Para os meus alunos, em
nome do amor que vamos construindo
Como deve ser o amor?
Sei lá!
Cantilenas, poemas, sonhos dourados, caravelas ao vento, cabelos desgrenhados.
A serenidade na parede caiada do outro. Ser que desagua na ponta do coração, o enleio na rede que une uma mão a outra mão.
Mesmo nos desencontros que a vida cava, que essa rotina maldita socalca, que as dores escravizam, o eu é tu. Uma soma que embala.
E é então que dentro de cada um nascem rosas e tulipas. Correm riachos sobre pedras incertas. Abre-se o céu límpido. Rasgam ventos a plenitude da paisagem.
Leva-se o sorriso em parte incerta.
Mira-se a paisagem humana e enfrenta-se porque nunca se está só.
Amo e amo o amor.
Gostaria de dizer que amo tudo com uma intensidade imensa.
Era assim que eu queria amar.
Amar até ficar doente. Amar e deixar correr a fraqueza nos laços que me unem. Ficar louca e desvairada. Amar a chorar… a chorar de dor… a chorar… até as lágrimas caírem em pedra no mundo. Se bastasse o meu choro para partir esta ordem estabelecida …Se bastasse chorar por mim quando enfraqueço os meus ideais, quando me corrompo neste mundo vil, quando desisto de lutar…Se bastasse … Sim, porque chorar é amar.
Peregrina caminho. E quantas vezes, mergulho alheada de mim na realidade absurda, cheia de ruído, descoordenada e imprevisível. Sinto, então a cabeça a minguar, o corpo a crescer desmesuradamente e não caibo em mim. Temo que a loucura seja vizinha bisbilhoteira à espera destes desarranjos para se apoderar dos meus sentidos. Consciente, procuro controlá-la e tratá-la como má vizinha, nada lhe peço, não a cumprimento, tranco as portas para que ela não adivinhe o que mora na minha casa. E então dá-se o inverso cresce a cabeça e mingua o corpo. Será só a loucura que me assalta? Antevejo a morte de um corpo fulminado por sentimentos diversos.
Pinto a verniz o amor para conservar a sua lisura. Com o tempo o verniz estala e as fendas perfuram a casca do coração.
Deixo que as unhas se cravem no miolo do mais profundo sentir.
Ai amor, amor! Amor-loucura, amor-morte, amor-tuberculose, amor-saudade, amor-paixão, amor-ciúme, amor, amor, amor…
E vós todos tão seguros «Ai eu não amo assim!». Pois não. Amais em estradas rectas, direitinhas, sem curvas sinuosas suspensas em precipícios íngremes. Amais? Isso dizeis vós….Amais a mesa posta, a cama feita, as toalhas lavadas. Ah! Ah! Como é perfeito o vosso amor. Comeis sardinha e arrotais a pescada. Caminhais tombados, mas gritais que sois felizes, muito felizes, tão, tão felizes…
Olhai para vós. Eu vejo as unhas cravadas no miolo do vosso profundo sentir. O vosso verniz estala nesses rostos. Rostos sem graça, impenetráveis, sem cor, em linha recta como as estradas que perseguis. Olhai o precipício. Experimentai a queda.
Como é bom abrir os braços e encetar um voo louco na soma do eu e tu. Fazei-o enquanto sois jovens porque depois o amor é…eu depois dir-vos-ei. Agora. Não me apetece.
Olhai, o amor vive crucificado.
Até acho graça ao fogo de um dia de Fevereiro.
Amas-me? Oh amo-te muito!
E então é vê-los nas floristas a encomendar lindos ramos de rosas (vermelhas, muito vermelhas porque é assim a cor da paixão), nos restaurantes à luz das velas. Olhos lânguidos, assim de bicho morto, as mãos entrelaçadas. E eu, do lado de fora, com o nariz colado à vidraça vejo este espectáculo, rosa vermelha para aqui, rosa vermelha para ali. Nem sei que pensar. Bem sei que Pessoa dizia que as cartas de amor têm de ser ridículas, para serem cartas de amor. E como as cartas, digo eu, todas as manifestações de amor. Mas, porra, aquele cenário não é ridículo, as pessoas ficam patéticas. E o mais curioso é que no dia 15 só resta o rescaldo do fogo que os incendiou nesse dia 14 de Fevereiro. Oh Mas que importa? Foi bonito sim senhor! E para o próximo ano há mais. E nos restantes 364 dias as flores vão murchando.
O que se crucifica? O amor.
O homem inventor do tempo, não é senhor dele. A obra criada apoderou-se do criador para o escravizar. E o homem esse ser tão inteligente, sensível, emocional não tem tempo. Deve ser por isso que precisou de criar um dia de namorados que não é necessariamente de amor. Todos os dias acelera, corre, trabalha, cansado, cansado, a arfar entra no carro, sai do carro, vai buscar os filhos, vai às compras, a arfar, sempre a arfar.
Amas-me?
Sim, sim! Tenho de ir!
E então nessa correria, cansado da vida, nem dá valor aos castelos que construiu. No castelo já não há príncipes nem princesas. No castelo que paira agora sobre as cabeças, quase inalcançável, já não se ouve: Gosto de ti! Gosto de ti pelo que és e pelo que não és, gosto de ti na inocência de quem gosta sem questionar, gosto de ti, gosto de ti, preciso do teu silêncio, do teu abraço, de me deitar no teu regaço na certeza de que o mundo é perfeito.
E a paz partiu. O calor deste afecto, que é seiva de uma vida, quando esmorecido, constrói muros densos e uma vida áspera e azeda.
Os desencontros sucedem-se. E no amor como na vida diz-se aquilo de que não se gosta, olha-se com indiferença e secura, não se aprecia, deprecia-se, não se ama, detesta-se, não se acolhe, renega-se. O hábito fica incrustado até às ossos e não se deixa que o amor, volátil, doce, suave deixe chegar um halo de paz no coração do outro.
Na soma esbate-se a adição, subtraem-se sentimentos, dividem-se decisões e multiplica-se a solidão.
Amas-me?
Sim, sim…Já é tarde! E já agora tu amas-me?
Iup! Sim!
E o amor na cruz de cabeça pendida.
É tão fácil dizer simplesmente gosto de ti!
Vem a idade. Enfrenta-se o espelho. As rugas cavadas junto aos olhos são todos os sorrisos que se esboçaram, são todas as histórias vividas, são todas as lágrimas choradas pelas pessoas que a morte roubou. Os cabelos brancos são fios de seda que unidos tecerão todas as palavras que nos constituem, aquelas palavras que elegemos para o nosso universo e que cada um saboreia.
Talvez aí e só aí seja possível tirá-lo da cruz e deixá-lo apaziguado.
Com a idade já não importa aquele dia de Fevereiro.
Com a idade o amor é uma árvore despida pelo vento do inverno.
É a soleira do castelo imponente que se ergue em gestos simples.
É o companheiro também com idade cúmplice em cada olhar.
É a voz rouca e cansada da estrada percorrida.
É a dádiva dos filhos que se criaram.
É a soma dos desencontros que a vida provocou.
É a multiplicação de tudo o que já se dividiu.
É a serenidade abençoada de sonhos que persistem.
É a linha do horizonte que une o céu à terra.
Com a idade o amor é a aceitação do nada que se enfrenta.
É a eterna sabedoria de guardar no baú as noites em branco e as palavras tristes.
E dar ao amor o amor de quem sempre amou.
Virgínia Rafael