Breve Histórico
A analítica é o mais antigo ramo da química podendo ser considerada a mãe desta ciência. (Curtius, 1982, p.134) Sem o conhecimento da composição das substâncias não é possível pensar em sintetizá-las. Assim, a química moderna tem se desenvolvido com ajuda da química analítica. Mesmo leis básicas como a das proporções múltiplas, só puderam ser estabelecidas quando os químicos já tinham um conhecimento razoável da análise de minerais e compostos inorgânicos.
Não é só a química que a analítica tem dado apoio. Os diagnósticos médicos, por exemplo, são cada vez mais fundamentados nas análises clínicas. A agricultura moderna, a engenharia ambiental também são exemplos de áreas de atuação da analítica. As indústrias, no geral, precisam ter os seus processos e produtos controlados e monitorados por um laboratório de análise. (Curtius, 1982)
A tecnologia química apareceu antes da química. No início da história escrita do homem já se conhecia o tingimento de fibras, o curtimento de couro e a cerâmica. A química como ciência só apareceu nos primeiros séculos da era cristã com a alquimia e o projeto de se obter ouro através de substâncias fundamentais. A história da química analítica tem mais de 4 mil anos. A balança é tão antiga que sua invenção era atribuída aos deuses. Por uma necessidade comercial a pureza do ouro e da prata, já na antiguidade, era controlada, pesando-se o metal antes e depois de um tratamento térmico, este é considerado historicamente o primeiro registro da utilização da química analítica. (Svabadváry, 1966)
Sempre o desenvolvimento das análises foi acompanhado pela introdução de novos instrumentos de medição, e novas vidrarias ao longo da história. Servindo para o aprimoramento, confiabilidade e precisão de análises clássicas e o surgimento de métodos modernos de análise instrumental.
No século XX, o progresso da química analítica foi muito maior do que em toda a sua história anterior, com grande desenvolvimento tecnológico dos seus métodos instrumentais, grande publicação de artigos científicos e de livros acadêmicos. (Curtius, 1982)
Hoje o analista utiliza instrumentos complexos e sensíveis, necessitando a assistência quase que permanente de técnicos em eletrônica, para garantir o funcionamento dos equipamentos. Há analistas que utilizam os instrumentos e os que junto a engenheiros e físicos cuidam do projeto, construção ou aprimoramento desses equipamentos que são dos mais variáveis. A formação do químico analítico torna-se cada vez mais multidisciplinar. (Curtius, 1982, p.134).
Análise Química
A química
analítica é uma ciência de medição que consiste em um conjunto de idéias e
métodos poderosos que são úteis em todos os campos da ciência. (Skoog, 2006,
p.3)
A química analítica é muito
abrangente e inclui muitas técnicas e procedimentos manuais, químicos e
instrumentais. Inconscientemente, utilizamos diariamente alguma forma de
análise química, como, por exemplo, quando cheiramos a comida para saber se
está estragada ou quando provamos substâncias para saber se são doces ou
ácidas. Esses processos analíticos são muito simples em comparação com algum
dos processos mais complexos que só podem ser executados com o uso de
instrumentos modernos. Observe, porém, que nem sempre é necessário utilizar
procedimentos instrumentais avançados para executar análises acuradas e que,
muitas vezes, análises simples e rápidas são mais desejáveis do que processos mais
demorados. Os objetivos da análise devem ser cuidadosamente considerados antes
da seleção dos procedimentos apropriados.
Quando um analista recebe uma
amostra completamente desconhecida, a primeira coisa que deve fazer é
estabelecer que substâncias estejam presentes. Esse problema fundamental é, às
vezes, considerado na forma inversa, buscando indagar que impurezas estão
presentes na amostra. Essas questões pertencem ao domínio da química analítica
qualitativa. A análise qualitativa estabelece a identidade química das espécies
presentes em uma determinada amostra.
Uma vez conhecida, caracterizada as
substâncias presentes na amostra, o analista deve, frequentemente se preocupar
em determinar quanto de cada componente se encontra presente na amostra. Essas
determinações de parcela de quantidade pertencem ao domínio da química
analítica quantitativa, e uma grande quantidade de técnicas se encontra
desenvolvidas e em desenvolvimento para se quantificar uma determinada amostra.
A análise quantitativa determina as quantidades relativas das espécies, ou
analitos, em termos numéricos.
Calculamos os resultados de uma
análise quantitativa típica, a partir de duas medidas. Uma delas é a massa ou o
volume de uma amostra que está sendo analisada. A outra é a medida de alguma
grandeza que é proporcional à quantidade do analito presente na amostra, como
massa, volume, intensidade de luz ou carga elétrica. Geralmente essa segunda
medida completa a análise, e classificamos os métodos analíticos de acordo com
a natureza dessa medida final. Os métodos gravimétricos determinam à massa do
analito ou de algum composto quimicamente a ele relacionado. Em um método
volumétrico, mede-se o volume da solução contendo reagente em quantidade suficiente
para reagir com todo analito presente. Os métodos eletroanalíticos envolvem a
medida de alguma propriedade elétrica, como potencial, corrente, resistência e
quantidade de carga elétrica. Os métodos espectroscópicos baseiam-se na medida
da interação entre a radiação eletromagnética e os átomos ou as moléculas do
analito, ou ainda a produção de radiação pelo analito. Finalmente, um grupo de
métodos variados inclui a medida de grandezas, como razão massa carga de
moléculas por espectrometria de massas, velocidade de decaimento radiativo,
calor de reação, condutividade térmica de amostras, atividade óptica e índice
de refração.
Uma análise quantitativa típica
envolve uma seqüência de etapas apresentadas na Tabela 1. Cada uma delas deve
ser considerada e conduzida cuidadosamente, de modo a diminuir ao máximo os
erros e manter a acurácia e reprodutibilidade.
Tabela 1. Etapas de uma análise química
| Etapas | Exemplos de procedimento
|
| 1. Amostragem | Depende do tamanho e da natureza física da
amostra |
| 2. Preparação de uma amostra analítica | Redução do tamanho das partículas, mistura para
homogeneização, secagem, determinação do peso ou do volume da amostra |
| 3. Dissolução da amostra | Aquecimento, ignição, fusão, uso de solvente(s),
diluição |
| 4. Remoção de interferências | Filtração, extração com solventes, troca de
íons, separação cromatográfica |
| 5. Medidas na amostra e controle de fatores
instrumentais | Padronização, calibração, otimização, medida da
resposta; absorbância, sinal de emissão, potencial, corrente |
| 6. Resultado(s) | Cálculo do(s) resultado(s) analítico(s) e
avaliação estatística dos dados |
| 7. Apresentação de resultados | Impressão de resultados, impressão de gráficos,
arquivamento de dados |
Métodos Titulométricos
Os métodos titulométricos incluem um amplo e poderoso grupo de procedimentos quantitativos baseados na medida da quantidade de um reagente de concentração conhecida que é consumida pelo analito. A titulometria volumétrica envolve a medida de volume de uma solução de concentração conhecida necessária para reagir essencialmente e completamente com o analito. A titulometria gravimétrica difere unicamente em relação ao fato de que a massa do reagente é medida em vez do seu volume. Na titulometria coulométrica, o “reagente” é um corrente elétrica direta constante de grandeza conhecida que consome o analito, nesse caso, o tempo requerido (e assim a carga total) para completar a reação eletroquímica é medido. (Skoog, 2006, p.321)
As titulações são amplamente utilizadas em química analítica para determinar ácidos, bases, oxidantes, redutores, íons metálicos, proteínas e muitas outras espécies. As titulações são baseadas em uma reação entre o analito e um reagente padrão conhecido como titulante. A reação é de estequiometria conhecida e reprodutível. O volume, ou massa, do titulante, necessário para essencial e completamente como o analito, é determinado e usado para obter a quantidade do analito. (Skoog, 2006, p.321)
As vantagens das análises titrimétrica (titulometria) são diversas, motivo pelo qual estas ainda desempenham grande papel na química analítica moderna. Em muitas áreas, os procedimentos titrimétricos são insubstituíveis. (Vogel, 2002, p. 172)
Dentre tais vantagens estão a precisão (0,1 %) melhor do que na maioria dos métodos instrumentais; os métodos são, normalmente, superiores as técnicas instrumentais na análise dos principais componentes; quando o número de amostras é pequeno, no caso de uma análise eventual, as titulações simples são comumente preferíveis; ao contrário do que ocorre com os métodos instrumentais, o equipamento não requer recalibração constante; os métodos são relativamente baratos, com baixo custo unitário por determinação; tais métodos podem ser automatizados e, geralmente, empregados para calibrar ou validar análises de rotina feitas com instrumentos.
A titulação é uma técnica analítica clássica, e gradualmente seu uso foi sendo reduzido a um nicho de aplicações bem definido, devido ao desenvolvimento de outras técnicas analíticas mais rápidas e com menores limites de detecção. Entretanto, ela ainda representa uma ferramenta muito útil para auxiliar na compreensão de equilíbrios químicos, principalmente o equilíbrio ácido-base, pois é possível observar o comportamento das substâncias em diferentes concentrações, na presença de outras. (Oliveira, 2007, p.224)
As análises volumétricas são divididas em quatro grupos: volumetria de neutralização ou ácido-base, é um método de análise baseado na reação entre íons H3O+ (hidrônio) e OH – (hidroxila); volumetria de precipitação, baseia-se na formação de um composto pouco solúvel; volumetria de óxido-redução, quando numa reação química ocorre transferência de elétrons; volumetria de complexação, quando existe a formação de complexos estáveis que servem como base para a titulação .
Tabela 2. Termos usados em titulometria volumétrica
| Termo | Definição |
| Solução Padrão | Reagente de concentração conhecida que é usado
para fazer uma análise volumétrica (titulante) |
| Ponto de Equivalência | Ponto teórico alcançado quando a quantidade adicionada
de titulante é quimicamente equivalente a quantidade de analito na amostra |
| Ponto Final | Ponto onde se pode determinar o fim da reação,
ocorre uma alteração física associada à condição geralmente a mudança de
coloração por ação de um indicador, formação de um complexo ou uma precipitação |
| Indicadores | Substância adicionada ao analito para se obter
uma alteração física visível, modificação de coloração |
Referências
BACCAN, Nivaldo; ANDRADE, João Carlos de. Química analítica quantitativa elementar. 3. ed. São Paulo, Edgard Blücher, 2003.
CURTIUS, A. J. Química nova, n. 5, 1982.
OLIVEIRA, A. F. Química nova, n. 30, 2007.
SKOOG, A. Douglas; WEST, M. Donald. Fundamentos de química analítica. 8. ed. São Paulo, Thomson, 2007.
Szabadváry, F. History of Analytical Chemistry. Londres, Pergamon Press Ltd,
1966.
VOGEL. Análise química quantitativa. 6.ed. Rio de Janeiro, LTC, 2002.