Remédio contra Tentações
Irmão X
Instado por um cristão novo de Jerusalém, que se fazia portador de preciosos títulos sociais, desejoso de ouvi-lo quanto a remédio eficaz contra as tentações, Simão Pedro, já velhinho, explicou sem rebuços: – Certo homem de Gaza, que amava profundamente o Senhor e lhe observava, cauteloso, os mandamentos, após cumprir todos os deveres para com a família direta, viu-se, na meia-idade, plenamente liberto das obrigações mais imediatas e, porque suas aspirações mais altas fossem as de integração definitiva com o Altíssimo Pai, consagrou-se à contemplação dos mistérios divinos. Recolheu-se à oração e à meditarão exclusivas. Extasiava-se diante das árvores e das fontes, perante o lar e o céu, louvando o Criador em cânticos interiores de reconhecimento. Tão maravilhosamente fiel se tornara ao Poder Celestial, que as Forças Divinas permitiram ao Espírito das Trevas aproximar-se dele, qual aconteceu, um dia, a Job, na segurança de sua casa em Hus. O Rei do Mal acercou-se do crente perfeito e passou a batalhar com ele, tentando enegrecer-lhe o coração. Após longos dias de conflito acerbo, o aspirante ao paraíso implorou ao Eterno, em soluços, lhe fornecesse recurso com que esquivar-se à tentação. Suplicou auxílio com fervor tão intenso, que o Misericordioso, através de um emissário, aconselhou-o a cultivar a terra. O piedoso devoto atendeu à ordem, rigorosamente. Adquiriu extensos lotes de chão, preparou sementeiras e adubou-as; protegeu grelos tenros, dividiu as águas com inteligência; tomou a colaborarão de regular exército de servidores e, vindo o Perverso Dominador, tão ocupada lhe encontrou a mente que foi obrigado a adiar a realização dos escuros propósitos. O aliado de Deus agiu com tanto brilho que, em breve, a propriedade rural de que se fizera fiador converteu-se em abençoado centro de riqueza geral, a produzir, mecanicamente, para a fartura de todos. Atendida a designação que procedia do Alto, o mordomo voltou a repousar e o Malvado se lhe abeirou dos passos, novamente. Outro combate silencioso e o devoto suplicou a intervenção do Altíssimo. Manifestando-se, por intermédio de devotado mensageiro, recomendou-lhe o Pai Bondoso fiar a lã dos rebanhos de ovinos que lhe povoavam as pastagens, e o beneficiado do conselho celeste observou fielmente a determinação. Movimentou pessoal, selecionou carneiros, adquiriu teares e agulhas, fez-se credor de larga indústria do fio e, chegando o Maligno, notou-o tão ocupado que, sem guarida para provocações, se refugiou a distância, aguardando oportunidade. O esforço do missionário, em poucos anos, imprimiu grande prosperidade ao serviço fabril, dispensado-o de maiores preocupações. Reparando-o livre, regressou o Gênio Satânico rearticulou-se a guerra íntima. O aprendiz da fé recorreu à prece e outra vez implorou medidas providenciais ao Doador das Bênçãos. O Poderoso, exprimindo-se por um anjo, induziu-o a moer grãos de trigo para benefício comum. Voltou o favorecido ao trabalho e construiu, utilizando o concurso de muita gente, valiosos moinhos, suando, à frente de todos, na fabricação de farinhas alvas. Tornando o Dragão das Sombras e percebendo-lhe tão grande preocupação na atividade salvadora, retirou-se de novo, constrangido, espreitando ocasião mais oportuna. Com o êxito amplo do servo leal, novo descanso abriu-se para ele e Satanás retornou, furioso, à batalha pela posse de sua vida. O piedoso discípulo da salvação refugiou-se na confiança em Deus e o Todo Amantíssimo, por outro enviado, aconselhou-o a erguer um pomar, em benefício dos servidores que lhe seguiam a experiência. Retornou o crente ao serviço ativo e tão entregue se achava às responsabilidades novas que o Perseguidor se viu na contingência de retroceder, na expectativa de ensejo adequado. A fidelidade conferiu ao trabalhador operoso novas bênçãos de merecida prosperidade e o apaziguamento lhe felicitou o caminho. Quando se fixava o crente, despreocupado e feliz, na beatitude, a fim de melhor agradecer as dádivas divinas, eis que ressurge o Maldito, convocando-o a retomar o duelo oculto. O devoto, entretanto, compreendendo, por fim, as lições do Senhor, não se internou em novas rogativas. Envolveu-se no serviço útil ao mundo e aos semelhantes, até ao fim de seus dias, quando partiu da Terra ostentando a coroa da eternidade. O ouvinte sorriu, algo apreensivo, e o velho Pedro, calejado no sofrimento e no sacrifício, terminou, muito calmo: – O único remédio seguro que conheço contra as tentações é o mergulho do pensamento e das mãos no trabalho que nos dignifique a vida para o Senhor. E deu por finda a fraternal entrevista. Livro “Luz Acima”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. |