Não quero parecer arrogante, não tenho experiencia alguma no teatro
que me dotasse de legitimidade para escrever sobre a peça, e nem sei se
quero isso rs. Nem tendencioso, afinal era a primeira vez que
eu assistia um espetáculo da Cia Pessoal, desde os tempos que nos
conhecemos
nunca tive a oportunidade, e se trata de um tema que eu gosto bastante,
a
esquizofrenia. Mas quero compartilhar a experiência que tive com o
espetáculo enquanto publico,
se vai de encontro ao que vcs pensaram qd a construiram, e melhor
entender alguns trechos
altamente simbólicos nos seus sentidos.
Choquei de principio, teatro cru, uma atriz, uma caixa, e um
tubo de remédios no palco. Nunca tinha visto a Ju atuar. Confesso que me
perguntei se aquilo seria suficiente para preencher o espaço entre o palco e a
minha cabeça durante aquele intervalo de tempo. Pra minha satisfação foi melhor
ainda. E haja responsa em segurar um espetáculo de quase uma hora sozinha.
Coisa de esquizofrênica. RS.
O texto maravilhosa e milimetricamente critico, ácido, muito
bem construído em torno de temas que fazem parte do nosso dia a dia, de coisas
que praticamos ou que somos cúmplices, da padronização e domesticação do ser.
Uma esquizofrênica não só com a consciência de que é
esquizofrênica, mas com uma imensa consciência de mundo. Pouco a pouco
revelando a esquizofrenia que é o mundo em que vivemos.
O lítio, um vilão que se transforma numa espécie de melhor
amigo na solidão (na verdade queria entender melhor ele enquanto
personagem), pendurado ganha a forma de personagem que gera o conflito
levado durante toda a peça. O espetáculo não perdoa nada, a deturpação
da família, o dinheiro,
os padrões, as obrigações, alvos de criticas contundentes em torno dos
ícones que
fundamentam a “ocidentalidade” do mundo capitalista globalizado nas
pequenas
relações humanas.
A esquizofrenia, uma inocência tão perigosa para o andamento
“normal” das coisas, a inversão dos valores, Osama e Obama, o bestial e o progresso, o esquizo e o mundo
“saudavel”, o mundo esquizo e a pessoa saudável. As torres gêmeas que derretem,
ou fui só eu quem viu? Se eu vi é porque as torres derreteram.
Os símbolos durante a peça me chamaram bastante atenção, o
bonequinho pra mim lembrava a infância da personagem, era como ela falando,
falando, falando sem parar, coisas que as pessoas “normais” não conseguem
entender, até que é melhor calá-la. Fala durante o tempo todo, mas toma o lítio
no final e se cala. O Batman, o Mickey, esquizofrenias aceitas pela sociedade
do consumo, encaradas como normais.
Me passou muita coisa pela cabeça, experiências, sensações,
pensamentos.. não da pra compartilhar tudo agora. rs. Mas tem algumas coisas
que ficaram suspensas, que talvez somente assistindo uma segunda vez eu consiga
assimilar. Mas poderia cogitar seus significados. Como, por exemplo, ela entrar
descalça e usar os calçados somente depois. A blusa maior que o seu tamanho, o
corte da blusa para ajustá-la. Depois os cortes para destruí-la. O chapéu de
flores na cabeça. E a pergunta que todos devem ter feito ao sair do espetáculo,
como se chama quando a tartaruga esconde a cabeça na carapuça? Hipocrisia?
Outra coisa, até onde vão os traços autobiográficos? rs.
por
fim, adorei ve-la atuar, os movimentos, as expressões.. muito bom
aquilo, orgânico.. marcam as danças, os passos, os movimentos dos pés,
dos braços, das maos, dos dedos, as expressoes do rosto.
parabens a vcs duas, ju e tati, pelo belissimo trabalho. e que ele nunca se cale, nem com litio nem com nada.(Depoimento de Ahmad Jarrad)