PAISAGEM (Marcos Montteiro)
Era só uma criança pedindo esmolas na esquina,
Uma ambulância levando os mortos numa chacina,
Era só um corpo, morto, exposto ao sol num domingo,
Um soco no rosto da moça que apanhou do marido.
A violência é tão sem preconceitos,
Aceita: rico, pobre, velho, novo, branco, preto.
A cada dia, momento e lugar,
Todo mundo pode começar a se desrespeitar.
E a culpa nunca é minha,
A culpa nunca é nossa.
A culpa é sempre de quem tem culpa.
Mas quem tem culpa não nos pede desculpas,
Quem tem culpa, quase nunca é culpado.
E a culpa que era toda de um filho da puta,
Cai nas costas de um pobre coitado.
Violência amiga,
Violência insana,
Violência antiga,
Violência humana,
Às vezes, tão política.
Às vezes, econômica.
Às vezes, científica.
Às vezes, tão platônica.
A violência é tão interessante,
Todo mundo pode ser um tanto intolerante,
A cada dia, momento e lugar,
Todo mundo pode começar a se desrespeitar.
Descontrole
Marcos Montteiro
Vivo uns dias tão despedaçados,
Assemelhados mais a pesadelos,
Em que meus sonhos são desperdiçados;
E o que é real reprime meus desejos.
E os meus desejos se transformam em ansiedade;
Ansiedade que me leva ao desespero,
O desespero que provoca o descontrole,
Descontrole que libera agressividade.
Agressividade, agressividade,
Agressiva idade.
Pés no Chão
(Marcos Monteiro)
Noites em claro, dias em branco;
Trancado no quarto ou, na rua, vagando.
A verdade é que eu me sinto em órbita.
Não sei se hoje é quarta, quinta ou domingo,
Se estou acordado ou se falo dormindo.
Só sei que eu me sinto em órbita.
Já fui um sonhador, mas hoje, tenho os pés no chão...
No chão de qualquer parte do planeta Marte, Saturno ou Plutão.
Paz demais é chato e me revolta;
Eu vou dar algumas voltas. Enquanto fico aqui, parado,
Gira na minha cabeça, o mundo. Agora eu quero dar o fora,
Só e acompanhado.
Já fui um sonhador, mas hoje, tenho os pés no chão...
No chão de qualquer parte do planeta Marte, Saturno ou Plutão.
Noites em claro, dias em branco;
Vagando no quarto ou, trancado na rua.
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Guerra e paz (Marcos Montteiro)
Quando a garoa se enjoa de si mesma,
E o vento perde o fio e já não corta.
Quando não há mais caminho,
E nas paredes do destino, meus murros abrem portas.
Eu me pergunto: Onde está você?
Se ainda luto, é pra nos proteger.
Quando se aprende, de tanto que se erra,
Que o erro é não tentar fazer...
Que se perceba o quanto que se ganha,
Ao perder o medo de se perder,
Eu me pergunto: Onde está você?
Se ainda luto, é pra nos proteger.
E quando há ruído entrando pelo ouvido,
Mas a boca insiste em sorrir;
E a falta de alegria some em tua companhia,
Eu te desejo aqui!
E me pergunto: Que encanto há em você?
E já não luto...Já não há mais porquê.
Quando se espera por uma chance de provar,
Que o improvável para muitos,
Não é impossível pra mim!
Eu me pergunto: Onde está você?
Se ainda luto, é pra nos proteger.
Eu me pergunto: Que encanto há em você?
E já não luto...Já não há mais porquê.
Índios Urbanos
Marcos Montteiro.
Alegria, tribo! Vamos aproveitar...
Que estamos vivos num mesmo lugar.
Alegria, tribo! Vamos comemorar,
Qualquer motivo que deixe a tristeza pra lá.
Nossas armas são estes instrumentos.
A munição: as nossas palavras.
Nossa batalha é o puro divertimento.
Revolução é permanecer em paz!
Alegria, tribo! Vamos todos cantar,
Soltar o grito e festejar.
Alegria, tribo! Vamos todos dançar,
Ao som do ritmo que veio pra detonar.
Ontem, nós éramos poucos,
Mas, hoje, somos muitos.
Amanhã, teremos outros.
E sempre estaremos juntos!
Alegria, tribo! Vamos todos cantar,
Soltar o grito e festejar.
Alegria, tribo! Vamos todos dançar,
Ao som do ritmo que veio pra detonar.
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Caras (Marcos Montteiro)
Cara. Olha esse cara na revista Caras,
Cara-de-pau rindo da gente otária.
No seu mundinho, ele se acha um rei.
E a “coroa” que também vive sorrindo à toa,
Vive dizendo que a vida é boa.
Nas entrelinhas, eu entendo assim:
Olhe o que eu tenho, olhe pra mim;
Com o que eu tenho, sou feliz,
Tenho tudo o que você sempre quis.
Tenho o poder de te fazer sonhar,
Querer tudo o que tenho;
Viver só sonhando e morrer querendo.
Não! Eu sou subúrbio, sou revolução;
Não acredito mais em eleição,
E não “tá” dando pra viver assim.
Sim, todo problema tem uma solução,
Eu não confio em religião.
Não vou paga pra alguém orar por mim!
Jardim (Marcos Montteiro).
Ontem, eu era um míssil voando sem destino,
Andando cabisbaixo e, sempre, quase explodindo.
Mas, surpresas boas acontecem a qualquer um,
E qualquer um à toa, pode ter seu dia de luz.
Ouvindo a voz que o vento sopra em minha mente,
Uma vida nova me renova. Daqui pra frente,
Vou cantar em paz, que é bem melhor assim.
Vou cuidar de nós...De nós e do jardim...
Das borboletas, que voam em nossa direção.
Na cor violeta, de um doce acorde da canção...
Dos bem-te-vis, que entoam seu canto feliz,
Em tons anis, que ecoam num conto que diz: Amor. |