00 Frete = $ 55,00 TOTAL = $ 385,00 O câmbio no dia da compra estava em R$ 2,40 Total em reais = R$ 924,00 Vendo por R$ 850,00 Quem estiver interessado mande um e-mail para valdojv@gmail.com Vou dar preferência pela ordem de chegada das mensagens e pela melhor oferta. Forma de pagamento depósito bancário a vista. Para ver uma foto da barraca com a cobertura acesse o meu blog
http://valdo.blogspot.com/2009/02/acampamento-na-praca-nereu-ramos.html#links 27-03-2009 Urubici (Corvo Branco) – Grão Paará = 36 km Total pedalado = 449 km Tempo total = 36h Uma etapa curta, mas nem por isso menos difícil. Para chegar até o início da descida da Serra do Corvo Branco tive que enfrentar uma subida bem pesada. Mas valeu a pena, pois o visual que se tem ao chegar ao topo da serra é simplesmente maravilhoso. Impressionou-me bem mais do que a Serra do Rio do Rastro. O paredão de pedra é impressionante. A parte mais íngreme da serra está asfaltada, mas mesmo assim é preciso coragem para descer com a bicicleta carregada. Desci parando em cada curva curtindo cada metro da beleza natural. Terminado o asfalto começou uma etapa um pouco mais difícil, mas sem maiores dificuldades. Até chegar a Aiurê a viagem foi tranquila, mas depois enfrentei alguns quilômetros de estrada com pedra solta. Havia uma patrola que estava fazendo manutenção na estrada. Cheguei em Grão Pará, na casa do Sr.Moisés e dona Nercy às 12:50 ainda a tempo de filar um delicioso almoço acompanhado de vinho branco. Esta é a casa dos Pais do Giovani, aquele jovem que queria pedalar comigo até o Canadá. Mas como nem sempre querer é poder, ele não pode me acompanhar. É hora de descansar mais um pouco antes de seguir viagem.
17/03/09 Itajaí – Ilhota = 30.4 km Em Itajaí passei dois dias maravilhosos na companhia dos meus queridos “pais adotivos” Adolfo Corrêa e Leonor carinhosmente conhecidos como Lolo e Lola. Aproveitei para fazer a primeira atualização do meu Diário de Bordo e também compre um tecido impermeável para fazer uma capa para a bolsa de guidão. O passeio de Itajaí até Ilhota, (30 km é apenas um passeio), foi tranquilo. Apenas os alforjes dianteiros cederam um pouco e sempre que eu tinha que subir do acostamento para a pista o fundo do alforje tocava no asfalto. Isto provocou um pequeno rasgo no fundo do alforje, mas já foi solucionado o problema. A capa da bolsa de guidão também já está pronta. Na cidade de Ilhota tenho mais um “pai adotivo” o Sr. Aníbal Manoel de Souza que como o outro pai Lolo também tem 83 anos. Se por um lado é ótimo rever estas pessoas queridas, por outro, é um pouco difícil na hora da despedida. Afinal, serão quatro anos até o próximo reencontro. 19/03/09 Ilhota – Madre Paulina (Nova Trento) 60.48 km O relógio despertou às 04:50h. Que vontade de continuar na cama. Mas era preciso levantar. Queria chegar cedo em Brusque para me encontrar com o Sérgio que me descobriu no dia da minha partida. Ele gostou tanto do projeto que resolveu trabalhar para conseguir algum tipo de apoio para a minha aventura. Comecei a pedalar às 06 horas para fazer 12 km de estrada de chão. 12 km é moleza. É, seria se eu não tivesse que pedalar pelo meio dos morros. Já na primeira subida decidi empurrar a Tanajura ladeira a cima. Mesmo que eu quisesse, não conseguia vencer as pedrinhas soltas que faziam a roda dianteira patinar. Como se isso não bastasse, no final de uma desciada estourou o pneu traseiro. Este pneu era novo e nem tinha completado 1000 km. Será que alguém adivinha a marca? Começa com lê... e termina com ruim. Substitui o pneu e a câmara e segui adiante. Era a primeira experiência de trocar o pneu com a bike carregada. Descobri uma maneira relativamente fácil. Basta deitar a bicicleta e depois levantar com as rodas para cima. Ainda bem que o Silvestre não está aqui para ver o efeito na pintura da carenagem. Pronto, pneu novo, câmara nova, era só pedalar. Mas a alegria durou pouco. Cheguei ao asfalto, pedalei 4 km e furou de novo o pneu traseiro. Mais uma troca. Já era a segunda câmara nova. Com todo este atraso cheguei em Brusque às 09:10h. O encontro com o Sérgio era na praça da Matriz. Que bela surpresa. Bastante gente me esperava. Entre eles estavam jornalistas dos jornais locais, radialistas, de duas emissoras, vários ciclistas e dois donos de lojas de bike. Foi só falar que eu queria comprar um pneu aro 20 e já recebi uma doação do Sr. Alfredo, pai do Leo. Eles são proprietários da www.darbike.com.br. Um simples telefonema e apareceu o Leo com dois modelos para eu escolher. Isto sim é que se chama eficiência. Ali mesmo na praça trocamos o pneu e ao chegar a um posto calibrei com 90 libras. Que beleza rodar com um pneu duro por cima do asfalto. De Brusque para frente enfrentei mais algumas subidas fortes. Na última descida eu estava a 61 km/h e resolvi segurar o freio com medo de mais um furo. Até parece que adivinhei, pois ao chegar embaixo tinha furado pela terceira vez o mesmo pneu, quer dez, o terceiro pneu, pois o primeiro tinha ficado na parada de ônibus juntamente com a câmara de ar. O segundo, por ser mais fácil de enrolar, estava de novo amarrado ao para lama. Não era mesmo o meu dia de sorte. Faltavam poucos quilômetros para a entrada do santuário. Ao chegar ao santuário consegui um quarto para dormir e guardar a Tanajura. Com toda esta mordomia, alterei o dia da partida para Angelina. Ficou para o domingo. 22/03/09 Madre Paulina (Nova Trento) – Angelina = 69 km Total pedalado = 260 km Tempo total = 18:30h Levantar cedo nunca foi o meu forte, mas hoje me superei. Preparei o relógio para despertar às 04:50h. Por via das duvidas preparei o segundo relógio para desertar 5 minutos mais tarde. Para minha surpresa o segundo relógio não despertou. Preparei o café, arrumei as coisas e já estava pronto para sair. Estava escuro. Olhei no relógio de pulso e vi que marcava 04:40h. Só então me dei conta de que o despertador ainda estava com o horário de verão. Fiz aquecimento com calma e às 05:30h já estava na estrada. A viagem até Major Gercino foi tranquila. Apenas a travessia das duas cidades, são João Batista e Major Gercino foi difícil por causa do calçamento em todo o perímetro urbano. Fu premiado mais uma vez com o quarto furo no mesmo pneu. Desta vez descobri a causa de tanta chatice. A fita que protege os raios estava torcida e câmara entrava pelo orifício até atingir o rio. Vou ter que sacrificar uma câmara para fazer um bom isolamento. O asfalto acabou em Major Gercino e dali para frente começou a subida da serra. Nem é preciso dizer que empurrei Tanajura morro acima por mais de 8 km. O dia estava com um lindo sol e o suor escorria do capacete para dentro do meu olho direito. Várias vezes tive que parar por causa disso. Vou comprar um boné para por baixo do capacete para ver se resolvo este problema. Cheguei em Angelina bastante cansado. Dirigi-me à Pousada das Irmãs Franciscanas e consegui a sala de palestra só para mim com chuveiro e tudo. A pousada tem Internet sem fio, liberada, mas como estou um pouco longe a irmã me disponibilizou um cabo para conectar o notebook na tomada. Com toda esta mordomia, é claro que vou dormir duas noites aqui. A minha amiga Hila Rocha, mulher corajosa, cicloturista destemida, estava à minha espera. Que alegria rever pessoas que gostam de viver a vida na sua plenitude. Ela parte amanhã para Floripa descendo a serra por caminhos alternativos. ********************
Últimos preparativos
A véspera da viagem foi marcada por muita correria. Eu estava bastante desanimado, pois não tinha conseguido colocar toda a minha tralha dentro do baú. Retirei alguma coisa, mas ainda faltava espaço. E agora, o que fazer? A primeira coisa que pensei foi em procurar um sapateiro e fazer um alforje para colocar na mesa do guidão. Para isso terá que adiar mais uma vez a da saída. Mas isto era tudo o que eu não queria fazer. Lembrei-me então do suporte de afore dianteiro que eu já tinha usado na Tanajura. Busquei o alforje, mas não havia mais espaço para ele. O lugar estava ocupado pelos suportes das garrafas de água. Tenho autonomia para levar até 7,5 litros de água para as condições extremas de deserto, etc. Colocar os alforjes significava ficar sem espaço para a água. Foi então que resolvi testar o único espaço disponível: a suspensão dianteira. Deu certo. Corri para comprar as abraçadeiras e quando acabei de fazer a montagem já passava das 15 horas. Aí foi fácil. Tinha à disposição mais 40 litros de espaço. Maravilha. Só faltava fazer o teste para ver com ia funcionar. Ficou bom, mas o peso total da bicicleta com a carga chegou perto de 60 km. Haja perna! Não sou muito amigo de despedidas, mas não tinha como evitar. Ao meio dia churrasco de despedida. Um almoço bem íntimo e significativo. Em seguida chegaram o Raulino e a Maria, minha irmã e cunhado. Último acesso à Internet e rumei para a casa do Valdecir e Mariza para receber mais um apoio e colar um adesivo na Tanajura. A seguir, jantar de despedida com as famosas empadinhas Jerke regada a chop. Primeiro diaA HORA DA PARTDA05:30h, hora de levantar. Últimos preparativos e lá vamos nós. A saída estava marcada para as 06:30h, mas só conseguir deixar a casa as 07:50h. Cheguei ao posto de gasolina onde os amigos e amigas me esperavam. Foi bom encontrar uma turma de pessoas animadas dando força para o início da grande aventura. Para minha surpresa apareceram também o João e a Ivone, meu cunhado e irmã, onde eu morava. Vieram para a despedida final. Muitas fotos de despedida e iniciei a viagem acompanhado por três amigos, Antônio Carlos, Valdecir e Lucas Schiochet que iriam comigo até Itapocu para tomar um caldo de cana. Outro personagem que apareceu na hora da partida e me acompanhou por alguns quilômetros, fazendo uma reportagem com a filmadora. Era o irmão do Vanderley Lisboa, que documentava a partida. A bicicleta estava pesada, mas mesmo assim superei todas a subidas sem maiores dificuldades. Falta pouco mais de 3 km para chegar em Itapocu quando arrebentou a corrente da bicicleta do Valdecir. O Lucas entrou em ação e em poucos minutos a corrente estava de novo pronta para continuar a viagem. Última despedida. Água de coco, salgadinhos, caldo de cana marcou a despedida final. Ficou olhando os três pedalando de volta para casa e eu fiquei sozinho. Até então ainda não tinha “caido a cicha”. Eu estava fazendo o primeiro dia dos 1450 dias previtos para realizar o projeto. Não era sonho. Eu tinha conseguido partir. Mais 50 km e chegaria ao meu primeiro destino. Ao meio dia aproveitei uma sobra de árvore em Barra velha para tirar uma soneca de uma hora. Sol estava quente e eu tinha muito tempo pela frente. Ao chegar a Piçarras peguei vento contra que me acompanhou até chegar na casa dos meus queridos amigos Adolfo e Lola. Hora de relaxar. A moleza tomou conta do meu corpo inteiro. Depois de dois meses de tensão, poder relaxar até parecia um sonho. Agora é só seguir em frente com calma. Chegou a hora da partida
Tantos imprevistos, tantas promessas, tantas frustrações, tanta ansiedade e Tanta Alegria por poder iniciar a grande aventura. Data da partida: 15/03/2009 Hora: 06:30h Cidade: Joinville – SC Ponto de encontro com os amigos: Posto de Gasolina ao lado do Cemitério Municipal, às 07 horas. Destino do primeiro dia: Itajaí SC. Nestes últimos dias foi uma grande correria para conseguir arrumar tudo. O atraso de uma semana foi providencial. Várias coisas boas aconteceram. Consegui um peque apoio e dois novos padrinhos. Mas o principal, recebi duas cartas de Portugal do meu grande Amigo Pe. Delfim Borges da Silva, a quem muito o admiro. Se eu tivesse partido antes não teria tido esta grande alegria. Ontem a noite tentei colocar a bagagem na carenagem, e por mais que me esforçasse, não foi possível colocar todas as coisas. Hoje de manhã tirei tudo e fiz uma rigorosa seleção eliminando algumas peças que julguei que não fariam muita falta. Mesmo assim faltava espaço. E agora, o que fazer? Pensei até em adiar mais uma vez o dia da partida para confeccionar uma bolsa para pendurar na mesa do guidão. Mas a idéia não me agradava. Finalmente tive uma luz. Tirei do meio dos meus alfarrábios um suporte de alforje dianteiro que eu usava na outra bicicleta. O problema era achar um espaço para fixar o suporte. Eu já tinha suado outras vezes na Tanajura, mas agora este espaço está ocupado com o suporte das garrafas de água. O único lugar possível foi fixar na suspensão dianteira. E não é que funcionou?! Com mais 40 litros de espaço foi possível acomodar o material de cozinha e ainda sobrou espaço para um pouco de comida. Ainda não pesei, mas penso que a Tanajura está rondando os 60 quilos de peso. Bom para as descidas, mas em compensação nas subidas das cordilheiras... Não quero nem pensar. Vou deixar para me preocupar com isso quando chegar lá. E assim, dou por inaugurado o meu Diário de Bordo. Espero que você volte muitas vezes aqui para me acompanhar na minha odisséia. Abraços a todos e obrigado pela companhia. Valdo |





