Trinta Minutos nos Vinte Anos: A Família Reunida
Era para ser um dia como outro qualquer. O tempo estava bom e as pessoas trabalhavam para garantir o sustento mensal. Era mais ou menos assim que pensava o professor que sempre falava que vendia a mão de obra para conseguir o dinheiro. João Anacleto era um professor que ministrava aulas de História na rede pública estadual de São Paulo, formado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas na Universidade Federal da Bahia. Conhecido como Comunis pelo jeito de refutar os capitalistas. Fazia de conta que nem ligava, no entanto vivia procurando o motivo da própria revolta.
Nem todos pensavam como ele. Nesse mundo de meu Deus, Ana Creta, por exemplo, uma dedicada irmã de caridade, pensava em alimentar os pobres meninos que viviam em uma praça central de São Paulo. Ela parecia esconder um segredo do interior da Bahia. Como ela, João Décio, um baiano sorridente e franco, estava caminhando pelo centro de São Paulo após uma entrega de mercadoria. Era proprietário de um caminhão Mercedes Benz vermelho. Lá pela década de 60, comprou o caminhão. Depois do pai da antiga namorada ter tocado da casa, assim que soube que a filha estava grávida do caminhoneiro.
O passado foi atroz. Esse pai enviuvou e separou as três filhas. A grávida foi para o convento. As duas mais novas foram para casa de parentes diferentes e, depois, mudaram-se para São Paulo. O destino foi cruel com a mais nova, Ana Creuza, 50 anos, precisou vender sanduíches. Naquele dia, estava com uma bolsa azul cheia de sanduíches de atum com cebola. Menos duro com a do meio, Ana Crisálida, entretanto ela chegou até a estudar na Itália e trabalhava em um restaurante famoso no centro de São Paulo como cozinheira.
Quem realmente não se perdoou foi João Filomeno, o pai, o avô e o sogro. Foi para São Paulo para procurar todos e acabou levando uma surra e teve amnésia. Vivia nas ruas com a mesma roupa de 20 anos atrás, um colete de couro, uma bermuda de brim, um jeans surrado, sapatos sociais rasgados que vestia com as meias bordadas pela finada esposa que desenhou com as linhas o símbolo do Bahia Futebol Clube. Vinte anos se passaram e ele não sabia o que procurava.
Raios e trovões anunciavam o dilúvio dos pecadores. No centro de São Paulo, o transeunte, o professor, a freira, a cozinheira, a vendedora e o caminhoneiro esperavam o ônibus para voltar para as casas na zona norte e por cerca de trinta minutos foram abençoados pelas lágrimas de Deus no ônibus. Sentaram nos primeiros bancos pai, filhas, neto e quase genro. Todos estavam felizes naquele momento, sorriam e sentiam-se próximos, contudo não faziam a menor idéia de que eram a família que se espalhou pelo mundo. Os rostos eram familiares, porém os anos trataram de maquiar a idade e o sofrimento da busca que não se encontraria naqueles trinta minutos de felicidade.