AS NOVAS TECNOLOGIAS CONTRIBUEM PARA O FIM DA ESCOLAJoão José Saraiva da Fonseca[1]UNESCO prevê que as novas tecnologias possam acabar com a escola. A UNESCO delineou no início do século seis cenários, que de acordo com a organização seriam plausíveis para a escola nos próximos quinze – vinte anos. Em dois dos cenários considerados como possíveis, a Internet e as novas tecnologias da informação e comunicação poderão favorecer o fim dos sistemas educativos, sendo a educação assumida pelas grandes empresas e conduzida de acordo com os seus interesses de mercado. Outro cenário apresenta uma escola resistente à mudança, na qual a utilização das novas tecnologias não conseguirá alterar substancialmente as tradicionais formas de ensinar. Os cenários considerados como “ideais” ilustram a escola como um palco de aprendizagem de saberes ao longo de toda a vida, vinculada a uma forte dependência do Estado, trabalhando com a comunidade em que se insere e estreitamente ligada às empresas. A probabilidade de tal acontecer é, porém, considerada como “irreal”. A propósito do papel das novas tecnologias na educação, a Revista Ibero-Americana de Educação publicou no seu número monográfico: TIC na educação (Setembro - Dezembro 2000), um artigo de João Pedro da Ponte[2], intitulado: “Tecnologias de informação e comunicação na formação de professores: que desafios?” De acordo com o autor, “encontramos atualmente entre os professores atitudes muito diversas em relação às tecnologias de informação e comunicação (TIC)”. “Alguns olham-nas com desconfiança,
procurando adiar o máximo possível o momento do encontro indesejado. Outros
usam-nas na sua vida diária, mas não sabem muito bem como as integrar na sua
prática profissional. Outros, ainda, procuram usá-las nas suas aulas sem,
contudo, alterar as suas práticas. Uma minoria entusiasta desbrava caminho, explorando incessantemente novos produtos e idéias, enfrentando dificuldades e perplexidades. Nada disso é de admirar. Toda a técnica nova só é utilizada com desenvoltura e naturalidade no fim de um longo processo de apropriação. No caso das TIC, esse processo envolve claramente duas facetas que seria um erro confundir: a tecnológica e a pedagógica”. O professor “vê-se ... na contingência de ter não só de aprender a usar constantemente novos equipamentos e programas mas também de estar a par das «novidades». No entanto, mais complicado do que aprender a usar este ou aquele programa, é encontrar formas produtivas e viáveis de integrar as TIC no processo de ensino-aprendizagem, no quadro dos currículos atuais e dentro dos condicionalismos existentes em cada escola. O professor, em suma, tem de ser um explorador capaz de perceber o que lhe pode interessar, e de aprender, por si só ou em conjunto com os colegas mais próximos, para tirar partido das respectivas potencialidades. Tal como o aluno, o professor acaba por ter de estar sempre aprendendo. Desse modo, aproxima-se dos seus alunos. Deixa de ser a autoridade incontestada do saber para passar a ser, muitas vezes, aquele que menos sabe (o que está longe de constituir uma modificação menor do seu papel profissional)”. “As TIC proporcionam uma nova relação dos atores educativos com o saber, um novo tipo de interação do professor com os alunos, uma nova forma de integração do professor na organização escolar e na comunidade profissional. Os professores vêem a sua responsabilidade aumentar. Mais do que intervir numa esfera bem definida de conhecimentos de natureza disciplinar, eles passam a assumir uma função educativa primordial. E têm de o fazer mudando profundamente a sua forma dominante de agir: de (re)transmissores de conteúdos, passam a ser co-aprendentes com os seus alunos, com os seus colegas, com outros atores educativos e com elementos da comunidade em geral. Esse deslocamento da ênfase essencial da atividade educativa — da transmissão de saberes para a (co)aprendizagem permanente — além de ser uma das conseqüências fundamentais da nova ordem social potenciada pelas TIC, constitui uma revolução educativa de grande alcance”. A tecnologia tem tido reflexos na educação, presencial e a distância, proponho uma reflexão sobre de que modo as diferentes tecnologias têm influenciado a educação em geral e a educação a distância em especial.
Como associar o desenvolvimento da educação a distância e a evolução das novas tecnologias?
De acordo com diversos autores o desenvolvimento da educação à distância, pode ser caracterizado pela existência de três fases, intimamente ligadas ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação:
1ª fase – Ensino por correspondência
O ensino por correspondência surge com o desenvolvimento dos sistemas postais, no século XVIII. As primeiras manifestações de ensino por correspondência decorreram no século XIX, sendo o primeiro curso ministrado na Suécia em 1833[1] e a primeira escola criada na Inglaterra em 184[2]. O ensino por correspondência tem como único suporte para a distribuição de informação, o material impresso. Os elementos necessários ao curso são enviados aos alunos pelo correio.
Apesar de desenhados visando colocar um elevado ênfase na independência do aluno, apresentam como fator negativo, a descontinuidade espacial (ineficiência da interação entre aluno e professor). O ensino por correspondência, registrou uma expansão e relevância significativas em países anglo-saxônicos e nórdicos, embora especialmente direcionado para o ensino básico e, freqüentemente para o ensino técnico. O ensino por correspondência, em parte pela limitação imposta pelos materiais didáticos na forma escrita, não foi generalizado a níveis superiores de qualificação.
Com o advento da radiodifusão passou-se a uma nova fase, na qual se assiste à passagem da utilização de sistemas baseados no material impresso, para sistemas baseados em sistemas de telecomunicações nos quais a distribuição de informação é realizada através de fitas áudio e vídeo e difundida através de TV e rádio.
O material impresso continua a ser essencial como complemento aos recursos tecnológicos referidos. Utilizado como guia de aprendizagem é essencial para facilitar a utilização pelos alunos, não só dos materiais impressos utilizados no ensino por correspondência, mas também dos materiais áudio e vídeo gravados ou radiodifundidos.
3ª fase – Digital
Com o advento das tecnologias de comunicação bidirecionais característica desta fase, nomeadamente o uso da informática, a possibilidade de interatividade têm vindo a crescer em exponencial, reduzindo drasticamente a questão da distância com o aluno e possibilitando aos sistemas de educação à distância, substituírem o material impresso na distribuição da informação. Hoje em dia o multimídia propõe a convergência entre o áudio, o vídeo e a informática possibilitando novos espaços à Educação a Distância, para a veiculação de informação e para a interação.
Na Sociedade da Informação a palavra convergência aparece associada á intima ligação entre diversos campos de atividade e do saber e entre as diversas tecnologias de informação e comunicação.
Em Educação a Distância a convergência tem vindo ao longo das décadas aglutinando as diversas mídias disponíveis em cada época, caminhando-se para a existência de única mídia que reúne os recursos didáticos impressos, áudio e vídeo. Esta nova mídia corresponde a criação de uma nova linguagem com características próprias e cujo estudo ainda está no início.
A
Educação a Distância sustenta a sua evolução num eficaz sistema de interação
entre a instituição que promove o curso e o aluno. Este fato explicita o
estabelecer de uma relação direta entre o desenvolvimento da educação à
distância e os avanços ocorridos nas tecnologias da informação e comunicação.
Face aos avanços tecnológicos qual o papel do material didático?
Nesse processo o material didático adquire particular relevância. O material didático para os cursos de educação à distância, independentemente do instrumento de mediação que seja utilizado, deverá ter a preocupação de facilitar o processo de aprendizagem do aluno, motivando-o para questionar permanentemente a realidade que o rodeia, condição básica para uma intervenção transformadora. Este processo deverá ser desencadeado com base em propostas educativas significativas e relevantes para o aluno e para a sociedade. O material didático para cursos de Educação a Distância deverá promover a autonomia, flexibilidade, comunicação multidirecional e a aprendizagem individual e colaborativa, realçando mais a aprendizagem do que o ensino, através de propostas de trabalho contextualizadas, baseadas na resolução de problemas da realidade do aluno, em que ele seja colocado perante situações que envolvam a vivência de papéis diversificados do ponto de vista procedimental e atitudinal fomentando a metacognição e a práxis individual e do grupo. A equipe multidisciplinar, responsável pela elaboração do material didático de um curso de Educação a Distância, deverá procurar diagnosticar as representações individuais e coletivas dos alunos face à educação e à sociedade de modo que a mensagem veiculada produza sentido e promova a ação.
As evoluções das tecnologias da informação e comunicação abrem crescentes oportunidades de troca de informação, interação, intercâmbio de idéias entre os alunos e a instituição que promove o curso e entre os alunos entre si. Possibilita desse modo a criação de comunidades de aprendizagem em rede, em que a bidirecionalidade e a cooperação e reduzindo a distância com os alunos.
Apesar da evolução tecnológica, assiste-se a uma realidade em que as novas tecnologias não se limitam a substituir as anteriores na totalidade. As tecnologias mais recentes adicionam o seu potencial ao valor das anteriores. Contudo entre o aparecimento de uma tecnologia e a sua utilização, há uma defasagem temporal, motivada pela dificuldade de acesso e de competência para a sua utilização.
BRASIL, TV na escola e os desafios de hoje. Brasília: UniRede-SEED/MEC, 2001. LANDIM, Cláudia Maria Das Mercês Paes Ferreira. Educação a Distância: algumas considerações. Rio De Janeiro: Cláudia Maria Das Mercês Paes Ferreira Landim, 1997.
Texto de João José Saraiva da Fonseca
[1] A este fato não podem ser certamente alheias as condicionantes de ordem geográfica, climatérica e populacional do país. [2] O seu desenvolvimento visa atender à população que nas urbes industriais do século XIX, não tiveram acesso às instituições de educação tradicional. No âmbito da reflexão proposta, apresento um slide show sobre a evolução das novas tecnologias da informação e comunicação analógicas na educação. [1] João José Saraiva da Fonseca é Doutor em Educação. [2] João Pedro da Ponte e professor do Departamento de Educação e Centro de Investigação em Educação, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal. |


