Diário São Tomé
Dezembro 2006
Voltaremos na Gravana
Esta nota introdutória ao diário e o nome “Voltaremos na Gravana” foram escritos após o término do mesmo.
Não pretendi com estas notas em forma de diário elaborar um romance ou um ensaio literário merecedor de qualquer publicação. Foi apenas uma forma que encontrei de enganar a rotina em que os dias se foram transformando. Deixo muitas coisas por escrever, muitas “histórias” não foram aqui relatadas.
Uma parte de mim ficará para sempre nesta ilha.
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Este diário vai ser escrito durante a minha estadia em São Tomé e Príncipe, no período compreendido entre o dia 2 de Dezembro e o dia 30 do mesmo mês do ano de 2006
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São Tomé, dia 1, 2006-12-02
São neste momento 14h43m, acabo de acordar como que a despertar de um novo sonho, deparo-me novamente em São Tomé, novamente na Casa Amarela. Em Agosto passado quando cá estive nunca supus que em menos de meio ano regressaria a esta ilha.
A viagem correu dentro da normalidade exigida, foi um voo calmo e seguro. Verifiquei, agora que cheguei, grandes diferenças em relação à primeira vez que cá vim na altura como turista. Desta vez à chegada não me apavorei com a quantidade de ofertas de Táxi e guias disponíveis, nem com o típico burburinho de um Aeroporto em terras de África. No entanto continua-me a fazer muita confusão esta desorganização aparentemente organizada para entrar no País. Apanhámos um Táxi para sair do aeroporto. No caminho a paisagem não me desperta o mesmo sentimento, perdeu aquele impacto da minha primeira vez nesta terra. Quando chego ao meu primeiro destino, digamos que a casa amarela será o nosso “quartel base” desta aventura, inicio o que virá a ser um dos martírios desta minha estadia (reflexo dos nossos tempos) colocar baterias à carga, muitas baterias, a do telemóvel, a da câmara fotográfica, a da câmara de filmar, a do portátil, das pilhas recarregáveis. Uma quantidade enorme de aparelhos que necessitam de energia eléctrica para funcionar ou carregar as baterias. Não consigo imaginar a logística que será necessária quando o destino não permite ir carregando as baterias ao longo da estadia.
Adormeço na cama de rede pendurada no coqueiro que fica defronte à casa, tenho de recuperar a noite não dormida na viagem.
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Agora acordado, olho o horizonte, o mesmo que a 18 de Agosto me criou uma sensação de ansiedade devido ao facto de estar há tanto tempo numa ilha sabendo que não podia sair quando me apetecesse, desta vez vão ser 30 dias, tenho algum receio de não me aguentar devido à minha claustrofobia, mas a verdade é que vou andar mais ocupado. Chega a hora de planificar a minha estadia e de orientar os trabalhos fotográficos e videográficos e a formação na Escola de Campo. A Tânia, minha companheira nesta viagem, já adiantou algum serviço. São três, as actividades em que estamos inseridos. Realizar um levantamento fotográfico da arquitectura das roças de São Tomé. Filmar, montar e editar um documentário da história do café em São Tomé para ficar como documento a integrar o futuro museu de café na Roça Monte Café. Organizar um espaço de formação em fotografia, câmara escura, ateliers de Pinhole e de fotogramas na Escola de Campo situada na Roça Diogo Vaz.
Paro por momentos, observando a Tânia que dorme. Ainda não consigo deixar de pensar em tudo e em todos que ficaram em Portugal, do facto de me ter vindo embora de repente deixando a minha vida citadina e profissional para trás. Sei que o tempo vai apagar esta sensação de mim.
São Tomé, dia 2, 2006-12-03
Iniciámos hoje a primeira actividade, o documentário sobre a Roça Monte Café, decidimos fazer cada actividade em separado para conseguirmos orientar melhor cada uma delas. Não avançámos muito hoje, no entanto foi possível fazer uns primeiros contactos o que nos garante uma melhor planificação do plano de trabalho. Marcámos já uma gravação de Tafua (dança local que ainda tem origem na altura da colonização e com proveniência angolana), ficou para esta quarta-feira.
Uma das formas sempre apetecíveis de entrar em qualquer comunidade é através das crianças, são sempre elas que nos abrem a porta e nos oferecem a hospitalidade primeiramente. Nesta viagem trago um truque de ilusionismo, resume-se simplesmente a fazer desaparecer/aparecer um lenço, ora aparece retirado da palma da mão, ora desaparece para voltar a aparecer no espaço por cima da cabeça da criança. Gosto da reacção provocada por este truque, mas gosto mais ainda quando explico como o mesmo se faz. A expressão de admiração da criança que atentamente me observa passa por um sorriso meio envergonhado pelo facto de não ter descoberto o truque e por um sorriso de contentamento pela descoberta de um segredo que para ele estava há muito tempo por ser desvendado. Os ilusionistas à séria não concordarão muito com esta minha revelação.
A reacção ao truque e à minha explicação leva logo a uma oferta por parte das crianças, hoje na roça após a minha performance ilusionista fui logo convidado para os ir fotografar a executar uns movimentos de mortais à retaguarda, os quais apelidaram de flic/flac, como que em forma de pagamento de um pequeno espectáculo quiseram-me presentear com outro.
Visitámos o edifício onde vai ficar o museu.
Decidimos adicionar imagens fixas ao documentário de vídeo. As primeiras ideias começam-se a formar, mas julgo que o alinhamento vai ser construído no desenrolar das histórias que nos cheguem. Agora que penso no assunto, era engraçado explorar mais a ideia do levantamento a partir da garrafa encontrada onde se pode ler no rótulo “Amostra do lote de 17 sacos de café moka arábica superior corrente tipo 6, embarcado no vapor Angola em 25/2/1971, conforme nota de embarque nº 1426, P.L.600. Roça Monte Café 27 de Fevereiro 1970”.
São Tomé, dia 5, 2006-12-06
Estamos no 5º dia da estadia, há 3 dias que não tomo quaisquer notas, entretanto muita coisa se passou, iniciámos a tomada de imagens faz 3 dias. Como previsto um trabalho deste género leva o seu tempo a iniciar, a conquistar e a merecer a confiança dos nossos interlocutores, é verdade que a desconfiança inicial fica completamente anulada após a demonstração da simpatia e disponibilidade de todos.
Já realizámos algumas entrevistas, captámos alguns rostos que fizeram a história da Roça Monte Café, captámos som e imagem da música Tafua. Os músicos existentes na roça montaram todo um aparato público para a realização do vídeo. Por momentos e durante as filmagens existiu uma entrega total. Os músicos e os dançarinos apresentaram quatro músicas para nós (nas festas autênticas e com a ajuda do grogue, da cerveja e do vinho de palma a dança torna-se muito mais exuberante). Eu na tomada de imagens, e a Tânia na sua constante procura de informação e contactos para um novo pólo de reportagem.
Pela primeira vez desci às sanzalas com um habitante local, sem um sentimento de ser mais um turista que vai para captar o boneco como se tratasse uma espécie em vias de extinção, ou de mais um troféu em forma de fotografia para exibição pública na Europa. Nas roças de hoje (refiro-me à de monte café) tudo é diferente, continuando a existir algumas referências ao passado, abandonadas mas presentes, como a não deixarem apagar uma memória tantas vezes dolorosa. A casa do patrão lá continua no alto, sobranceira, dominadora, fechada, abandonada, a casa do patrão irá ficar para sempre assim, a não ser que alguém, o Estado teria aqui um papel importante a desempenhar, a reutilize para fins turísticos ou outros. Existe ainda o sino que tocava para a formatura matinal, para o toque do almoço e para o recolher, às vinte e uma horas havia silêncio absoluto. Se alguém falasse um pouco mais alto que fosse, o suficiente para ser audível fora de portas poderia dar e tantas vezes deu direito a uma sessão de chicote, outros tempos.
Nestes 3 dias iniciámos também os ateliers na escola de campo situada na roça Diogo Vaz, a escola conta agora com um novo director argentino, parece-me que irá realizar um bom trabalho. Começámos primeiramente por montar e isolar da luz todo um espaço em laboratório. Da parte da manhã pouco mais fizemos que montar o laboratório e construir as câmaras fotográficas Pinhole. As latas das quais fizemos as máquinas eram de feijão, que por mera coincidência foi o nosso almoço, feijão com rodelas de chouriço, almoçámos todos juntos, os 20 jovens, o novo director da escola, as duas pessoas que tratam da escola e eu e a Tânia. Tenho de referir que fomos tratados como uns príncipes. A seguir ao almoço fomos então realizar a primeira actividade no laboratório, fotogramas. A experiência repete-se: a ideia de tirar fotografias começa sempre pelo auto-retrato, todos têm uma vontade enorme de se verem retratados. Aqui a máquina digital foi importantíssima pois permitiu a execução e visualização rápida da imagem. “Queimou!”, exclamavam, quando a fotografia apresentava alguns deles completamente escuros devido a algum erro de exposição agravado pelo tom preto da pele. Notei que era necessário abrir cerca de 3 diafragmas para que estes aspirantes a fotógrafos achassem que era a medição de luz correcta, e realmente o tom de pele sobre-exposto fica muito mais parecido com o tom real. No final da realização dos fotogramas e da sessão fotográfica em digital, houve, como não poderia deixar de ser num grupo de 16 rapazes, uma partida de futebol, o resultado encontrava-se em 5 a 1 quando abandonei o terreno do jogo. Vencia a equipa com camisa vestida. Ficou a promessa de voltar esta próxima segunda-feira. O fornecimento de energia para ligar o ampliador e a lanterna vermelha no laboratório ficou a cargo de um pequeno gerador amavelmente emprestado.
Na Roça Monte Café, o dia foi dedicado quase em exclusivo a entrevistas, não há muito a relatar, a não ser o facto de ter bebido vinho de palma. Fomos convidados pelo nosso guia da roça a ir a casa do seu primo provar este vinho. O vinho de palma começa por ser um sumo e à medida que vai fermentando, entre dois a três dias, vai tomando a forma de vinho, forte segundo ouvi dizer.
São Tomé, dia 6, 2006-12-07
Voltámos à roça de monte café, estamos em 4 horas de filme, o documentário começa a ganhar corpo. Hoje fomos captar imagens no campo, toda a ambiência da recolha, poda e plantação do café. Amavelmente um casal prestou-se a ir simular algumas destas tarefas para a filmagem, já que nesta altura do ano muitas delas não se realizam.
Estamos cada vez mais inseridos dentro da comunidade, a atitude dos habitantes da roça perante a nossa presença é radicalmente diferente, facilitando imenso o nosso trabalho. O facto de já não nos olharem como vulgares turistas, aliás nós próprios já começamos também a criticar a atitude de turista que chega, saca a foto e vai embora sem sequer dizer bom dia, eu acrescento à atitude desprezível o ar snobe com que alguns turistas lidam com as gentes locais, era evitável. Mas como dizia, o facto de já não nos olharem como turistas garante uma abertura e uma proximidade que enriquece em muito os testemunhos prestados. Pela primeira vez bebemos café na Roça Monte Café, “o café aqui da roça é bom, é um bom café, primeiro café de São Tomé” - dizem. Hoje tivemos a hipótese de comprová-lo. Hoje numa das entrevistas houve emoção, emocionou-se a senhora que contava e a Tânia que escutava, eu como andava perdido nas técnicas de filmagem consegui fugir, a máquina sempre foi um bom escudo de refúgio.
Falta ainda o nome do documentário, começa a ser preciso encontrar um nome.
Nestes apontamentos assumi que não ia referir nomes de pessoas, nem relatar histórias contadas, algumas estarão disponíveis no documentário, outras farão parte das memórias íntimas que ficarão entre quem as contou e quem as ouviu.
Marcámos a viagem a Príncipe, umas das ilhas que compõe o país. A viagem é na próxima quinta-feira. Os contactos estão feitos para alojamento, guia e transporte, teremos somente 3 dias para fotografar as roças existentes na ilha, irá ser uma corrida contra o tempo. Em São Tomé iremos dividir as roças em grupos consoante a sua localização. Fotografar primeiro as que se encontram a norte, depois as do centro e finalmente as que estão localizadas mais a sul. O livro sobre as roças sairá para breve. O documentário começará a ser montado no início de Fevereiro e será editado um calendário ou algo semelhante para 2007 com as imagens realizadas no atelier da escola de campo com o objectivo de angariação de fundos para a manutenção diária da escola e das aulas.
São Tomé, dia 10, 2006-12-11
Dia 11 de Dezembro, estamos cá já há 10 dias, o sentimento é estranho, de uma forma meio complicada de transcrever aqui, sinto como se fizesse parte deste país, não sentindo que estou fora de casa.
Com a falta de sol a concretização das imagens tem sido complicada. Não temos feito as fotografias que desejávamos, a luz encontra-se demasiado suavizada pelo constante céu encoberto. Tempestade, chuva forte, calor abrasador, de tudo já experimentámos por aqui, mas de luz em condições para fotografar é que tem estado escasso. Devido a estes factores sinto que perdi um pouco o rumo das fotografias a fazer, vamos para as roças para fotografar, insistimos na tomada de imagem, mas a imagem não sai, sai sem profundidade, sem relevo, sem vida.
Já fotografámos na Roça Água Izé, inclusive já nos deslocámos a esta roça duas vezes. Marcámos para a segunda vez a recolha do cacau, do fruto do cacau. Equipamento a preceito, por nossa parte as máquinas fotográficas, cartões e rolos e por parte do Sr. que nos acompanhou o instrumento de corte (gancho), sendo basicamente uma vara comprida com uma espécie de lâmina com forma de meia-lua na extremidade e a saca que servirá para transportar o fruto colhido. Simulámos dois aspectos ou maneiras de apanhar o fruto, sendo que a diferença da forma de apanhar incide basicamente na altura a que este se encontra. Para a realização da imagem do corte do fruto para retirar o interior, o que virá a ser o cacau propriamente dito, a operação foi realizada no local. Normalmente este processo é feito num armazém ou num terreiro preparado.
E novamente a falta de luz imperou, temos muitas das imagens com arrastamentos dos movimentos executados pelo Sr. que nos acompanhou com o propósito de demonstrar a apanha. Por curiosidade, em troca pediu-nos umas chuteiras (diz-me com orgulho que o seu clube é o Benfica de Portugal), pois as que possui já estão bastante rotas. Prometi trazer para a próxima.
Hoje, fomos novamente à Roça Água-Izé, já relatei um pouco da apanha do cacau, faltando referir que devido ao facto de me ter embrenhado na mata de calções fui fortemente mordido pelos mosquitos, não pelos que transmitem o paludismo, como me foi prontamente explicado por quem nos acompanhava. Estivemos também a documentar a escolha do cacau já torrado, normalmente realizado por mulheres e no armazém central da roça. Anteriormente tínhamos estado junto aos secadores onde o cacau é seco a quente, onde fotografámos os trabalhadores já na parte final desta operação.
A seguir ao almoço fomos pesquisar imagens e documentos no Arquivo Histórico de São Tomé, para adicionar a parte histórica ao documentário sobre a Roça Monte Café.
Para completar o documentário iremos também fotografar no museu, que está instalado num antigo forte, onde tencionamos recolher imagens sobre a história do café, do quotidiano nas roças, o relacionamento com o patrão, a escravatura, as condições de vida.
Ontem, dia 10, estivemos na Roça Diogo Vaz, aproveitámos e demos boleia ao director da escola de campo que tinha passado o fim-de-semana na capital para tratar do seu visto de residência. À chegada encontrámos os alunos a desenhar a fachada da escola no que se poderia chamar uma aula ao ar livre orientada por um dos alunos mais velho, gostei de os ver e assumo que senti uma pontinha de inveja.
Esperámos pacientemente pela chegada da luz, o sol teimava em ficar escondido. Numa pequena aberta conseguimos fotografar a escola, que no livro ficará referenciado como hospital.
Já na parte da roça tentámos fotografar a casa do patrão e as sanzalas, mas não foi possível pois o sol voltou a ficar encoberto para nunca mais se destapar neste dia, acabámos por desistir e rumar à capital. Aproveitámos e fotografámos a cidade, algumas vistas panorâmicas e alguns edifícios, não que a luz estivesse fabulosa, mas sempre estava mais interessante do que na serra.
Tenho de referir que na partida da escola os jovens vieram ao nosso encontro e ofereceram Jaca, um dos frutos característicos da ilha.
Hoje assustámo-nos pelo facto de nunca termos as condições favoráveis para fotografar, o que no futuro pode vir a parecer um lugar comum é neste momento um motivo de desmotivação da nossa parte.
Teríamos acabado o documentário neste dia, 8 de Dezembro, se estivessem reunidas todas as condições. A volta pela roça com carácter de visita histórica guiada levou que ficássemos a conhecer melhor a Roça Monte Café. Estava pensada e preparada a gravação de ensacar o café, inexplicavelmente os homens desta tarefa faltaram ao encontro, deverá ter surgido algum contratempo. Voltaremos a marcar. Faltou também captar a marcação das sacas com tinta, onde o café é ensacado e transportado. Não foi possível devido ao facto de faltar uma trincha, a qual nós já comprámos e iremos contribuir com a mesma na altura da gravação.
São Tomé, dia 11, 2006-12-12
No monitor do portátil aparece uma pequena janela que indica que faltam 23 minutos. Encontro-me a descarregar o primeiro cartão das imagens realizadas hoje na Roça Diogo Vaz, uma das tarefas diárias a que me habituei desde que aqui cheguei.
Hoje estou um pouco para o desanimado, o atelier de pinhole não correu do melhor, a falta do gerador foi um percalço do qual nem eu nem a Tânia estávamos à espera.
A improvisação a que fomos obrigados acabou por não surtir muito efeito e as imagens não ficaram com a força que era desejada. Os jovens acabaram por não ficar muito despertos para o atelier em questão devido à ausência de resultados satisfatórios, somente os que foram mais persistentes conseguiram atingir imagens já com alguma qualidade estética e técnica.
A sala que tem de ser isolada da luz para aí permitir a montagem do laboratório estava pior isolada do que da primeira vez, o que deixava entrar um luminosidade tal que originava um ligeiro velamento do papel, anulando o contraste na imagem, ficando uma imagem com excesso de tons de cinzentos, provocando um mau negativo. Para os negativos das imagens usámos papel fotográfico, para assim obter uma maior rapidez de execução. O material anteriormente levado para isolar a sala da luz na primeira vez já estava deteriorado e não providenciámos outro por desconhecimento de tal facto, e o gerador não funcionava, avariou-se na altura de arrancarmos com o atelier. Ficou a ideia de regressar num dia em que as condições adequadas se verifiquem para o decorrer normal do atelier.
Um dos pontos positivos do dia de hoje é que o sol apareceu, esteve uma luz já bastante razoável para fotografar, o que levou a que a equipa de trabalho se dividisse. Enquanto a Tânia tentou desenvolver o atelier com os jovens na escola, eu dediquei-me ao levantamento fotográfico da roça.
Das fotografias realizadas pouco há a comentar, a casa do patrão, umas vistas gerais da roça, uns pormenores, um ou outro detalhe. O que eu irei comentar é a forma como fui abordado por um grupo de cerca de 20 mulheres que andavam a capinar e me solicitaram que eu tirasse fotografias. Passei uma boa meia hora a fotografar, o que nesta terra ter tal tempo para fotografar as gentes locais é um triunfo, ora posavam deitadas numa árvore próxima, ora posavam com os utensílios usados na actividade de capinar, ou era um retrato individual, ou um de grupo, foi um "gasto" de cartão de memória. Fiquei apelidado de padrinho, passei a ser esta figura familiar que sinceramente não sei se terá maiores implicações do que enviar as imagens tiradas quando regresse a Portugal. Irá para sempre ficar gravado na minha memória, a alegria com que esta sessão decorreu. Relembrarei também a repreensão em tons de aviso que um homem que passava dirigiu ao grupo de mulheres: o branco vai fazer postal com vocês e vai ganhar dinheiro… Não deixa de ter razão. De qualquer forma para este grupo de entusiastas da fotografia este pormenor era o de menor importância, desde que as imagens, as suas imagens, cheguem um dia à sua posse. Tenho a morada para as enviar.
São Tomé, dia 12, 2006-12-13
Boa Entrada, Santa Margarida, Fernão Dias. Foram estas as três roças visitadas hoje. As sessões decorreram na normalidade, com a curiosidade de as crianças não nos terem pedido doces. Em contrapartida existiram mais adultos a tentarem cravar algumas dobras (moeda local - DBS), para o vinho de palma, diziam. Optámos, tem sido a nossa regra durante estes doze dias, por não andar a dar doces nem dobras apesar do valor em questão ser baixo, achamos que será um mau principio e um péssimo costume se habituarmos toda a gente a obter sempre algum valor em troca de qualquer informação, no que respeita aos doces para as crianças, mesmo que quiséssemos dar, nem um contentor TIR carregado daria para satisfazer tantos e tão constantes pedidos, e no meu entender não serão estas as maiores necessidades a suprimir por aqui. Contudo, acabamos sempre por dar alguma gratificação a quem realmente se preste a ajudar ou a contribuir de alguma forma para a realização das imagens, sendo guia, ou fazendo alguma tarefa que envolva esforço físico.
Como o Euro está aproximadamente a 17.2 origina que algumas das gratificações dadas não atinjam sequer o valor de 1 EUR, podendo subir o valor das nossas gratificações até às 50000DBS. Mas por uma questão de princípio não andamos para aí a distribuir dobras ao vento.
As roças que hoje visitámos foram-nos indicadas como sendo roças onde a população local era pouco amistosa, talvez por mera sorte não sentimos qualquer tipo de animosidade por parte dos locais. Meramente existiu um pequeno desabafo à nossa passagem na Roça Fernão Dias, alguém que estava um pouco aborrecido com a presença dos brancos aqui na ilha, lá terá as suas razões.
Na Roça de Boa Entrada fotografámos a casa que era do patrão, agora já bastante destruída mas ainda mantendo a sumptuosidade de outros tempos. Passámos a manhã praticamente toda a fotografar pormenores, vitrais, puxadores, tectos. Estava recheada de pérolas arquitectónicas que mereceram a nossa atenção, levando imenso tempo para a fotografar. Alguém me disse, não o recordo bem, que a casa era de facto bonita quando ela encerava o chão, acabei por lhe perder o rasto e não pude aprofundar a questão, o que me deixa realmente a pensar quais as histórias que nos poderia ter contado.
Numa das gratificações que hoje demos nesta roça, escutei o seguinte comentário: Viste! Exclama um dos nossos ajudantes para um outro. Vale a pena vir trabalhar. A gratificação tinha sido de 50000DBS a dividir pelos dois. Gostei de ver estampado no rosto destes nossos ocasionais ajudantes que o esforço que tinham feito era agora recompensado e sentiam-se felizes por isso.
Em conversa mantida com a Tânia, um dos nossos conhecimentos feitos na Roça Santa Margarida revelou-nos os seus inúmeros diplomas. Curso superior tirado em Cuba, o que já percebi ser um dos destinos de eleição para estudar das gentes daqui, um certificado de formação do IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional) o que nos une de alguma forma. Eram ainda mais os diplomas e certificados de outros cursos, o de Francês também lá estava, no entanto com todos estes níveis de escolaridade e de conhecimentos lá estava a solicitar umas dobras para o vinho de palma, realmente a sorte quando nasce não nasce para todos da mesma forma. Prometemos enviar fotografias e documentação sobre jornalismo quando regressarmos a Portugal.
O volume de compromissos de envio começa a me preocupar, espero conseguir responder a todas as solicitações.
Assisti hoje ao jogo de cartas nacional, Bisca. Terei de perceber melhor as regras e os valores respectivos de cada vasa.
São neste momento 23:46, o cansaço começa a apoderar-se de mim. Vou ainda dedicar uns minutos à leitura do Uma Deusa na Bruma de João Aguiar.
João Aguiar tem sido o meu escritor português de eleição para trazer nas viagens.
São Tomé, dia 16, 2006-12-17
Finalizei a abertura de um coco, tarefa difícil para quem não possui os instrumentos apropriados, usei o processo científico de arremesso ao chão, resulta sempre, acaba é por partir o coco de uma forma aleatória não podendo por isso usar o mesmo como vasilhame. De qualquer forma os pedaços resultantes serão para satisfazer um pedido ainda feito em Lisboa antes da minha partida.
Não tomo notas há já algum tempo, tenho andado ocupado com a realização das imagens e como o sol, leia-se boa luz para fotografar, é coisa que não abunda nesta altura temos ficado bastante tempo em cada roça à espera do mesmo. Nestes últimos dias acabei o livro que andava a ler, Uma Deusa na Bruma, do qual não gostei particularmente, que me desculpe João Aguiar, mas A voz dos Deuses é melhor e este é demasiado idêntico para não se estabelecer uma comparação e fica aquém. Estou agora a ler A Catedral Verde, também de João Aguiar, como ainda estou no início, não vou fazer nenhum juízo de valor.
O trabalho fotográfico de levantamento começa a ganhar consistência, agora ao ver as imagens todas juntas dá para ficar com uma noção mais fiel do que o livro virá a ser depois de concluído. Temos algumas sessões marcadas, amanhã temos uma de futebol, comprámos uma bola para oferecer aos jovens da Roça Monte Café com o combinado de os podermos fotografar a jogar, uma espécie de troca de favores, bem intencionados. Um deles, encontrámo-lo hoje a caminho de casa, quer comprar uma trotinette, um veículo de duas rodas feito de madeira de forma artesanal e tosca (aparenta a forma de uma motorizada das antigas). Fiquei com vontade de lha oferecer, afinal só custa 50000 DBS, não chega a 5 EUR, depois verei. Verdade que já lhe vamos oferecer a bola, apesar de ser uma oferta para todos, esta ficará na sua posse.
Nas roças a relação com os habitantes tem decorrido de forma amigável. Todos aceitam o facto de estarmos ali a trabalhar e os pedidos de dinheiro e de doces rapidamente diminuem permitindo assim termos um conversa muito mais produtiva e agradável. Com mais tempo daria para fazer um livro de contos, os contos das gentes das roças, pode ser que num futuro... Por falar num futuro, está em estudo o nosso regresso a São Tomé e a ida ao Gabão, desta vez com uma exposição de fotografias a acompanhar-nos. Ainda não está nada certo, mas a vontade existe. Lá para alturas da Gravana, altura do sol e da luz bonita para fotografar segundo nos prometeram.
Hoje, domingo, 17 de Dezembro de 2006, tenho, temos passado o dia a tratar das imagens já produzidas. Estou-me a tornar num mentiroso compulsivo em termos de imagem, já não consigo deixar de retocar ou realizar qualquer outro tipo de manipulação nas fotografias que tiro. Tenho de ter cuidado para não começar a “limpar” demais. Começo a ter vontade de abordar a questão da ética na manipulação das imagens. Terei de falar com o meu amigo que vive nos Estados Unidos da América via google talk sobre este assunto. Tem sido um dos amigos que tem acompanhado a minha estadia em São Tomé. Maravilhas da Net.
As outras sessões marcadas são a do Museu e a Roça Nova Moca. Esta roça pertence a um dos grandes produtores de café e de cacau daqui de São Tomé.
Nos dias 14 e 15 fomos à roça mais famosa – Agostinho Neto, estando esta agora a perder a fama para a Roça São João de Angolares devido ao sucesso do seu proprietário como cozinheiro - são famosas as suas intervenções acompanhadas pelos arranjos culinários a partir das praias daqui.
Agostinho Neto, conserva ainda a sua monumentalidade de outros tempos, apesar do seu estado mais empobrecido. Visitámos algumas das áreas da roça, incluindo a casa do patrão agora com o seu jardim transformado em Jardim Botânico, devidamente cuidado. Um dos factos curiosos que irei relembrar durante bastante tempo será a “ocupação” de algumas das crianças, sentadas à sobra da Mangueira, esperavam que a qualquer momento uma das mangas caísse e lhe servisse de “mata-bicho”. O fruto cai da árvore quando amadurece. Ao receber uns raios de sol acaba por se desprender e vir por aí. Não resisti e também fiquei lá, sentado, na esperança de um dos frutos cair junto de mim. Coisa que aconteceu e não demorou tanto tempo quanto isso.
No segundo dia, dia 15, ainda fomos a Neves depois da passagem por Agostinho Neto, aonde voltámos mais tarde para realizar a imagem do relógio que só se encontra iluminado da parte da tarde, no “segundo período” designação local do período a seguir ao almoço. Neves é uma localidade situada na estrada para norte. Um dos petiscos apetecíveis desta localidade e que pode ser encontrado num pequeno restaurante de primeiro piso, um pouco depois da curva a seguir à fonte, é o de santola. Para quem goste de tais iguarias não pode deixar de se deslocar ao local. Bom, barato, atendimento simpático. Foi o nosso caso, enquanto esperávamos que a luz de final de tarde aparecesse para voltarmos a subir a Agostinho Neto, a luz a meio do dia é feia em qualquer parte, fomos almoçar à santola acompanhada por um vinho verde português. Talvez influenciados pelo consumo de tal néctar a seguir ao almoço sentimos saudades dos nossos amigos, aqueles que ficaram em terras lusitanas no seu quotidiano habitual. Foi bom falar com alguns. Ainda teve a vantagem de começar a alinhavar directrizes para a passagem do ano. Parece que existem algumas excentricidades no grupo onde vamos passar tão badalada noite. Pela nossa parte a maior excentricidade que podemos ambicionar (a excentricidade proposta por nós no momento seria um pouco pesada para a passagem de ano – Cozido à Portuguesa – coisas de quem está fora) já a estamos a viver, foi voltar a esta ilha no mês de Dezembro. Nessa noite basta-nos estar com eles. Fica essa a nossa excentricidade.
Ao dia 16 fomos à Roça Bombaim. O sol alternou constantemente com a chuva. Nesta roça já se cobra entrada, um critério que pode ter alguma graça se for bem pensado e organizado, senão é só uma forma de afastar o turista e levar este a não visitar a roça.
Voltando a conversa (que vai longa) para o local onde me encontro, em casa. Mais uma vez estamos sem energia, o País está novamente às escuras, excepto nos locais onde já se ouvem os geradores a trabalhar. Esta situação tem-se repetido ao longo da nossa estadia.
Vou voltar a trabalhar nas imagens, aproveitando a carga existente nas baterias do portátil.
….
Passados alguns minutos a luz acaba por regressar, entretanto o visionamento das imagens realizadas prende a nossa atenção durante mais tempo do que o previsto inicialmente. Elaboramos uma lista, mesmo que mentalmente, do que falta fotografar nas roças já visitadas. Ainda há muito por registar.
Tenho deixado de fora destas anotações em jeito de diário muito do que tem acontecido. Todas as conversas que mantive com Portugal por telefone ou por e-mail não as tenho aqui comentado. Não por as achar de menor importância, muito pelo contrário, apenas porque penso que as anotações aqui presentes serão as mais descritivas e as menos maçudas. Nem tenho registado pormenores do dia corrente, o almoço, o jantar, as idas diárias ao posto com acesso à lenta Net (estava acostumado à banda larga), as idas ao supermercado, parecem-me coisas triviais demais para me aborrecer a escreve-las.
Os telefonemas para matar saudades da minha Mãe.
Um dos meus fascínios é o de conhecer pessoas, pessoas com histórias e essas têm aparecido bastante no nosso caminho, se tenho relatado pouco ou praticamente nada destas conversas é porque o seu conteúdo ou não tem muito valor descritivo que mereça figurar aqui, ou porque têm importância para os projectos que viemos aqui realizar e acho por bem não estar aqui a revelá-las. Penso que no fim farei um apanhado do que não me tenha ocorrido escrever.
Como se deve ter notado algumas alterações ao alinhamento inicial foram acontecendo, desmarcámos a nossa ida a Príncipe, ou melhor adiámos. Esta alteração deveu-se à suspeita que uma forte tempestade iria passar pela ilha e achámos por bem prevenir. A tempestade acabou por passar ao largo e rumar noutras direcções segundo dizem.
Não temos conhecimento de grandes novidades do mundo. Desde que mudámos de casa, perdemos o acesso à televisão, não que ela nos faça falta, mas sempre íamos vendo o telejornal da RTP Internacional ou o da televisão local (que muitas vezes tem como base o da SIC Notícias) e sabendo das novidades do mundo.
- Por momentos questiono-me sobre o porquê das minhas anotações, a verdade é que tento sempre imaginar algum leitor lendo estes meus relatos, acabando assim para ser para ele que escrevo, não sei se algum dia este meu leitor irá aparecer, mas entretanto vou-lhe escrevendo.
A maioria das conversas que travamos com a maioria dos desconhecidos que se metem connosco é em volta da actual situação do País, particularmente o sentimento vivido nas roças, o que acaba por ser um reflexo do tempo que passamos nas mesmas a fotografá-las e a situação em que o “branco português” deixou a ilha. A maioria sabe que tudo tem de levar uma volta, que é preciso de fazer alguma coisa, que o espírito leve, leve, tem de mudar. Mas é também notória a necessidade que têm de uma ajuda vinda do exterior. Não abordarei esta matéria pois a minha opinião está formada pelo que ouvi dizer, não tendo dados concretos sobre a situação evito comentá-la fugindo assim ao risco de estar a cometer alguma injustiça. Mas uma das realidades que tenho presenciado é que na maioria das roças há ou já houve algum tipo de projecto de reabilitação e não se nota muito o seu efeito, ou será que se nota? Não tenho elementos para analisar.
São Tomé, dia 17, 2006-12-18
A chuva foi uma constante quase toda a manhã. Logo ao acordar ela já se anunciava, fazendo esquecer um tímido sol que acabou por desaparecer por completo e anular a tão esperada partida de futebol com a oferta do esférico no final. Ficou marcado para uma nova oportunidade.
Claro que também todo o trabalho fotográfico ficou por realizar.
Dedicámos o dia às últimas filmagens na Roça Monte Café. Eram principalmente interiores onde iríamos trabalhar. As filmagens decorreram dentro da normalidade, excepto o facto de terem começado duas horas mais tarde do que o previsto, uma situação de última hora fez com que as mesmas se atrasassem.
Hoje conseguimos captar todo o processo por onde passa o café, desde o descascar do grão de café até ao café na chávena (desta vez os homens que ensacam o café apareceram). Achei bastante interessante o desenrolar dos acontecimentos, apesar de não ter saboreado muito os momentos devido ao stress provocado pelas filmagens na tentativa de captar os melhores ângulos. Apreciando-os só agora quando os visionei. Gostei especialmente da parte onde o grão é torrado, especialmente porque não fui obrigado a passar muitas horas enfiado naquele forno. Trabalhar naquelas condições no pico do verão (com o tempo frio sempre teremos uma desculpa que ajudará a suportar o intenso calor que faz) não será propriamente um paraíso. O café é torrado numa espécie de cilindro que gira em torno do seu eixo colocado num tanque onde está constantemente um fogo aceso.
De resto fiquei, emocionado será a palavra correcta para descrever o meu sentimento, com a amabilidade e atenção que todos depositaram em nós, lembro-me ainda de em Agosto passado ter estado nesta mesma roça e ter sentido um desconforto tremendo devido aos olhares pouco hospitaleiros que ia recebendo. Realmente agora que não somos turistas e depois de termos passado já algum tempo na roça é que devíamos iniciar o trabalho, é agora que a confiança está conquistada que damos o trabalho por terminado. Limitações de quem tem o tempo apertado para desenvolver projectos desta envergadura.
Não mais esquecerei os momentos vividos na roça.
Hoje perguntei qual o outro nome dado à trotinete – Trote.
Uma outra revelação de hoje já não me deixou tão entusiasmado. Na nossa deslocação à ilha de Príncipe (voltámos a decidir ir) podemos apanhar a “Bruma Seca”, uma espécie de tempestade de areia vinda do deserto do Sahara que cobre quase toda a superfície da ilha em forma de nuvem, o que impossibilita os voos e pode condicionar a nossa ida a 26 e o regresso a 28. Na última “Bruma Seca” a ilha ficou “fechada” durante 22 dias o que diga-se em abono da verdade agora não nos dava jeito nenhum. Com estas condicionantes julgo que a viagem ao Príncipe vai ficar para uma próxima oportunidade.
Acabámos cedo o dia de trabalho, almoçámos por volta das 15 horas, num dos restaurantes – Papa-figo (um género de restaurante fast-food), perto de casa. O almoço não se pode dizer que tenha sido o prato mais típico da região – Pizza, e como sempre um doce de amendoim – Nougat, antes já tinha comido uma maçaroca de milho assada comprada à beira da estrada.
Todo o equipamento de fotografia e de vídeo emana um odor a café acabado de torrar. Por graça comprámos um saco de café na roça. Acompanhámos todo o processo de feitura deste café, pois foi usado na simulação de hoje. Seria um crime que não ficássemos com um dos sacos.
…
Observo todo um desenrolar de actividades se realizam junto à margem de alcatrão na estrada, porcos que deambulam, galinhas que atravessam à frente do carro, crianças que brincam, adultos que falam sentados nos assentos (espécies de bancos de grandes dimensões e comunitários localizados ao longo da estrada), mulheres que passam carregadas. Pequenos negócios montados, a maioria das vezes em cima de um qualquer caixote ou já com umas pequenas cabanas montadas para o efeito. Ao circular por esta efervescência de vida, claro está, é necessária muita prudência na condução, apesar de muitos dos condutores a custo de buzina passar a uma velocidade já bastante razoável. Eu, com a experiência do sítio, estou cada vez mais afoito.
As casas são feitas na sua maioria de madeira. Casas simples e de reduzidas dimensões. A parte habitacional situa-se no primeiro piso, deixando o espaço ao nível do solo para outras ocupações.
Existem casas já com outro esplendor mas que não apelam tanto à minha imaginação.
Uma das riquezas que por aqui encontrei foi a fruta; bananas (de variadas espécies), fruta-pão (que normalmente serve de acompanhamento ao prato de peixe), matabala (espécie de batata frita pala-pala só que feita a partir de um tubérculo, (existe ainda a versão de pala-pala local a partir de banana), manga (mais pequenas das que nos chegam a Portugal), abacaxi, abacate, jaca (que liberta uma espécie de resina que se agarra incomodamente às mãos, retira-se esta com azeite), papaia, safu (dizem que quem come este fruto já não sai da ilha, ou que obrigatóriamente voltará), cola e o famoso mangustão (um fruto duro do qual se come apenas uns gomos brancos que se encontram em torno do seu caroço. As únicas árvores deste fruto existentes na ilha estão na Roça Bombaim).
São 23h06m, vou colocar o mosquiteiro na cama (demorei a habituar-me a este incómodo nocturno) e dar uma vista de olhos no livro que leio de momento. O cansaço começa a apoderar-se de mim, de certeza que amanhã terei de reler algumas das passagens pois passarão meio despercebidas pelo meu dormitar e não me lembrarei do desenrolar da história.
São Tomé, dia 18, 2006-12-19
Arábica Burbon; Arábica Catura; Arábica Novo Mundo; Espécie Libérica; Espécie Robusta; Espécie Catuin – Algumas das espécies de café que fotografámos hoje, (só sei estes nomes porque estão anotados no caderno de apontamentos que nos acompanha desde o inicio e do qual é a Tânia responsável), estas imagens destinam-se a ilustrar e a documentar o futuro museu na Roça Monte Café, foram captadas na Roça Nova Moca, roça pertença de Cláudio Corallo. O famoso e talentoso produtor de café e de cacau daqui.
Andámos aproximadamente cerca de duas horas e meia a fotografar grãos e plantas de café – os Cafeeiros. Não se pode dizer que seja o motivo fotográfico mais excitante, foi-o pelas dificuldades técnicas que a falta de luz impôs, não pela criatividade ou exigência estética. Mas estou contente com as imagens realizadas (usei quase sempre uma reduzida profundidade de campo dada por um diafragma aberto, 2.8, com vista a retirar definição ao fundo isolando assim o motivo principal). “Esta explicação deve ser reflexo das saudades que tenho dos meus alunos e das aulas de formação”.
De seguida fomos novamente à Roça Monte Café, iniciámos hoje a parte fotográfica da roça. Quem fotografou foi a Tânia, apanhou uma luz de início de tempestade fabulosa.
Dei por mim sentado num dos muros que fica em frente da casa que era do patrão. Estive perdido nos meus pensamentos. Sentia-me como em casa, por momentos assustei-me um pouco com esta familiaridade já sentida.
“Olá, como vai? Leve, leve... É verdade. Sabe, aqui era um jardim lindíssimo, cheio de flores, além era a casa do feitor, naquele tempo o colono morava nesta casa. Quando havia festa ali em baixo, nas sanzalas! era uma alegria ao domingo à noite. Dançávamos até de madrugada, depois era a formatura e íamos para trabalhar no campo. Era muito melhor, havia comida, a cantina era ali, com senha iamos lá à comida. Agora tudo mudou, quer comer e não tem. Naquele tempo era mais esforço físico, sofríamos mais, mas não pensávamos nisso, tínhamos a barriga cheia. O colono dava grandes festas aqui no jardim, era bonito… era bonito mesmo. Mas esse tempo não vai voltar, agora é tudo leve, leve. Aos domingos de duas em duas semanas iamos ali à formatura e depois iamos à missa, e depois trabalhar nos campos. Bem, vou agora.”
Não abri a boca, escusei-me a comentar, ouvindo apenas o desabafo proferido pelo Sr.
Lembro-me minuciosamente de cada palavra, lembro-me mais ainda da expressão facial com que elas eram pronunciadas. A máquina fotográfica continuava na minha mão direita, não tive coragem de no meio deste desabafo solicitar a pose para um retrato, deixo-o ir sem tentar molestá-lo com tal pedido. Fico a pensar na verdadeira história destas pessoas. No decorrer do documentário muitas das histórias andam em volta deste mesmo assunto, mas sinto que muito ficou por dizer. Ficou por dizer aquilo que só se diz quando se tem já muita confiança e muita vontade de contar. Penso que esse registo, importante, terá de ser feito um dia. Se não for feito corremos o risco de se perderem definitivamente estas histórias com a morte dos mais velhos ou dos que ainda viveram nestes tempos.
O resto do dia está a ser passado de uma forma pacífica. Até a relação com os miúdos que estão junto às bombas de gasolina no centro da cidade na esperança de cravarem umas dobras ou umas bolachas (que podem ser compradas num supermercado perto) está mais calma, agora já não nos incomodam com constantes pedidos, apenas estendem a mão para um cumprimento, será a eles a quem vou oferecer a quantidade de T-shirts que trouxe e que não faço intenção de as levar de volta.
A nossa tentativa de fotografar no museu saiu frustrada. Anularemos do documentário a parte que estava pensada para ser registada no museu. Também não era imprescindível.
Finalizámos também as últimas combinações com a nossa anfitriã, pois viaja neste Sábado para a sua terra natal. Nós ficaremos a terminar os projectos em que estamos inseridos, para depois lhos enviar por e-mail ou por correio normal. Agora vou dedicar um pouco de tempo a tratar as imagens dos bagos do café.
São Tomé, dia 19, 2006-12-20
Posso agradecer à Roça Uba Budo a oportunidade que me deu de fazer uma verdadeira prova todo-o-terreno. A estrada para esta roça está um caos. Lama, declives acentuados, poças de água com profundidade suficiente para fazer submergir uma boa parte do "JEEP". Para quem tem viajado comigo sabe que são estas as condições em que gosto de conduzir, muito pela adrenalina que experimento. Normalmente faço estas “avarias” com o meu carro, um simples vw polo, que está tudo menos preparado para estes desafios. Por isso é que um deles “morreu” a caminho de Évora. Outras histórias.
À chegada à roça a recepção é, digamos que cordial, sem muito alarido nem euforias, mas também sem grandes “olhares de lado”. Pode ter contribuído o facto de termos chegado acompanhados de 4 homens da roça a quem demos boleia.
Casualmente metemos conversa com um dos rapazes que se encontrava em frente da casa. Por mero acaso lembrei-me de lhe pedir autorização para fotografar. Normalmente não o faço, pois estamos sempre ou quase sempre com um contacto previamente arranjado, ou a situação não se presta a grandes intimidades iniciais. O rapaz em questão simpaticamente ofereceu-se para nos mostrar toda a casa, convite que recusámos prontamente pois suspeitávamos que era mais um guia solícito a tentar ganhar umas dobras. Mas assim não foi. Acabámos por andar a siderar com ele pela casa, entrámos inclusive dentro da privacidade dos moradores da mesma. Ao contrário do que normalmente acontece, a casa, a antiga casa do patrão foi ocupada como moradia (por jovens que iniciaram a sua vida de casados demasiado cedo, ficando assim sem hipóteses de construir casa. Optaram por “ocupar” a que estava abandonada). Não se pode dizer que esteja melhor conservada do que as que estão desabitadas. Encontra-se em estado de degradação avançada. No decorrer da nossa visita tivemos a oportunidade de constatar que a ocupação da casa era feita por várias famílias. Fomos tratados sempre com um sorriso nos lábios, e com um acolhimento bastante agradável. Dizem-nos que esta casa já apareceu como cenário numa novela qualquer.
A entrada na roça faz-se por duas colunas em pedra que formam um género de pórtico e que se avistam logo à chegada, em frente fica a já referida casa do patrão, à direita o antigo hospital (completamente em ruínas), pela esquerda encontramos a igreja, as sanzalas, a casa do guarda lá no alto de um outro pórtico (assim conseguia “chefiar” o ambiente nas sanzalas), e o pombal também se encontra desse lado.
Tenho de admitir que andava um pouco assustado, receoso talvez, enquanto deambulava pelo interior da casa, ou mesmo pelas sanzalas. A quantidade de material fotográfico que transportamos é avultada e andamos ali à mercê de tudo e de todos, apesar da simpatia demonstrada pelos nossos visitados tenho sempre algum receio. Até hoje não tivemos o mínimo problema.
Uma das situações que me afligiu (encontrava-me embrenhado no meio das sanzalas) foi quando passei uma das máquinas fotográficas para a mão de uma das crianças que nos acompanhava, as nossas deslocações dentro da roça são acompanhadas por um número avultado de crianças e de jovens. Agora que a escola acabou (acabou ontem) encontramos muitas mais crianças nas roças. A imagem que me ficou destas movimentações comparo-as a um cardume, o movimento era semelhante. Quando passei a máquina para a mão desta criança, ela desaparece no meio do casario e perco-a de vista. Bem, pensei, lá vou ter que andar à procura dele, puro engano, estava imediatamente ao virar da esquina a disparar o botão do obturador da máquina (numa linguagem menos técnica encontrava-se a tirar fotografias) e a divertir-se com o som produzido. Expliquei-lhe sumariamente alguma técnica fotográfica, de como poderia captar aquilo que pretendia e como enquadrar a imagem dentro daquele quadradinho. Tenho bastante curiosidade de ver as suas imagens.
O nosso guia, que por coincidência o seu nome é em tudo idêntico ao da Tânia, excepto no último “a”, continuava connosco. Já na despedida, resolvemos oferecer-lhe uma gratificação, primeiramente recusou e só após a minha insistência é que aceitou. Foi graças a ele que pela primeira vez estivemos tão dentro de uma comunidade nas roças. Pediu-me que lhe enviasse um telemóvel da Europa, penso que este pedido vai ser difícil de satisfazer, aliás não lho prometi.
Uma das pessoas com quem falei, e que me pediu para lhe tirar um postal, designação local para fotografia, foi logo dizendo que já sabia que eu não lhe enviaria a respectiva fotografia.
- Ninguém envia mesmo. Desabafou.
Tenho pena que seja esta a imagem que os amantes da fotografia vão deixando pelo caminho, qualquer dia não haverá “matéria-prima” por estarem fartos de posarem e não lucrarem nada com isso. Ou começam a cobrar tais serviços, o que em certa medida parece ser um bom princípio. A digital acaba por ser um pouco uma tábua de salvação, pois o fotografado vê logo a sua imagem, é quase como se realmente a tivesse. Na altura da película nem ao visionamento da sua imagem tinham acesso. É pena que a fotografia instantânea seja tão cara.
Ao contrário de mim, a Tânia hoje não se sentiu tão confortável na roça, chegando a sentir mesmo algum desconforto pelo facto de estar tudo tão degradado e sujo, penso que terá sido pelo facto de nunca termos entrado “tão dentro”.
Daí até à cidade pouco mais há a comentar. Ainda parámos numa outra roça, Roça Guegue, sem qualquer facto que mereça referir.
À chegada à cidade a Tânia sentiu-se adoentada e veio para casa a fim de repousar um pouco. Espero que não seja nada de grave. Adoecer aqui não está de todo nos nossos planos. Entretanto fui às bombas de gasolina tentar encontrar os jovens que param normalmente por aquelas bandas para lhes oferecer as t-shirts, encontrei um deles, precisamente o meu preferido.
Fui ainda navegar na Net, colocar a leitura dos e-mail em dia. Tenho tido algum cuidado neste ponto para não deixar acumular correio sem resposta. Especialmente no que toca à organização do MEF é importante que não aconteça. Depois, bem depois vim para a minha tarefa diária, descarregar cartões e tratar de imagens.
São Tomé, dia 20, 2006-12-21
Hoje não me sinto particularmente entusiasmado. Acordei eram 5h30m, estava a meio de um pesadelo qualquer que me despertou em sobressalto. Vim para o computador trabalhar imagens, na verdade vim mais brincar com as imagens, entretive-me a reconstruir uma fonte que tinha fotografado na Roça Uba Budo.
De seguida fomos fotografar para a Roça Vista Alegre, o nome deve derivar da fantástica vista que observamos do alto da casa.
Sinto-me um pouco cansado, estou a precisar de descansar, apesar do trabalho aqui não ser muito puxado fisicamente. É a rotina que me cansa, estamos nisto há já algum tempo. De manhã agarrar no carro e procurar a roça para fotografar, fotografar, explicar mil vezes o porquê de estarmos ali, afirmar outras mil vezes que não, não temos doces. Negar mais umas tantas vezes a oferta de dobras. E o pior de tudo, esperar que o sol se digne a aparecer. Hoje, foi mais um desses dias, ou está a ser para ser mais exacto. E é hoje que me sinto cansado da rotina. Vou agora, depois do almoço, começar a tratar as imagens. A nossa anfitriã precisa de levar as imagens e tenho de as acabar ainda hoje. É esta rotina que me começa a cansar.
Em forma de miminhos amanhã vamos almoçar a Neves.
Mas gostei de estar hoje na roça. Engraçado! Cada vez me sinto mais em casa. Estou nas roças como se estivesse num jardim qualquer lá de casa, coisa que não tenho.
À chegada à cidade, deparámos com festa, hoje é dia de São Tomé (comemora-se a descoberta de ST pelos navegadores portugueses João de Santarém e Pedro Escobar. O nome tem origem no facto de São Tomé ser aquele que só acredita quando vê). À porta da Sé, estava um grupo de dança a actuar. Os homens que tocavam nos tambores tocavam a um ritmo acelerado, tal como a dança era executada, também a um ritmo acelerado. Não fotografei, limitei-me a observar, apeteceu-me apenas fotografar com os olhos. A execução dos tocadores de tambor era de tal maneira violenta que tinham de se revezar para descansarem, a mim pareceu-me que cada um tocava para o seu lado, mas de longe a harmonia do som expelido pelas peles esticadas era bastante agradável. Os dançarinos eram crianças. Interpretavam algumas personagens, umas transportavam máscaras, uma das máscaras parecia em muito com as máscaras da comédia dell´arte. Ouviam-se apitos, a dança parecia seguir comandada por este apito. Era com o seu som estridente que cada actuação terminava. Não ficámos até ao fim, viemos embora ainda a procissão estava no adro, metaforicamente falando e de facto a procissão andava mesmo pela zona.
…
Termino o segundo livro, não me pareceu dos melhores. Ou estou muito exigente ou estes dois livros de João Aguiar não lhe saíram grande coisa.
Hoje estivemos reunidos com a Alliance Française. Anteriormente já tínhamos sido apresentados ao Embaixador de França aqui em São Tomé. Apresentámos e descrevemos em que situação se encontrava o processo do levantamento e acertámos novas datas e novas directrizes para a continuação do mesmo. Gosto quando tudo é simplificado e desenvolvido de forma tão simples. Não falei muito, sou sempre bastante tímido nestas situações.
Afinal amanhã vamos voltar à escola de campo para terminar o atelier de fotografia, espero que estejam as condições todas reunidas.
Vou iniciar a leitura de “A câmara clara” de Roland Barthes. Obra derradeira do autor onde medita sobre a imagem fotográfica. Vou lê-lo pela enésima vez. Nem consigo perceber muito bem a razão de o ter trazido.
São Tomé, dia 21, 2006-12-22
Chove torrencialmente lá fora! São 11h52m. E hoje já tivemos uma peripécia que tão cedo não iremos esquecer. Deixo o relato para depois. Agora vou contemplar a tempestade e de seguida irei debruçar-me sobre as imagens de ontem.
…
Quando o dia acordou cinzento, adivinhávamos um dia de chuva. Mas mesmo assim fomos para a Roça Monte Café, tinha existido novamente uma mudança de planos, pois com o dia cinzento como estava era escusado ir dar o atelier de Pinhole para a escola de campo.
Já em Trindade, uma localidade que se situa a meio caminho entre a capital e a Roça Monte Café o carro começou a perder força nas subidas, nem com a mudança mais baixa o carro conseguia subir. Parámos para tentar perceber o que poderia ser (os meus conhecimentos de mecânica são nulos). Ao tentar fazer uma nova tentativa de trepar a inclinação que se avizinhava (depois de ter olhado com sabedoria para a parte do motor do carro e ter concluído que afinal não percebia mesmo nada do que estava a ver), o carro simplesmente pára e começa a largar uma fumarada densa e constante, de tal forma era a nuvem de fumo que o ar em redor ficou negro. Desligo o carro, retiro a chave e o carro continua a trabalhar e a largar aquela fumarada. A Tânia sai a correr do carro a gritar “tira o material fotográfico, tira o material fotográfico”, ainda tenho presente a sua cara de pânico, e eu meio atarantado só olhava, em jeito de pedido de auxílio, para os condutores que passavam. A Tânia acaba por retirar sozinha o material fotográfico do carro e iniciar uma fuga a sete pés do local, ia branca que nem cal. Um condutor de um táxi que passou, pára, abre o capô do nosso "JEEP" e desliga as baterias. Dizem-me depois que o carro corria o risco de se incendiar se esta operação não tivesse sido feita. Isso é que tinha sido engraçado, ironicamente falando, claro. Um outro sujeito que se aproximou de nós acabou por ser a nossa salvação, percebia de mecânica. No fim acabámos por entregar o carro ao respectivo dono. Era o disco de embraiagem que tinha gripado, a ver vamos se é só isto. Não ganhámos para o susto. Agora teremos de alugar outro, não sei se voltaremos a querer este.
Começo a pensar que tenho uma sina negativa com os carros. Em Marrocos ficámos retidos no deserto e no Atlas devido à avaria do carro. Em Agosto passado ficámos também aqui em São Tomé sem mudanças no carro que na altura tínhamos, obrigou-nos a fazer a maior parte da estrada do sul com a 3ª engatada. Já desta vez ficámos sem a hipótese de colocar qualquer mudança neste mesmo carro. E agora isto. Começa a ser um folhetim.
E continua a chover lá fora, avizinha-se um dia produtivo.
De manhã as pessoas com quem nos cruzámos estavam especialmente de mau humor, deveria ser do tempo cinzento.
O nosso “miminho” fica hoje anulado, sem carro é difícil de ir até Neves, podíamos apanhar uma carrinha táxi, mas penso que não se justifica, para mais continua a chover bastante e aquele primeiro andar é a descoberto.
Começo realmente a sentir bastantes saudades de casa. Hoje fiquei a saber algo que me alegrou, a minha Mãe sempre vai passar o natal em família.
O meu primo (preferido) vai ter a amabilidade de a ir buscar. Com a minha estadia em São Tomé eu não poderei cumprir o meu papel natalício. Não é que ligue muito a esta quadra, mas sempre é a altura em que a família se junta e acaba por ser uma tradição.
Tenho também saudades dos meus amigos.
São Tomé, dia 23, 2006-12-24
Acabámos por trocar de carro, a avaria no outro era mais grave do que tínhamos suposto. Um piston queimado (não sei será assim o termo técnico correcto). A desvantagem em ter trocado de carro é que o valor pago por este é praticamente o dobro e o carro é muito inferior em termos de qualidade.
Ainda por cima este “novo” carro domina-me, tem vontade própria.
Chamo-lhe o meu animal, ou melhor, sinto que neste carro estão “duas éguas gémeas” que fazem aquilo que querem, limitando-me eu a conduzi-las da melhor maneira que consigo.
Ontem, fomos a duas roças, Amparo II e Bela Vista. Como estava um dia fabuloso de sol, conseguimos fotografar na íntegra as duas roças.
Só teremos de voltar à roça Bela Vista para fotografar um edifício que estava à sombra. Após o trabalho fomos ao nosso “miminho” a Neves. Como não bebemos vinho o almoço saiu baratíssimo.
Da parte da tarde (no segundo período) ocupámo-nos da parte logística da nossa estadia aqui em São Tomé e da possível em Príncipe.
Conseguimos uma sessão de audição de música tradicional na Rádio Nacional (para adicionar conteúdo musical ao documentário sobre a história do café), onde por mera coincidência vamos ser entrevistados sobre os nossos projectos.
Hoje, agora são 06:30, estamos de partida para a Roça Monte Café, cumprir a promessa da oferta da bola e acabar de fotografar as sanzalas.
Em Amparo II estive à conversa com um homem que tinha 37 filhos de 21 mulheres e teria cerca de 57 filhos se algumas delas não tivessem interrompido a gravidez “voluntariamente”. Era de nacionalidade cabo-verdiana e tinha vindo para a roça contratado. O seu sorriso franco cativou-me desde logo, passámos um bom tempo na conversa.
…
São 20:32, estamos a preparar o jantar. Entretanto estivemos a dar comida aos dois cães cá de casa. Desde a partida da nossa anfitriã construímos uma relação mais próxima com os dois. De manhã o entretém é de jogarmos às escondidas.
Hoje na Roça Monte Café fotografámos mais uma vez Tafua, agora dançada de forma mais autêntica. Como era dia de festa a dança saia por si, não havia encenações para o “filme”. Sei que a dança irá prolongar-se por umas horas. Revezam-se os músicos e os corpos continuarão bailando pela noite dentro. Descemos às sanzalas para o derradeiro copo de despedida, ou para um até breve. A relação estabelecida ao longo destes dias foi verdadeira, levou a um adeus sentido. Espero, sinto um desejo interior, que volte um dia destes, para visitar os “velhos amigos” e para ver o museu aberto. Parto com o desejo que as dificuldades sentidas e vividas pelos habitantes desta roça sejam solucionadas.
A oferta da bola encheu de um sorriso resplandecente os jovens da roça. Enquanto estivemos a fotografar nas sanzalas houve jogo. Choveram pedidos de amanhã levar-mos mais uma. A este pedido não iremos responder afirmativamente. Amanhã já não iremos.
O resto do dia foi a descansar. Tratámos, ou melhor dizendo, tentámos acertar alguma logística para príncipe, estava tudo de vésperas de natal, não conseguimos tratar de nada. Amanhã tentamos novamente.
Estou agora a ler “O poder dos sonhos” do escritor chileno Luís Sepúlveda.
Luís Sepúlveda é um dos meus escritores preferidos.
São Tomé, dia 24, 2006-12-25
Fomos à Roça Ponta Figo e à Roça Água Izé. A nossa atitude agora nas roças é radicalmente diferente, conseguimos imediatamente estabelecer uma relação com a população local. Uma relação cordial e franca.
No entanto sinto que precisávamos de mais uns meses para levarmos a cabo este projecto. Não só pela constante mudança das condições de luz que temos apanhado, mas acima de tudo pela relação que é necessário construir com os habitantes das roças. E também por nós. Agora começamos a perceber o país, a perceber as pessoas. E acima de tudo a perceber o estado de espírito da maioria das pessoas que habitam nas roças.
Já temos estadia e viatura em Príncipe. Iremos lá ficar 2 noites. Não há notícias da “Bruma Seca”.
Temos uma nova ocupação: ornamentar cabaças (raspamos uma espécie de casca exterior deixando a descoberto uma superfície mais escura).
São Tomé, dia 26, 2006-12-27
Acabámos de chegar da praia Jalé situada a sul de São Tomé. Pernoitámos uma noite. Apanhámos um temporal digno de referência. Choveu, trovejou e houve relâmpagos (que conseguiam iluminar o céu ao ponto de parecer dia) durante toda a noite, o que acabou por dar um encanto místico à noite e reforçar o ambiente natural do local. O complexo a que me refiro na Praia Jalé é uma zona protegida e transformada em eco-turismo, onde um dos expoentes máximos é a observação de tartarugas, a desova e (nós tivemos a sorte de presenciar este pequeno espectáculo oferecido pela natureza) o primeiro caminhar das tartarugas filhotes para a água. Ficámos alojados em pequenos bungalows feitos de coqueiros. O fornecimento de energia eléctrica é nulo, pois pode interferir com o ciclo da desova e migração das tartarugas. Usamos velas e lanternas em que a energia destas é alternativa (não se recorre ao uso de pilhas, esta lanterna usa a energia fornecida pelo movimento de agitar a própria lanterna). Penso que este seja um exemplo de turismo apoiado a desenvolver mais na ilha.
Interrompo a descrição para referir que a nossa ida para a ilha do príncipe foi adiada por tempo indeterminado. A situação que levou a esta nossa resolução foi: Estamos a poucos dias de regressar a Portugal, não podemos ficar cá nem mais uma semana, compromissos assumidos assim o obrigam. Ora, quando tomámos a decisão final de ir, a agência já se encontrava fechada devido ao período de natal. Ainda existiam as nossas reservas, mas não tivemos a hipótese de adquirir os bilhetes, assim quando íamos embarcar no avião (conseguimos os bilhetes de ida) fomos informados que não nos podiam garantir o nosso regresso amanhã dia 28, (não tínhamos os bilhetes de regresso devido a não existirem lugares disponíveis), a nossa ideia era tentar no dia do voo garantir o regresso pois poderia existir alguma desistência, mas era arriscado e não temos dias de sobra para correr esse risco. Assim não fomos e fomos então fotografar as roças para sul, Porto Alegre, Santa Cecília e Colónia Açoriana, a esta última voltaremos amanhã.
A noite na praia Jalé foi passada por mim um pouco em sobressalto, estava um pouco receoso de não conseguir fazer o caminho de regresso à capital, pois com a chuvada que se fazia sentir o rio (temos de o atravessar pelo seu leito devido à ponte estar destruída) podia encher e não permitir mais a passagem. Afinal, inexplicavelmente o caudal do rio era menor do que aquele que apanhámos à ida para baixo.
Logo pela manhã meti-me numa aventura que podia ter corrido mal. Na Roça Porto Alegre fomos visitar a casa do patrão. A antiga casa do patrão situa-se no alto de uma colina, proporcionando uma vista espectacular de toda a paisagem envolvente e da própria roça. A vista é verdadeiramente fabulosa. Claro que fomos lá fotografar. Eu, a Tânia, e mais um casal italiano com quem tínhamos feito amizade na praia Jalé (Chegámos à conclusão que enquanto fotógrafos, eu e a Tânia, somos seres estranhos: nunca fotografamos as pessoas com as quais mantemos algum contacto nem os locais aos quais eu muitas vezes me refiro. A chamada fotografia de férias ou de referência).
Como tinha chovido torrencialmente durante a noite, o piso estava completamente enlameado e escorregadio. Mas, apesar de ter reparado nos olhos de uma senhora que passava quando iniciei a subida um ar de espanto, pus-me a caminho. Liguei a tracção às 4 no todo o terreno e lá fui. A subida não correu mal, os percalços nem deram para assustar, o regresso é que foi complicado, ou melhor a ideia do regresso. Estupidamente fui verificar a altura da colina, e reparei que a altura além de bastante considerável, era uma falésia completamente na vertical. Era uma queda a pique. O meu receio era numa das curvas em que o carro deslizava bastante e fiquei com receio de não o conseguir controlar. Não aconteceu nada. A curva em questão não ofereceu qualquer perigo.
Almoçámos por duas vezes na Roça São João de Angolares (uma à descida para Sul, outra na subida). As refeições estavam deliciosas. Aperitivo de entrada (licor de aguardente de cana de açúcar, mel e maracujá - chiripiti), primeiro prato de peixe (choco com banana frita), segundo prato (camarão do rio), terceiro prato e segundo de peixe (peixe bonito e mandioca), sobremesa (doce de coco) e cafés. O almoço no dia de regresso foi-nos gentilmente oferecido pelo casal italiano. Combinámos nesta sexta-feira ir comer à Dona Tété (restaurante caseiro montado no quintal de uma casa particular onde se pode comer um excelente choco ou o peixe Concon)
Na nossa chegada à casa amarela fomos recebidos pelos nossos novos dois amigos. Os cães pulavam de contentamento. E fez com que eu sentisse que regressava a “casa”. Adorava levar para Portugal a Scooby.
São Tomé, dia 27, 2006-12-28
Fotografámos a Roça Colónia Açoriana, tivemos o privilégio de ter uma pequena nesga de luz para fotografar. Acabámos o levantamento fotográfico das roças.
De manhã fomos entrevistados na Rádio Nacional e trouxemos músicas locais para sonorizar o documentário.
Almoçámos em jeito de despedida uma santola em Neves, no tal restaurante de primeiro andar ao virar na fonte.
Sinto que uma grande parte de mim fica nesta ilha, existe um sentimento estranho agora que parto.
Amanhã vamos dedicar o dia às compras e aos últimos contactos logísticos para finalizar os projectos em que estivemos envolvidos. Partimos no Sábado às cinco da manhã. A viagem será de nove horas com escala em Cabo Verde.
Dou por terminado este diário, serão estas as memórias que deixo desta viagem à ilha de São Tomé, visto que não chegámos a ir a Príncipe.
São Tomé, dia 28, 2006-12-29
Notas adicionais ao diário:
- Estar em São Tomé não significou para mim uma estadia numa ilha tropical, na qual descansei à sombra dos coqueiros, saboreando sumos de frutos tropicais. São Tomé pode ser tudo menos isto.
- São Tomé é um País em que a população nos recebe de braços abertos ao fim de algum tempo de travar conhecimento.
- Onde a pobreza é muita.
- Onde as estradas estão na sua maioria em mau estado obrigando-nos a alugar um jipe para nos deslocarmos, numa agência ou a um particular que aluga o seu próprio carro para ganhar mais umas dobras.
- Existe sempre algum pescador no mar.
- Os dias começam e acabam cedo.
- Um dos locais da minha eleição para comer um bom peixe (barriga de peixe, peixe vermelho e peixe concon) é no contentor, um contentor TIR transformado em restaurante que fica situado na avenida junto ao mar mesmo em frente à casa de Cláudio Corallo, onde se pode degustar o verdadeiro chocolate e adquirir café da melhor qualidade. Também na Dona Tété, da qual já falei.
- Um das minhas desilusões foi o mercado, não oferece a panóplia de cores e de variedades de produtos que eu tinha em mente de um mercado Africano.
- Para nos enfiarmos pela selva virgem será sempre melhor contratar um guia local, podemos ver cascatas, vegetação luxuriante, macacos, papagaios e as terríveis cobras pretas cuja mordedura é venenosa (nunca vi nenhuma).
- Penso que o turismo de massas não irá beneficiar a ilha. Acabará dentro de uns anos com os recursos naturais para vir a oferecer um réplica do que São Tomé terá sido anteriormente. Fiquei a saber de um empreendimento turístico planeado para a Lagoa Azul (uma pequena enseada em que a água apresenta umas tonalidades azuis e verdes) que em tudo me faz lembrar um Algarve Português.
- A fruta e o peixe são dos alimentos mais baratos da ilha.
- No ilhéu das rolas, actualmente privado e explorado por um grupo económico-turístico passa a linha do equador, sendo a tradição pôr um pé em cada hemisfério (não fui por achar demasiado caro e desinteressante passar um dia num local meramente para turista).
- A Roça São João de Angolares do cozinheiro João Carlos Silva e o complexo eco-turístico da praia Jalé são um bom exemplo de como as roças e os recursos naturais podem ser aproveitados turisticamente.
- O costume de dar doces às crianças tornou quase insuportável a relação com estas quando paramos pela primeira vez nalgum lugar. Acaba por ser incomodativo tanto pedido: Brancaaaaa, doce, doce....
- Tchaué! É a despedida.
- Os brinquedos característicos para as crianças são: carrinhos feitos com latas velhas e arame, trotinetes feitas em madeira, uma cana que se engata numa rodas (feitas a partir da fruta-pão) e se empurra, entre outros. Estão a ser substituídos por pistolas e telemóveis de brincar que emitem ruídos insuportáveis.
- Uns dos fascínios das crianças são os balões.
- O brinquedo que mais me impressionou foi um que encontrei na Roça São João de Angolares (só o vi nas fotografias digitais tiradas pela Tânia) que consiste num moinho de vento feito a partir de uma garrafa de água de litro e meio de plástico aberta em quatro. Enfia-se no dedo e corre-se fazendo esta girar com o vento.
- As canoas de pesca são feitas (esculpidas) a partir de um tronco de árvore (a árvore usada é a rabo de porco). São verdadeiras obras de arte. Pude assistir ao esculpir de uma na Roça Porto Alegre.
- A cerveja nacional é a Rosema e a Criola.
- Nunca percebi porque é o cambio é mais compensador na rua do que no banco, o cambio na rua é feito à vista de todos e bastante seguro.
- As praias não são aquele destino paradisíaco que as agências turísticas tentam vender.
- A produção de cacau e de café já viu melhores dias, exceptua-se o Cláudio Corallo.
- Nunca fiz um turismo típico de branco ou um turismo mais rico, logo não posso avaliar os cursos de mergulho, as sessões de pesca em alto mar, etc.
- Penso que nalguns casos os valores praticados são excessivos. Como é o caso de Bombaim. O valor pedido para dormir na roça é para mim demasiado elevado, especialmente porque não nos sentimos confortáveis com a receptividade. Não dormi lá. É o mesmo valor praticado na Roça São João de Angolares, só que aqui com muitas mais condições. Também não dormi.
- As pessoas do campo andam descalças como se tivessem calçadas umas botas de aço.
- As crianças atiram-se para cima da máquina fotográfica para verem a imagem no visor digital.
- A população de São Tomé divide-se em três grupos sociais: nos Gabões (os que foram contratados para virem trabalhar na ilha), nos Forros (os que se dizem nativos da ilha) e nos Tongas (a mistura entre os Gabões e os Forros).
- A sensação quando se avista pela primeira vez a capital é de desconsolo. Habituamo-nos e começamos a gostar mais tarde.
- Deslocarmo-nos de carro no centro da capital é complicado nos primeiros tempos.
- Os produtos alimentares importados são caríssimos.
- No café companhia (situado na praça central onde se situam as bombas de gasolina) a omelete da terra é óptima (ovo com folha micócó).
- Pouco mais acima situa-se o café pensão onde se come peixe frito. E gelados de máquina.
- Fruta-pão assada é o meu acompanhamento preferido para o peixe grelhado.
- Tenho pena de não ter experimentado mais iguarias da terra.
- Gravana é o termo usado quando nos referimos a período do verão (de Março a Agosto).
A expressão que por aqui se ouve com bastante frequência é a de “leve, leve” quando perguntamos a alguém – como vai a vida? “Leve, leve” será decerto a expressão que melhor traduz o estado de espírito do povo Santomense.
Tchaué!
Luís Rocha