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Capítulo 6º

Do magnetismo, da eletricidade e da cinética.

Minha vergonha só não se tornou maior por causa do brilho que tomou a face de Carol, e pelo sorriso largo com que me brindou. Nos três minutos em que esperamos pela chegada da composição do metrô soube que ela e toda a sua família eram cristãs, que freqüentava uma igreja pequena, de uma denominação da qual nunca ouvira falar. O leitor lembre-se de que estava eu em meus dezessete anos e, é claro, interpretei isso como o mais claro sinal dos céus.

— Mas... você sempre começa suas conversas assim?

— Hã... não. Na verdade, não sabia se tinha dado um fora fenomenal. Bom que seja cristã, também.

Fomos andando em direção ao lado direito da plataforma, onde pararia o primeiro vagão do metrô. Normalmente, era o vagão mais vazio, e poderíamos nos sentar. Chegamos ali ao mesmo tempo em que a composição; havia, como imaginamos, lugares, e ficamos lado a lado.
Conversamos ainda sobre alguns assuntos, que suponho espirituais e denominacionais, e talvez ainda alguns assuntos ligados ao vestibular. Suponho, pois, como já lhes disse anteriormente, pouco desse dia se salvou em minha memória. Lembro-me de gravar o sorriso, o tom de voz, a caixa de lenços de papel que ela usava, a forma como ela cruzava as pernas, cada sarda de seu rosto, cada curva do cabelo. Lembro-me de deixá-la falar, de desejar que ela fosse até a última estação, como eu iria. E quase mais nada.

Carol se revelou falante, mais do que em sala de aula. É claro, digo isso com algum prazer. A mesma voz pela qual eu me apaixonara eu descobria agora que não era servida apenas em doses homeopáticas, mas de forma generosa. Meu Deus, e aquele sorriso? Pouco me lembro daquela noite, mas certamente lembro de tê-la feito rir algumas vezes com comentários banais. Ela ria abertamente, feliz de não estar sozinha, conversando com alguém de quem ela realmente gostou. É claro, cada risada contava mais pontos em meu “sinal”.

Quando me perguntou em que estação eu desceria, descobri que ela iria até uma estação antes. Seriam dois minutos e quarenta e cinco segundos sem ela, pensei. Pensei também que todos os sinais já estavam postos, e que minha certeza deveria ser redundante neste momento.

—Olha – arrisquei, quando faltava apenas uma estação para que ela descesse – talvez seja meio loucura, mas... quando eu ouvi sua voz na sala... vai parecer loucura mas... mexeu tanto comigo e... sei que parece loucura... mas... eu... escutei... sua... voz... e eu te...


Lembro-me também do suave toque em meus lábios. Era seu dedo, forçando-me a calar-me.


—Já faz alguns dias que tenho notado isto – ela me disse – e também acho você uma pessoa legal mas... é meio cedo pra isso... e eu estou saindo de um relacionamento de alguns anos... podemos ser amigos? É bom ter uma companhia no metrô, quando volto.


Continuei sorrindo, como se aquilo não tivesse importância.


—Claro... mas você me interrompeu. Um dia, eu volto a falar nisso, tudo bem?


Ela riu.

— Tudo bem. Mas só com minha autorização, certo?

— Certo. Você manda.

Ela se despediu com um meio sorriso, e eu fiquei sozinho.

Nada naquele dia correra como planejado. Na verdade, nada havia sido planejado, e eu estava cansado, surpreso comigo mesmo. Fui para casa, deitei-me, e dormi imediatamente.

No outro dia, no trabalho, Fernando e Renata, dois grandes amigos, notaram meu cansaço nas primeiras horas. Notaram o meu silêncio, o meu fazer de trabalho quase mecânico. Fernando veio conversar comigo, mas, como bons homens, desconversamos, ficando só no “conheci uma gata...” – da parte dele, é claro, que conhecia “gatas” todos os dias da semana que tinham pelo menos uma vogal em seu nome. Já Renata parecia ter o dom de tocar exatamente onde doía.


—Hmmm... vítima nova no pedaço, hein?


Por mais que eu tentasse desconversar, Renata sabia como arrancar minhas aventuras e, principalmente, desventuras, como já havia feito outras vezes. No final de nosso almoço, já sabia de toda a história.


—Meu! Que fora! Este eu tenho que anotar... apesar de que ninguém iria me dar uma cantada dessas! Isso foi hilário!!! “Você já conhece Jesus...” Quá! Que piada! E tentar dizer que “ama” a menina na primeira vez que vocês conversam... Meu! Você não tem senso de ridículo, simancol, não? Vem cá que vou te dar uns conselhos.


Os conselhos dados na última parte da conversa, com certeza, não constarão desta obra. Por mais que interessantes, não deveriam fazer parte de minhas lembranças, por mais que eu evite confessar que fazem. A grande vantagem de Renata era exatamente sua sinceridade.


Não voltei ao cursinho naquela semana. Telefonei para Aline, pedindo que guardasse meu lugar, e também relatei tudo – ou pelo menos, a parte que menos me envergonhava – a ela. Aline concordou com Renata, e eu podia imaginá-la segurando o riso do outro lado da linha. Poderia mesmo jurar que ouvi uma gargalhada antes que ela desligasse.


Eu e Aline ainda combinamos manter nossa reunião de sábado, na casa dela, onde eu certamente teria que contar tudo de novo, com mais e mais detalhes.

O que mais me preocupava, porém, é de onde Carol tirara aquele “já faz alguns dias que tenho notado isto...”. 

 

(se você gostou, tem mais em http://de-como.blogspot.com



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